terça-feira, abril 03, 2007

Dúvidas

Vivo uma dualidade que me consome. Por um lado tento recuperar alguma da normalidade dos meus dias. A vida assim o exige. Tenho uma casa, uma família, um quotidiano para levar em frente. Mas, por outro lado, não me consigo separar de ti. Da tua existência cada vez mais perene nessa cama de hospital. Da tua força cada vez maior, a contrariar o que todos sabemos que vai acontecer.
Não dá para imaginar como consegues acreditar na vida apesar de tanto sofrimento, de tanta angústia. E eu já não tenho conforto possível. Para todos os lados que me viro só vejo tristeza e pesar. E depois, depois há o que secretamente desejo. Eu já tenho saudades, pai, mas muitas vezes, em surdina, a meio da noite, penso que já não estás aqui e, não sei porquê, ou talvez saiba e não o queira admitir, esse pensamento apazigua-me de alguma forma.
Será que tenho esse direito?

6 comentários:

Isabel disse...

Naquela cama de hospital aquele já não era o pai que eu conhecia, pior ainda não era o pai feliz que tanto amava a vida e que nunca a mais poderia ter de volta a não ser naquele estado comatoso. então pedi-lhe, implorei-lhe para que se deixasse ir. que deixasse de lutar de se agarrar a uma vida que já não o merecia, que ele nunca mais iria viver. os médicos dizem que quando se está em estado de coma se pode ouvir. não sei se foi isso, ou se tinha que ser. pouco depois as máquinas apitaram. e ele libertou-e. o meu primeiro sentimento foi de alívio. só depois comecei a chorar a sua morte.

princesa das estrelas disse...

Obrigada pelas tuas palavras.
É um sentimento muito estranho amar tanto um pai ao ponto de desejarmos que morra. Infelizmente ou não, o meu pai está lúcido, consciente, e eu não tenho coragem de lhe pedir que deixe de se agarrar à vida.

mc disse...

Não consigo imaginar o teu sofrimento, a luta medonha que travas dentro de ti. Só posso desejar com todas as minhas forças que a melhor parte de ti seja a mais forte, e que consigas encontar alguma paz o mais rápido possível, seja qual for o desfecho.
É tão difícil encontrar algum conforto na tua situação e dói demais saber que pouco podemos fazer pelos que nos são tão queridos. Tu pelo teu pai, e nós os que aqui vimos todos os dias, por ti, por acompanharmos a tua dor sempre tão perto.
Sei que estarás sempre no pensamento de todos os teus amigos, mesmo aqueles que não conheces, que apenas visitam este teu cantinho.

nana disse...

percebo-te tão
tão
tão
bem.

prolongar-lhe(s) a vida - será luta ou egoísmo?.......

muita FORÇA.

sweety disse...

então não desanimes!faz da força dele a tua e aproveitem todos os minutos, os segundos.
melhor que ninguém tu sabes quanto o relógio do tempo pode ser enganador num hospital! um minuto pode durar horas...e o inverso ser fatal. por essa razão não lhe peças que desista! ajuda-o da melhor forma. terás de ter em conta, acima de tudo, a tua saúde, no todo, para que tu isso não seja um esforço sobre-humano que não consigas aguentar. delega tarefas, horas, dias de visitas em todas as pessoas que o teu pai ama e o amam. não guardes o fardo só para ti. e torna que o fardo seja feito de algodão. se possível doce. a única coisa que vale a pena é a felicidade. e se tu ainda consegues descobrir isso nos olhos do teu pai sempre que o vês, vale a pena que ele se agarre à vida. ´só tens que respeitar e amar. é o que nos cabe em sorte. e já é tanto.

JPN disse...

enquanto leio o que escreveste ouço caetano, e o seu poema do qual só me lembro das palavras dura caminhada dura...e é como diz o miguel, estamos aqui todo os que te conhecem e os que, como eu, não te conhecem, a acompanhar-te, e, por mais estranho que isso te possa parecer, a irmos um pouco mais ricos com a tua partilha. :)