segunda-feira, fevereiro 09, 2009

4 meses

Há datas tristes, que não gosto de recordar. Há dias que são cinzentos na minha contabilidade da vida. O dia 9 passou a ser um dia triste a partir de 9 de Outubro de 2008, o dia em que morreste, pai. Já lá vão quatro meses, 123 dias sem a tua presença. Achei que gostarias de saber como temos passado aqui sem ti. A vida não é a mesma, não te posso mentir. Há um vazio grande que não se consegue preencher. Mas vamos vivendo e tentando preencher esse imenso buraco (que espero venha a ficar mais pequeno) com memórias dos muitos bons momentos que passámos juntos enquanto família. E também com alguns maus momentos que a vida é mesmo assim e nós não podemos branquear o nosso passado, não achas?
A mãe, como tu bem sabes, é uma lutadora. Irra, aquela mulher é de aço. às vezes pergunto-me como aguenta. Consigo ver o seu cansaço e a sua imensa tristeza. Perdeu-te e tu eras o seu porto de abrigo, o seu amor de quase 40 anos. Mas quando falo da sua força e da sua garra refiro-me ao esforço que ela faz para, assim mesmo, continuar a viver e a ter um propósito para tal. Ora siou eu, ora é o Henrque, ora é o mano... ela vai conseguindo ser o pilar desta família e mantem-nos, na medida do possível unidos. Às vezes falta-me a paciência, não te zangues com a minha sinceridade. Irrito-me com ela, respondo-lhe torto. Mas é que me sinto cansada de tanta tristeza, de tanto ouvir e de tão pouco poder chorar. Fico impaciente quando ela repete 10 vezes a mesma coisa ou quando me ralha porque a caixa da sopa está fora do frigorífico há mais de uma hora e a sopa vai azedar. Mas não fiques muito preocupado, que eu tento conter-me e, no fundo, sabes que a amo. é a única que me resta depois de teres morrido.
Eu também tenho os meus dias. Há dias em que tudo corre bem e tu és apenas uma doce lembrança. Mas há outros, pai, em que me fazes tanta falta que até me doi o peito. Ontem, por exemplo, fui à feira com a mãe. E quando ela entrou no carro tive tanta vontade de gritar. Ela tinha posto o teu perfume e, por um breve segundo, parecia-me que estavas ali, ao meu lado. Fiquei tensa, de olhos mareados, porque aquele erao teu cheiro, só teu, do perfume que eu te ofereci. Não me apetece que mais ninguém tenha o teu cheiro, pai. Mas não tenho coragem de o dizer à mãe, porque acho que o faz para se sentir mais perto de ti.
Mas eu estou bem, não te preocupes. A sério.
O mano foi quem mais se abalou com a tua morte. Ainda está muito incondormado porque acha que se podia ter evitado, que ainda podias estar vivo, se não tivesses feito aquele exame, se o contraste não se tivesse espalhado no teu corpo, se não tivesse ficado com uma sepsis... tu sabes que eu penso de forma diferente, que acho que te foste porque assim o decidiste. Mas ele vive preso nessa tormenta. Muito preso.
Quem em tem preocupado ultimamente é o Henrique. De vez em quando chora e diz que tem saudades do avó António. Eu confesso-te que não sei muito bem como lidar com isto. Ontem, por exemplo, desatou a chorar a dizer que te queria. Expliquei-lhe, da melhor forma que sei, que tinhas morrido, que já só exisitias no nosso coração. Mas ele não se convenceu e disse-me que eu era má e que a avó Emília não lhe dizia o mesmo que eu. Vê lá tu, pai. Telefonei à mãe a perguntar-lhe como é que ela o consolava quando ele perguntava por ti e ela respondeu-me que lhe diz que tu estás no céu a olharpara ele e que ficas muito feliz quando se porta bem. Tu sabes pai, que isso é um bocadinho demais para mim. Bem sabes o que me custa dizer-lhe que és uma estrela no céu... mas percebi que essa explicação o deixa mais feliz.
Já passaram muitas datas importantes sem ti, pai. os anos do mano, os anos do Filipe, o Natal, o Ano Novo... esta semana é o meu aniversário... o primeiro sem ti. Tenho de aprender a lidar com esta montanha russa de emoções. Tu sabes que desde que fiquei doente que gosto particularmente de festejar o meu aniversário. Só que sem ti, pai, sem ti é tão vazio e desprovido de sentido. Porque a contabilidade tem duplo sentido; mais um ano e mais um dia sem ti...
Depois conto-te como foi. e prometo que vou fazer uma lista de coisas boas e felizes que aconteceram neste quatro meses, para que fiques mais feliz.

7 comentários:

maria disse...

Tenho de me estrear em dar um grande beijinho à minha amiga mais corajosa. Sim porque é isso que tu és. Se a tua mãe é de aço - e é - tu deves ter sido feita em platina. Porque é mais chique e mais duradouro. Nos piores momentos consegues confortar quem tem uma birra como seu namorado ou qualquer outro drama.
não é fácil vivemos sem o pai. também para mim o dia 15 ficou marcado para sempre com uma nuvem. Em rigor começa a 13 e acaba a 15. querida amiga um ano e quatro meses depois só te posso dizer que o buraco não diminui mas começa a ser mais leve. Já dá para falares dele com saudades boas. com aquelas saudades que nos aquecem o coração. E o Henrique também vai conseguir. Se calhar ele precisa de perceber à maneira dele. Assim que fizer sentido vai sossegar, vais ver. Ainda ontem jogávamos com um dominó do avô Paulo e eles só queriam saber se o avô era o mais esperto de todos a jogar. Sim, claro que era. Pois claro:« era o nosso avô».
E passa.
O primeiro ano é o pior porque vives tudo pela primeira vez sem ele.
Um beijinho muito querido

Anónimo disse...

O tempo serena a dor. Não a leva, não a diminui, acalma-a apenas.
Comigo foi assim. Ao fim de 11 anos e uns meses de ausência, a dor deixa de estar sempre ali ao alcance da mão. Passa a procurar-nos nas "festas familiares", nas datas em que deviamos estar todos e afinal falta um, nos pedidos dos pequenos para identificarmos a pessoa que está nesta ou naquela foto e que não chegaram a conhecer. E no dia em que a morte os levou. E nesse dia a dor continua a ser pungente e revolta. Em todos os outros, na maioria dos outros, as boas lembranças acalentam-nos. Seguram-nos. Abraçam-nos.
Ele mora no teu coração. Está sempre presente. Essa é a certeza que posso transmitir.
Força.
1 beijinho
Susana

Desculpa o tom triste. Desculpa se em nada te ajudei. Hoje "descobri-te" na blogosfera pela primeira vez e tocaste-me a tal ponto que...

princesa das estrelas disse...

Susana, obrigada pelas tuas palavras. Eu acho que a vida é mesmo assim, um misto de alegrias e tristezas. O teu tom triste confortou-me.
Obrigada

3Picuinhas disse...

Um dia depois do outro, uma estrela brilhante, um cantinho na memória, fotografias amarelas do tempo, um cheiro, uma paisagem, uma peça de roupa que o tempo deixou para trás...são os "benurons" que nos vão ajudando a cumprir um dia após outro.
E depois há aquelas marcas que vemos no rosto dos filhos e que nos lembram de quem viemos.
Um abraço

Cláudia disse...

Princesa,
Há muito que te acompanho, encontrei-te por acaso, há cerca de 2 anos atrás, aquando da morte de 3 amigos comuns...
A minha mãe também morreu com cancro, em Setembro de 2005, depois de 12 anos a lutar contra a doença... A dor é imensa, mas vai-se diluíndo; as lágrimas continuam a cair, mas de saudade; as lembranças, essas nunca desaparecem.
O Martim tinha completado 3 anos há pouco tempo. Há muito que sabiamos que iria acontecer, mas esperamos sempre que fique para mais tarde e, quem sabe, um milagre aconteça, apesar de conscientemente sabermos que o dia vai chegar. Ainda hoje o Martim fala da avó Nela que está na estrelinha, porque ficou muito doente... Há um ano atrás, em conversa com o meu pai ao telefone, diz-lhe o avô que está doente; ele pergunta: "Também vais para a estrelinha, avô?". Os miúdos têm destas coisas e é para nós difícil conseguirmos explicar-lhes de outra forma o que aconteceu; talvez a estrelinha seja a luz do Henrique. Um beijinho. Cláudia

cristinar disse...

Não há palavras. Só mesmo um grande abraço.

Anónimo disse...

Chorei, chorei muito quando acabei de ler.... também perdi o meu papá num dia 19 de Março (dia do pai) vai fazer 2 anos tenho muitas mas muitas saudades não daquilo que vivemos juntos mas sim daquilo que não vivemos como conhecer o neto que ele tanto queria... que tem agora quase 4 meses ....
Mas a minha estrelinha está lá.... SAUDADES SAUDADES