segunda-feira, outubro 06, 2008

relato de um quotidiano triste

São muitas dúvidas e angustias que me ocupam o coração nestes dias. O meu pai continua internado, cada vez mais triste, cada vez mais desiludido e frágil.
Ele está vivo, eu sei. Mas a que custo? Com que qualidade de vida? com que alegrias?
é absolutamente inacreditável a forma como o conceito de normalidade, de qualidade de vida, tem mudado ao longo destes últimos meses... primeiro ia deixar de falar, depois de comer pela sua boca, depois morrer, depois ia ser alimentado por uma sonda o resto da vida, depois a falsa esperança de voltar a comer.... e agora o estado em que ele está, sem poder ser alimentado... sem poder sair do hospital para passar os últimos tempos da sua vida em casa, junto dos seus.
No meio de tanta desgraça e tristeza, este fim-de-semana cruzou-se no nosso caminho um médico extraordinário. Não falo das suas capacidades de cirurgião, que desconheço, mas das suas qualidades enquanto ser humano. Primeiro prontificou-se a aceitar o meu pai como seu paciente, o que já não é pouco. Todos passam por lá, mas nenhum se chega à frente. Doentes complicados, não, obrigada.
Mas não foi só por isso que este médico, Dr. Fernando Leitão, ficou gravado no coração da minha família. Foi, sobretudo, por se ter dignado a falar connosco, por nos ter dito abertamente o que pensava, por ter partilhado connosco o seu ponto de vista em relação a doentes na situação do meu pai. Por se ter chegado à frente para operar o meu pai, mesmo que não tivessemos dinheiro para pagar.
Este médico mostrou-nos que ainda há quem pratique medicina com nobreza e honra. O que é uma raridade nos dias que correm.
E este médico fez-me voltar aos meus eternos conflitos emocionais quando penso na situação do meu pai. Porque ele, assim como eu, crê que anes de mexer, antes de operar, um cirurgião deve estar preocupado com o que vai trazer para o paciente e não com as experiências que vai praticar, ou com o dinheiro que vai arrecadar.
Para o meu pai é bom que alguém assim se cruze com ele, mesmo que o tempo que lhe resta seja pouco.

1 comentário:

Emma disse...

:) mesmo com os maiores problemas aparecem sempre umas luzinhas à nossa volta :) Força!