sexta-feira, março 24, 2006

Quanto pode custar uma fotocópia?

Ele há coisas....que só escritas, porque contadas ninguém acredita.
Sabem quanto pode custar uma fotocópia? Pois eu digo: 15 euros!
Parece mentira mas não é.
Ontem fui numa das minhas sagas pela Administração Pública lusa. O que pretendia eu? Dar início ao meu processo de casamento. Processo esse que tinha sido aberto há um ano mas que, como todos sabem, não se concretizou. Lá fui, numa manhã cinzenta ao encontro da burocracia. Informaram-me que tinha de voltar a pedir toda a documentaçã que tinha pedido há um ano atrás. Essencialmente precisava de uma certidão de nascimento. E aqui começa o processo algo neurótico. Apesar de ter à sua frente uma cópia da dita certidão, a funcionária informou-me simpaticamente que tinha de me deslocar ao andar de baixo para pedir ma nova certidão. "Mas porquê, se ela está à sua frente?" perguntei. "Porque esta pertence a um processo que está arquivado" respndeu-me simpaticamente a senhora "Mas arquivado porquê se eu não casei?" contestei. "Isso diz a senhora, mas eu não tenho como provar que não casou em Odemira no ano passado" retorquiu com um sorriso malandro. "Mas se estou aqui novamente como é que casei?".
Fiquei baralhada, é verdade, mas lá fui ao andar de baixo pedir uma fotocópia da fotocópia. e quanto custou? É verdade, 15 euros! Eu paguei a uma entidade estatal 15 euros por uma fotocópia que voltei a entregar à mesma entidade estatal. Bonito não acham?

sábado, março 18, 2006

Olha a boca de leão

Se pensam que nunca vão fazer figuras ridículas, esperem até terem filhos.
Olhem para mim, por exemplo, aqui a exibir o puto.
Não está o máximo?

Desejos

Quero manhãs de sol, daquelas mornas, que ainda na cama nos deixam antever o dia quente que está lá fora.
Quero roupas leves e de cores quentes.
Quero peles morenas.
Quero o sabor das conchinhas e dos caracóis.
Quero que esta chuva pare.

quarta-feira, março 15, 2006

As minhas miúdas

São muitas, as minhas amigas. Bem, não muitas mas as suficientes. Mas as minhas miúdas são três. Todas muito diferentes entre si, todas muito singulares. Todas fundamentais para a minha sanidade mental. Mas, como todas as amigas, nós também nos zangamos, fazemos birras, amuamos, embirramos...
Houve uma fase que era quse sempre eu a chatear-me com a mais velha. Mais sábias, às vezes mais insuportável, com a mania que sabia tudo, que tinha vivido mais do que qualquer uma das restantes. A verdade é que ela é mesmo a mais velha e, por isso, mais vivida. Mas também é verdade que a antiguidade não é posto e que todas nós temos coisas para ensinar umas às outras.
Depois da doença fiquei, eu acho, mais calma. Deixou de me interessar tanto o confronto. Se ela acha que a parede é amarela, embora eu tenha a certeza que é verde, não há problema. Para ela é amarela e para mim verde. Vejo isso apenas como tonalidades de uma mesma cor.
Somos quatro miúdas muito diferentes, mas muito amigas e solidárias. Por isso, fico triste quando me parece que as coisas correm mal, quando vejo impaciências, quando parecemos menos amigas.
Que raio.
Gajas, por favor, tenham calma. Não se percam com pormenores, não ponham tudo em causa.
Tenho saudades dos nossos jantares de Verão. Das roupas coloridas, das sandálias, das conversas frescas e soltas.
Voltem.

segunda-feira, março 13, 2006

Porque é Primavera

a vida corre melhor,
os cheiros são mais agradáveis,
as pessoas mais simpáticas
e eu ando mais contente com a vida

sábado, março 11, 2006

365 DIAS

Para a maior parte das pessoas o 8 de Março é o Dia da Mulher, para outras é o Dia em que o Benfica cilindrou o Liverpool. Para mim, o 8 de Março é o dia que marca o resto da minha vida. Há, na minha cronologia pessoal, um Antes e um Depois de 8 de Março .
Na passada terça-feira, ao acordar, tentei olhar para a vida de uma forma positiva, com um espírito de comemoração. Um ano de nova vida. Com todas as tristezas, dores e condicionantes que ela me trouxe, mas uma nova vida, que me dá a oportunidade de celebrar o facto de continuar viva e feliz. Apesar de todos os precalços, estou aqui, carago!

sábado, fevereiro 18, 2006

Sweet 30!


Há momentos sublimes, em que nos sentimos especiais por estar a partilhar algo de único, singular. Foi assim que me senti na noite de 11 de Fevereiro, no Grande Auditório da Fundação Gulbenkian, durante o concerto de Cecília Bartoli.
Foi um momento único. Durou duas horas e meia, é certo, mas foi único, inegualável. Uma das experiências mais bonitas que vivi.
Não me lembro de forma melhor de entrar nos 30!

sábado, fevereiro 04, 2006

Pequena conquista

Depois de quase um mês a dormir numa cama sem grades, eis que o meu filhote aprendeu, finalmente, a sair da cama sozinho. Foi ontem. Depois de me ter chamado quatro vezes e não ter obtido resposta, deve ter achado que o melhor era agir. Oiço uns passitos apressados pelo corredor. "Oiá mamã". Era ele, meu gajito.
Deverei ficar contente com esta nova conquista? Tenho dúvidas

quinta-feira, fevereiro 02, 2006

Como odiar o Ikea

Eu não fui dormir para a porta da Ikea à espera de ser um dos primeiros clientes a pisar aquele chão sagrado e a receber um vale de 500 euros em compras. Mas confesso que fiz várias incursões aos arredores de Madrid para mobilar a minha casita com móveis com uma excelente relação qualidade/preço, e de design sueco. Sim, eu era uma fã daIkea e foi com júbilo que a recebi.
A organização sueca, o respeito pelo meio ambiente, o espaço pensado para as crianças, os móveis que pensam em todos os cantinhos de arrumação... sim, isso tudo.
Mas confesso que, na minha listinha pessoal, o Ikea passou rapidamente de bestial a besta. É que tanta organização, tanto pormenor, tantas regras, tanta intransigência, chega a meter nojo. Eu, que facilmente me passo com o desenrascanso e o facilitismo dos portugueses, ontem ia tendo um ataque cardíaco provocado pela chamado "síndrome da fila".
Passo a explicar
Fui à Ikea comprar material de escritório para a empresa onde trabalho.
Já tinha metade do trabalho avançado, pensava eu, porque tinha ido lá anteriormente e tinha anotado todos os corredores e secções onde se encontrava o bendito mobiliário.
Incidente 1: Estávamos nós no corredor 32 secção 14 à procura do tampo de secretária quando nos deparamos com um espaço em branco... Passa um funcionário. "Sabe se o tampo está esgotado? Não sei, vai ter que se dirigir ao balcão das informações e perguntar" Assim fiz. Cheguei lá e... fila. É que estava apenas um funcionário no dito balcão. Dez minutos depois sou informada que o tal tampo só chegaria dentro de três semanas. Comprámos o tampo de outra cor.
Incidente 2: Escolhemos quatro belas cadeiras giratórias mas, espanto nosso, não estão em nenhu dos fantásticos corredores. Era preciso voltar ao piso de cima, ir ter com o funcionário da área dos escritórios e fazer a reserva das 4 cadeiras. Assim fiz e, quando lá cheguei.... nova fila. Apenas uma empregada para registar todos os pedidos e responder a todas as dúvidas.
Incidente 3: Das seis cadeiras para a sala de reuniões só encontrámos 4. Passa novo empregado no corredor 30. "Por acaso não sabe se há mais cadeiras destas... Pois, vai ter que se dirigir ao balcão das informações". Aquele onde tinha demorado 15 minutos para uma yes or no answer? Desistimos e comprámos apenas 4 cadeiras
Incidente 4: Depois de mais de duas horas a carregar e procurar tralhas chegámos à caixa. "Muito boa tarde. Vamos precisar de factura. Ah, facturas são emitidas na caixa central". Como? Lá fui e, quando lá cheguei, esperava-me uma outra fila. Pequena, é verdade, o que me deixou com alguma esperança. Mas, só para me contrariar, houve uma avaria na impressora que cospia as facturas... ok, mais dez minutos de espera. Respiro fundo e pergunto pelo livro de reclamações. "Sim, temos, está no Apoio ao Cliente". Cheguei lá e, para além da fila, esperava-me um novo sistema: tirar uma senha. Desisti, faço o meu comentário aqui, neste blog, sentadinha e em minha casa.
Incidente 5: Transporte e montagem. É verdade, precisávamos destes serviços. Sim, fomos para a fila e tirámos a senha mas, lá chegados, fomos informados que teríamos que tirar a senha da "entrega de mercadoria" para podermos levantar as tais 4 cadeiras que não estavam disponíveis dentro da loja. "Mas porquê ir para aquela fila se as cadeiras são para vocês entregarem? Tem que ser assim. Política da empresa"
Chegada a nossa vez no transporte e montagem somos informados de algo surreal, o pagamento do transporte aumenta de acordo com o montante das compras. tudo bem, parece-me justo. Mas o montante da montagem também. "Desculpe? mas de todas as compras que vão transportar só têm que montar 4 secretárias e 4 cadeiras" Pois mas o montante total das compras é superior a 1200 euros, logo a montagem é de 120". Ok, então queremos só transporte. "Muito bem, é ali na fila ao lado" - Socorro!
Incidente 6: Chegados à fila ao lado e apesar de entregarmos a factura da compra, damos de caras com uma empregada que devia estar a concorrer ao Guiness de empregada mais lenta do universo e que volta aregistar um a um todos os itens comprados. No decorrer de tal operação verifica que há um suporte para panelas a menos. Dirigo-me à caixa e informo a menina que registou indevidamente 1 suporte. Resposta "Tem que ir ao andar de cima buscar um outro e passar aqui na caixa". "Mas não dá para pedir a alguém que vá lá buscar, uma vez que foi um erro seu?" Não, é a política da empresa". Mais 15 minutos e uma grande correria.
De volta à fila do transporte somos informado que, além do 89 euros do transporte temos que pagar mais 3,75 por uma caixa para guardar as peças soltas e mais 9 para as embalar e assim proteger de eventuais danos no transporte. "Ok, embale lá essa porcaria que eu já estou quase a ganhar raízes..."
Olhei para o relógi0. Quase 21h00. Tinhamos chegado às 18h00.
Fiquei a pensar que talvez a nossa desorganização não seja assim tão má e que a mania da organização levada ao extremo pode ser bem pior.
Moral da história: Tão cedo não me apnaham na IKEA, podem ter a certeza!

Quatro meses de descanso

Hoje foi dia de exames. entre análises, rx e ecografia, é difícil não ficar nervosa, não sentir a minha vida suspensa, à espera que alguém me olhe nos olhos e diga a frase mágica "está tudo bem".
Hoje fiquei descansada. Depois de alguns dias de ansiedade e angústia o tão esperado "está tudo bem" acabou mesmo por surgir.
Tudo tranquilo. Até daqui a 4 meses.

quarta-feira, janeiro 25, 2006

Obrigada Aníbal

As nossas vidas estão constantemente a ser marcadas por pequenos (ou grandes) incidentes da História. Eu, por exemplo, fui presenteada com um filho no dia 12 de Junho de 2004. Bonita data, claro está.Um belo dia para se ser mãe. Não fosse a mãe fanática de futebol e não fosse o dia o primeiro do Europeu de Futebol realizado em Portugal. Não bastasse isto para castigo divino, teve a pobre mãe como presente uma bela derrota da selecção das quinas frente aos palhaços da Grécia.
Pois bem, achava eu que a minha história recente já estava bem preenchida destes incidentes quando fui informada que, a haver segunda volta nas eleições presidenciais, ela seria no dia 12 de Fevereiro. Um dia como outro qualquer, dirão vocês. Mas, para mim, seria mais um daqueles incidentes, desta vez um dos grandes.
Que eu tenha que levar com o Aníbal e com a Maria nos próximos 10 anos.... ainda se admite. Mas o dia 12 de Fevereiro de 2006 é também o dia em que faço 30 anos e, convenhamos, já chega de coincidências. Quão mais manchada poderia ficar a minha história pessoal?
Por isso agradeço ao Aníbal por ter ganho à primeira.
E agradeço também a todos os palermas de memória curta que nele votaram e assim evitaram a minha vergonha suprema.

Carta de intenções dos 30

Quero ser uma pessoa mais optimista
mais bem disposta
mais contente com a vida
mas atenta à minha família e aos meus amigos
mais ponderada
mais realizada


quinta-feira, janeiro 12, 2006

Os saldos

Como qualquer gaja que se preze gosto de comprar o meu trapito, especialmente se tiver a ilusão de que fiz uma bela compra nos saldos.
Mas, ilusões à parte, os saldos podem ser um verdadeiro aborrecimento. Ou serei eu que estou a ficar velha? Confesso que começo a perder a paciência para senhoras que de finas só têm a aparência e quase se degladiam até à morte por uma peça de roupa (tal qual Samantha num dos episódios do Sexo e a Cidade) e por empregadas que, uma vez aberta a época em que os pobres vão às compras, (deve ser assim que pensam) acham que trabalham em Rodeo Drive e olham de cima para nós quando perguntamos se têm o tamanho mais pequeno da blusa preta.
Se isto nos livros não der resultado acho que me candidato a trabalhar na Mango...

segunda-feira, janeiro 09, 2006

Para a CG

Este texto é a resposta a um desafio.
Fui ver um espectáculo e desafiaram-me a escrever um texto sobre o que vi. Há muito que não o faço, amiga. Perdoa-me se te decepcionar. De qualquer forma, quero aqui deixar claro que vou escrever o que senti. Sem "responsabilidades" jornalísticas. Essas ficaram para trás. Não vou justificar excessivamente o que senti ou achei. Ficarei pelo plano pessoal e nesse tudo é permitido. Quem sabe este não será um exercício de libertação.
Seis corpos num espaço aparentemente normal. Um interior de uma casa. Qualquer coisa entre uma sala e uma cozinha. Um espaço do quotidiano facilmente identificável como tal. Seis corpos perdidos nele. Seis corpos que interagem com o espaço ao qual estão confinados de forma por vezes absurda, anormal. O que procuram? Num aparente caos (que o coreógrafo chama de desordem), estes seis interpretes vão desmontando o espaço onde habitam, vão desconstruindo a realidade com um conjunto de acções que, por vezes, roçam o paranóico.
Gostei das intenções que Giles Jobin enunciou no texto que acompanhava o programa deste "Steak House", mas não gostei assim tanto do resultado.
Se a arte é uma apropriação da vida, como gosto de pensar que é, houve momentos em que me revi, de alguma forma, naqueles gestos, naquela quase histeria de movimento, de desconstrução do meio ambiente. Gostei, sobretudo, do modo como todo o cenário é destruído e reconstruído e, posteriormente, objecto de apropriação.
Gostei também da forma como cada um dos intérpretes se esbatia no espaço, se tentava confundir com este.
Mas faltou-lhe qualquer coisa. Ou será muita coisa?
Não me emocionei. Não presenciei um momento sequer que me sentisse surpreendida e isso, para mim, é fundamental.
Algo que me acontece cada vez mais: ver coisas que já vi aqui e ali, por outros criadores e, por vezes, com mais consistência, mais fôlego.
Não sei o que achaste, amiga. Mas também não me pareceste particularmente entusiasmada.
Diz-me

Beijos

quarta-feira, janeiro 04, 2006

A inevitabilidade da morte

Hoje fui a um funeral.
Não se pode dizer que a pessoa em causa fosse um amigo. Foi apenas o meu primeiro director, o meu primeiro chefe enquanto jornalista. Já lá vão alguns anos. E foi-o durante pouco tempo, pouco mais de seis meses. No entanto, a sua morte marcou-me profundamente. Talvez porque sempre foi uma pessoa que me tratou com bastante dignidade. Perto dele nunca me senti menor pelo facto de ser uma estagiária. Talvez porque ele tenha morrido com cancro, essa doença que tem convivido comigo tão de perto. Hoje, enquanto estava naquela capela a assistir à missa, senti-me a tremer, como se o chão me estivesse a fugir debaixo dos pés. E dei comigo a pensar que daqui a pouco tempo poderia ser eu a estar no lugar dele. Bem sei que este tipo de pensamentos não ajudam nada, mas foi inevitável. Por mais que eu tente afastá-la de mim, a morte ronda-me, de forma mais ou menos intensa.

terça-feira, janeiro 03, 2006

Ano Novo

Com o fim de 2005 apetece-me fazer um pequeno balanço . Parafraseando essa grande figura da política portuguesa que é o Dr. Soares, "foi feio, não foi bonito". Mas deu para ver que estou mais acompanhada do que pensava. Para além do marido, do filho, dos pais, irmão e cunhada, descobri que os meus amigos são mesmo os melhores do mundo. A vocês, que estiveram tão perto de mim, OBRIGADA. De coração. Um abracinho especial para a menina que de azedo só tem o nome. És a maior

terça-feira, dezembro 20, 2005

Atrás do Natal

O Natal está à porta. Já anda tudo nas lojas numa correria histérica atrás das últimas prendas, daquele livro, do brinquedo que esgotou, das gambas, do queijo, do bacalhau. Enfim... o mundo anda louco atrás daquela coisinha que ainda falta.
Eu adoro o Natal e quem me conhece sabe disso. Mas gosto de o saborear lentamente. De começar as minhas compras com antecedência, de pensar no que vou comprar e para quem. Gosto do ritual de comprar a árvore de Natal, de enfeitar a casa, de receber os amigos, de cozinhar para eles, de estar com a minha família.
Este ano o meu Natal está a ser muito diferente dos anteriores. Também eu ando a correr como aqueles que vejo nos centros comerciais. Não ando atrás das prendas mas atrás da minha vida. Corro para estar onde devo, para ver o meu pai, para ir com o filhote ao médico... Natal atípico. Com muito poucos jantares e aqueles que faço acabo sempre por estar tão cansada que nem parece que estou a ter prazer em receber as pessoas.
O que me vale é a convicção de que este ano está quase a acabar e que o próximo só pode ser melhor.

sexta-feira, dezembro 16, 2005

Para o meu pai


Ontem fui ao cinema ver este filme. Elizabethtown.
Gosto de filmes assim: com histórias simples, mas bem feitos, bem interpretados, bem filmados. Sem grandes pretensões. Filmes que não querem mudar o mundo, que, certamente, não vão mudar a História do cinema mas, mesmo assim, filmes que me fazem rir e chorar, que me fazem pensar na vida e em como ela é perene.
Às vezes acho que fiquei mais lamechas para certo tipo de histórias e mais cabra insensível para outras, aquelas em que toda a gente chora. Gostei da capacidade de relativizar os dramas, de tentar encontrar qualquer coisa de bom em tudo o que acontece. Celebrar a vida, mesmo quando ela se mistura com a morte.
Ver este filme fez-me pensar que gostava de ter uma relação de "best friends" com o meu pai. De não ter esperar que ele morra para perceber isso. Por isso chorei. Porque o adoro, mas também porque sei que esse fosso geracional existe entre nós é impossível ultrapassar. Às tantas alguém no filme diz que não podemos ser o melhor amigo dos nossos filhos. Fiquei duplamente triste: percebi que isso é verdade na relação com o meu pai e fiquei com medo que isso venha a acontecer na relação com o meu filho. Agora que o meu pai está doente gostava que ele visse em mim mais do que uma filha. Uma companheira que percebe perfeitamente o que ele está a passar, uma confidente. Mas acho que isso é difícil. Embora perceba que ele se esforça para estar perto de mim, há barreiras que estão construídas há muito tempo. Na cabeça dele o pai não é o amigo, não é, sobretudo, aquele que precisa de conforto. É o que dá. Também fiquei a pensar que, mais que tente contrariar essa tendência, de certeza que vai haver uma altura na vida em que o meu filho vai sentir o mesmo. Que eu não sou a amiga, sou a que impõe regras, limites... barreiras. E daí? Talvez seja essa a natureza de ser pai.

quarta-feira, dezembro 14, 2005

Na sombra



Quando me tiraram esta foto estava no Brasil, de férias. Foram uns dias fantásticos, com muita cor, sol e boa disposição.
A primeira vez que vi esta foto, ela não fazia muito sentido: as férias tinham sido tão boas, a sombra estava a mais. Mas hoje sinto-me assim, uma sombra de mim mesma. quando acho que nada pode piorar que, de alguma forma, vou sair por cima e dar a volta a esta filha da putice pegada que tem sido 2005, acontece algo mais.

quinta-feira, novembro 17, 2005

A importância do prefixo sobre

Há poucos meses tive o privilégio de conhecer uma pessoa fabulosa. Um escritor e jornalista que veio a Portugal promover um livro. Com ele aprendi muitas coisas. O nosso encontro foi uma verdadeira troca de experiências, de confidências, de medos e esperanças. Tal como eu, também ele tinha tido cancro. Foi, aliás, através do seu livro que primeiro tive contacto com a sua doença e com a forma como tinha lidado com ela. Desde logo a minha admiração foi enorme e, na altura, como ainda hoje, revi-me em muitos dos seus comentários. Mais tarde, quando o conheci, tudo o que pensava a seu respeito confirmou-se e hoje olho para ele não como um escritor famoso, mas como um amigo, um companheiro.
Esta manhã voltei a lembrar-me do Zuenir (assim se chama) porque me veio à cabeça uma ideia que desenvolveu no seu livro e que se encaixa perfeitamente na minha vida.
A paginas tantas, no livro, ele fala que, depois de lhe ter sido diagnosticado o cancro, os médicos passaram a falar-lhe em sobrevida. "A taxa de sobrevida isto, a taxa de sobrevida aquilo". Trata-se de uma designação médica, mas a nós, que estamos doentes, o prefixo "sobre" soa, no mínimo, muito mal. Não só estamos doentes como passamos a ter uma sobrevida. Assim como se o nosso direito a viver tivesse acabado e tudo o que nos restasse devesse ser encarado como uma ajudinha, uma borla da medicina.