basta uma viagem de metro, uma ida ao supermercado ou ao café e ficar a vaguear, cinco minutos, pelos rostos dos que me rodeiam. Vejo tristeza, medo, receio. Ou porque foram despedidas, ou porque têm um amigo que foi despedido, ou porque têm medo de ser despedidas... as pessoas andam tristes e a tristeza está como a gripe, a contagiar toda a gente.
Basta olhar para a secção de economia de qualquer jornal e, quando vemos que a notícia de um despedimento é 5x maior que a notícia de um novo projecto que vai criar milhares de empregos, percebemos que os jornalistas também andam assustados e tristes. Eu falo por mim. Também eu ando triste e angustiada com esta situação: a crise, a casa que não se vende, o tempo, o cabrão do tempo, este negrume que é o céu há quase um mês... tudo deprime e entristece.
Basta um olhar mais atento, um ouvido à escuta e percebo que o mundo que me rodeia, a vida real das pessoas reais que vivem com muito menos que eu, tem motivos para estar triste. Esta semana, enquanto estava na fila para pagar as minhas compras da semana no Pingo Doce, prestei atenção à conversa de dois rapazes brasileiros que estavam atrás de mim. O jantar deles (dois rapazes bem parecidos) ia ser um bróculo, um pacote de natas e uma lata de salsichas. E a conversa girava em torno do pacote de pães de leite que custava 1,08 euros e que eles não tinham dinheiro para comprar. "Já viu que ar gostoso... ia ficar bem no nosso café da manhã". "Da próxima a gente compra".
E, não querendo pensar que as desgraças dos outros atenuam as minhas, o melhor é acordar de bem para a vida, pensar que a Primavera está quase a chegar, que a casa está alugada e que se há-de vender, que eu fiz exames e estou bem por mais seis meses, que o meu filho e o meu marido estão bem, que tenho amigos maravilhosos e uma casa fantástica... Há que pensar positivo, caraças. Menos uns jantares, menos umas viagens, menos umas compras... que se lixe
Basta andar de olhos abertos e ouvidos à escuta para perceber que as minhas pequenas desgraças nada são quando comparadas com esta grande epidemia de tristeza.
sexta-feira, janeiro 30, 2009
Tudo o que disseres pode ser usado contra ti.
Esta é a frase que costumamos ouvir nas séries de televisão no momento em que os maus são presos e nunca pensei usá-la para ilustrar uma situação lá em casa. Mas a verdade é esta: ontem fui à escola do Henrique visitar a feira da reciclagem. Durante semanas levámos pacotes de leite e caixas de ovos que eles transformaram eu puzles, crocodilos ou telefones. E no meio daquele momento fui alertada pela educadora para o facto de o meu filho andar a bater nos outros meninos. Quando se sente ameaçado, quando o empurram, quando o magoam, ele não conversa nem pergunta porquê. Parte logo para a chapada.
À noite, preocupada, tentei falar com ele sobre o assunto. Expliquei-lhe que ele não pode andar por aí à estalada aos meninos, que eles assim não vão querer ser seus amigos. "Filho tu deste uma chapada na cara do David Capela. Como foste capaz?", perguntei tentando dramatizar o seu acto. E ele apenas respondeu "Eu estava a defender-me. Ele puxou-me as bochechas e tu e o pai disseram para eu me defender quando me fizessem mal. Foi o que fiz."
Aqui está o ensinamento do avô António levado ao limite...
À noite, preocupada, tentei falar com ele sobre o assunto. Expliquei-lhe que ele não pode andar por aí à estalada aos meninos, que eles assim não vão querer ser seus amigos. "Filho tu deste uma chapada na cara do David Capela. Como foste capaz?", perguntei tentando dramatizar o seu acto. E ele apenas respondeu "Eu estava a defender-me. Ele puxou-me as bochechas e tu e o pai disseram para eu me defender quando me fizessem mal. Foi o que fiz."
Aqui está o ensinamento do avô António levado ao limite...
quinta-feira, janeiro 29, 2009
Amor é...
Estarmos os três às 8h30 a dançar ao som de "Mama Mia", dos Abba.
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O regresso do filho pródigo
Pelo menos espero que assim seja.
O meu filho dormiu 14 horas e acordou como novo, ou melhor, acordou o velho Henrique. Ontem portou-se lindamente, foi o primeiro a acabar de jantar e distribuiu sorrisos e beijinhos.
Hoje acordou bem disposto e voltou a ser o primeiro a acabar de comer.
Será que o ET se foi e me devolveu o meu filho?
Espero bem que sim
O meu filho dormiu 14 horas e acordou como novo, ou melhor, acordou o velho Henrique. Ontem portou-se lindamente, foi o primeiro a acabar de jantar e distribuiu sorrisos e beijinhos.
Hoje acordou bem disposto e voltou a ser o primeiro a acabar de comer.
Será que o ET se foi e me devolveu o meu filho?
Espero bem que sim
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segunda-feira, janeiro 26, 2009
Dia não
Hoje foi um daqueles dias para esquecer. Daqueles em que nos sentimos exaustas e, quando olhamos para trás, fica a sensação que não fizemos quase nada e, o pouco que fizemos, foi uma grande merda.
Duas reuniões que me ocuparam grande parte do dia, um encontro com as minhas novas inquilinas que também não deu em nada, um telefonema que só serviu para me chatear e, quando chego a casa o que é que faço? Bato com a cabeça contra a parede? Não. Bebo um chá e relaxo? Não. A solução foi portar-me como uma criança de quatro anos e meio e desatar aos gritos com o meu filho quando ele fez uma asneira. É verdade que não é agradável chegar à casa de banho e encontrar uma criança a fazer pinturas rupestres com as suas próprias fezes, mas podia ter-lhe dado o desconto. Dei-o a tanta gente durante o dia.
E, como resultado, estou aqui a penitenciar-me a a achar-me uma péssima mãe; horrível mesmo.
Há dias assim: um não redondo.
Duas reuniões que me ocuparam grande parte do dia, um encontro com as minhas novas inquilinas que também não deu em nada, um telefonema que só serviu para me chatear e, quando chego a casa o que é que faço? Bato com a cabeça contra a parede? Não. Bebo um chá e relaxo? Não. A solução foi portar-me como uma criança de quatro anos e meio e desatar aos gritos com o meu filho quando ele fez uma asneira. É verdade que não é agradável chegar à casa de banho e encontrar uma criança a fazer pinturas rupestres com as suas próprias fezes, mas podia ter-lhe dado o desconto. Dei-o a tanta gente durante o dia.
E, como resultado, estou aqui a penitenciar-me a a achar-me uma péssima mãe; horrível mesmo.
Há dias assim: um não redondo.
sexta-feira, janeiro 23, 2009
Gostei
texto de José Saramago no blogue da sua fundação
Donde?
Donde?
Donde saiu este homem? Não peço que me digam onde nasceu, quem foram os seus pais, que estudos fez, que projecto de vida desenhou para si e para a sua família. Tudo isso mais ou menos o sabemos, tenho aí a sua autobiografia, livro sério e sincero, além de inteligentemente escrito. Quando pergunto donde saiu Barack Obama estou a manifestar a minha perplexidade por este tempo que vivemos, cínico, desesperançado, sombrio, terrível em mil dos seus aspectos, ter gerado uma pessoa (é um homem, podia ser uma mulher) que levanta a voz para falar de valores, de responsabilidade pessoal e colectiva, de respeito pelo trabalho, também pela memória daqueles que nos antecederam na vida. Estes conceitos que alguma vez foram o cimento da melhor convivência humana sofreram por muito tempo o desprezo dos poderosos, esses mesmos que, a partir de hoje (tenham-no por certo), vão vestir à pressa o novo figurino e clamar em todos os tons: “Eu também, eu também.” Barack Obama, no seu discurso, deu-nos razões (as razões) para que não nos deixemos enganar. O mundo pode ser melhor do que isto a que parecemos ter sido condenados. No fundo, o que Obama nos veio dizer é que outro mundo é possível. Muitos de nós já o vinhamos dizendo há muito. Talvez a ocasião seja boa para que tentemos pôr-nos de acordo sobre o modo e a maneira. Para começar.
O castigo dele doi-me mais a mim
Deve ser uma das premissas de ser mãe, odiamos que eles estejam tristes e de castigo, mesmo quando temos a certeza que estamos a tomar a atitude correcta, a única.
As quintas-feiras, lá em casa, estão baptizadas de "o nosso dia", leia-se meu e do Henrique. é o dia em que o pai trabalha até mais tarde, em que jantamos os dois, por vezes há direito a uma batatinha frita ou a um doce à sobremesa; quase sempre se vê um episódio de uma qualquer série infantil e, para finalizar vamos os dois para a cama grande. E este sim, é o grande momento, aquele em que ele me abraça e se aninha ao meu lado. E dali só sai quando o pai chega, noite dentro.
Só que o meu filho anda demasiado desafiador para o meu gosto e, por isso, tenho de castigá-lo. Ontem não houve filme, nem batata frita, nem doce (houve uns croquetes feitos pela avó Emília e que ele adorou)e, pior que tudo, não houve cama grande.
E no momento em que lhe passava a mão pela cabeça depois de lhe te lido dois poemas ouvi "hoje era o nosso dia e não dormimos juntos. Estou muito triste contigo". E assim, com uma pequena frase, senti-me a pior mãe do mundo e ele conseguiu virar o bico ao prego e fazer de mim a má da fita.
As quintas-feiras, lá em casa, estão baptizadas de "o nosso dia", leia-se meu e do Henrique. é o dia em que o pai trabalha até mais tarde, em que jantamos os dois, por vezes há direito a uma batatinha frita ou a um doce à sobremesa; quase sempre se vê um episódio de uma qualquer série infantil e, para finalizar vamos os dois para a cama grande. E este sim, é o grande momento, aquele em que ele me abraça e se aninha ao meu lado. E dali só sai quando o pai chega, noite dentro.
Só que o meu filho anda demasiado desafiador para o meu gosto e, por isso, tenho de castigá-lo. Ontem não houve filme, nem batata frita, nem doce (houve uns croquetes feitos pela avó Emília e que ele adorou)e, pior que tudo, não houve cama grande.
E no momento em que lhe passava a mão pela cabeça depois de lhe te lido dois poemas ouvi "hoje era o nosso dia e não dormimos juntos. Estou muito triste contigo". E assim, com uma pequena frase, senti-me a pior mãe do mundo e ele conseguiu virar o bico ao prego e fazer de mim a má da fita.
quinta-feira, janeiro 22, 2009
Mau comportamento
Eu já tinha percebido (até pelos mil castigos que lhe tenho dado) que o Henrique anda a testar a autoridade dos que o rodeiam. Especialmente na hora das refeições. Palmada não surte grande efeito e, para não o espancar (porque seria esse o resultado se por cada vez que se portasse muito mal lhe desse uma palmada) optei pelo castigo. Não ver televisão, não brincar com os brinquedos preferidos... umas quantas medidas extremas para uma situação delicada.
Mas pensava que isto se passava, basicamente, lá em casa, comigo e com o pai. Só que hoje encontrámos a educadora dele no café e ficámos a saber que o nosso filho foi levado por extraterrestes e, no ligar dele, colocaram um menino mal comportado, birrento, que responde mal e que até anda a bater nos seus amigos...
Hoje vamos ter uma conversa muito séria lá em casa. E algo me diz que os jogadores do Benfica, com que ele tanto gosta de brincar, vão continuar no armário junto às minhas calças de ganga...
Mas pensava que isto se passava, basicamente, lá em casa, comigo e com o pai. Só que hoje encontrámos a educadora dele no café e ficámos a saber que o nosso filho foi levado por extraterrestes e, no ligar dele, colocaram um menino mal comportado, birrento, que responde mal e que até anda a bater nos seus amigos...
Hoje vamos ter uma conversa muito séria lá em casa. E algo me diz que os jogadores do Benfica, com que ele tanto gosta de brincar, vão continuar no armário junto às minhas calças de ganga...
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quarta-feira, janeiro 21, 2009
Porque não quero falar do que não sei
Ainda a propósito da morte com cancro e porque não quero usar como exemplo um mau exemplo. Eu não conhecia a Tereza Coelho e, hoje em conversa, disseram-me que, afinal ela não tinha cancro mas um tumor benigno e que a sua pneumonia em nada estava relacionada com cancro... Sendo assim, esqueçamos o caso da Tereza (apesar de alguns orgãos terem noticiado que ela tinha morrido de cancro). O que eu acho é que quando a pessoa morre de uma complicação do cancro tal não deve ser escamoteado. O meu pai, por exemplo, teve cancro da hipofaringe. Morreu de uma complicação da sua doença. Se tivesse sido atropelado ao atravessar a rua não seria de uma complicação do cancro. Mas como morreu dos efeitos da radioterapia. a verdade, pelo menos a minha verdade, é que morreu de uma complicação do cancro.
E agora a futilidade


Eu até queria ser uma senhora séria e não falar de futilidades numa altura como esta, mas não consigo, é mais forte que eu. Onde é que a senhora Jill Biden pensava que ía com esta fatiota? Não lhe disseram que o destino final era a Casa Branca? Jesus, quão mas pirosa se pode ser? Saia acima do joelho? botinha stiletto. Ela até pode não ter bom gosto, mas as pessoas que a rodeiam deveriam. Pareceu mal, muito mal. Estilo mulher de meia idade em crise...
Já a senhora Obama esteve um espanto. Tudo lhe ficava bem, a começar nos sapatos e a acabar nas luvas.
terça-feira, janeiro 20, 2009
Para MJC
Os amigos são mesmo o nosso porto seguro. Eu sinto-me afortunada com os que tenho e que, nos momentos mais inesperados, me surpreendem com pequenas revelações que fazem da minha vida um lugar melhor.
Eu sou feliz, gosto da vida que tenho, não me sinto refém do cancro e sinto-me vitoriosa por continuar a minha vida apesar de tudo o que aconteceu. Isso não significa que não tenha os meus dias menos bons, com mais dúvidas e tristezas, com mais limitações...
Obrigada MJC pela partilha. Gosto muito de ti
Eu sou feliz, gosto da vida que tenho, não me sinto refém do cancro e sinto-me vitoriosa por continuar a minha vida apesar de tudo o que aconteceu. Isso não significa que não tenha os meus dias menos bons, com mais dúvidas e tristezas, com mais limitações...
Obrigada MJC pela partilha. Gosto muito de ti
segunda-feira, janeiro 19, 2009
Morrer de cancro é indigno?
Infelizmente este fim-de-semana foi pesado na contabilidade das mortes de cancro...Tereza Coelho, Luis Vasconcellos, João Aguardela. Todas pessoas que não conhecia (apesar de trabalhar na mesma empresa que Tereza Coelho). Todas elas morreram de cancro, ou de complicações.
No caso da Tereza Coelho foram várias as homenagens prestadas em vários jornais e blogues. A mais bonita, a meu ver, perteceu à Isabel Coutinho. Mas há uma coisa que eu não percebo: no artigo do Público le-se que Tereza Coelho morreu de complicações de uma Pneumonia. é só meia verdade, na medida em que a pneumonia era, já ela, uma complicação do cancro.
E talvez seja um preciosismo meu, que tive cancro. Ou talvez não. Mas parece-me que os jornalistas ainda têm medo de escrever que uma pessoa morreu de cancro. Qual é a diferença entre morrer de cancro, de pneumonia, de enfarte? Por acaso é menos digno morrer de cancro?
Há anos, durante uma entrevista que o meu marido fez a António Mega Ferreira este, que recuperava de um tumor maligno, dizia mais o menos o mesmo, que as pessoas em Portugal morriam de doença prolongada...
Eu tive cancro. E se morrer de alguma complicação da minha doença não quero que se diga outra coisa que não a verdade.
No caso da Tereza Coelho foram várias as homenagens prestadas em vários jornais e blogues. A mais bonita, a meu ver, perteceu à Isabel Coutinho. Mas há uma coisa que eu não percebo: no artigo do Público le-se que Tereza Coelho morreu de complicações de uma Pneumonia. é só meia verdade, na medida em que a pneumonia era, já ela, uma complicação do cancro.
E talvez seja um preciosismo meu, que tive cancro. Ou talvez não. Mas parece-me que os jornalistas ainda têm medo de escrever que uma pessoa morreu de cancro. Qual é a diferença entre morrer de cancro, de pneumonia, de enfarte? Por acaso é menos digno morrer de cancro?
Há anos, durante uma entrevista que o meu marido fez a António Mega Ferreira este, que recuperava de um tumor maligno, dizia mais o menos o mesmo, que as pessoas em Portugal morriam de doença prolongada...
Eu tive cancro. E se morrer de alguma complicação da minha doença não quero que se diga outra coisa que não a verdade.
sexta-feira, janeiro 16, 2009
Inveja
Ontem, a meio da tarde, uma grande amiga minha que é jornalista mandou-me um mail com o comunicado da UAU, onde se dizia que a Fernanda Serrano estava grávida. "esta está louca", pensei logo. "Levar para a frente uma gravidez depois de ter tido cancro há tão pouco tempo". E, durante a tarde, fui dando largas à minha indignação de mãe e mulher que teve cancro. As dúvidas que sempre me assolaram quando pensei em voltar a engravidar, passavam pela minha cabeça como convicções e, por momentos, vi esta outra mulher como uma doida varrida. "Mas será que ela pensou em todas as implicações de ter um bebé agora?", pensei eu. "E o risco de voltar a ficar doente e deixar dois filhos tão pequenos, e o risco deste bebé ter um problema de saúde causado pelos tratamentos?"... foram estas e muitas outras as questões que foram passando pela minha cabeça e me levavam a ter vontade de pegar no telefone para insultar a Fernanda Serrano.
Mas à noite, sentada na minha cama a olhar para o meu filho que dormia ao meu lado, fez-se luz na minha cabeça tolhida pelo medo. É evidente que uma pessoa informada e inteligente, como a Fernanda Serrano deve ser, pensou em tudo o que eu pensei, foi assaltada pelas mesmas dúvidas e medos. Mas ela, ao contrário de mim, decidiu ir em frente. E por isso o que eu sinto é inveja, inveja de não ter a sua coragem.
Mas à noite, sentada na minha cama a olhar para o meu filho que dormia ao meu lado, fez-se luz na minha cabeça tolhida pelo medo. É evidente que uma pessoa informada e inteligente, como a Fernanda Serrano deve ser, pensou em tudo o que eu pensei, foi assaltada pelas mesmas dúvidas e medos. Mas ela, ao contrário de mim, decidiu ir em frente. E por isso o que eu sinto é inveja, inveja de não ter a sua coragem.
quarta-feira, janeiro 14, 2009
maldita...
a tosse que nos tinha dado tréguas desde a mudança de casa, voltou. Assim, de repente. Ontem passei três horas com ele a dormir ao meu colo... cheio de tosse. Dá pena vê-lo tão cansado... ele e eu. Esperemos que seja passageira mas duvido...
terça-feira, janeiro 13, 2009
às vezes sinto-me assim...
com difuldades de expressão. Deve ser por isso que gosto tanto desta música
segunda-feira, janeiro 12, 2009
Super Homem
Lá em casa passámos o fim-de-semana com um super herói. O Henrique passou directamente do Natal para o Carnaval e passeou-se, por casa e pela rua, na sua mais recente aquisição: um fato de super-homem. Com músculos tudo. Só lhe falta a capa. E soube-me bem vê-lo tão feliz a imaginar que podia voar. Sim, porque ao contrário de outros super-herois, o super-homem não precisa da capa para voar.
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sexta-feira, janeiro 09, 2009
quinta-feira, janeiro 08, 2009
Saudades
As saudades também nos podem fazer sorrir. Esta era a canção preferida do meu pai.
Lindo, han?
quarta-feira, janeiro 07, 2009
Ensinamento 1
Quando eu era miúda não dispensava uma boa briga. Quer dizer, não era miúda de andar por aí à pancada a torto e a direito mas aprendi a defender-me, coisa que era uma regra de ouro lá em casa. São vários os ensinamentos do meu pai que me vêm à memória ultimamente, e este era um deles. "Não quero que me digam que começaste uma briga, mas nunca me chegues a casa a chorar porque te bateram, que aí ainda te dou uma palmada."
E a verdade é que eu aprendi e nunca me dei mal com esta regra que pretendo passar ao Henrique. Vai ser o primeiro de muitos ensinamentos do avó António.
E a verdade é que eu aprendi e nunca me dei mal com esta regra que pretendo passar ao Henrique. Vai ser o primeiro de muitos ensinamentos do avó António.
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terça-feira, janeiro 06, 2009
o melhor amigo
Apesar das desgraças das últimas semanas, lá em casa o Benfica continua a reinar.
O melhor amigo do Henrique é o Rui Costa, um boneco da imaginarium que o meu filho recebeu quando fez dois anos e que trazia um equipamento da selecção nacional de futebol. Ainda teve uma breve disfunção de personalidade, porque no início se chamava Figo, mas poucos meses depois o Henrique perguntou ao pai se podia chamar Rui Costa ao seu amigo. E é curioso ver que o apego dele ao boneco tem vindo a crescer. É o seu filho e a única companhia permitida na cama.
O melhor amigo do Henrique é o Rui Costa, um boneco da imaginarium que o meu filho recebeu quando fez dois anos e que trazia um equipamento da selecção nacional de futebol. Ainda teve uma breve disfunção de personalidade, porque no início se chamava Figo, mas poucos meses depois o Henrique perguntou ao pai se podia chamar Rui Costa ao seu amigo. E é curioso ver que o apego dele ao boneco tem vindo a crescer. É o seu filho e a única companhia permitida na cama.
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segunda-feira, janeiro 05, 2009
segunda-feira, dezembro 22, 2008
Podia ser pior

O fim-de-semana avizinhava-se negro. Começou, logo na sexta-feira, com uma ida dos bombeiros e da polícia lá a casa para arrombar a porta. A fechadura passou-se e eu com ela, ou melhor, com a despesa que tive por ela se ter passado.
Mas ontem à noite esqueci tudo. Graças ao Vítor e à Carla e à magnífica garrafa de vinho que eles levaram para o jantar... aquilo é que foi. Caraças, ainda tenho na boca o gosto daquele Barca Velha de 95. Nunca mais me ouvirão dizer que um vinho é um vinho...
quinta-feira, dezembro 18, 2008
Aquele friozinho na barriga
O título deste post esteve mesmo para ser "aquele friozinho no estômago", mas depois lembrei-me que já não o tenho... tem piada, apesar de trágico. Pois bem, daqui a umas sete horas estarei a "picar o ponto" no Hospital de Santa Cruz. Eu e os meus exames de rotina. Porque será que não consigo que sejam assim tão rotineiros?Porque será que ainda me dá a volta às entranhas e me tira o sono?
terça-feira, dezembro 16, 2008
"Estar em crise significa não ter dinheiro"
Eu bem sei que o meu filho não é melhor que os outros miúdos da idade dele apesar de todas as mães, assim como eu, terem aquela secreta certeza que o seu é ligeiramente melhor que os outros: mais esperto, mais bonito, com o narizinho mais perfeito ou o sorriso mais matreiro. Eu sei que, lá no fundo, ele é apenas um miúdo de 4 anos como todos os outros. Mas assim como tem comportamentos-padrão que fazem dele um igual aos outros, também têm características únicas que o tornam singular.
No passado sábado, depois de uma semana em casa por causa da maldita escarlatina, fomos ao cabeleireiro. Digamos que o cabelço do Henrique já não estava coisa que se apresentasse na escola. E, enquanto ele estava sentada na sua cadeira especial em amena cavaqueira com a cabeleireira, esta pergunta-lhe "Henrique e já pediu as prendas ao Pai Natal?""sim, pedi uma, o camião Mac Faísca", respondeu ele. "Só uma?" indagou a cabeleireira. "Sim, só uma. Estamos em crise", argumentou o meu pequeno economista. Com esta resposta a cableireira desatou a rir e ele, muito ofendido, olhou para ela e disse "Qual é a graça? Não tem graça nenhuma. Estar em crise significa não ter dinheiro".
No passado sábado, depois de uma semana em casa por causa da maldita escarlatina, fomos ao cabeleireiro. Digamos que o cabelço do Henrique já não estava coisa que se apresentasse na escola. E, enquanto ele estava sentada na sua cadeira especial em amena cavaqueira com a cabeleireira, esta pergunta-lhe "Henrique e já pediu as prendas ao Pai Natal?""sim, pedi uma, o camião Mac Faísca", respondeu ele. "Só uma?" indagou a cabeleireira. "Sim, só uma. Estamos em crise", argumentou o meu pequeno economista. Com esta resposta a cableireira desatou a rir e ele, muito ofendido, olhou para ela e disse "Qual é a graça? Não tem graça nenhuma. Estar em crise significa não ter dinheiro".
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segunda-feira, dezembro 15, 2008
Acabou
Chegou de repente, o telefonema.
Acabaram as minhas crónicas na Pais & Filhos. Fiquei triste. Tinha-me custado muito a decisão de me expor numa revista mas, durante o ano que escrevi, criei cumplicidades importantes. Fiquei triste pela decisão e por ter sido tão repentina. Não foi uma coisa do género "escreves mais uma ou duas e acaba". Foi antes "acabou, não faças a próxima".... fiz, à borla, mas para me despedir. Janeiro é mês de despedida na Pais & Filhos. Talvez recupere aqui o tema.
Eu tenho sempre uma péssima relação com aquilo que escrevo: nunca guardo, acho que nunca vou precisar dos meus textos. E agora estou com pena de não saber onde andam todas as crónicas que escrevi. Aqui já publiquei uma, vou tentar recuperar as outras.
Acabaram as minhas crónicas na Pais & Filhos. Fiquei triste. Tinha-me custado muito a decisão de me expor numa revista mas, durante o ano que escrevi, criei cumplicidades importantes. Fiquei triste pela decisão e por ter sido tão repentina. Não foi uma coisa do género "escreves mais uma ou duas e acaba". Foi antes "acabou, não faças a próxima".... fiz, à borla, mas para me despedir. Janeiro é mês de despedida na Pais & Filhos. Talvez recupere aqui o tema.
Eu tenho sempre uma péssima relação com aquilo que escrevo: nunca guardo, acho que nunca vou precisar dos meus textos. E agora estou com pena de não saber onde andam todas as crónicas que escrevi. Aqui já publiquei uma, vou tentar recuperar as outras.
Acerca do post "Com tanta profissão bonita"
A minha amiga Gata escreveu um belo post sobre uma mistura explosiva: ser mulher, jornalista e mãe. http://agatachristie.blogspot.com/
A minha amiga Gata é minha amiga porque nos cruzámos nessa bela profissão: jornalista. E como se não bastasse sermos mulheres e jornalistas estávamos na secção de cultura. e por lá nos mantivemos até engravidarmos. E era giro. E ser jornalista era giro. Mesmo quando o espaço era pouco e só tinhamos 2000 caracteres para escrever sobre a última peça da Cornucópia, nada substituía o facto de podermos estar alí, naquela sala gelada, até à uma da manhã para podermos ter o privilégio de uma conversa com o Luís Miguel Cintra. Ou com o Jorge, ou com o Ricardo Pais... ou com tantos outros. Porque as pessoas que se cruzavam nas nossas vidas eram interessantes. E isso compensava tudo: o entrar pela noite dentro, o mau humor dos editores, a falta de espaço para escrever... o que ganhávamos em termos intelectuais e em experiência era muito bom e compensava muita coisa.
E depois ficámos grávidas. E continuou a ser giro. Comparávamos barrigas, falávamos de nomes... chegámos a ser 4 grávidas ao mesmo tempo: quatro jornalistas de cultura; eu, a gata, a Cristina Margato e a Ana Goulão. E eu (assim como a minha amiga Gata) que trabalhava num diário fui-me apercebendo, com o decorrer da gravidez, que as coisas começavam a deixar de ser tão giras... os ensaios continuavam a ser muito tarde; eu, invariavelmente, adormecia., ficava muito cansada, rabujenta e o futuro, com o nascimento do bebé, era uma incógnita.
E, no meu caso, havia aquele outro probleminha... é que o meu marido também era jornalista. E ele sim, jornalista à seria e não alguém que escreve sobre teatrinhos e senhores de collants. Jornalismo bem remunerado, que paga grande parte das contas lá de casa.
... e comecei a fazer contas à vida. Tive mesmo de as fazer.
E foi nesse momento que ficou claro na minha cabeça que o jornalismo giro tinha os dias contados. E para fazer um jornalismo que não fosse aquele, dos ensaios, dos espectáculos, das pessoas que me enchiam a alma, mais valia não ser jornalista. E assim matei o sonho que tinha tido 15 anos atrás: o de um dia vir a ser editora de cultura de um bom jornal/revista.
Mal regressei ao trabalho depois da licença de maternidade, comecei a escavar em todas as direcções para encontrar uma alternativa à minha profissão muito gira. A princípio foi duro; porque eu não sabia muito bem onde procurar, e porque tive alguns embates lána redacção. Coisas do tipo "eu tenho direito a duas horas de amamentação e não vou abdicar delas" ou "vou passar a entrar às 11h e saio às sete"... mas quem me conhece também sabe que eu sou "Mafaldinha", que resmugo, que não perco uma boa luta e, naquele caso, arregacei bem as mangas. Até porque eu, apesar de gostar da minha profissão gira, de jornalista de cultura, achava, como continuo a achar, que os jornalistas são bichos de muitos vícios... são, no geral, pessoas com muito pouca disciplina no trabalho. O que interessa é que a página fecha e que o texto ficou bom. As horas às quais se começou a escrever ou a quantidade de pessoas que ficam penduradas à espera que o texto feche é apenas um pormenor. E os jornalistas também acham que sair cedo é sinal de pouco trabalho, o que é uma mentira de todo o tamanho. Porquê deixar para o dia o texto da peça de teatro que se foi ver há uma semana, ou o perfil sobre o escritor que já nos tinham pedido há duas semanas mas que só amanhã faz anos???
E é este tipo de rotina instituída nas redacções que faz com que as mães jornalistas, mesmo que tenham acabado o seu trabalho, não possam sair mais cedo sem ouvir três ou quatro bocas ou, então, sem que lhes tentem passar mais três breves para fazer, porque o colega do lado, que até as podia escrever, chegou às quatro da tarde e está à rasca com a abertura de secção.
Eu consegui sair do jornalismo e, mesmo assim, ter uma profissão interessante e na qual me sinto realizada. Mas não é fácil.
E acho, minha amiga Gata, que o problema de ser mãe se estende a qualquer profissão no nosso país. Porque ser mãe implica ser mulher e, no nosso país ser mulher é fodido.
Até podes ser funcionária pública e saires às 5 da tarde, mas quando os miúdos ficam doentes, e é preciso ficar em casa com eles sobra para quem? e quando há uma consulta programada quem vai? E as noites em branco quando eles estão doentes? e...e...e...?
E se a profissão de jornalista é chata, imaginem os médicos, que em início de carreira ganham uma miséria e têm de fazer bancos de 24 horas... e os enfermeiros que trabalham por turnos?
Mas, mesmo assim, e apesar de todas estas pequenas grandes merdas que nos deixam à beira das lágrimas de felicidade quando dispomos de um serão sozinhas em casa com o comando só para nós, mesmo assim eu não trocava a vida que tenho por outra. E, não fosse a minha doença, atirava-me de cabeça para o segundo filho.
A minha amiga Gata é minha amiga porque nos cruzámos nessa bela profissão: jornalista. E como se não bastasse sermos mulheres e jornalistas estávamos na secção de cultura. e por lá nos mantivemos até engravidarmos. E era giro. E ser jornalista era giro. Mesmo quando o espaço era pouco e só tinhamos 2000 caracteres para escrever sobre a última peça da Cornucópia, nada substituía o facto de podermos estar alí, naquela sala gelada, até à uma da manhã para podermos ter o privilégio de uma conversa com o Luís Miguel Cintra. Ou com o Jorge, ou com o Ricardo Pais... ou com tantos outros. Porque as pessoas que se cruzavam nas nossas vidas eram interessantes. E isso compensava tudo: o entrar pela noite dentro, o mau humor dos editores, a falta de espaço para escrever... o que ganhávamos em termos intelectuais e em experiência era muito bom e compensava muita coisa.
E depois ficámos grávidas. E continuou a ser giro. Comparávamos barrigas, falávamos de nomes... chegámos a ser 4 grávidas ao mesmo tempo: quatro jornalistas de cultura; eu, a gata, a Cristina Margato e a Ana Goulão. E eu (assim como a minha amiga Gata) que trabalhava num diário fui-me apercebendo, com o decorrer da gravidez, que as coisas começavam a deixar de ser tão giras... os ensaios continuavam a ser muito tarde; eu, invariavelmente, adormecia., ficava muito cansada, rabujenta e o futuro, com o nascimento do bebé, era uma incógnita.
E, no meu caso, havia aquele outro probleminha... é que o meu marido também era jornalista. E ele sim, jornalista à seria e não alguém que escreve sobre teatrinhos e senhores de collants. Jornalismo bem remunerado, que paga grande parte das contas lá de casa.
... e comecei a fazer contas à vida. Tive mesmo de as fazer.
E foi nesse momento que ficou claro na minha cabeça que o jornalismo giro tinha os dias contados. E para fazer um jornalismo que não fosse aquele, dos ensaios, dos espectáculos, das pessoas que me enchiam a alma, mais valia não ser jornalista. E assim matei o sonho que tinha tido 15 anos atrás: o de um dia vir a ser editora de cultura de um bom jornal/revista.
Mal regressei ao trabalho depois da licença de maternidade, comecei a escavar em todas as direcções para encontrar uma alternativa à minha profissão muito gira. A princípio foi duro; porque eu não sabia muito bem onde procurar, e porque tive alguns embates lána redacção. Coisas do tipo "eu tenho direito a duas horas de amamentação e não vou abdicar delas" ou "vou passar a entrar às 11h e saio às sete"... mas quem me conhece também sabe que eu sou "Mafaldinha", que resmugo, que não perco uma boa luta e, naquele caso, arregacei bem as mangas. Até porque eu, apesar de gostar da minha profissão gira, de jornalista de cultura, achava, como continuo a achar, que os jornalistas são bichos de muitos vícios... são, no geral, pessoas com muito pouca disciplina no trabalho. O que interessa é que a página fecha e que o texto ficou bom. As horas às quais se começou a escrever ou a quantidade de pessoas que ficam penduradas à espera que o texto feche é apenas um pormenor. E os jornalistas também acham que sair cedo é sinal de pouco trabalho, o que é uma mentira de todo o tamanho. Porquê deixar para o dia o texto da peça de teatro que se foi ver há uma semana, ou o perfil sobre o escritor que já nos tinham pedido há duas semanas mas que só amanhã faz anos???
E é este tipo de rotina instituída nas redacções que faz com que as mães jornalistas, mesmo que tenham acabado o seu trabalho, não possam sair mais cedo sem ouvir três ou quatro bocas ou, então, sem que lhes tentem passar mais três breves para fazer, porque o colega do lado, que até as podia escrever, chegou às quatro da tarde e está à rasca com a abertura de secção.
Eu consegui sair do jornalismo e, mesmo assim, ter uma profissão interessante e na qual me sinto realizada. Mas não é fácil.
E acho, minha amiga Gata, que o problema de ser mãe se estende a qualquer profissão no nosso país. Porque ser mãe implica ser mulher e, no nosso país ser mulher é fodido.
Até podes ser funcionária pública e saires às 5 da tarde, mas quando os miúdos ficam doentes, e é preciso ficar em casa com eles sobra para quem? e quando há uma consulta programada quem vai? E as noites em branco quando eles estão doentes? e...e...e...?
E se a profissão de jornalista é chata, imaginem os médicos, que em início de carreira ganham uma miséria e têm de fazer bancos de 24 horas... e os enfermeiros que trabalham por turnos?
Mas, mesmo assim, e apesar de todas estas pequenas grandes merdas que nos deixam à beira das lágrimas de felicidade quando dispomos de um serão sozinhas em casa com o comando só para nós, mesmo assim eu não trocava a vida que tenho por outra. E, não fosse a minha doença, atirava-me de cabeça para o segundo filho.
Peças soltas
Hoje, enquanto vinha para o trabalho, lembrei-me de ti, pai. Não penses que não me lembro de ti nos outros dias. Tu estás muito no meu pensamento. Mas hoje voltou-me à memória esta coisa da ironia do destino... eu, que andei tanto tempo a queixar-me que trabalhava longe da clínica e que era muito complicado visitar-te à hora do almoço, fiquei feliz da vida quando a empresa onde trabalho foi comprada pelo grupo Leya. Ia, finalmente, para perto de ti... e hoje, enquanto subia os Cabos de Ávila lembrei-me que de nada servia estar aqui tão perto da clínica... sabias que às vezes me perco? Já não é a primeira vez que dou por mim a caminho da Reboleira e só depois me apercebo que já não estás lá, que o meu destino é outro.
Fazes-me tanta falta... o teu silêncio, o teu olhar, a tua mão na minha. Ando tão perdida sem ti.
Fazes-me tanta falta... o teu silêncio, o teu olhar, a tua mão na minha. Ando tão perdida sem ti.
sexta-feira, dezembro 12, 2008
escarlatina
Mas que raio de nome para uma doença... mas que existe, existe. O Henrique que o diga.
Não imaginam como anseio por 2009...
Não imaginam como anseio por 2009...
quarta-feira, dezembro 03, 2008
pesadelo
Ainda não estou completamente adaptada à casa nova e, por mais que tente, não consigo. Não há maneira dos homens das obras me deixarem em paz... Sinto-me a Murphy Brown... a qualquer momento pode sair-me um homem das obras de dentro de um armário....
segunda-feira, novembro 17, 2008
Saudades
pequenas coisas
Eu trabalho na Oficina do Livro que, para quem não sabe, é a editora de Margarida Rebelo Pinto e de Maria João Lopo de Carvalho e, apesar das vendas destas duas senhoras justificarem o seu estatuto de publicáveis, a editora onde eu trabalho tem um longo historial de levar pancada. Eu própria, vinda do jornalismo, tinha a mania de torcer o nariz de cada vez que ouvia o nome Oficina do Livro. Só que, e embora eu não ponha em causa o valor e o trabalho da Margarida e da Maria João Lopo de Carvalho (dei-as apenas como exemplos das autoras que a crítica tanto gosta de enxovalhar), a Oficina do Livro faz um trabalho tão válido como o de todas as outras editoras e edita, no mercado português autores como Guillermo Fadanelli, David Toscano, Augusto Monterroso, Hugo Gonçalves e Miguel Sousa Tavares. Mas, acima de tudo, editamos livros e nada mais que isso.
O mesmo não se pode dizer de outros grandes grupos editoriais.
A semana passada, por exemplo, ligaram-me do Círculo Leitores não para me venderem livros, mas para me venderem um seguro de saúde.
Bonito não acham?
O mesmo não se pode dizer de outros grandes grupos editoriais.
A semana passada, por exemplo, ligaram-me do Círculo Leitores não para me venderem livros, mas para me venderem um seguro de saúde.
Bonito não acham?
quarta-feira, novembro 12, 2008
Dia 9
Fez um mês que deixei de te ter, de te poder contar o meu dia, de te poder massajar as costas.
Temos saudades, pai.
Temos saudades... sinto um vazio muito grande no lugar do meu coração... às vezes nem percebo bem o que se passa, não é o trabalho, não são as coisas em casa.... depois vens-me à ideia. És tu pai, ou melhor, é a falta que me fazes que me deixa assim... como se me faltasse um pedaço.
Temos saudades, pai.
Temos saudades... sinto um vazio muito grande no lugar do meu coração... às vezes nem percebo bem o que se passa, não é o trabalho, não são as coisas em casa.... depois vens-me à ideia. És tu pai, ou melhor, é a falta que me fazes que me deixa assim... como se me faltasse um pedaço.
sexta-feira, novembro 07, 2008
Mas que semana
"No news is bad news". assim se pode definir a minha ausência nesta última semana.
Uma gastroenterite no Henrique que nos levou a passar 16 horas da sexta-feira e do sábado no Hospital da Estefânia; uma mudança em que o meu marido estava sozinho, valeram-nos os fantásticos amigos que, com apenas um sms apareceram lá em casa para ajudar; obras que não acabaram a tempo e que nos fazem viver em casa como quase num acampamento de ciganos; e hoje, assim do tipo cereja no topo do bolo, o meu marido teve um acidente.
Coincidências??? cruzes canhoto, vou fazer como o António Oliveira e começar a andar com uns alhinhos no bolso.
Uma gastroenterite no Henrique que nos levou a passar 16 horas da sexta-feira e do sábado no Hospital da Estefânia; uma mudança em que o meu marido estava sozinho, valeram-nos os fantásticos amigos que, com apenas um sms apareceram lá em casa para ajudar; obras que não acabaram a tempo e que nos fazem viver em casa como quase num acampamento de ciganos; e hoje, assim do tipo cereja no topo do bolo, o meu marido teve um acidente.
Coincidências??? cruzes canhoto, vou fazer como o António Oliveira e começar a andar com uns alhinhos no bolso.
quinta-feira, outubro 30, 2008
Apetecia-me...
Fechar os olhos e só acordar daqui a uma semana.
Acabei de mudar de instalações no meu trabalho (agora estou junto da grane família Leya); em casa tropeço em caixas para a mudança (que vai ser este sábado). As obras na casa nova ainda não acabaram; o Henrique está em casa doente desde terça, e agora eu, também adoentada...
Não acredito em bruxas, mas que as há..... não duvido!
Acabei de mudar de instalações no meu trabalho (agora estou junto da grane família Leya); em casa tropeço em caixas para a mudança (que vai ser este sábado). As obras na casa nova ainda não acabaram; o Henrique está em casa doente desde terça, e agora eu, também adoentada...
Não acredito em bruxas, mas que as há..... não duvido!
terça-feira, outubro 28, 2008
Encontros felizes
Este fim-de-semana encontrei-me com alguém que já foi dos meus escritores preferidos, o chileno Luis Sepúlveda. E deste encontro resultou um abraço apertado e uma lágrima matreira. Não consegui esquecer o que disse acerca dos que morrem e nos são queridos." Enquanto os nomearmos e contarmos as suas histórias, os nossos mortos nunca morrem".
E é assim que pretendo que seja.
E é assim que pretendo que seja.
terça-feira, outubro 21, 2008
segunda-feira, outubro 20, 2008
É por estas e por outras que me afastei da religião
Metáfora do padre na missa de sétimo dia do meu pai: a escolha entre viver e morrer. É como escolher morar no Casal Ventoso ou num condomínio em Cascais... bonito hã?
sexta-feira, outubro 17, 2008
carta ao meu pai
Estes Têm sido dias tristes. Fecho os olhos a rever a última semana e invade-me uma sensação de incredulidade. Como é possível? Ainda há duas semanas conversava com contigo enquanto te massajava as costas e hoje estás lá longe, fechado num caixão, a muitos palmos de profundidade. Fecho os olhos e revejo: a minha mãe a ligar-me a dizer que estavas pior; eu a ir trabalhar normalmente, não querendo acreditar que ias morrer mas, no fundo, a temer isso mesmo; um novo telefonema a dizerem-me para me ir despedir de ti; eu lá, naquela sala sozinha contigo, que dormias tranquilo, e a olhar para aquele monitor (imagem que nunca me irá sair da cabeça) e a ver a pulsação cada vez mais baixa (60, 58, 50, 48) e a tensão lá tão em baixo apesar de toda a medicação que estavas a tomar. E aí percebi que me ias morrer, pai. Morrer à séria, de verdade, que me ias deixar. E pedi-te, para que o sofrimento do mano fosse menor, que morresses comigo. Mas tu não quiseste. Tinha sido ele a tomar conta de ti, era com ele que partirias... e fecho os olhos e vejo-me, mecanicamente, mesmo antes do monitor morrer contigo, a ir a casa com a mãe buscar-te uma roupa. Uma roupa bonita porque o mano não iria suportar a dor de ter de te embrulhar num lençol como se faz com os outros mortos nos hospitais. E sinto-me esquisita, e senti-me na altura, com isto de te ir buscar a roupa sem que tivesses morrido. Senti-me mal e senti-me má... e fecho os olhos e oiço o telemóvel e era o mano e eu olhei para a mãe a adivinhar o que lá vinha. E fomos a correr para junto de ti. A roupa muito bem escolhida, tudo a condizer. Tive tempo até de te engraxar os sapatos, que tu detestavas sapatos mal engraxados. E escolhi com cuidado o fato e o lenço, a camisa, as meias... tudo a condizer e tudo para que não tivesses frio lá nesse sítio para onde foste. E fecho os olhos e vejo-me na clínica, saco da roupa debaixo do braço, a mãe a dizer que não mais te conseguiria ver porque queria guardar de ti a imagem de vida. E eu ali, saco debaixo do braço e o mano à minha frente com a dura tarefa de ter de te vestir. E o que faço? Chego-me à frente, olho-o nos olhos e digo-lhe que vamos fazer juntos a última coisa que podíamos fazer por ti. E fecho os olhos e vejo-me a apertar-te os botões da camisa branca, a compôr o lenço no pescoço para que não se notasse o penso que tinhas debaixo, a calçar-te as meias e os sapatos. Eu e o mano, num ritual silencioso. E tu estavas tão quentinho pai, Não fosse o peso excessivo do teu corpo sem vida e eu acreditaria que continuavas a dormir. Mas o monitor estava morto e tu com ele. E fecho os olhos e vejo-me na terra, um frio de cortar os ossos e nós sozinhos naquela sala, tu no meio caixão aberto. E as pessoas foram chegando e com elas a certeza que tu não ias voltar comigo. Que ias ficar ali para sempre na tua terra. E demorei-me ali, a olhar-te, com a minha mão na tua, a despedir-me da tua presença física. Não de ti, que sei que nunca morrerás dentro de mim, mas do teu corpo. E volto a fechar os olhos e vejo a mãe, quase adormecida, vejo a avó, vejo as tuas irmãs e todo aquele coro trágico do qual fugi mal consegui. Eu entendo-os mas não consigo ter forças para consolar os outros. A tua perda doi-me tanto que não quero ouvir gritos nem lamentos. E fecho os olhos e vejo-me a correr para fora do cemitério para não ouvir o som da terra sobre ti.
E agora, pai, o que faço?
E agora, pai, o que faço?
sábado, outubro 11, 2008
Fim
Manuel António Queiroz 28-03-51 /09-10-2008
Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!
Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa,
E eu quero por força ir de burro!
Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!
Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa,
E eu quero por força ir de burro!
Mário de Sá Carneiro
quarta-feira, outubro 08, 2008
derrota
Torna-se muito difícil levar bem a vida nestas condições... eu bem sei que é ele que está doente, que é ele que sofre, que é ele que voltou a ter uma septicémia, que é ele que corre risco de vida, que é ele que está ventilado, que é ele que está naquela cama adormecido, sedado, como que em coma. Eu bem sei disso. Maseu já não aguento mais. Não aguento vê-lo assim, sofro se não vou ao hospital, não tenho vontade de rir, não suporto ver a tristeza em que vive a minha mãe, não suporto este meu desejo de que ele se vá e deixe de sofrer. Não consigo parar de pensar que sou má pessoa por desejar que chegue o fim, que ele tenha um pouco de paz e deixe de viver nestas condições desumanas... dou-me por vencida.
segunda-feira, outubro 06, 2008
relato de um quotidiano triste
São muitas dúvidas e angustias que me ocupam o coração nestes dias. O meu pai continua internado, cada vez mais triste, cada vez mais desiludido e frágil.
Ele está vivo, eu sei. Mas a que custo? Com que qualidade de vida? com que alegrias?
é absolutamente inacreditável a forma como o conceito de normalidade, de qualidade de vida, tem mudado ao longo destes últimos meses... primeiro ia deixar de falar, depois de comer pela sua boca, depois morrer, depois ia ser alimentado por uma sonda o resto da vida, depois a falsa esperança de voltar a comer.... e agora o estado em que ele está, sem poder ser alimentado... sem poder sair do hospital para passar os últimos tempos da sua vida em casa, junto dos seus.
No meio de tanta desgraça e tristeza, este fim-de-semana cruzou-se no nosso caminho um médico extraordinário. Não falo das suas capacidades de cirurgião, que desconheço, mas das suas qualidades enquanto ser humano. Primeiro prontificou-se a aceitar o meu pai como seu paciente, o que já não é pouco. Todos passam por lá, mas nenhum se chega à frente. Doentes complicados, não, obrigada.
Mas não foi só por isso que este médico, Dr. Fernando Leitão, ficou gravado no coração da minha família. Foi, sobretudo, por se ter dignado a falar connosco, por nos ter dito abertamente o que pensava, por ter partilhado connosco o seu ponto de vista em relação a doentes na situação do meu pai. Por se ter chegado à frente para operar o meu pai, mesmo que não tivessemos dinheiro para pagar.
Este médico mostrou-nos que ainda há quem pratique medicina com nobreza e honra. O que é uma raridade nos dias que correm.
E este médico fez-me voltar aos meus eternos conflitos emocionais quando penso na situação do meu pai. Porque ele, assim como eu, crê que anes de mexer, antes de operar, um cirurgião deve estar preocupado com o que vai trazer para o paciente e não com as experiências que vai praticar, ou com o dinheiro que vai arrecadar.
Para o meu pai é bom que alguém assim se cruze com ele, mesmo que o tempo que lhe resta seja pouco.
Ele está vivo, eu sei. Mas a que custo? Com que qualidade de vida? com que alegrias?
é absolutamente inacreditável a forma como o conceito de normalidade, de qualidade de vida, tem mudado ao longo destes últimos meses... primeiro ia deixar de falar, depois de comer pela sua boca, depois morrer, depois ia ser alimentado por uma sonda o resto da vida, depois a falsa esperança de voltar a comer.... e agora o estado em que ele está, sem poder ser alimentado... sem poder sair do hospital para passar os últimos tempos da sua vida em casa, junto dos seus.
No meio de tanta desgraça e tristeza, este fim-de-semana cruzou-se no nosso caminho um médico extraordinário. Não falo das suas capacidades de cirurgião, que desconheço, mas das suas qualidades enquanto ser humano. Primeiro prontificou-se a aceitar o meu pai como seu paciente, o que já não é pouco. Todos passam por lá, mas nenhum se chega à frente. Doentes complicados, não, obrigada.
Mas não foi só por isso que este médico, Dr. Fernando Leitão, ficou gravado no coração da minha família. Foi, sobretudo, por se ter dignado a falar connosco, por nos ter dito abertamente o que pensava, por ter partilhado connosco o seu ponto de vista em relação a doentes na situação do meu pai. Por se ter chegado à frente para operar o meu pai, mesmo que não tivessemos dinheiro para pagar.
Este médico mostrou-nos que ainda há quem pratique medicina com nobreza e honra. O que é uma raridade nos dias que correm.
E este médico fez-me voltar aos meus eternos conflitos emocionais quando penso na situação do meu pai. Porque ele, assim como eu, crê que anes de mexer, antes de operar, um cirurgião deve estar preocupado com o que vai trazer para o paciente e não com as experiências que vai praticar, ou com o dinheiro que vai arrecadar.
Para o meu pai é bom que alguém assim se cruze com ele, mesmo que o tempo que lhe resta seja pouco.
quinta-feira, outubro 02, 2008
Infeliz contabilidade
Faz hoje 90 dias que o meu pai regressou à Clínica de Santo António da Reboleira. 90 dias...
ontem, pela primeira vez, não vi vontade de viver no seu olhar. Ele começa a desisitir.
ontem, pela primeira vez, não vi vontade de viver no seu olhar. Ele começa a desisitir.
segunda-feira, setembro 22, 2008
grande título
Não li nem sei se vou ler, mas o título é tão certeiro...
"Más maneiras de sermos bons pais - o futuro aceita pessoas imperfeitas"
Eheheh
"Más maneiras de sermos bons pais - o futuro aceita pessoas imperfeitas"
Eheheh
Neura
Adorava ter tempo para estar com a neura... para não fazer nada, ficar todo o dia sentada no sofá a pensar no dia de ontem e no que quero fazer da minha vida... a pensar nas decisões que tomei e se esta é a vida que quero e mereço...
Mas não tenho tempo: tenho um filho de quatro anos, uma casa para vender, outra para arranjar, um pai doente, uma mãe à beira de um ataque de nervos....
Talvez para o ano tenha tempo.
Talvez decida ficar com a neura durante uns dias... talvez. mas só quando tiver tempo
Mas não tenho tempo: tenho um filho de quatro anos, uma casa para vender, outra para arranjar, um pai doente, uma mãe à beira de um ataque de nervos....
Talvez para o ano tenha tempo.
Talvez decida ficar com a neura durante uns dias... talvez. mas só quando tiver tempo
sexta-feira, setembro 19, 2008
Orgulho de mãe
Foi hoje, durante o pequeno-almoço.
O meu filho escreveu, pela primeir vez, a palavra pai.
E eu senti um grande orgulho de mãe
O meu filho escreveu, pela primeir vez, a palavra pai.
E eu senti um grande orgulho de mãe
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quarta-feira, setembro 17, 2008
Outra vez o meu pai
Tento não estar sempre a falar nele, se bem que me acompanha todos os dias. Puno-me pelo pouco tempo que lhe dedico. Até aqui, caramba! O meu pai continua a lutar. e eu pergunto-me, tantas vezes, para quê. Para quem. Mas ele lá está, naquele aquário (é assim que chamo àquela sala envidraçada), sozinho, triste, desamparado e com muito medo Agora que recuperou intelectualmente e que tem noção mais ou menos exacta de tudo o que aconteceu em Madrid, de como veio bastante pior do que foi, ele sente-se triste e assustado. Eu sei. Está nos seus olhos. Neste momento está tudo tão indefinido... tento ter coragem para acreditar que vai melhorar. E sinto saudades daquele Deus que me acompanhava quando era miúda. Como gostava que ele ainda fizesse parte de mim, das minhas angústias, dos meus medos, das minhas explicações da vida... mas não consigo. E tento, a sério que tento. Entro em igrejas à procura daquela fé antiga, mas não a encontro.
O meu pai anda tão triste. e eu com ele. O meu pai sempre foi um homem amigo do seu amigo, dispoínivel para os outros (às vezes até mais do que para nós). E agora que está doente, agora que está internado e só, os seus amigos, os seus queridos amigos de sempre, deixaram-no ainda mais só. Porque à doença juntou-se a sensação de abandono. Os amigos, com a excepção de um ou outro, não o vão visitar. Sentem-se impressionados, dizem. Que raio de egoísmo é este que uma pessoa, em hora de aflicção pensa mais em si que no amigo doente....?
Penso nisto e fico triste... apetecia-me correr meio mundo à chapada, ao pontapé. Abaná-los... Começo a ficar com a amargura da minha mãe... não me venham com falas mansas um dia que ele se vá, que eu nã sei do que serei capaz.
O meu pai anda tão triste. e eu com ele. O meu pai sempre foi um homem amigo do seu amigo, dispoínivel para os outros (às vezes até mais do que para nós). E agora que está doente, agora que está internado e só, os seus amigos, os seus queridos amigos de sempre, deixaram-no ainda mais só. Porque à doença juntou-se a sensação de abandono. Os amigos, com a excepção de um ou outro, não o vão visitar. Sentem-se impressionados, dizem. Que raio de egoísmo é este que uma pessoa, em hora de aflicção pensa mais em si que no amigo doente....?
Penso nisto e fico triste... apetecia-me correr meio mundo à chapada, ao pontapé. Abaná-los... Começo a ficar com a amargura da minha mãe... não me venham com falas mansas um dia que ele se vá, que eu nã sei do que serei capaz.
Ainda o chichi
Agora é a vez dele. E a verdade é que ele já tem quatro anos, já tem opinião e vontade própria que eu devo respeitar.
"- Mãe, vamos tentar sem fralda esta noite, pode ser?" - pediu-me ele com aquele arzinho de súplica. "Tu acordas e vens-me pôr a fazer chichi, pode ser?".
E assim foi, uma noite a seco mas em que tive de me levantar à meia-noite e o pai às seis da manhã... custa muito, mas ele estava tão feliz hoje de manhã....
Avizinham-se noites difícieis.
"- Mãe, vamos tentar sem fralda esta noite, pode ser?" - pediu-me ele com aquele arzinho de súplica. "Tu acordas e vens-me pôr a fazer chichi, pode ser?".
E assim foi, uma noite a seco mas em que tive de me levantar à meia-noite e o pai às seis da manhã... custa muito, mas ele estava tão feliz hoje de manhã....
Avizinham-se noites difícieis.
segunda-feira, setembro 15, 2008
Obrigada Dr. Brazelton
A minha vida não tem sido fácil. Não é que esteja particularmente infeliz ou com grandes dramas para além dos que já são normais (infelizmente, a doença do meu pai já começa a ter um estranho lado de normalidade). Falo de difícil no sentido de preenchida, na verdade ando quase sem tempo para me coçar. E entre a tentativa de vender a nossa casa, a operação da minha mãe, a doença do meu pai, e as obras da casa nova, deparo-me com um novo problema. O chichi na cama.
Sim, confesso, o meu filho tem feito chichi na cama muitas vezes. Decidi tirar-lhe a fralda. Ele tem quatro anos e é um grande espertalhão em tudo. Vai daí, e levada pelos conselhos alheios, decidi tirar-lhe a fralda. Resultado: mesmo acordando a meio da noite para o por a fazer chichi, a verdade é que encontro a cama molhada pela manhã, umas duas a três vezes por semana.
Comecei a ficar preocupada: 4 anos pareceu-me mais do que a altura certa para ele deixar a fralda à noite. Principalmente porque tirar-lhe a fralda de dia foi muito fácil.
Encontrava-me numa encruzilhada: estava com medo de voltar atrás e voltar a colocar-lhe a fralda à noite (assim ele nunca mais vai deixar a fralda, e isto e aquilo.... diziam-me as vozes sábias) mas, com todo o trabalho que tenho neste momento, estava a ser muito difícil lidar com esta situação de estar sistematicamente a mudar a cama e o pijama.... já me via a deixar o edredão na lavandaria todas as semanas do próximo Inverno....
Até que se fez luz: fui ao escritório procurar o meu livro do Dr. Brazelton, a bíblia das mães que há tanto tempo andava perdida na estante, e senti-me outra mulher. Cada criança tem o seu ritmo. A frase mais lapidar que lá encontrei foi qualquer coisa do género " quando uma criança faz chichi na cama quase sempre a culpa é dos pais". e porquê? Porque insistimos em fazer algo que eles ainda não estão preparados para fazer. Por mais que eu o tente levantar todas as noites para ir à casa de banho, se a bexiga dele não tiver maturidade suficiente ou se os seus ciclos de sono não normalizarem (de modo a que seja capaz de acordar quando tem o sono leve), ele vai continuar a fazer chichi na cama....
O Henrique já sabe o que é uma trivela, come vegetais, usa correctamente termos como desapontado ou excluído, sabe fazer rimas e somas e sabe também escrever o seu nome.... pronto, tenho que admitir que no chichi ele ainda tem um longo caminho a percorrer. Paciência!
Sim, confesso, o meu filho tem feito chichi na cama muitas vezes. Decidi tirar-lhe a fralda. Ele tem quatro anos e é um grande espertalhão em tudo. Vai daí, e levada pelos conselhos alheios, decidi tirar-lhe a fralda. Resultado: mesmo acordando a meio da noite para o por a fazer chichi, a verdade é que encontro a cama molhada pela manhã, umas duas a três vezes por semana.
Comecei a ficar preocupada: 4 anos pareceu-me mais do que a altura certa para ele deixar a fralda à noite. Principalmente porque tirar-lhe a fralda de dia foi muito fácil.
Encontrava-me numa encruzilhada: estava com medo de voltar atrás e voltar a colocar-lhe a fralda à noite (assim ele nunca mais vai deixar a fralda, e isto e aquilo.... diziam-me as vozes sábias) mas, com todo o trabalho que tenho neste momento, estava a ser muito difícil lidar com esta situação de estar sistematicamente a mudar a cama e o pijama.... já me via a deixar o edredão na lavandaria todas as semanas do próximo Inverno....
Até que se fez luz: fui ao escritório procurar o meu livro do Dr. Brazelton, a bíblia das mães que há tanto tempo andava perdida na estante, e senti-me outra mulher. Cada criança tem o seu ritmo. A frase mais lapidar que lá encontrei foi qualquer coisa do género " quando uma criança faz chichi na cama quase sempre a culpa é dos pais". e porquê? Porque insistimos em fazer algo que eles ainda não estão preparados para fazer. Por mais que eu o tente levantar todas as noites para ir à casa de banho, se a bexiga dele não tiver maturidade suficiente ou se os seus ciclos de sono não normalizarem (de modo a que seja capaz de acordar quando tem o sono leve), ele vai continuar a fazer chichi na cama....
O Henrique já sabe o que é uma trivela, come vegetais, usa correctamente termos como desapontado ou excluído, sabe fazer rimas e somas e sabe também escrever o seu nome.... pronto, tenho que admitir que no chichi ele ainda tem um longo caminho a percorrer. Paciência!
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quarta-feira, setembro 03, 2008
tempo
É o que mais me falta. Tempo para mim, para descansar, para olhar o vazio e escutar o silêncio. Em vez disso perco-me em lojas de azulejos e em encontros com empreiteiros e agentes imobiliários...
terça-feira, agosto 05, 2008
perigosa transgressão
VALTER HUGO MÃE
escrevi o teu nome com maiúsculas. E agora, qual vai ser o meu castigo?
escrevi o teu nome com maiúsculas. E agora, qual vai ser o meu castigo?
quarta-feira, julho 30, 2008
Dúvida de mãe
Há algum mal em oferecer ao filho de quatro anos um dvd das Winx?
Se ele gosta das aventuras das fadas que combatem o mal e se identifica com os seus amigos, heróis prontos a salvá-las de qualquer perigo, qual é o problema?
Por que razão o pai olha para mim com ar reprovador?
Eu também jogava à bola e brincava ao berlinde... e nem por isso tive dúvidas em relação à minha orientação sexual
Se ele gosta das aventuras das fadas que combatem o mal e se identifica com os seus amigos, heróis prontos a salvá-las de qualquer perigo, qual é o problema?
Por que razão o pai olha para mim com ar reprovador?
Eu também jogava à bola e brincava ao berlinde... e nem por isso tive dúvidas em relação à minha orientação sexual
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sexta-feira, julho 25, 2008
A Rua
Às vezes penso que metade das birras do Henrique não existiam se ele tivesse tido a mesma sorte que eu: de crescer na rua.
quado eu era miúda não havia medo de raptos, nem de roubos de crianças, nem dvd's, nem jogos de computador, nem computador... nem havia dramas porque o pai e a mãe passavam pouco tempo em casa.
Os meus pais trabalhavam bastante mais do que eu trabalho agora, e por turnos. A única empregada lá da casa era a minha mãe e por isso, desde muito cedo, aprendemos (eu e o meu irmão) que ajudar nas tarefas domésticas era fundamental.
Mas crescemos felizes. E na rua.
Houve palmadas (umas até bem fortes), mas nenhum de nós ficou traumatizado com isso, nem os meus pais foram acusados de abuso de menores.
Houve dificuldades: às vezes o dinheiro não dava para tudo. Não havia gelados todos os dias, nem fiambre do mais caro, nem idas à praia todos os fins-de-semana. Mas havia gelado uma vez por semana (no mínimo) e filete afiambrado (coisa que nunca mais consegui comer, confesso, mas que adorava na altura), e havia manteiga, e lá íamos à praia quando calhava, ou então passeávamos no Jardim do Campo Grande.
E havia a rua, aquele largo rodeado de pequenas casas onde morávamos (nós e os nossos vizinhos). E aquele largo tinha a dimensaão dos nossos sonhos. Ali fui professora, bailarina, princesa, índia... tudo o que quisesse me era permitido porque era precisso muito pouco para que os sonhos se concretizassem. Duas caixas de fruta do Tio Manel, uns papeis, umas canetas e uns livros antigos davam perfeitamente para brincar às escolas. Umas tiras de papel crepe atadas às cordas da roupa, um gravador e meia dúzia de cassetes eram o suficiente para um baile de Santos Populares. E as fogueiras de São João? E os jogos de berlinde? E as escondidas?
E as férias grandes em Marco de Canaveses? às idas ao rio com os meus primos? Mais de 20 miúdos enfiados numa poça de água. Corridas pelos campos... o roubo das uvas, e das cenouras dos vizinhos; brincar às escondidas no meio do milho... acordar com o chiar do carro de bois do Quinzinho... abrir a porta da côrte dos porcos para deixar o vizinho doido de raiva... ir em grupo, todos os netos, com a avó até à capelinha para rezar o terço... ir a pé, 3km, monte acima, para ir à missa de domingo...
Quando olho para trás e vejo a infância que tive, tenho pena de não poder dar nada de parecido ao Henrique. Os miúdos passam os dias enfiados em casa e na escola.
Meia hora no parque já é uma festa, mas mais do que isso não, porque a mãe está cansada, teve uma semana má, sente-se tonta com o calor... que raio de mãe.
A minha, a minha super-mãe, essa, entre um grito e um puxãozito de cabelos (que eu bem merecia), tinha tempo para jogar às cartas, brincar às cantigas, jogar ao sobe e desce. e depois ainda conseguia fazer o jantar, tratar de dois, filhos e de um marido, passar a ferro, limpar a casa e poupar, poupar o máximo que conseguia para que os seus dois filhos pudessem ser e ter o que ela nunca foi nem teve.
E às vezes, no meio desta angústia toda e desta lufa-lufa em que se tornou a minha vida penso se a minha mãe acha que valeu a pena. Se nós (eu e o meu irmão) correspondemos ao que ela tentou fazer de nós.
E penso na rua, naquele largo, naquele espaço mágico onde eu brincava e onde havia lugares-cativos. à porta da menina Maria, mesmo por cima da casota de cimento que tinha construído para o seu cão, era o meu lugar, o meu poiso preferido ali atrás do chafariz. à porta da Morgadinha sentava-se o Xico maluco, vizinho detestáve, espécie de monstro no nosso imaginário. Conquistar aquele lugar era um feito assinalável. Mas para isso era preciso que nos despachássemos cedo...
e a rua volta-me ao pensamento. E penso que o meu filho talvez fosse mais feliz com menos um par de all star ou menos um dvd e mais rua e mais tempo.
quado eu era miúda não havia medo de raptos, nem de roubos de crianças, nem dvd's, nem jogos de computador, nem computador... nem havia dramas porque o pai e a mãe passavam pouco tempo em casa.
Os meus pais trabalhavam bastante mais do que eu trabalho agora, e por turnos. A única empregada lá da casa era a minha mãe e por isso, desde muito cedo, aprendemos (eu e o meu irmão) que ajudar nas tarefas domésticas era fundamental.
Mas crescemos felizes. E na rua.
Houve palmadas (umas até bem fortes), mas nenhum de nós ficou traumatizado com isso, nem os meus pais foram acusados de abuso de menores.
Houve dificuldades: às vezes o dinheiro não dava para tudo. Não havia gelados todos os dias, nem fiambre do mais caro, nem idas à praia todos os fins-de-semana. Mas havia gelado uma vez por semana (no mínimo) e filete afiambrado (coisa que nunca mais consegui comer, confesso, mas que adorava na altura), e havia manteiga, e lá íamos à praia quando calhava, ou então passeávamos no Jardim do Campo Grande.
E havia a rua, aquele largo rodeado de pequenas casas onde morávamos (nós e os nossos vizinhos). E aquele largo tinha a dimensaão dos nossos sonhos. Ali fui professora, bailarina, princesa, índia... tudo o que quisesse me era permitido porque era precisso muito pouco para que os sonhos se concretizassem. Duas caixas de fruta do Tio Manel, uns papeis, umas canetas e uns livros antigos davam perfeitamente para brincar às escolas. Umas tiras de papel crepe atadas às cordas da roupa, um gravador e meia dúzia de cassetes eram o suficiente para um baile de Santos Populares. E as fogueiras de São João? E os jogos de berlinde? E as escondidas?
E as férias grandes em Marco de Canaveses? às idas ao rio com os meus primos? Mais de 20 miúdos enfiados numa poça de água. Corridas pelos campos... o roubo das uvas, e das cenouras dos vizinhos; brincar às escondidas no meio do milho... acordar com o chiar do carro de bois do Quinzinho... abrir a porta da côrte dos porcos para deixar o vizinho doido de raiva... ir em grupo, todos os netos, com a avó até à capelinha para rezar o terço... ir a pé, 3km, monte acima, para ir à missa de domingo...
Quando olho para trás e vejo a infância que tive, tenho pena de não poder dar nada de parecido ao Henrique. Os miúdos passam os dias enfiados em casa e na escola.
Meia hora no parque já é uma festa, mas mais do que isso não, porque a mãe está cansada, teve uma semana má, sente-se tonta com o calor... que raio de mãe.
A minha, a minha super-mãe, essa, entre um grito e um puxãozito de cabelos (que eu bem merecia), tinha tempo para jogar às cartas, brincar às cantigas, jogar ao sobe e desce. e depois ainda conseguia fazer o jantar, tratar de dois, filhos e de um marido, passar a ferro, limpar a casa e poupar, poupar o máximo que conseguia para que os seus dois filhos pudessem ser e ter o que ela nunca foi nem teve.
E às vezes, no meio desta angústia toda e desta lufa-lufa em que se tornou a minha vida penso se a minha mãe acha que valeu a pena. Se nós (eu e o meu irmão) correspondemos ao que ela tentou fazer de nós.
E penso na rua, naquele largo, naquele espaço mágico onde eu brincava e onde havia lugares-cativos. à porta da menina Maria, mesmo por cima da casota de cimento que tinha construído para o seu cão, era o meu lugar, o meu poiso preferido ali atrás do chafariz. à porta da Morgadinha sentava-se o Xico maluco, vizinho detestáve, espécie de monstro no nosso imaginário. Conquistar aquele lugar era um feito assinalável. Mas para isso era preciso que nos despachássemos cedo...
e a rua volta-me ao pensamento. E penso que o meu filho talvez fosse mais feliz com menos um par de all star ou menos um dvd e mais rua e mais tempo.
Famous Blue Rain Coat
Its four in the morning,
the end of December
I'm writing you now just to see if you're better
New York is cold, but I like where I'm living
There's music on Clinton street all through the evening.
I hear that you're building
your little house
deep in the desert
You're living for nothing now,
I hope you're keeping some kind of record.
Yes, and Jane came by with a lock of your hair
She said that you gave it to her
That night that you planned to go clear
Did you ever go clear?
Ah, the last time we saw you
you looked so much older
Your famous blue raincoat was torn at the shoulder
You'd been to the station
to meet every train
And you came home without lili marlene
And you treated my woman
to a flake of your life
And when she came back
she was nobodys wife.
Well I see you
there with the rose in your teeth
One more thin gypsy thief
Well I see jane's awake --
She sends her regards.
And what can I tell you
my brother, my killer
What can I possibly say?
I guess that I miss you,
I guess I forgive you
I'm glad you stood in my way.
If you ever come by here,
for jane or for me
Your enemy is sleeping,
and his woman is free.
Yes, and thanks,
for the trouble you took from her eyes
I thought it was there for good so I never tried.
And jane came by with a lock of your hair
She said that you gave it to her
That night that you planned to go clear
Sincerely Your
L Cohen.
O mundo também é isto.
E ainda bem
the end of December
I'm writing you now just to see if you're better
New York is cold, but I like where I'm living
There's music on Clinton street all through the evening.
I hear that you're building
your little house
deep in the desert
You're living for nothing now,
I hope you're keeping some kind of record.
Yes, and Jane came by with a lock of your hair
She said that you gave it to her
That night that you planned to go clear
Did you ever go clear?
Ah, the last time we saw you
you looked so much older
Your famous blue raincoat was torn at the shoulder
You'd been to the station
to meet every train
And you came home without lili marlene
And you treated my woman
to a flake of your life
And when she came back
she was nobodys wife.
Well I see you
there with the rose in your teeth
One more thin gypsy thief
Well I see jane's awake --
She sends her regards.
And what can I tell you
my brother, my killer
What can I possibly say?
I guess that I miss you,
I guess I forgive you
I'm glad you stood in my way.
If you ever come by here,
for jane or for me
Your enemy is sleeping,
and his woman is free.
Yes, and thanks,
for the trouble you took from her eyes
I thought it was there for good so I never tried.
And jane came by with a lock of your hair
She said that you gave it to her
That night that you planned to go clear
Sincerely Your
L Cohen.
O mundo também é isto.
E ainda bem
Grande momento do dia
Vou pedir desculpa à mãe, mas só depois do pequeno-almoço.
A mãe precisa de tempo para desculpar
A mãe precisa de tempo para desculpar
O meu concerto
Já lá vai quase uma semana, mas ainda não tinha tido tempo, nem oportunidade de aqui deixar as minhas impressões sobre o meu concerto. Não que eu tenha decidido embarcar numa carreira artística. Nada disso.
Falo do meu concerto no sentido de ser o concerto da minha vida.
Leonard Cohen.
Acho que é o meu lado antigo que se prende às canções deste poeta/compositor/intérprete. Como se uma parte de mim fosse antiga muito antes de eu o poder ser. Aos 15 anos já me fechava no quarto a ouvir "Dance me through the end of love".
No sábado à noite, quando estava a chegar ao passeio marítimo de Algés (local estranho para um concerto deste género), foram os acordes desta música que me fizeram correr como uma adolescente com medo de não poder ver e sentir tudo. E foi um concerto de sensações. Senti-me tão bem; fora de mim mesma, dos meus problemas... foram três horas de puro encanto, de partilha e também de respeito. Faz bem ver e ouvir alguém que tem respeito e admiração pelo seu público.
Falo do meu concerto no sentido de ser o concerto da minha vida.
Leonard Cohen.
Acho que é o meu lado antigo que se prende às canções deste poeta/compositor/intérprete. Como se uma parte de mim fosse antiga muito antes de eu o poder ser. Aos 15 anos já me fechava no quarto a ouvir "Dance me through the end of love".
No sábado à noite, quando estava a chegar ao passeio marítimo de Algés (local estranho para um concerto deste género), foram os acordes desta música que me fizeram correr como uma adolescente com medo de não poder ver e sentir tudo. E foi um concerto de sensações. Senti-me tão bem; fora de mim mesma, dos meus problemas... foram três horas de puro encanto, de partilha e também de respeito. Faz bem ver e ouvir alguém que tem respeito e admiração pelo seu público.
Voltámos às grandes birras
Assim, sem aviso, o Henrique decidiu acordar o monstro que vive dentro dele. E o monstro estava mesmo com vontade se ser solto... tem sido cada birra. Daquelas de me deixar à beira de um ataque de nervos e muito próxima do meu limite.
Tento perceber o porquê do comportamento dele. Na escola está tudo bem, meigo, doce, bem-disposto. Em casa é que a coisa se complica e quase sempre comigo. Nem palmada, nem castigo, nem conversa, nada resulta... Sinto-me impotente e sem forças para resolver esta situação.
P-A-C-I-E-N-C-I-A, preciso de muita. Alguém sabe onde se vende?
Tento perceber o porquê do comportamento dele. Na escola está tudo bem, meigo, doce, bem-disposto. Em casa é que a coisa se complica e quase sempre comigo. Nem palmada, nem castigo, nem conversa, nada resulta... Sinto-me impotente e sem forças para resolver esta situação.
P-A-C-I-E-N-C-I-A, preciso de muita. Alguém sabe onde se vende?
terça-feira, julho 22, 2008
Não é facil
Mas tento afincadamente não enterrar a cabeça na areia e viver cada dia com um bocadinho de esperança e alegria... nem que seja só uma racha, fina, lá ao longe.
terça-feira, julho 15, 2008
O que eu aprendi com o Panda do Kung Fu
"O passado já foi, o presente é uma dávida. É por isso que se chama presente".
Bonito, não? Mesmo que tenha saído da boca de uma tartaruga que é mestre de kung fu.
Bonito, não? Mesmo que tenha saído da boca de uma tartaruga que é mestre de kung fu.
terça-feira, julho 08, 2008
Homenagem a António Pina
Cheguei de uma semana de férias no dia 3 de Julho e, logo no aeroporto, a notícia chegou-me como uma bomba. Uma mensagem no telemóvel dizia que o Dr. António Pina, o cirurugião que me operou, tinha falecido.
Fiquei devastada. Não só porque me sinto orfã, de um grande cirurgião, de um companheiro, de um grande homem, mas também porque ele próprio deixa 5 filhos, todos muito pequenos.
O Dr. Pina foi das pessoas mais fabulosas que conheci no decorrer da minha doença. Um médico excepcional e um Homem íntegro e honesto. Nunca me faltou à verdade, sempre me disse exactamente o que se estava a passar comigo e sempre teve uma palavra mais amiga ou um sorriso mais cúmplice quando eu mais precisei.
Ainda não percebi muito bem as causas da sua morte. Dizem-me que foi um AVC provocado por uma doença súbita no sangue.
Porque foi uma pessoa determinante na minha recuperação, porque era um ser humano extraordinário, deixo-lhe aqui a minha homenagem.
Obrigada, Dr. Pina.
Fiquei devastada. Não só porque me sinto orfã, de um grande cirurgião, de um companheiro, de um grande homem, mas também porque ele próprio deixa 5 filhos, todos muito pequenos.
O Dr. Pina foi das pessoas mais fabulosas que conheci no decorrer da minha doença. Um médico excepcional e um Homem íntegro e honesto. Nunca me faltou à verdade, sempre me disse exactamente o que se estava a passar comigo e sempre teve uma palavra mais amiga ou um sorriso mais cúmplice quando eu mais precisei.
Ainda não percebi muito bem as causas da sua morte. Dizem-me que foi um AVC provocado por uma doença súbita no sangue.
Porque foi uma pessoa determinante na minha recuperação, porque era um ser humano extraordinário, deixo-lhe aqui a minha homenagem.
Obrigada, Dr. Pina.
segunda-feira, julho 07, 2008
O que dizer?
Olho para o que aqui escrevi da última vez e nem sei o que sinto... raiva, tristeza, angústia, desespero, descrença...
Depois das melhoras iniciais o meu pai começou a piorar.. febre, inchaço... voltou aos cuidados intensivos e, mais uma vez, para morrer.
O médico que o operou sempre a dizer que ele estava estável. A minha mãe, no entanto, via-o mirrar de dia para dia e todos os outros médicos lhe diziam que o meu pai estava muito mal.
Da última vez que o meu pai falou com a minha mãe disse-lhe que não queria ficar em Espanha, adivinhado já a sua morte. Uma septicemai....
Uma vez mais a família entrou em acção: trouxemo-lo para Portugal, onde chegou na sexta-feira à noite.
E qual não foi o nosso espanto quando nos disseram que o meu pai tinha três feridas (escaras, úlceras, chamem-lhe o que quiserem) de maus cuidados de enfermagem (nunca o viraram ou limparam apesar de estar numa unidade de cuidados intensivos) e quando, depois de lhe destaparem o penso da operação, nos terem dito que a cirurgia não tnha corrido tão bem como tinham dito... neste momento, voltámos à estaca zero. O meu pai está novamente numa unidade de cuidados intensivos em isolamento, pior do que alguma vez esteve. Não sabemos o que dará para aproveitar da cirurgia que fez (se é que se pode aproveitar alguma coisa) e com esta brincadeira, gastámos 15 mil contos. Nós que não somos uma família rica, apenas uma família unida.
E o que dizer ou fazer perante isto? Tudo o que pode correr mal com o meu pai corre e tudo o que poderia correr bem, não corre.
E no meio disto tudo pergunto-me muitas vezes porque é que ele simplesmente não se deixa ir, não deixa de lutar por uma vida tão reles.
Depois das melhoras iniciais o meu pai começou a piorar.. febre, inchaço... voltou aos cuidados intensivos e, mais uma vez, para morrer.
O médico que o operou sempre a dizer que ele estava estável. A minha mãe, no entanto, via-o mirrar de dia para dia e todos os outros médicos lhe diziam que o meu pai estava muito mal.
Da última vez que o meu pai falou com a minha mãe disse-lhe que não queria ficar em Espanha, adivinhado já a sua morte. Uma septicemai....
Uma vez mais a família entrou em acção: trouxemo-lo para Portugal, onde chegou na sexta-feira à noite.
E qual não foi o nosso espanto quando nos disseram que o meu pai tinha três feridas (escaras, úlceras, chamem-lhe o que quiserem) de maus cuidados de enfermagem (nunca o viraram ou limparam apesar de estar numa unidade de cuidados intensivos) e quando, depois de lhe destaparem o penso da operação, nos terem dito que a cirurgia não tnha corrido tão bem como tinham dito... neste momento, voltámos à estaca zero. O meu pai está novamente numa unidade de cuidados intensivos em isolamento, pior do que alguma vez esteve. Não sabemos o que dará para aproveitar da cirurgia que fez (se é que se pode aproveitar alguma coisa) e com esta brincadeira, gastámos 15 mil contos. Nós que não somos uma família rica, apenas uma família unida.
E o que dizer ou fazer perante isto? Tudo o que pode correr mal com o meu pai corre e tudo o que poderia correr bem, não corre.
E no meio disto tudo pergunto-me muitas vezes porque é que ele simplesmente não se deixa ir, não deixa de lutar por uma vida tão reles.
terça-feira, junho 24, 2008
Mais um passo
Gigante, para nós. O meu pai já saiu dos cuidados intensivos. Até já levou um ralhete da minha mãe....
segunda-feira, junho 23, 2008
Insensibilidade... ou deveria dizer estupidez natural?
Que raio se passa com as pessoas que vêem uma mãe com uma criança ao colo a arder em febre, às dez da noite, à porta de uma farmácia e olham para o lado como se nada fosse? Dar a vez?????
Passo a passo
A recuperação é lenta, mas está a contecer. Na próxima quinta-feira voltará a ser operado, para fazer o enxcerto de pele... mais um mês e estará na sua casa...
sábado, junho 21, 2008
Despertar
Escrevo hoje com um novo ânimo.
Sonhei que estava a comer caracóis com o meu pai... ele adora. Este sonho de o ver comer o que ele gosta foi de tal forma real que me senti iluminada por uma nova esperança.
Hoje a minha mãe ligou e, pela primeira vez, ouvi-lhe um sorriso. O cirurgião que operou o meu pai trouxe boas notícias. A recuperação está a ser lenta, mas dentro do esperado "Estoy muy feliz por D. Antonio", disse ele. Os drenos lá continuam com muito líquido verde, mas está tudo explicado (bílis...e não ua infecção grave), o ventilador já lhe foi retirado e já abriu um olho. Amanhã deverá estar acordado porque começaram hoje a retirar a sedação.
Segunda-feira ou quinta, de acordo com a evolução deste quadro, voltará a ser operado, para colocar a pele do ombro no pescoço.
Um milímetro em cada dia... o estado dele continua a ser grave, mas dentro do que é normal numa cirurgia como esta, raríssima em todo o mundo.
Obrigada pelas palavras de conforto. Têm sido muito importantes.
Sonhei que estava a comer caracóis com o meu pai... ele adora. Este sonho de o ver comer o que ele gosta foi de tal forma real que me senti iluminada por uma nova esperança.
Hoje a minha mãe ligou e, pela primeira vez, ouvi-lhe um sorriso. O cirurgião que operou o meu pai trouxe boas notícias. A recuperação está a ser lenta, mas dentro do esperado "Estoy muy feliz por D. Antonio", disse ele. Os drenos lá continuam com muito líquido verde, mas está tudo explicado (bílis...e não ua infecção grave), o ventilador já lhe foi retirado e já abriu um olho. Amanhã deverá estar acordado porque começaram hoje a retirar a sedação.
Segunda-feira ou quinta, de acordo com a evolução deste quadro, voltará a ser operado, para colocar a pele do ombro no pescoço.
Um milímetro em cada dia... o estado dele continua a ser grave, mas dentro do que é normal numa cirurgia como esta, raríssima em todo o mundo.
Obrigada pelas palavras de conforto. Têm sido muito importantes.
sexta-feira, junho 20, 2008
Más notícias
Muito líquido a sair dos drenos... foi esta a notícia que a minha mãe me deu. Não é boa, porque significa que ele tem uma infecção e a tão desejada cicatrização está atrasada... já chorei tudo o que tinha para chorar, já dei voltas à cabeça para tentar encontrar algo a que me agarrar. Resta-nos aguardar... e a minha mãe lá, sozinha.
Amanhã espero ter mais notícias com a ida do meu irmão.
Amanhã espero ter mais notícias com a ida do meu irmão.
quinta-feira, junho 19, 2008
relógio parado
É assim que sinto o tempo... parado. Cada minuto que passa parece-me séculos. Cada hora, cada dia... apetecia-me acelerar até ao futuro.
Novas de um lutador
As novidades nem são muitas, mas ele é mesmo um lutador.
O meu pai continua nos cuidados intensivos e sob o efeito de sedação. Dizem os médicos que é o procedimento normal numa situação como esta, tão delicada. Tê-lo a dormir é apenas uma forma de assegurar que não tem dores e que não se mexe o que, segundo eles, poderia estragar tudo.
Imagino a minha mãe, todo o dia naquele quarto de hospital, sozinha, a esperar pelas duas visitas permitidas, momentos em que o contempla em silêncio e sem qualquer reacção da parte dele.
Não sei quanto mais tempo ele irá permanecer a dormir. Estou longe, não posso correr atrás de um médico pelo corredor a implorar novidades... e ela, coitada, mal consegue entender o que lhe dizem.
Mas estamos com fé. Ele continua estável e a lutar!
O meu pai continua nos cuidados intensivos e sob o efeito de sedação. Dizem os médicos que é o procedimento normal numa situação como esta, tão delicada. Tê-lo a dormir é apenas uma forma de assegurar que não tem dores e que não se mexe o que, segundo eles, poderia estragar tudo.
Imagino a minha mãe, todo o dia naquele quarto de hospital, sozinha, a esperar pelas duas visitas permitidas, momentos em que o contempla em silêncio e sem qualquer reacção da parte dele.
Não sei quanto mais tempo ele irá permanecer a dormir. Estou longe, não posso correr atrás de um médico pelo corredor a implorar novidades... e ela, coitada, mal consegue entender o que lhe dizem.
Mas estamos com fé. Ele continua estável e a lutar!
quarta-feira, junho 18, 2008
Primeira etapa superada
A cirurgia correu bem. Não foi completa, ainda falta fechar a ferida que tem no pescoço com pele retirada do ombro. Mas a cirurgia mais complicada já acabou, depois de sete longas horas de espera. Superada a primeira etapa, ainda nos faltam muitas... uma hora de cada vez. Devagar... devagarinho.
terça-feira, junho 17, 2008
Eu e os meus muitos bebés
a minha crónica da Pais & Filhos de Dezembro. tinha prometido colocá-las a todas aqui e esqueci-me....
Se esta frase fosse verdadeira, eu teria vários filhos, parte importante dos meus planos de vida em família. Não é que me visse rodeada de cinco ou seis crianças, mas sempre pensei que o Henrique seria o primeiro de dois ou três. O que acabou por não acontecer.
A minha ansiedade/angústia por não poder ter mais filhos é cíclica. Deixou de ser uma obsessão mas, em determinados momentos, dou por mim a pensar que não voltarei a ter a mão sobre a barriga para sentir um bebé mexer.
Há poucas semanas uns amigos devolveram-me roupinhas de bebé do Henrique que eu lhes tinha emprestado para o seu Tiago, agora um valente bebé de seis meses. E ali, a olhar para todos os mimos (e foram muitos) que comprei para o meu primeiro bebé, fiquei triste, a pensar o óbvio: que não teria outro filho a usar aquelas delícias.
Enquanto estava grávida do Henrique fui ao Brasil e, devo confessar, que não me contive: fartei-me de comprar roupa de bebé, pequenas meias, sapatinhos, calções de banho, t-shirts, calções… um sem fim de pequeníssimas peças de roupa que todos os meus filhos usariam.
Quando o Henrique tinha oito meses e me foi diagnosticado cancro, uma das minhas principais preocupações não era a minha morte, tal era o meu grau de inconsciência. O que eu queria assegurar era que, se tivesse de fazer quimioterapia e radioterapia, as mesmas não me impedissem de voltar a ser mãe. Ou seja, eu pensava que a gravidez em si não seria um risco; o máximo que me poderia acontecer era não conseguir engravidar devido aos tratamentos. E arrastei para esta insanidade momentânea a minha querida ginecologista, a quem me lembro de ter telefonado várias vezes a pedir conselhos. Isto antes de saber tudo sobre a minha doença e a sua gravidade. E ela, a minha Alice (é assim que a trato), certamente ciente de todos os riscos que eu corria e da mais que certa impossibilidade de eu voltar a ser mãe, nunca deixou de me atender o telefone, de me dar os contactos dos seus colegas da Infertilidade. E acabei por desistir da ideia de “congelar” óvulos mais pela sua inviabilidade que pela minha noção do que se estava e estaria a passar.
O meu primeiro contacto com essa dura realidade teve lugar numa das minhas primeiras consultas de Oncologia. O médico, que em termos de simpatia e relações humanas deixava muito a desejar, olhou para mim como um burro para um palácio quando lhe perguntei se poderia voltar a ter filhos. “Concentre-se em continuar viva. Quer dois filhos para quê? Para não estar cá para os criar?” Aquelas palavras deixaram-me estupefacta. Hoje percebo-as de outra forma, entendo até o que aquele médico me queria transmitir. Mas naquela altura, em que eu estava tão vulnerável, depois de uma operação tão violenta e sem saber que mais tratamentos se seguiriam, tudo me pareceu de uma frieza brutal.
Tecnicamente posso engravidar. A quimioterapia não me deixou estéril. Mas aqui a técnica só pode ficar no plano das hipóteses e suposições. A verdade é que há um risco grande de voltar a ficar doente se engravidar. Não tenho dados estatísticos, mas sei que esse risco existe e é real. E cabe-me a mim decidir se vale a pena o risco.
Eu adoraria voltar a estar grávida. Foi uma das melhores fases da minha vida. Sentir a barriga crescer, sentir o Henrique mexer, foi mesmo fantástico e único. Mas percebo o que aquele médico queria dizer. Eu não estou livre de voltar a ficar doente, com uma gravidez esse risco aumenta consideravelmente, porque tudo cresce no nosso organismo, tudo se altera. E será que vale a pena arriscar ter outro filho? Para já penso que não.
São várias as pessoas que me falam de adopção. Que tirar uma criança de uma instituição é algo de nobre e, que se tenho tanto amor para dar, posso perfeitamente adoptar uma criança. Também é verdade. Mas parte do risco mantem-se. Tento explicar que, primeiro, eu gostaria muito da experiência física da maternidade, de estar grávida. Segundo, o risco de ficar doente mesmo não voltando a engravidar ainda é real e não é assim tão longínquo como eu gostaria. Por isso, adoptar uma criança, retirá-la de uma instituição, de um ambiente e de um passado difíceis para a colocar perante uma hipótese de orfandade, é algo que me atormenta. Claro que todos nós corremos o risco de morrer, mas quer queira quer não, uns correm mais riscos que outros.
Mas, felizmente, a minha vida é preenchida com outras crianças. As das minhas amigas, aquelas pessoas especiais que nunca me deixaram enquanto estive doente. E, pelas últimas notícias, mais bebés se vêm juntar a minha lista de preferidos. Vejamos, o Martim nasce em Dezembro, a Madalena em Fevereiro (se for mesmo uma querida escolhe o dia do meu aniversário para visitar este mundo), e mais quatro chegarão até ao Verão. Alguns deles ainda sem nome, outros até desconheço o sexo.
E aqui me vejo, rodeada das roupas de bebé do Henrique, a separar por montinhos para poder emprestar a todos, cheia de vontade de tricotar mantinhas e bordar fraldas. E sinto-me mais preenchida e feliz. Já que não posso ser mãe. Serei uma grande tia! Dos meus outros bebés.
Se esta frase fosse verdadeira, eu teria vários filhos, parte importante dos meus planos de vida em família. Não é que me visse rodeada de cinco ou seis crianças, mas sempre pensei que o Henrique seria o primeiro de dois ou três. O que acabou por não acontecer.
A minha ansiedade/angústia por não poder ter mais filhos é cíclica. Deixou de ser uma obsessão mas, em determinados momentos, dou por mim a pensar que não voltarei a ter a mão sobre a barriga para sentir um bebé mexer.
Há poucas semanas uns amigos devolveram-me roupinhas de bebé do Henrique que eu lhes tinha emprestado para o seu Tiago, agora um valente bebé de seis meses. E ali, a olhar para todos os mimos (e foram muitos) que comprei para o meu primeiro bebé, fiquei triste, a pensar o óbvio: que não teria outro filho a usar aquelas delícias.
Enquanto estava grávida do Henrique fui ao Brasil e, devo confessar, que não me contive: fartei-me de comprar roupa de bebé, pequenas meias, sapatinhos, calções de banho, t-shirts, calções… um sem fim de pequeníssimas peças de roupa que todos os meus filhos usariam.
Quando o Henrique tinha oito meses e me foi diagnosticado cancro, uma das minhas principais preocupações não era a minha morte, tal era o meu grau de inconsciência. O que eu queria assegurar era que, se tivesse de fazer quimioterapia e radioterapia, as mesmas não me impedissem de voltar a ser mãe. Ou seja, eu pensava que a gravidez em si não seria um risco; o máximo que me poderia acontecer era não conseguir engravidar devido aos tratamentos. E arrastei para esta insanidade momentânea a minha querida ginecologista, a quem me lembro de ter telefonado várias vezes a pedir conselhos. Isto antes de saber tudo sobre a minha doença e a sua gravidade. E ela, a minha Alice (é assim que a trato), certamente ciente de todos os riscos que eu corria e da mais que certa impossibilidade de eu voltar a ser mãe, nunca deixou de me atender o telefone, de me dar os contactos dos seus colegas da Infertilidade. E acabei por desistir da ideia de “congelar” óvulos mais pela sua inviabilidade que pela minha noção do que se estava e estaria a passar.
O meu primeiro contacto com essa dura realidade teve lugar numa das minhas primeiras consultas de Oncologia. O médico, que em termos de simpatia e relações humanas deixava muito a desejar, olhou para mim como um burro para um palácio quando lhe perguntei se poderia voltar a ter filhos. “Concentre-se em continuar viva. Quer dois filhos para quê? Para não estar cá para os criar?” Aquelas palavras deixaram-me estupefacta. Hoje percebo-as de outra forma, entendo até o que aquele médico me queria transmitir. Mas naquela altura, em que eu estava tão vulnerável, depois de uma operação tão violenta e sem saber que mais tratamentos se seguiriam, tudo me pareceu de uma frieza brutal.
Tecnicamente posso engravidar. A quimioterapia não me deixou estéril. Mas aqui a técnica só pode ficar no plano das hipóteses e suposições. A verdade é que há um risco grande de voltar a ficar doente se engravidar. Não tenho dados estatísticos, mas sei que esse risco existe e é real. E cabe-me a mim decidir se vale a pena o risco.
Eu adoraria voltar a estar grávida. Foi uma das melhores fases da minha vida. Sentir a barriga crescer, sentir o Henrique mexer, foi mesmo fantástico e único. Mas percebo o que aquele médico queria dizer. Eu não estou livre de voltar a ficar doente, com uma gravidez esse risco aumenta consideravelmente, porque tudo cresce no nosso organismo, tudo se altera. E será que vale a pena arriscar ter outro filho? Para já penso que não.
São várias as pessoas que me falam de adopção. Que tirar uma criança de uma instituição é algo de nobre e, que se tenho tanto amor para dar, posso perfeitamente adoptar uma criança. Também é verdade. Mas parte do risco mantem-se. Tento explicar que, primeiro, eu gostaria muito da experiência física da maternidade, de estar grávida. Segundo, o risco de ficar doente mesmo não voltando a engravidar ainda é real e não é assim tão longínquo como eu gostaria. Por isso, adoptar uma criança, retirá-la de uma instituição, de um ambiente e de um passado difíceis para a colocar perante uma hipótese de orfandade, é algo que me atormenta. Claro que todos nós corremos o risco de morrer, mas quer queira quer não, uns correm mais riscos que outros.
Mas, felizmente, a minha vida é preenchida com outras crianças. As das minhas amigas, aquelas pessoas especiais que nunca me deixaram enquanto estive doente. E, pelas últimas notícias, mais bebés se vêm juntar a minha lista de preferidos. Vejamos, o Martim nasce em Dezembro, a Madalena em Fevereiro (se for mesmo uma querida escolhe o dia do meu aniversário para visitar este mundo), e mais quatro chegarão até ao Verão. Alguns deles ainda sem nome, outros até desconheço o sexo.
E aqui me vejo, rodeada das roupas de bebé do Henrique, a separar por montinhos para poder emprestar a todos, cheia de vontade de tricotar mantinhas e bordar fraldas. E sinto-me mais preenchida e feliz. Já que não posso ser mãe. Serei uma grande tia! Dos meus outros bebés.
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pais Filhos
à espera
Já lá vão quatro horas e meia... o meu pai continua naquela sala de operações lá longe onde a minha vista não o consegue alcançar. Nem a ele nem à minha mãe, sozinha naquele hospital imenso, num país que não é o seu e onde mal percebe quem a rodeia. Fico preocupada, na realidade, mais por mim (que fico ansiosa e lhe ligo de vinte em vinte minutos) do que por ela. Porque a minha mãe vence a adversidade da língua com o poder da sua bondade e do seu amor. Deviam vê-la este fim-de-semana, enquanto lá estive, a apresentar-me as suas novas amigas, enfermeiras, auxiliares, mulheres que viram no seu rosto o amor incondicional a um companheiro, a dureza de uma vida com muito sofrimento e um coração imenso capaz de, mesmo triste, dar um carinho a quem mais precisa.
Chegámos a meio da operação. As últimas notícias que temos são das 20h. A operação estava a decorrer com normalidade. Normalidade... palavra estranha no vocabulário do meu pai, um homem a quem falta quase tudo... palavra estranha para descrever uma cirurgia tão arriscada.
Faltam, pelo menos, mais quatro horas. Esta fase inicial de angústia só terminará no momento, madrugada dentro, em que a minha mãe telefeonar a dizer que tudo correu bem. E eu acredito que tudo vai correr bem, que ele vai superar esta etapa... ele a quem deram como morto há mais de um ano. Se nessa altura ele acordou também o irá fazer agora.
E deito-me com a certeza que o telefone vai tocar, madrugada dentro, para nos dizer que o nosso amor, a nossa corrente de energia, o trouxe de volta mais completo.
Chegámos a meio da operação. As últimas notícias que temos são das 20h. A operação estava a decorrer com normalidade. Normalidade... palavra estranha no vocabulário do meu pai, um homem a quem falta quase tudo... palavra estranha para descrever uma cirurgia tão arriscada.
Faltam, pelo menos, mais quatro horas. Esta fase inicial de angústia só terminará no momento, madrugada dentro, em que a minha mãe telefeonar a dizer que tudo correu bem. E eu acredito que tudo vai correr bem, que ele vai superar esta etapa... ele a quem deram como morto há mais de um ano. Se nessa altura ele acordou também o irá fazer agora.
E deito-me com a certeza que o telefone vai tocar, madrugada dentro, para nos dizer que o nosso amor, a nossa corrente de energia, o trouxe de volta mais completo.
corrente
São seis da tarde. O meu pai está a ser operado. Eu, que há muito perdi a fé numa força Divina, não perdi a que tenho nos meus amigos. Peço-vos, por isso, que esta noite, antes de irem dormir, pensem no meu pai e lhe dediquem 3 segundos de esperança e alegria.
Obrigada
Obrigada
O que eu sinto...
O que eu sinto é um fogo que me consome as entranhas... uma dor e uma ansiedade sem igual.
De meia em meia hora dou por mim a ligar à minha mãe para saber novidades. que novidades? Ainda nem sequer foi levado para a sala de operações. ..
A minha primeira angústia é essa, a de ter a certeza que ele sempre é operado hoje; de que não vai voltar a haver um adiamento...seria insuportável para ele.
a minha outra angústia, a maior, é saber se isto é o início de algo melhor ou o fim de tudo. Por mais que não queira considerar essa hipótese, por mais voltas que dê à cabeça, a verdade é que o meu pai pode morrer nesta operação, lá longe num país estranho, onde está sem os seus dois filhos.
Sinto-me como se tivesse tapado o nariz para suspender a respiração antes de um grande mergulho.
De meia em meia hora dou por mim a ligar à minha mãe para saber novidades. que novidades? Ainda nem sequer foi levado para a sala de operações. ..
A minha primeira angústia é essa, a de ter a certeza que ele sempre é operado hoje; de que não vai voltar a haver um adiamento...seria insuportável para ele.
a minha outra angústia, a maior, é saber se isto é o início de algo melhor ou o fim de tudo. Por mais que não queira considerar essa hipótese, por mais voltas que dê à cabeça, a verdade é que o meu pai pode morrer nesta operação, lá longe num país estranho, onde está sem os seus dois filhos.
Sinto-me como se tivesse tapado o nariz para suspender a respiração antes de um grande mergulho.
sábado, junho 14, 2008
espera
Afinal ainda não é hoje.
Escrevo de Madrid. Estou sentada ao lado do meu pai. Estamos os dois ansiosos. Ele diz que sente o coração num bolo, tudo misturado. Eu, por um lado, sinto-me feliz com a oportunidade de o rever antes de ser operado mas, por outro, gostaria que tudo se despachasse mais rapidamente. Houve um contratempo com uma das outras operações de ontem, o que obrigou a adiar a nossa. Estamos em espera... como o equilibrista. Parados no meio do fio... tudo vai correr bem. Mas temos de esperar até terça.
Escrevo de Madrid. Estou sentada ao lado do meu pai. Estamos os dois ansiosos. Ele diz que sente o coração num bolo, tudo misturado. Eu, por um lado, sinto-me feliz com a oportunidade de o rever antes de ser operado mas, por outro, gostaria que tudo se despachasse mais rapidamente. Houve um contratempo com uma das outras operações de ontem, o que obrigou a adiar a nossa. Estamos em espera... como o equilibrista. Parados no meio do fio... tudo vai correr bem. Mas temos de esperar até terça.
sexta-feira, junho 13, 2008
Fé?
Dou por mim com fé... não por mim, pelo meu pai.
Dentro de horas vai ser operado. Não sei bem se ainda durante esta noite ou amanhã de manhã.
Depois de tantos azares esperamos que esta operação, tão arriscada, lhe traga uma nova vida.
Dentro de horas vai ser operado. Não sei bem se ainda durante esta noite ou amanhã de manhã.
Depois de tantos azares esperamos que esta operação, tão arriscada, lhe traga uma nova vida.
domingo, junho 08, 2008
Ansiedade
O meu pai vai amanhã para Madrid a mais uma consulta.
E vai sem regresso marcado. Talvez fique para fazer exames e, quem sabe, ser operado. Tudo depende do que o médico lhe disser amanhã ao fim da tarde... estamos todos numa grande ansiedade... hoje, quando se despediu do meu filho vi, nos seus olhos molhados de emoção, o temor de não voltar a ver o neto... amanhã, por esta hora, espero ter novidades.
E vai sem regresso marcado. Talvez fique para fazer exames e, quem sabe, ser operado. Tudo depende do que o médico lhe disser amanhã ao fim da tarde... estamos todos numa grande ansiedade... hoje, quando se despediu do meu filho vi, nos seus olhos molhados de emoção, o temor de não voltar a ver o neto... amanhã, por esta hora, espero ter novidades.
terça-feira, junho 03, 2008
O Preço certo
Porque não é segredo.
A minha casa está à venda por 190 mil euros.
Mais informações neste blogue (há que procurar as fotos) ou em http://casanaestefania.blogspot.com
Até já
A minha casa está à venda por 190 mil euros.
Mais informações neste blogue (há que procurar as fotos) ou em http://casanaestefania.blogspot.com
Até já
sexta-feira, maio 30, 2008
Resposta à cristinar
Deixaram-me um destes dias um comentário num post que remetia para um texto muito interessante sobre doentes com cancro e a forma como muitos sobrevivem à doença, mas depois são obrigados a sobreviver a uma série de consequências dos tratamentos e da doença praticamente sem qualquer tipo de apoio. Deixo aqui o link para o artigo em questão, da BBC.
http://news.bbc.co.uk/2/hi/health/7423517.stm
Este é um assnto sobre o qual, infelizmente, tenho muito a dizer. Pela minha experiência mas, sobretudo, pela do meu pai.
Como o artigo refere, grande parte dos doentes que sobreviem ao cancro vivem depois numa espécie de limbo, de terra de ninguém: já não são assistidos pelo oncologista (porque já tiveram alta da oncologia), mas continuam a precisar de uma série de cuidados que, ou não chegam, ou chegam de onde menos deveriam chegar.
Este artigo reporta-se à realidade britânica que, ainda assim, me parece consideravelmente melhor que a portuguesa. Fala o jornalista de uma falta de articulação entre os serviços de oncologia e os serviços de cuidados paliativos, aqui encarados de forma mais abrangente que o tradicional "cuidar para morrer".
Acontece, logo à partida, que em Portugal não existem unidades de cuidados paliativos. Pelo menos à séria. Pelo menos integradas nos hospitais públicos e nas consultas de oncologia. Existe uma associaçãod e cuidados paliativos, ao que sei, com actividades e iniciativas de lhes tirar o chapéu. Mas é privada e rema contra a maré num país que teima em considerar a saúde como um parente pobre.
E não me vou alongar muito em explicações teóricas. Vou apenas dar dois exemplos, em tudo muito distintos: o meu e o do meu pai.
eu tive cancro no estômago. tinha acabado de fazer 29 anos. Fiquei sem estômago, sem baço, perdi 12 kg (parte dos quais já recuperei), fiz cinco ciclos de quimioterapia e 25 sessões de radioterapia. Fui internada por duas vezes durante os tratamentos devido aos efeitos dos mesmos.
Mal acabei os tratamentos e como não tinha metástases, tive alta da consulta de oncologia. Todos os exames de controlo que faço são supervisionados pelo cirurgião que me operou. Ele, um ser humano fantástico e um excelente profissional, não deveria estar a perder tempo comigo. Porque ele, por amor de deus, é um cirurgião, e dos bons. Devia estar a operar, que é o que faz de melhor. Em vez disso perde grande parte do seu tempo em consultas com doentes como eu e em reuniões dos famosos centros hospitalares.
Eu, no meio do panorama do nosso país, considero-me uma privilegiada. Porque tenho um bom médico e porque, apesar dos pesares, me esforço por ter e tenho uma vida relativamente normal.
Mas, só a título de exemplo, nunca tive uma consulta de nutrição (algo fundamental numa pessoa que teve de mudar os seus hábitos alimentares, que perdeu tanto peso e que tem uma deficiente absorção dos alimentos), nunca me encaminharam para uma consulta de psicologia. Resumindo, nunca tive um apoio concertado e multidisciplinar. Muito do que consegui recuperar foi porque tenho vários amigos e familiares profissionais de saúde.
Fala-se muito da consulta de nutrição do Hospital de Santa Maria. E os outros doentes, o que é feito deles?
O caso do meu pai, então, parece saído de um filme de terror. Seguido por vários médicos do IPO cada um deles tinha uma opinião diferente e aconselhava tratamentos diferentes. Aqueles que deviam ser uma equipa multidisciplinar não deviam falar uns com os outros. Depois de muito penar, e ainda numa fase inicial do seu actual estado, lá foi enviado para a consulta da Dor, a única onde estavam realmente preocupados com o seu bem-estar. Das muitas vezes que apareceu nas urgências cheio de dores e a sangrar sempre lhe disseram que era normal. Até ao dia em que a carótida rebentou e se seguiu um processo indiscritível que acabou com ele fechado num quarto, todos à espera que ele morresse.
Para que o meu pai tivesse algum conforto tivemos de o tirar dali e levá-lo para uma clínica privada. Nunca ninguém acreditou que ele sobrevivesse. Acho mesmo que só ele acreditou. E agora que estamos a tentar dar-lhe um bocadinho de qualidade de vida temos de o levar a Madrid para ser operado. Tudo pago por nós, claro. Que o Estado manda doentes operarem as cataratas a Cuba, mas não se compadece com um homem que não fala, não come e tem um buraco de 20cm na garganta. um homem que não pode engolir nada nem sequer a sua própria saliva. Tudo o que precisávamos era de uma carta do IPO dizendo que não faz (em tempo útil) aquela operação. Mas para eles tempo útil é outra coisa. O meu pai, segundo os seus cálculos, tem cerca de 40 pacientes à sua frente. "Operado? Nunca antes de Setembro" que é o mesmo que dizer temos medo de o operar mas não podemos reconhecê-lo...
O meu pai foi completamente abandonado pelo Sistema Nacional de Saúde.
E o apoio aos familiares? Esse então nem se fala. A minha mãe lidou com dois pacientes com cancro. Está nas lonas... debilitada, cansada, exausta. Apoio? só se for o nosso, lá em casa.
Basicamente isto resume a minha posição face aos cuidados continuados/integrados dos doentes que sobrevivem ao cancro... temos de nos agarrar às nossas forças e à nossa família porque do Estado vem muito pouco.
http://news.bbc.co.uk/2/hi/health/7423517.stm
Este é um assnto sobre o qual, infelizmente, tenho muito a dizer. Pela minha experiência mas, sobretudo, pela do meu pai.
Como o artigo refere, grande parte dos doentes que sobreviem ao cancro vivem depois numa espécie de limbo, de terra de ninguém: já não são assistidos pelo oncologista (porque já tiveram alta da oncologia), mas continuam a precisar de uma série de cuidados que, ou não chegam, ou chegam de onde menos deveriam chegar.
Este artigo reporta-se à realidade britânica que, ainda assim, me parece consideravelmente melhor que a portuguesa. Fala o jornalista de uma falta de articulação entre os serviços de oncologia e os serviços de cuidados paliativos, aqui encarados de forma mais abrangente que o tradicional "cuidar para morrer".
Acontece, logo à partida, que em Portugal não existem unidades de cuidados paliativos. Pelo menos à séria. Pelo menos integradas nos hospitais públicos e nas consultas de oncologia. Existe uma associaçãod e cuidados paliativos, ao que sei, com actividades e iniciativas de lhes tirar o chapéu. Mas é privada e rema contra a maré num país que teima em considerar a saúde como um parente pobre.
E não me vou alongar muito em explicações teóricas. Vou apenas dar dois exemplos, em tudo muito distintos: o meu e o do meu pai.
eu tive cancro no estômago. tinha acabado de fazer 29 anos. Fiquei sem estômago, sem baço, perdi 12 kg (parte dos quais já recuperei), fiz cinco ciclos de quimioterapia e 25 sessões de radioterapia. Fui internada por duas vezes durante os tratamentos devido aos efeitos dos mesmos.
Mal acabei os tratamentos e como não tinha metástases, tive alta da consulta de oncologia. Todos os exames de controlo que faço são supervisionados pelo cirurgião que me operou. Ele, um ser humano fantástico e um excelente profissional, não deveria estar a perder tempo comigo. Porque ele, por amor de deus, é um cirurgião, e dos bons. Devia estar a operar, que é o que faz de melhor. Em vez disso perde grande parte do seu tempo em consultas com doentes como eu e em reuniões dos famosos centros hospitalares.
Eu, no meio do panorama do nosso país, considero-me uma privilegiada. Porque tenho um bom médico e porque, apesar dos pesares, me esforço por ter e tenho uma vida relativamente normal.
Mas, só a título de exemplo, nunca tive uma consulta de nutrição (algo fundamental numa pessoa que teve de mudar os seus hábitos alimentares, que perdeu tanto peso e que tem uma deficiente absorção dos alimentos), nunca me encaminharam para uma consulta de psicologia. Resumindo, nunca tive um apoio concertado e multidisciplinar. Muito do que consegui recuperar foi porque tenho vários amigos e familiares profissionais de saúde.
Fala-se muito da consulta de nutrição do Hospital de Santa Maria. E os outros doentes, o que é feito deles?
O caso do meu pai, então, parece saído de um filme de terror. Seguido por vários médicos do IPO cada um deles tinha uma opinião diferente e aconselhava tratamentos diferentes. Aqueles que deviam ser uma equipa multidisciplinar não deviam falar uns com os outros. Depois de muito penar, e ainda numa fase inicial do seu actual estado, lá foi enviado para a consulta da Dor, a única onde estavam realmente preocupados com o seu bem-estar. Das muitas vezes que apareceu nas urgências cheio de dores e a sangrar sempre lhe disseram que era normal. Até ao dia em que a carótida rebentou e se seguiu um processo indiscritível que acabou com ele fechado num quarto, todos à espera que ele morresse.
Para que o meu pai tivesse algum conforto tivemos de o tirar dali e levá-lo para uma clínica privada. Nunca ninguém acreditou que ele sobrevivesse. Acho mesmo que só ele acreditou. E agora que estamos a tentar dar-lhe um bocadinho de qualidade de vida temos de o levar a Madrid para ser operado. Tudo pago por nós, claro. Que o Estado manda doentes operarem as cataratas a Cuba, mas não se compadece com um homem que não fala, não come e tem um buraco de 20cm na garganta. um homem que não pode engolir nada nem sequer a sua própria saliva. Tudo o que precisávamos era de uma carta do IPO dizendo que não faz (em tempo útil) aquela operação. Mas para eles tempo útil é outra coisa. O meu pai, segundo os seus cálculos, tem cerca de 40 pacientes à sua frente. "Operado? Nunca antes de Setembro" que é o mesmo que dizer temos medo de o operar mas não podemos reconhecê-lo...
O meu pai foi completamente abandonado pelo Sistema Nacional de Saúde.
E o apoio aos familiares? Esse então nem se fala. A minha mãe lidou com dois pacientes com cancro. Está nas lonas... debilitada, cansada, exausta. Apoio? só se for o nosso, lá em casa.
Basicamente isto resume a minha posição face aos cuidados continuados/integrados dos doentes que sobrevivem ao cancro... temos de nos agarrar às nossas forças e à nossa família porque do Estado vem muito pouco.
domingo, maio 25, 2008
Agora é que vão ser elas
A partir de hoje eu e o Henrique estamos por nossa conta durante um mês.
Vai ser um teste e um desafio.
Agora é que vão ser elas.
Vai ser um teste e um desafio.
Agora é que vão ser elas.
sexta-feira, maio 23, 2008
Tombar como uma velha árvore
É assim que vejo a morte do Torcato, como a queda brutal, assustadora, ruidosa, de uma grande árvore sobre o solo seco. De uma só pancada, dura, mas de pé. O torcato foi vencido pela doença mas, mesmo assim, trocou-lhe as voltas, a esta doença estúpida e ignóbil. Não deixou que ela o corroesse de dentro para fora, que lhe tirasse as forças e o deixasse irreconhecível.
quarta-feira, maio 07, 2008
É linda e está à venda
Pois é, a nossa linda casa está à venda.
Tem 95m2, divididos por sala de estar, sala de jantar, dois quartos, cozinha, casa de banho, escritório e duas despensas.
Fica na Estefânia (para os que não sabem), na Rua José Estevão.
Fica num prédio de traça antiga, bem conservado, e é um terceiro andar sem elevador.
O pé direito é de 3m.
A casa teve obras há seis anos (incluindo canalização e electricidade).
Vidros duplos e aquecimento central a gás natural.
Quem estiver interessado pode deixar um comentário com o seu mail.

Tem 95m2, divididos por sala de estar, sala de jantar, dois quartos, cozinha, casa de banho, escritório e duas despensas.
Fica na Estefânia (para os que não sabem), na Rua José Estevão.
Fica num prédio de traça antiga, bem conservado, e é um terceiro andar sem elevador.
O pé direito é de 3m.
A casa teve obras há seis anos (incluindo canalização e electricidade).
Vidros duplos e aquecimento central a gás natural.
Quem estiver interessado pode deixar um comentário com o seu mail.
segunda-feira, abril 21, 2008
Evidência do tempo que passa
Conversa com a baby-sitter do meu filho na sexta-feira passada.
Eu -Vamos ver um concerto. Devemos estar em casa antes da uma.
Ela - que concerto?
Eu - os GNR!
Ela (com um ar desinteressado) - Ah, já ouvi falar....
Eu -Vamos ver um concerto. Devemos estar em casa antes da uma.
Ela - que concerto?
Eu - os GNR!
Ela (com um ar desinteressado) - Ah, já ouvi falar....
sexta-feira, março 07, 2008
Isto está bonito
A polícia andou a recolher informações sobre os professores que amanhã se vêm manifestar a Lisboa. Apenas para garantir uma boa circulação na capital a um sábado...
Isto depois de ter andado a pedir a identificação a professores que se manifestavam legalmente a semana passada... é impressão minha ou estamos perigosamente perto do tempo da outra senhora?
Isto depois de ter andado a pedir a identificação a professores que se manifestavam legalmente a semana passada... é impressão minha ou estamos perigosamente perto do tempo da outra senhora?
segunda-feira, fevereiro 25, 2008
o que se passa com o mundo?
Apetece-me içar uma bandeira de pernas para o ar. Porque me parece, claramente, que este mundo precisa de ajuda. Há cerca de duas semanas vi um filme, a meu ver, espectacular: O vale de Elah. Desencantado? desesperançado? Talvez, mas acima de tudo, de uma realidade crua, despida de fantasias... porque a vida às vezes é mesmo assim, uma incngruência pegada. No final do filme o actor principal pede a uma pessoa que ice a bandeira dos Estados Unidos de pernas para o ar (o que significa que o mundo está de pernas para o ar e que é preciso ajuda). Pois eu sinto-me assim. À luz dos últimos acontecimentos apetece-me mesmo fazê-lo. Porque não consigo encontrar explicação para o que está a acontecer com os que amo. Porque me sinto impotente perante o sofrimento dos que me são queridos.
quinta-feira, fevereiro 21, 2008
novidades
A Madalena não só já está em sua casa, com os seus pais, como está linda e maravilhosa.
Que bebé linda, ela é.
Parabéns!
Aguardo fotografias novas para postar aqui.
Que bebé linda, ela é.
Parabéns!
Aguardo fotografias novas para postar aqui.
domingo, fevereiro 10, 2008
uma janela aberta chamada esperança
Há dias que aqui não escrevo e, acreditem, não é por falta de novidades.
A pequena Madalena continua a lutar. Primeiro pela sua vida, agora luta contra o ventilador... calma, Madalena, tens muito tempo para conheceres a tua noa casa. Para já o importante é continuares no hospital até uma recuperação completa. é curioso como me sinto ligada a esta petiz que ainda nem tive oportunidade de pegar a colo ou mesmo de ver sem ser através de fotografia. Mas tenho uma certeza no meu coração: ela vai ficar bem:)
Por estes dias fui a Madrid com os meus pais. O meu pai está doente há mais de dois anos. Há cerca de um ano disseram-me que nunca mais acordaria, mas ele, teimoso, decidiu contrariar todos os prognósticos e lutou. Primeiro para se manter vivo, e agora por uma vida um pouco melhor.
Esta visita a Madrid traduziu-se num momento decisivo para as nossas vidas. Porque as respostas em Portugal não eram suficientes nem satisfatórias, tivemos de procurar noutro país uma opinião alternativa. E o que ouvimos foi, sem sombra de dúvida, a melhor notícia que tivemos em anos. Se não houver sinal de cancro no corpo do meu pai ele poderá ser operado. Não voltará a falar, mas poderá voltar a comer. E essa possibilidade é de tal forma motivadora que todos os outros problemas que nos rodeiam parecem insignificantes.
Só é estranho que tenhamos de ir a outro país procurar o que aqui não nos podem oferecer. Fico a pensar como as coisas poderiam ter sido diferentes se ele tivesse sido tratado fora de Portugal desde o início.
Estar ali, naquele consultório, frente aquele médico, fez-me ver tudo de uma outra forma. Pela primera vez sentei-me frente a uma pessoa que não achou que o meu pai tinha vindo directamente de Marte. E as respostas foram imediatas. A cirurgia é possível. Assim, de repente. Até fiquei atordoada. Se tivessesmos as nossas vidas organizadas de outra forma ele poderia ter ficado já em Madrid para fazer exames...
A nossa grande batalha agora será custear uma operação como aquela que o meu pai terá de fazer. Porque terá de ser operado numa clínica privada.
Mas é uma batalha que será ganha, assim ele possa ser operado.
Esta foi a minha melhor prenda de aniversário:)
A pequena Madalena continua a lutar. Primeiro pela sua vida, agora luta contra o ventilador... calma, Madalena, tens muito tempo para conheceres a tua noa casa. Para já o importante é continuares no hospital até uma recuperação completa. é curioso como me sinto ligada a esta petiz que ainda nem tive oportunidade de pegar a colo ou mesmo de ver sem ser através de fotografia. Mas tenho uma certeza no meu coração: ela vai ficar bem:)
Por estes dias fui a Madrid com os meus pais. O meu pai está doente há mais de dois anos. Há cerca de um ano disseram-me que nunca mais acordaria, mas ele, teimoso, decidiu contrariar todos os prognósticos e lutou. Primeiro para se manter vivo, e agora por uma vida um pouco melhor.
Esta visita a Madrid traduziu-se num momento decisivo para as nossas vidas. Porque as respostas em Portugal não eram suficientes nem satisfatórias, tivemos de procurar noutro país uma opinião alternativa. E o que ouvimos foi, sem sombra de dúvida, a melhor notícia que tivemos em anos. Se não houver sinal de cancro no corpo do meu pai ele poderá ser operado. Não voltará a falar, mas poderá voltar a comer. E essa possibilidade é de tal forma motivadora que todos os outros problemas que nos rodeiam parecem insignificantes.
Só é estranho que tenhamos de ir a outro país procurar o que aqui não nos podem oferecer. Fico a pensar como as coisas poderiam ter sido diferentes se ele tivesse sido tratado fora de Portugal desde o início.
Estar ali, naquele consultório, frente aquele médico, fez-me ver tudo de uma outra forma. Pela primera vez sentei-me frente a uma pessoa que não achou que o meu pai tinha vindo directamente de Marte. E as respostas foram imediatas. A cirurgia é possível. Assim, de repente. Até fiquei atordoada. Se tivessesmos as nossas vidas organizadas de outra forma ele poderia ter ficado já em Madrid para fazer exames...
A nossa grande batalha agora será custear uma operação como aquela que o meu pai terá de fazer. Porque terá de ser operado numa clínica privada.
Mas é uma batalha que será ganha, assim ele possa ser operado.
Esta foi a minha melhor prenda de aniversário:)
sexta-feira, fevereiro 01, 2008
susto
Como é perene a vida.
ainda ontem veio ao mundo e a pquena Madalena já nos está a dar preocupações. ar na pleura, dizem os médicos. A nossa pequena princesa já está a sofrer as agruras da vida... mas dentro em breve estará aqui, de colo em colo.
ainda ontem veio ao mundo e a pquena Madalena já nos está a dar preocupações. ar na pleura, dizem os médicos. A nossa pequena princesa já está a sofrer as agruras da vida... mas dentro em breve estará aqui, de colo em colo.
quinta-feira, janeiro 31, 2008
segunda-feira, janeiro 28, 2008
partilha

Aqui fica o primeiro texto (e respectiva foto) que escrevi para a Pais & Filhos.
Sou mãe de um super-herói
Ser mãe é ser muitas coisas. A grande maioria, quando passada para o papel, raramente escapa aos lugares comuns, mas não menos raramente escapa à verdade.
Quando os nossos filhos nascem há algo em nós que muda para sempre. Não sei explicar muito bem: é um misto de “as pequenas coisas fazem agora outro sentido” com “o sorriso dele é mesmo o mais lindo do mundo" com talvez uma pitada de “mas onde é que vivi este tempo todo antes dele nascer?”.
Ser mãe é ser muitas coisas, quase todas maravilhosas, mas algumas delas muito intensas e assustadoras. Ser mãe é sinónimo (mais cedo ou mais tarde) de noites mal dormidas, de ataques de nervos, hipersensibilidade a bolas, colares ou pulseirinhas.
Nestes parcos três anos de maternidade várias foram as vezes em que desejei ser amiga do Super-Homem ou do Homem-Aranha. Nem que por breves instantes. Só para que me ajudassem um pouco, para que usassem os seus super-poderes para me guiar neste caminho, por vezes sinuoso, que é o da maternidade.
Pois é, confidência absoluta: ser mãe nem sempre é fácil. Às vezes é até muito difícil. Muitas gestões a fazer, inúmeras birras a contornar, muitas cedências, algumas desistências e uma grande dose de gestão… de feitios, de conflitos, de sensibilidades, de personalidades.
Mas eu, enquanto mãe de um pequeno e maravilhoso ser de três anos, tenho uma confissão a fazer: sou mãe de um super-herói. O meu filho tem super-poderes e, nestes seus três anos, já fez mais por mim do que alguma vez algum medicamento ou médico poderão fazer e já contornou mais crises que muitos psicanalistas famosos.
Há cerca de dois anos e meio, tinha o meu filho acabado de fazer oito meses, foi-me diagnosticado um cancro. Pouco houve a dizer: a cirurgia era obrigatória, incontornável mesmo, e o futuro uma incógnita. Por defeito profissional, ou talvez por feitio, exigi saber a verdade e confesso que não foi fácil lidar com o que ouvi. Tanta incerteza, tantas caras baixas, tantos “nem imagina como isto é raro na sua idade”… foi um choque horrível, senti que o mundo tinha aberto a sua grande boca e estava pronto para me engolir. Por breves momentos, logo ali, naquela sala de espera de hospital onde ouvi da boca do meu irmão o que sentia que existia mas teimava em não acreditar, senti-me sugada por uma fenda imensa que se abriu debaixo dos meus pés. Só que, depois do horror momentâneo, cresceu em mim uma vontade maior: a de me fazer lembrar ao meu filho. Se eu morresse ali, aos seus oito meses, ele nunca se iria lembrar de quem tinha sido a sua mãe, das brincadeiras que já partilhávamos, dos beijos, dos abraços, do meu toque, do meu cheiro. E essa foi uma das maiores armas com que lutei nos longos meses que se seguiram. A convicção de que era obrigatória a criação , a cimentação de uma memória de quem eu era, de quem era a MÃE. Não podia abandonar ali a luta, entregar-me à doença, aos diagnósticos, ao prognóstico…
E por isso sei que sou mãe de um super-herói, porque o meu filho, do alto da inocência dos seus três anos, já me permitiu muito, já me ajudou a superar muitos obstáculos, muitos enjoos, muitas dores, muitas dúvidas. Sim, porque quando falamos de verdadeiras dificuldades, as noites mal dormidas devido a uma febre que teima em não baixar ou a uma otite, são um pequeno pormenor. Por isso deixo aqui uma pequena sugestão: da próxima vez que o limite se estiver a aproximar perigosamente e que o filho que está à nossa frente se tenha transformado, vá-se lá saber como, numa força demoníaca que temos vontade de exterminar, pare, pense três segundos na última grande frase que ele lhe disse, no última doçura, no último beijo, no último abraço e de como se sentiu feliz e especial com isso. E agora diga-me lá se não partilha casa com um, dois ou mais super-heróis.
Quando os nossos filhos nascem há algo em nós que muda para sempre. Não sei explicar muito bem: é um misto de “as pequenas coisas fazem agora outro sentido” com “o sorriso dele é mesmo o mais lindo do mundo" com talvez uma pitada de “mas onde é que vivi este tempo todo antes dele nascer?”.
Ser mãe é ser muitas coisas, quase todas maravilhosas, mas algumas delas muito intensas e assustadoras. Ser mãe é sinónimo (mais cedo ou mais tarde) de noites mal dormidas, de ataques de nervos, hipersensibilidade a bolas, colares ou pulseirinhas.
Nestes parcos três anos de maternidade várias foram as vezes em que desejei ser amiga do Super-Homem ou do Homem-Aranha. Nem que por breves instantes. Só para que me ajudassem um pouco, para que usassem os seus super-poderes para me guiar neste caminho, por vezes sinuoso, que é o da maternidade.
Pois é, confidência absoluta: ser mãe nem sempre é fácil. Às vezes é até muito difícil. Muitas gestões a fazer, inúmeras birras a contornar, muitas cedências, algumas desistências e uma grande dose de gestão… de feitios, de conflitos, de sensibilidades, de personalidades.
Mas eu, enquanto mãe de um pequeno e maravilhoso ser de três anos, tenho uma confissão a fazer: sou mãe de um super-herói. O meu filho tem super-poderes e, nestes seus três anos, já fez mais por mim do que alguma vez algum medicamento ou médico poderão fazer e já contornou mais crises que muitos psicanalistas famosos.
Há cerca de dois anos e meio, tinha o meu filho acabado de fazer oito meses, foi-me diagnosticado um cancro. Pouco houve a dizer: a cirurgia era obrigatória, incontornável mesmo, e o futuro uma incógnita. Por defeito profissional, ou talvez por feitio, exigi saber a verdade e confesso que não foi fácil lidar com o que ouvi. Tanta incerteza, tantas caras baixas, tantos “nem imagina como isto é raro na sua idade”… foi um choque horrível, senti que o mundo tinha aberto a sua grande boca e estava pronto para me engolir. Por breves momentos, logo ali, naquela sala de espera de hospital onde ouvi da boca do meu irmão o que sentia que existia mas teimava em não acreditar, senti-me sugada por uma fenda imensa que se abriu debaixo dos meus pés. Só que, depois do horror momentâneo, cresceu em mim uma vontade maior: a de me fazer lembrar ao meu filho. Se eu morresse ali, aos seus oito meses, ele nunca se iria lembrar de quem tinha sido a sua mãe, das brincadeiras que já partilhávamos, dos beijos, dos abraços, do meu toque, do meu cheiro. E essa foi uma das maiores armas com que lutei nos longos meses que se seguiram. A convicção de que era obrigatória a criação , a cimentação de uma memória de quem eu era, de quem era a MÃE. Não podia abandonar ali a luta, entregar-me à doença, aos diagnósticos, ao prognóstico…
E por isso sei que sou mãe de um super-herói, porque o meu filho, do alto da inocência dos seus três anos, já me permitiu muito, já me ajudou a superar muitos obstáculos, muitos enjoos, muitas dores, muitas dúvidas. Sim, porque quando falamos de verdadeiras dificuldades, as noites mal dormidas devido a uma febre que teima em não baixar ou a uma otite, são um pequeno pormenor. Por isso deixo aqui uma pequena sugestão: da próxima vez que o limite se estiver a aproximar perigosamente e que o filho que está à nossa frente se tenha transformado, vá-se lá saber como, numa força demoníaca que temos vontade de exterminar, pare, pense três segundos na última grande frase que ele lhe disse, no última doçura, no último beijo, no último abraço e de como se sentiu feliz e especial com isso. E agora diga-me lá se não partilha casa com um, dois ou mais super-heróis.
quarta-feira, janeiro 23, 2008
sexta-feira, janeiro 18, 2008
começo e fim
Muitas vezes o começo e o fim andam mais próximos do que pensamos. A vida e a morte tocam-se das formas mais estranhas e constrangedoras, até. Ou, sem pensar numa experiência tão limite, a doença e uma nova vida. Podem acompanhar-nos quase de mãos dadas uma com a outra causando em nós sentimentos contraditórios. Por um lado a felicidade de presenciarmos uma vida que começa (de fazermos parte dela), por outro a tristeza de vermos alguém que amamos sofrer.
Como se a vinda de uma nova vida, justificasse a dor provocada por a perda ou a ameaça a outra.
Por estes dias tenho pensado muito em dois amigos e no que eles devem estar a passar.
Deixo aqui ficar um beijo para os dois.
Como se a vinda de uma nova vida, justificasse a dor provocada por a perda ou a ameaça a outra.
Por estes dias tenho pensado muito em dois amigos e no que eles devem estar a passar.
Deixo aqui ficar um beijo para os dois.
quinta-feira, janeiro 17, 2008
De costas voltadas
O conflito emocional é tão grande que nem sei por onde começar. De cada vez que damos um passo em frente somos obrigados a recuar dois...
Depois da porta aberta à esperança, na passada segunda-feira, quando conseguimos finalmente a consulta em Madrid, eis que voltamos à estaca zero. Estás novamente no hospital, voltamos a passar por um grande susto... ainda vai ser o coração que me vai trair, tantas são as preocupações que lhe dou.
Sinto-me de costas voltadas para o mundo, para a sorte. Que raio de vida esta! Sempre a lutar, sempre a esbracejar para tentar manter a cabeça fora de água. Que cansaço... às vezes apetecia-me desistir. Deixar de nadar...
Depois da porta aberta à esperança, na passada segunda-feira, quando conseguimos finalmente a consulta em Madrid, eis que voltamos à estaca zero. Estás novamente no hospital, voltamos a passar por um grande susto... ainda vai ser o coração que me vai trair, tantas são as preocupações que lhe dou.
Sinto-me de costas voltadas para o mundo, para a sorte. Que raio de vida esta! Sempre a lutar, sempre a esbracejar para tentar manter a cabeça fora de água. Que cansaço... às vezes apetecia-me desistir. Deixar de nadar...
segunda-feira, janeiro 14, 2008
Gerir expectativas
Quando somos adolescentes oscilamos entre a verdade absoluta que ninguém nos entende e a esperança secreta que o príncipe encantado irá surgir. Ouvimos as discussões dos nossos pais, vemos os erros que cometem e pensamos que connosco vai ser dieferente. O ideal de felicidade absoluta parece-nos real. Eu, no meu caso concreto, chegava a pensar que mais valia estar só do que viver sem essa felicidade completa e absoluta.
A entrada na vida adulta e, sobretudo, na vida a dois, ensina-nos muitas coisas, a primeira delas é que a felicidade absoluta não existe. Podemos viver felizes, podemos ter momentos de felicidade absoluta, mas a vida adulta também é preenchida de grandes desilusões, de pequenos e grandes fracassos, de momentos infelizes.
O problema é quando não sabemos gerir expectativas, quando não conseguimos perceber que a vida é mesmo assim: boa e má, feliz e infeliz. Não nos conseguirmos adaptar às mudanças e Às dificuldades é uma merda, porque ficamos paralisados no meio da nossa frustração. E não conseguimos avançar, não conseguimos ver o lado bom da coisa. Ficamos ali, eternamente no lamento e no mau humor do que podia ter sido e não foi.
A isto chamo crescer e é por isso que a vida de adulto é tão difícil. E é por isso que cada vez mais vejo as pessoas sozinhas, sem paciência apra relações. Porque uma relação é, muitas vezes, sinónimo de ralação. E há quem já não esteja para isso.
A entrada na vida adulta e, sobretudo, na vida a dois, ensina-nos muitas coisas, a primeira delas é que a felicidade absoluta não existe. Podemos viver felizes, podemos ter momentos de felicidade absoluta, mas a vida adulta também é preenchida de grandes desilusões, de pequenos e grandes fracassos, de momentos infelizes.
O problema é quando não sabemos gerir expectativas, quando não conseguimos perceber que a vida é mesmo assim: boa e má, feliz e infeliz. Não nos conseguirmos adaptar às mudanças e Às dificuldades é uma merda, porque ficamos paralisados no meio da nossa frustração. E não conseguimos avançar, não conseguimos ver o lado bom da coisa. Ficamos ali, eternamente no lamento e no mau humor do que podia ter sido e não foi.
A isto chamo crescer e é por isso que a vida de adulto é tão difícil. E é por isso que cada vez mais vejo as pessoas sozinhas, sem paciência apra relações. Porque uma relação é, muitas vezes, sinónimo de ralação. E há quem já não esteja para isso.
sexta-feira, janeiro 04, 2008
Catarina Tolentino
Agora que aqui estava sentada a percorrer os contactos do meu telemóvel, dei com o número da Catarina Tolentino. E tive de o apagar. A Catarina morreu. Em Agosto. Creio que no dia 5. eu estava em Paris, a sair de Versailles quando recebi um telefonema da Susaninha "A Catarina faleceu." A notícia não me apanhou desprevenida, aliás, o sofrimento da Catarina era tal que creio que todos os que dele gostavam ficaram um bocadinho aliviados com a sua morte; com o fim do seu calvário.
A Catarina era uma mulher doce, a quem a vida pregou muitas partidas. Amiga de há muitos anos do meu marido e da minha amiga Susana, era pessoa que eu só encontrava quando ia à Madeira, nas férias. A Catarina e a sua Laura.
Quando fiquei doente a Catarina fez questão de se fazer presente.
Em Dezembro de 2006, quando cheguei à Madeira fui bombardeada com a notícia de que a Catarina estava com cancro. Do estômago, tal como eu. E que nem sequer nos tinha telefonado para não me fazer reviver o meu processo...
Fiquei espanatada quando a encontrei na Fnac, para assistir à apresentação do livro do filipe, 15 dias após a sua operação. Eu mal me mexia quinze dias depois de ter sido operada, confidenciei-lhe.
A partir desse encontro ficámos mais próximas. Ela tinha muitas dúvidas. Eu também as tinha e ainda tenho, mas já tinha quase dois anos de avanço em relação a ela. E assim fomos, nos meses que se seguiram, trocando mensagens, telefonemas. Ela sempre com medo de incomodar. Eu com receio de forçar a minha presença.
Sobre ela escrevi aqui em Junho http://princesaestrelas.blogspot.com/2007_06_01_archive.html
Na altura não escrevi tudo o que queria porque sabia que ela me lia e tinha receio que ela percebesse que eu já tinha a certeza que o fim estava a bater-lhe à porta.
Mas hoje, meses depois, esse risco já não existe.
Hoje, Catarina, apaguei-te do meu telemóvel.
A tua morte doeu-me. Por muitas razões. E também porque nela vejo um anúncio da minha.
A Catarina era uma mulher doce, a quem a vida pregou muitas partidas. Amiga de há muitos anos do meu marido e da minha amiga Susana, era pessoa que eu só encontrava quando ia à Madeira, nas férias. A Catarina e a sua Laura.
Quando fiquei doente a Catarina fez questão de se fazer presente.
Em Dezembro de 2006, quando cheguei à Madeira fui bombardeada com a notícia de que a Catarina estava com cancro. Do estômago, tal como eu. E que nem sequer nos tinha telefonado para não me fazer reviver o meu processo...
Fiquei espanatada quando a encontrei na Fnac, para assistir à apresentação do livro do filipe, 15 dias após a sua operação. Eu mal me mexia quinze dias depois de ter sido operada, confidenciei-lhe.
A partir desse encontro ficámos mais próximas. Ela tinha muitas dúvidas. Eu também as tinha e ainda tenho, mas já tinha quase dois anos de avanço em relação a ela. E assim fomos, nos meses que se seguiram, trocando mensagens, telefonemas. Ela sempre com medo de incomodar. Eu com receio de forçar a minha presença.
Sobre ela escrevi aqui em Junho http://princesaestrelas.blogspot.com/2007_06_01_archive.html
Na altura não escrevi tudo o que queria porque sabia que ela me lia e tinha receio que ela percebesse que eu já tinha a certeza que o fim estava a bater-lhe à porta.
Mas hoje, meses depois, esse risco já não existe.
Hoje, Catarina, apaguei-te do meu telemóvel.
A tua morte doeu-me. Por muitas razões. E também porque nela vejo um anúncio da minha.
Olímpio Ferreira (1967-2007)
Não era íntima dele, mas conheci-o o suficiente para dele gostar.
Trabalhámos juntos em alguns projectos. Concebeu a paginação do livro do meu marido.
O seu Miguel e o meu Henrique nasceram no mesmo dia (12 de Junho de 2004).
Voltei a encontrá-lo, profissionalmente, na Oficina do Livro.
O seu sorriso, a sua boa disposição, o seu amor pela vida ficarão para sempre gravados na minha memória.
Não consegui ir ao seu funeral. Por várias razões, mas muito por falta de coragem.
É-me cada vez mais difícil lidar com a morte.
Mas não podia deixar de o lembrar.
Ficas aqui, Olímpio.
Trabalhámos juntos em alguns projectos. Concebeu a paginação do livro do meu marido.
O seu Miguel e o meu Henrique nasceram no mesmo dia (12 de Junho de 2004).
Voltei a encontrá-lo, profissionalmente, na Oficina do Livro.
O seu sorriso, a sua boa disposição, o seu amor pela vida ficarão para sempre gravados na minha memória.
Não consegui ir ao seu funeral. Por várias razões, mas muito por falta de coragem.
É-me cada vez mais difícil lidar com a morte.
Mas não podia deixar de o lembrar.
Ficas aqui, Olímpio.
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