segunda-feira, novembro 17, 2008

Saudades

Este foi um dia feliz nas nossas vidas, não foi?
Tu já estavas doente e com muitas dores, mas ainda eras tu, inteiro, completo.
Tenho tantas saudades, pai.
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pequenas coisas

Eu trabalho na Oficina do Livro que, para quem não sabe, é a editora de Margarida Rebelo Pinto e de Maria João Lopo de Carvalho e, apesar das vendas destas duas senhoras justificarem o seu estatuto de publicáveis, a editora onde eu trabalho tem um longo historial de levar pancada. Eu própria, vinda do jornalismo, tinha a mania de torcer o nariz de cada vez que ouvia o nome Oficina do Livro. Só que, e embora eu não ponha em causa o valor e o trabalho da Margarida e da Maria João Lopo de Carvalho (dei-as apenas como exemplos das autoras que a crítica tanto gosta de enxovalhar), a Oficina do Livro faz um trabalho tão válido como o de todas as outras editoras e edita, no mercado português autores como Guillermo Fadanelli, David Toscano, Augusto Monterroso, Hugo Gonçalves e Miguel Sousa Tavares. Mas, acima de tudo, editamos livros e nada mais que isso.
O mesmo não se pode dizer de outros grandes grupos editoriais.
A semana passada, por exemplo, ligaram-me do Círculo Leitores não para me venderem livros, mas para me venderem um seguro de saúde.
Bonito não acham?

quarta-feira, novembro 12, 2008

Dia 9

Fez um mês que deixei de te ter, de te poder contar o meu dia, de te poder massajar as costas.
Temos saudades, pai.
Temos saudades... sinto um vazio muito grande no lugar do meu coração... às vezes nem percebo bem o que se passa, não é o trabalho, não são as coisas em casa.... depois vens-me à ideia. És tu pai, ou melhor, é a falta que me fazes que me deixa assim... como se me faltasse um pedaço.

sexta-feira, novembro 07, 2008

Mas que semana

"No news is bad news". assim se pode definir a minha ausência nesta última semana.
Uma gastroenterite no Henrique que nos levou a passar 16 horas da sexta-feira e do sábado no Hospital da Estefânia; uma mudança em que o meu marido estava sozinho, valeram-nos os fantásticos amigos que, com apenas um sms apareceram lá em casa para ajudar; obras que não acabaram a tempo e que nos fazem viver em casa como quase num acampamento de ciganos; e hoje, assim do tipo cereja no topo do bolo, o meu marido teve um acidente.
Coincidências??? cruzes canhoto, vou fazer como o António Oliveira e começar a andar com uns alhinhos no bolso.

quinta-feira, outubro 30, 2008

Apetecia-me...

Fechar os olhos e só acordar daqui a uma semana.
Acabei de mudar de instalações no meu trabalho (agora estou junto da grane família Leya); em casa tropeço em caixas para a mudança (que vai ser este sábado). As obras na casa nova ainda não acabaram; o Henrique está em casa doente desde terça, e agora eu, também adoentada...
Não acredito em bruxas, mas que as há..... não duvido!

terça-feira, outubro 28, 2008

Encontros felizes

Este fim-de-semana encontrei-me com alguém que já foi dos meus escritores preferidos, o chileno Luis Sepúlveda. E deste encontro resultou um abraço apertado e uma lágrima matreira. Não consegui esquecer o que disse acerca dos que morrem e nos são queridos." Enquanto os nomearmos e contarmos as suas histórias, os nossos mortos nunca morrem".
E é assim que pretendo que seja.

terça-feira, outubro 21, 2008

saudades

Hoje acordei com tantas saudades tuas, pai.

segunda-feira, outubro 20, 2008

É por estas e por outras que me afastei da religião

Metáfora do padre na missa de sétimo dia do meu pai: a escolha entre viver e morrer. É como escolher morar no Casal Ventoso ou num condomínio em Cascais... bonito hã?

sexta-feira, outubro 17, 2008

carta ao meu pai

Estes Têm sido dias tristes. Fecho os olhos a rever a última semana e invade-me uma sensação de incredulidade. Como é possível? Ainda há duas semanas conversava com contigo enquanto te massajava as costas e hoje estás lá longe, fechado num caixão, a muitos palmos de profundidade. Fecho os olhos e revejo: a minha mãe a ligar-me a dizer que estavas pior; eu a ir trabalhar normalmente, não querendo acreditar que ias morrer mas, no fundo, a temer isso mesmo; um novo telefonema a dizerem-me para me ir despedir de ti; eu lá, naquela sala sozinha contigo, que dormias tranquilo, e a olhar para aquele monitor (imagem que nunca me irá sair da cabeça) e a ver a pulsação cada vez mais baixa (60, 58, 50, 48) e a tensão lá tão em baixo apesar de toda a medicação que estavas a tomar. E aí percebi que me ias morrer, pai. Morrer à séria, de verdade, que me ias deixar. E pedi-te, para que o sofrimento do mano fosse menor, que morresses comigo. Mas tu não quiseste. Tinha sido ele a tomar conta de ti, era com ele que partirias... e fecho os olhos e vejo-me, mecanicamente, mesmo antes do monitor morrer contigo, a ir a casa com a mãe buscar-te uma roupa. Uma roupa bonita porque o mano não iria suportar a dor de ter de te embrulhar num lençol como se faz com os outros mortos nos hospitais. E sinto-me esquisita, e senti-me na altura, com isto de te ir buscar a roupa sem que tivesses morrido. Senti-me mal e senti-me má... e fecho os olhos e oiço o telemóvel e era o mano e eu olhei para a mãe a adivinhar o que lá vinha. E fomos a correr para junto de ti. A roupa muito bem escolhida, tudo a condizer. Tive tempo até de te engraxar os sapatos, que tu detestavas sapatos mal engraxados. E escolhi com cuidado o fato e o lenço, a camisa, as meias... tudo a condizer e tudo para que não tivesses frio lá nesse sítio para onde foste. E fecho os olhos e vejo-me na clínica, saco da roupa debaixo do braço, a mãe a dizer que não mais te conseguiria ver porque queria guardar de ti a imagem de vida. E eu ali, saco debaixo do braço e o mano à minha frente com a dura tarefa de ter de te vestir. E o que faço? Chego-me à frente, olho-o nos olhos e digo-lhe que vamos fazer juntos a última coisa que podíamos fazer por ti. E fecho os olhos e vejo-me a apertar-te os botões da camisa branca, a compôr o lenço no pescoço para que não se notasse o penso que tinhas debaixo, a calçar-te as meias e os sapatos. Eu e o mano, num ritual silencioso. E tu estavas tão quentinho pai, Não fosse o peso excessivo do teu corpo sem vida e eu acreditaria que continuavas a dormir. Mas o monitor estava morto e tu com ele. E fecho os olhos e vejo-me na terra, um frio de cortar os ossos e nós sozinhos naquela sala, tu no meio caixão aberto. E as pessoas foram chegando e com elas a certeza que tu não ias voltar comigo. Que ias ficar ali para sempre na tua terra. E demorei-me ali, a olhar-te, com a minha mão na tua, a despedir-me da tua presença física. Não de ti, que sei que nunca morrerás dentro de mim, mas do teu corpo. E volto a fechar os olhos e vejo a mãe, quase adormecida, vejo a avó, vejo as tuas irmãs e todo aquele coro trágico do qual fugi mal consegui. Eu entendo-os mas não consigo ter forças para consolar os outros. A tua perda doi-me tanto que não quero ouvir gritos nem lamentos. E fecho os olhos e vejo-me a correr para fora do cemitério para não ouvir o som da terra sobre ti.
E agora, pai, o que faço?

sábado, outubro 11, 2008

Fim

Manuel António Queiroz 28-03-51 /09-10-2008


Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!

Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa,
E eu quero por força ir de burro!
Mário de Sá Carneiro

quarta-feira, outubro 08, 2008

derrota

Torna-se muito difícil levar bem a vida nestas condições... eu bem sei que é ele que está doente, que é ele que sofre, que é ele que voltou a ter uma septicémia, que é ele que corre risco de vida, que é ele que está ventilado, que é ele que está naquela cama adormecido, sedado, como que em coma. Eu bem sei disso. Maseu já não aguento mais. Não aguento vê-lo assim, sofro se não vou ao hospital, não tenho vontade de rir, não suporto ver a tristeza em que vive a minha mãe, não suporto este meu desejo de que ele se vá e deixe de sofrer. Não consigo parar de pensar que sou má pessoa por desejar que chegue o fim, que ele tenha um pouco de paz e deixe de viver nestas condições desumanas... dou-me por vencida.

segunda-feira, outubro 06, 2008

relato de um quotidiano triste

São muitas dúvidas e angustias que me ocupam o coração nestes dias. O meu pai continua internado, cada vez mais triste, cada vez mais desiludido e frágil.
Ele está vivo, eu sei. Mas a que custo? Com que qualidade de vida? com que alegrias?
é absolutamente inacreditável a forma como o conceito de normalidade, de qualidade de vida, tem mudado ao longo destes últimos meses... primeiro ia deixar de falar, depois de comer pela sua boca, depois morrer, depois ia ser alimentado por uma sonda o resto da vida, depois a falsa esperança de voltar a comer.... e agora o estado em que ele está, sem poder ser alimentado... sem poder sair do hospital para passar os últimos tempos da sua vida em casa, junto dos seus.
No meio de tanta desgraça e tristeza, este fim-de-semana cruzou-se no nosso caminho um médico extraordinário. Não falo das suas capacidades de cirurgião, que desconheço, mas das suas qualidades enquanto ser humano. Primeiro prontificou-se a aceitar o meu pai como seu paciente, o que já não é pouco. Todos passam por lá, mas nenhum se chega à frente. Doentes complicados, não, obrigada.
Mas não foi só por isso que este médico, Dr. Fernando Leitão, ficou gravado no coração da minha família. Foi, sobretudo, por se ter dignado a falar connosco, por nos ter dito abertamente o que pensava, por ter partilhado connosco o seu ponto de vista em relação a doentes na situação do meu pai. Por se ter chegado à frente para operar o meu pai, mesmo que não tivessemos dinheiro para pagar.
Este médico mostrou-nos que ainda há quem pratique medicina com nobreza e honra. O que é uma raridade nos dias que correm.
E este médico fez-me voltar aos meus eternos conflitos emocionais quando penso na situação do meu pai. Porque ele, assim como eu, crê que anes de mexer, antes de operar, um cirurgião deve estar preocupado com o que vai trazer para o paciente e não com as experiências que vai praticar, ou com o dinheiro que vai arrecadar.
Para o meu pai é bom que alguém assim se cruze com ele, mesmo que o tempo que lhe resta seja pouco.

quinta-feira, outubro 02, 2008

Infeliz contabilidade

Faz hoje 90 dias que o meu pai regressou à Clínica de Santo António da Reboleira. 90 dias...
ontem, pela primeira vez, não vi vontade de viver no seu olhar. Ele começa a desisitir.

segunda-feira, setembro 22, 2008

grande título

Não li nem sei se vou ler, mas o título é tão certeiro...
"Más maneiras de sermos bons pais - o futuro aceita pessoas imperfeitas"
Eheheh

Neura

Adorava ter tempo para estar com a neura... para não fazer nada, ficar todo o dia sentada no sofá a pensar no dia de ontem e no que quero fazer da minha vida... a pensar nas decisões que tomei e se esta é a vida que quero e mereço...
Mas não tenho tempo: tenho um filho de quatro anos, uma casa para vender, outra para arranjar, um pai doente, uma mãe à beira de um ataque de nervos....
Talvez para o ano tenha tempo.
Talvez decida ficar com a neura durante uns dias... talvez. mas só quando tiver tempo

sexta-feira, setembro 19, 2008

Orgulho de mãe

Foi hoje, durante o pequeno-almoço.
O meu filho escreveu, pela primeir vez, a palavra pai.
E eu senti um grande orgulho de mãe

quarta-feira, setembro 17, 2008

Outra vez o meu pai

Tento não estar sempre a falar nele, se bem que me acompanha todos os dias. Puno-me pelo pouco tempo que lhe dedico. Até aqui, caramba! O meu pai continua a lutar. e eu pergunto-me, tantas vezes, para quê. Para quem. Mas ele lá está, naquele aquário (é assim que chamo àquela sala envidraçada), sozinho, triste, desamparado e com muito medo Agora que recuperou intelectualmente e que tem noção mais ou menos exacta de tudo o que aconteceu em Madrid, de como veio bastante pior do que foi, ele sente-se triste e assustado. Eu sei. Está nos seus olhos. Neste momento está tudo tão indefinido... tento ter coragem para acreditar que vai melhorar. E sinto saudades daquele Deus que me acompanhava quando era miúda. Como gostava que ele ainda fizesse parte de mim, das minhas angústias, dos meus medos, das minhas explicações da vida... mas não consigo. E tento, a sério que tento. Entro em igrejas à procura daquela fé antiga, mas não a encontro.
O meu pai anda tão triste. e eu com ele. O meu pai sempre foi um homem amigo do seu amigo, dispoínivel para os outros (às vezes até mais do que para nós). E agora que está doente, agora que está internado e só, os seus amigos, os seus queridos amigos de sempre, deixaram-no ainda mais só. Porque à doença juntou-se a sensação de abandono. Os amigos, com a excepção de um ou outro, não o vão visitar. Sentem-se impressionados, dizem. Que raio de egoísmo é este que uma pessoa, em hora de aflicção pensa mais em si que no amigo doente....?
Penso nisto e fico triste... apetecia-me correr meio mundo à chapada, ao pontapé. Abaná-los... Começo a ficar com a amargura da minha mãe... não me venham com falas mansas um dia que ele se vá, que eu nã sei do que serei capaz.

Ainda o chichi

Agora é a vez dele. E a verdade é que ele já tem quatro anos, já tem opinião e vontade própria que eu devo respeitar.
"- Mãe, vamos tentar sem fralda esta noite, pode ser?" - pediu-me ele com aquele arzinho de súplica. "Tu acordas e vens-me pôr a fazer chichi, pode ser?".
E assim foi, uma noite a seco mas em que tive de me levantar à meia-noite e o pai às seis da manhã... custa muito, mas ele estava tão feliz hoje de manhã....
Avizinham-se noites difícieis.

segunda-feira, setembro 15, 2008

Obrigada Dr. Brazelton

A minha vida não tem sido fácil. Não é que esteja particularmente infeliz ou com grandes dramas para além dos que já são normais (infelizmente, a doença do meu pai já começa a ter um estranho lado de normalidade). Falo de difícil no sentido de preenchida, na verdade ando quase sem tempo para me coçar. E entre a tentativa de vender a nossa casa, a operação da minha mãe, a doença do meu pai, e as obras da casa nova, deparo-me com um novo problema. O chichi na cama.
Sim, confesso, o meu filho tem feito chichi na cama muitas vezes. Decidi tirar-lhe a fralda. Ele tem quatro anos e é um grande espertalhão em tudo. Vai daí, e levada pelos conselhos alheios, decidi tirar-lhe a fralda. Resultado: mesmo acordando a meio da noite para o por a fazer chichi, a verdade é que encontro a cama molhada pela manhã, umas duas a três vezes por semana.
Comecei a ficar preocupada: 4 anos pareceu-me mais do que a altura certa para ele deixar a fralda à noite. Principalmente porque tirar-lhe a fralda de dia foi muito fácil.
Encontrava-me numa encruzilhada: estava com medo de voltar atrás e voltar a colocar-lhe a fralda à noite (assim ele nunca mais vai deixar a fralda, e isto e aquilo.... diziam-me as vozes sábias) mas, com todo o trabalho que tenho neste momento, estava a ser muito difícil lidar com esta situação de estar sistematicamente a mudar a cama e o pijama.... já me via a deixar o edredão na lavandaria todas as semanas do próximo Inverno....
Até que se fez luz: fui ao escritório procurar o meu livro do Dr. Brazelton, a bíblia das mães que há tanto tempo andava perdida na estante, e senti-me outra mulher. Cada criança tem o seu ritmo. A frase mais lapidar que lá encontrei foi qualquer coisa do género " quando uma criança faz chichi na cama quase sempre a culpa é dos pais". e porquê? Porque insistimos em fazer algo que eles ainda não estão preparados para fazer. Por mais que eu o tente levantar todas as noites para ir à casa de banho, se a bexiga dele não tiver maturidade suficiente ou se os seus ciclos de sono não normalizarem (de modo a que seja capaz de acordar quando tem o sono leve), ele vai continuar a fazer chichi na cama....
O Henrique já sabe o que é uma trivela, come vegetais, usa correctamente termos como desapontado ou excluído, sabe fazer rimas e somas e sabe também escrever o seu nome.... pronto, tenho que admitir que no chichi ele ainda tem um longo caminho a percorrer. Paciência!

quarta-feira, setembro 03, 2008

tempo

É o que mais me falta. Tempo para mim, para descansar, para olhar o vazio e escutar o silêncio. Em vez disso perco-me em lojas de azulejos e em encontros com empreiteiros e agentes imobiliários...

terça-feira, agosto 05, 2008

perigosa transgressão

VALTER HUGO MÃE

escrevi o teu nome com maiúsculas. E agora, qual vai ser o meu castigo?

quarta-feira, julho 30, 2008

Dúvida de mãe

Há algum mal em oferecer ao filho de quatro anos um dvd das Winx?
Se ele gosta das aventuras das fadas que combatem o mal e se identifica com os seus amigos, heróis prontos a salvá-las de qualquer perigo, qual é o problema?
Por que razão o pai olha para mim com ar reprovador?
Eu também jogava à bola e brincava ao berlinde... e nem por isso tive dúvidas em relação à minha orientação sexual

sexta-feira, julho 25, 2008

A Rua

Às vezes penso que metade das birras do Henrique não existiam se ele tivesse tido a mesma sorte que eu: de crescer na rua.
quado eu era miúda não havia medo de raptos, nem de roubos de crianças, nem dvd's, nem jogos de computador, nem computador... nem havia dramas porque o pai e a mãe passavam pouco tempo em casa.
Os meus pais trabalhavam bastante mais do que eu trabalho agora, e por turnos. A única empregada lá da casa era a minha mãe e por isso, desde muito cedo, aprendemos (eu e o meu irmão) que ajudar nas tarefas domésticas era fundamental.
Mas crescemos felizes. E na rua.
Houve palmadas (umas até bem fortes), mas nenhum de nós ficou traumatizado com isso, nem os meus pais foram acusados de abuso de menores.
Houve dificuldades: às vezes o dinheiro não dava para tudo. Não havia gelados todos os dias, nem fiambre do mais caro, nem idas à praia todos os fins-de-semana. Mas havia gelado uma vez por semana (no mínimo) e filete afiambrado (coisa que nunca mais consegui comer, confesso, mas que adorava na altura), e havia manteiga, e lá íamos à praia quando calhava, ou então passeávamos no Jardim do Campo Grande.
E havia a rua, aquele largo rodeado de pequenas casas onde morávamos (nós e os nossos vizinhos). E aquele largo tinha a dimensaão dos nossos sonhos. Ali fui professora, bailarina, princesa, índia... tudo o que quisesse me era permitido porque era precisso muito pouco para que os sonhos se concretizassem. Duas caixas de fruta do Tio Manel, uns papeis, umas canetas e uns livros antigos davam perfeitamente para brincar às escolas. Umas tiras de papel crepe atadas às cordas da roupa, um gravador e meia dúzia de cassetes eram o suficiente para um baile de Santos Populares. E as fogueiras de São João? E os jogos de berlinde? E as escondidas?
E as férias grandes em Marco de Canaveses? às idas ao rio com os meus primos? Mais de 20 miúdos enfiados numa poça de água. Corridas pelos campos... o roubo das uvas, e das cenouras dos vizinhos; brincar às escondidas no meio do milho... acordar com o chiar do carro de bois do Quinzinho... abrir a porta da côrte dos porcos para deixar o vizinho doido de raiva... ir em grupo, todos os netos, com a avó até à capelinha para rezar o terço... ir a pé, 3km, monte acima, para ir à missa de domingo...
Quando olho para trás e vejo a infância que tive, tenho pena de não poder dar nada de parecido ao Henrique. Os miúdos passam os dias enfiados em casa e na escola.
Meia hora no parque já é uma festa, mas mais do que isso não, porque a mãe está cansada, teve uma semana má, sente-se tonta com o calor... que raio de mãe.
A minha, a minha super-mãe, essa, entre um grito e um puxãozito de cabelos (que eu bem merecia), tinha tempo para jogar às cartas, brincar às cantigas, jogar ao sobe e desce. e depois ainda conseguia fazer o jantar, tratar de dois, filhos e de um marido, passar a ferro, limpar a casa e poupar, poupar o máximo que conseguia para que os seus dois filhos pudessem ser e ter o que ela nunca foi nem teve.
E às vezes, no meio desta angústia toda e desta lufa-lufa em que se tornou a minha vida penso se a minha mãe acha que valeu a pena. Se nós (eu e o meu irmão) correspondemos ao que ela tentou fazer de nós.
E penso na rua, naquele largo, naquele espaço mágico onde eu brincava e onde havia lugares-cativos. à porta da menina Maria, mesmo por cima da casota de cimento que tinha construído para o seu cão, era o meu lugar, o meu poiso preferido ali atrás do chafariz. à porta da Morgadinha sentava-se o Xico maluco, vizinho detestáve, espécie de monstro no nosso imaginário. Conquistar aquele lugar era um feito assinalável. Mas para isso era preciso que nos despachássemos cedo...
e a rua volta-me ao pensamento. E penso que o meu filho talvez fosse mais feliz com menos um par de all star ou menos um dvd e mais rua e mais tempo.

Famous Blue Rain Coat

Its four in the morning,
the end of December
I'm writing you now just to see if you're better
New York is cold, but I like where I'm living
There's music on Clinton street all through the evening.
I hear that you're building
your little house
deep in the desert
You're living for nothing now,
I hope you're keeping some kind of record.
Yes, and Jane came by with a lock of your hair
She said that you gave it to her
That night that you planned to go clear
Did you ever go clear?
Ah, the last time we saw you
you looked so much older
Your famous blue raincoat was torn at the shoulder
You'd been to the station
to meet every train
And you came home without lili marlene
And you treated my woman
to a flake of your life
And when she came back
she was nobodys wife.
Well I see you
there with the rose in your teeth
One more thin gypsy thief
Well I see jane's awake --
She sends her regards.
And what can I tell you
my brother, my killer
What can I possibly say?
I guess that I miss you,
I guess I forgive you
I'm glad you stood in my way.
If you ever come by here,
for jane or for me
Your enemy is sleeping,
and his woman is free.
Yes, and thanks,
for the trouble you took from her eyes
I thought it was there for good so I never tried.
And jane came by with a lock of your hair
She said that you gave it to her
That night that you planned to go clear
Sincerely Your
L Cohen.

O mundo também é isto.
E ainda bem

Grande momento do dia

Vou pedir desculpa à mãe, mas só depois do pequeno-almoço.
A mãe precisa de tempo para desculpar

O meu concerto

Já lá vai quase uma semana, mas ainda não tinha tido tempo, nem oportunidade de aqui deixar as minhas impressões sobre o meu concerto. Não que eu tenha decidido embarcar numa carreira artística. Nada disso.
Falo do meu concerto no sentido de ser o concerto da minha vida.
Leonard Cohen.
Acho que é o meu lado antigo que se prende às canções deste poeta/compositor/intérprete. Como se uma parte de mim fosse antiga muito antes de eu o poder ser. Aos 15 anos já me fechava no quarto a ouvir "Dance me through the end of love".
No sábado à noite, quando estava a chegar ao passeio marítimo de Algés (local estranho para um concerto deste género), foram os acordes desta música que me fizeram correr como uma adolescente com medo de não poder ver e sentir tudo. E foi um concerto de sensações. Senti-me tão bem; fora de mim mesma, dos meus problemas... foram três horas de puro encanto, de partilha e também de respeito. Faz bem ver e ouvir alguém que tem respeito e admiração pelo seu público.

Voltámos às grandes birras

Assim, sem aviso, o Henrique decidiu acordar o monstro que vive dentro dele. E o monstro estava mesmo com vontade se ser solto... tem sido cada birra. Daquelas de me deixar à beira de um ataque de nervos e muito próxima do meu limite.
Tento perceber o porquê do comportamento dele. Na escola está tudo bem, meigo, doce, bem-disposto. Em casa é que a coisa se complica e quase sempre comigo. Nem palmada, nem castigo, nem conversa, nada resulta... Sinto-me impotente e sem forças para resolver esta situação.
P-A-C-I-E-N-C-I-A, preciso de muita. Alguém sabe onde se vende?

terça-feira, julho 22, 2008

Não é facil

Mas tento afincadamente não enterrar a cabeça na areia e viver cada dia com um bocadinho de esperança e alegria... nem que seja só uma racha, fina, lá ao longe.

terça-feira, julho 15, 2008

O que eu aprendi com o Panda do Kung Fu

"O passado já foi, o presente é uma dávida. É por isso que se chama presente".
Bonito, não? Mesmo que tenha saído da boca de uma tartaruga que é mestre de kung fu.

terça-feira, julho 08, 2008

Homenagem a António Pina

Cheguei de uma semana de férias no dia 3 de Julho e, logo no aeroporto, a notícia chegou-me como uma bomba. Uma mensagem no telemóvel dizia que o Dr. António Pina, o cirurugião que me operou, tinha falecido.
Fiquei devastada. Não só porque me sinto orfã, de um grande cirurgião, de um companheiro, de um grande homem, mas também porque ele próprio deixa 5 filhos, todos muito pequenos.
O Dr. Pina foi das pessoas mais fabulosas que conheci no decorrer da minha doença. Um médico excepcional e um Homem íntegro e honesto. Nunca me faltou à verdade, sempre me disse exactamente o que se estava a passar comigo e sempre teve uma palavra mais amiga ou um sorriso mais cúmplice quando eu mais precisei.
Ainda não percebi muito bem as causas da sua morte. Dizem-me que foi um AVC provocado por uma doença súbita no sangue.
Porque foi uma pessoa determinante na minha recuperação, porque era um ser humano extraordinário, deixo-lhe aqui a minha homenagem.
Obrigada, Dr. Pina.

segunda-feira, julho 07, 2008

O que dizer?

Olho para o que aqui escrevi da última vez e nem sei o que sinto... raiva, tristeza, angústia, desespero, descrença...
Depois das melhoras iniciais o meu pai começou a piorar.. febre, inchaço... voltou aos cuidados intensivos e, mais uma vez, para morrer.
O médico que o operou sempre a dizer que ele estava estável. A minha mãe, no entanto, via-o mirrar de dia para dia e todos os outros médicos lhe diziam que o meu pai estava muito mal.
Da última vez que o meu pai falou com a minha mãe disse-lhe que não queria ficar em Espanha, adivinhado já a sua morte. Uma septicemai....
Uma vez mais a família entrou em acção: trouxemo-lo para Portugal, onde chegou na sexta-feira à noite.
E qual não foi o nosso espanto quando nos disseram que o meu pai tinha três feridas (escaras, úlceras, chamem-lhe o que quiserem) de maus cuidados de enfermagem (nunca o viraram ou limparam apesar de estar numa unidade de cuidados intensivos) e quando, depois de lhe destaparem o penso da operação, nos terem dito que a cirurgia não tnha corrido tão bem como tinham dito... neste momento, voltámos à estaca zero. O meu pai está novamente numa unidade de cuidados intensivos em isolamento, pior do que alguma vez esteve. Não sabemos o que dará para aproveitar da cirurgia que fez (se é que se pode aproveitar alguma coisa) e com esta brincadeira, gastámos 15 mil contos. Nós que não somos uma família rica, apenas uma família unida.
E o que dizer ou fazer perante isto? Tudo o que pode correr mal com o meu pai corre e tudo o que poderia correr bem, não corre.
E no meio disto tudo pergunto-me muitas vezes porque é que ele simplesmente não se deixa ir, não deixa de lutar por uma vida tão reles.

terça-feira, junho 24, 2008

Mais um passo

Gigante, para nós. O meu pai já saiu dos cuidados intensivos. Até já levou um ralhete da minha mãe....

segunda-feira, junho 23, 2008

Insensibilidade... ou deveria dizer estupidez natural?

Que raio se passa com as pessoas que vêem uma mãe com uma criança ao colo a arder em febre, às dez da noite, à porta de uma farmácia e olham para o lado como se nada fosse? Dar a vez?????

Passo a passo

A recuperação é lenta, mas está a contecer. Na próxima quinta-feira voltará a ser operado, para fazer o enxcerto de pele... mais um mês e estará na sua casa...

sábado, junho 21, 2008

Despertar

Escrevo hoje com um novo ânimo.
Sonhei que estava a comer caracóis com o meu pai... ele adora. Este sonho de o ver comer o que ele gosta foi de tal forma real que me senti iluminada por uma nova esperança.
Hoje a minha mãe ligou e, pela primeira vez, ouvi-lhe um sorriso. O cirurgião que operou o meu pai trouxe boas notícias. A recuperação está a ser lenta, mas dentro do esperado "Estoy muy feliz por D. Antonio", disse ele. Os drenos lá continuam com muito líquido verde, mas está tudo explicado (bílis...e não ua infecção grave), o ventilador já lhe foi retirado e já abriu um olho. Amanhã deverá estar acordado porque começaram hoje a retirar a sedação.
Segunda-feira ou quinta, de acordo com a evolução deste quadro, voltará a ser operado, para colocar a pele do ombro no pescoço.
Um milímetro em cada dia... o estado dele continua a ser grave, mas dentro do que é normal numa cirurgia como esta, raríssima em todo o mundo.
Obrigada pelas palavras de conforto. Têm sido muito importantes.

sexta-feira, junho 20, 2008

Más notícias

Muito líquido a sair dos drenos... foi esta a notícia que a minha mãe me deu. Não é boa, porque significa que ele tem uma infecção e a tão desejada cicatrização está atrasada... já chorei tudo o que tinha para chorar, já dei voltas à cabeça para tentar encontrar algo a que me agarrar. Resta-nos aguardar... e a minha mãe lá, sozinha.
Amanhã espero ter mais notícias com a ida do meu irmão.

quinta-feira, junho 19, 2008

relógio parado

É assim que sinto o tempo... parado. Cada minuto que passa parece-me séculos. Cada hora, cada dia... apetecia-me acelerar até ao futuro.

Novas de um lutador

As novidades nem são muitas, mas ele é mesmo um lutador.
O meu pai continua nos cuidados intensivos e sob o efeito de sedação. Dizem os médicos que é o procedimento normal numa situação como esta, tão delicada. Tê-lo a dormir é apenas uma forma de assegurar que não tem dores e que não se mexe o que, segundo eles, poderia estragar tudo.
Imagino a minha mãe, todo o dia naquele quarto de hospital, sozinha, a esperar pelas duas visitas permitidas, momentos em que o contempla em silêncio e sem qualquer reacção da parte dele.
Não sei quanto mais tempo ele irá permanecer a dormir. Estou longe, não posso correr atrás de um médico pelo corredor a implorar novidades... e ela, coitada, mal consegue entender o que lhe dizem.
Mas estamos com fé. Ele continua estável e a lutar!

quarta-feira, junho 18, 2008

Primeira etapa superada

A cirurgia correu bem. Não foi completa, ainda falta fechar a ferida que tem no pescoço com pele retirada do ombro. Mas a cirurgia mais complicada já acabou, depois de sete longas horas de espera. Superada a primeira etapa, ainda nos faltam muitas... uma hora de cada vez. Devagar... devagarinho.

terça-feira, junho 17, 2008

Eu e os meus muitos bebés

a minha crónica da Pais & Filhos de Dezembro. tinha prometido colocá-las a todas aqui e esqueci-me....


Se esta frase fosse verdadeira, eu teria vários filhos, parte importante dos meus planos de vida em família. Não é que me visse rodeada de cinco ou seis crianças, mas sempre pensei que o Henrique seria o primeiro de dois ou três. O que acabou por não acontecer.
A minha ansiedade/angústia por não poder ter mais filhos é cíclica. Deixou de ser uma obsessão mas, em determinados momentos, dou por mim a pensar que não voltarei a ter a mão sobre a barriga para sentir um bebé mexer.
Há poucas semanas uns amigos devolveram-me roupinhas de bebé do Henrique que eu lhes tinha emprestado para o seu Tiago, agora um valente bebé de seis meses. E ali, a olhar para todos os mimos (e foram muitos) que comprei para o meu primeiro bebé, fiquei triste, a pensar o óbvio: que não teria outro filho a usar aquelas delícias.
Enquanto estava grávida do Henrique fui ao Brasil e, devo confessar, que não me contive: fartei-me de comprar roupa de bebé, pequenas meias, sapatinhos, calções de banho, t-shirts, calções… um sem fim de pequeníssimas peças de roupa que todos os meus filhos usariam.
Quando o Henrique tinha oito meses e me foi diagnosticado cancro, uma das minhas principais preocupações não era a minha morte, tal era o meu grau de inconsciência. O que eu queria assegurar era que, se tivesse de fazer quimioterapia e radioterapia, as mesmas não me impedissem de voltar a ser mãe. Ou seja, eu pensava que a gravidez em si não seria um risco; o máximo que me poderia acontecer era não conseguir engravidar devido aos tratamentos. E arrastei para esta insanidade momentânea a minha querida ginecologista, a quem me lembro de ter telefonado várias vezes a pedir conselhos. Isto antes de saber tudo sobre a minha doença e a sua gravidade. E ela, a minha Alice (é assim que a trato), certamente ciente de todos os riscos que eu corria e da mais que certa impossibilidade de eu voltar a ser mãe, nunca deixou de me atender o telefone, de me dar os contactos dos seus colegas da Infertilidade. E acabei por desistir da ideia de “congelar” óvulos mais pela sua inviabilidade que pela minha noção do que se estava e estaria a passar.
O meu primeiro contacto com essa dura realidade teve lugar numa das minhas primeiras consultas de Oncologia. O médico, que em termos de simpatia e relações humanas deixava muito a desejar, olhou para mim como um burro para um palácio quando lhe perguntei se poderia voltar a ter filhos. “Concentre-se em continuar viva. Quer dois filhos para quê? Para não estar cá para os criar?” Aquelas palavras deixaram-me estupefacta. Hoje percebo-as de outra forma, entendo até o que aquele médico me queria transmitir. Mas naquela altura, em que eu estava tão vulnerável, depois de uma operação tão violenta e sem saber que mais tratamentos se seguiriam, tudo me pareceu de uma frieza brutal.
Tecnicamente posso engravidar. A quimioterapia não me deixou estéril. Mas aqui a técnica só pode ficar no plano das hipóteses e suposições. A verdade é que há um risco grande de voltar a ficar doente se engravidar. Não tenho dados estatísticos, mas sei que esse risco existe e é real. E cabe-me a mim decidir se vale a pena o risco.
Eu adoraria voltar a estar grávida. Foi uma das melhores fases da minha vida. Sentir a barriga crescer, sentir o Henrique mexer, foi mesmo fantástico e único. Mas percebo o que aquele médico queria dizer. Eu não estou livre de voltar a ficar doente, com uma gravidez esse risco aumenta consideravelmente, porque tudo cresce no nosso organismo, tudo se altera. E será que vale a pena arriscar ter outro filho? Para já penso que não.
São várias as pessoas que me falam de adopção. Que tirar uma criança de uma instituição é algo de nobre e, que se tenho tanto amor para dar, posso perfeitamente adoptar uma criança. Também é verdade. Mas parte do risco mantem-se. Tento explicar que, primeiro, eu gostaria muito da experiência física da maternidade, de estar grávida. Segundo, o risco de ficar doente mesmo não voltando a engravidar ainda é real e não é assim tão longínquo como eu gostaria. Por isso, adoptar uma criança, retirá-la de uma instituição, de um ambiente e de um passado difíceis para a colocar perante uma hipótese de orfandade, é algo que me atormenta. Claro que todos nós corremos o risco de morrer, mas quer queira quer não, uns correm mais riscos que outros.
Mas, felizmente, a minha vida é preenchida com outras crianças. As das minhas amigas, aquelas pessoas especiais que nunca me deixaram enquanto estive doente. E, pelas últimas notícias, mais bebés se vêm juntar a minha lista de preferidos. Vejamos, o Martim nasce em Dezembro, a Madalena em Fevereiro (se for mesmo uma querida escolhe o dia do meu aniversário para visitar este mundo), e mais quatro chegarão até ao Verão. Alguns deles ainda sem nome, outros até desconheço o sexo.
E aqui me vejo, rodeada das roupas de bebé do Henrique, a separar por montinhos para poder emprestar a todos, cheia de vontade de tricotar mantinhas e bordar fraldas. E sinto-me mais preenchida e feliz. Já que não posso ser mãe. Serei uma grande tia! Dos meus outros bebés.

à espera

Já lá vão quatro horas e meia... o meu pai continua naquela sala de operações lá longe onde a minha vista não o consegue alcançar. Nem a ele nem à minha mãe, sozinha naquele hospital imenso, num país que não é o seu e onde mal percebe quem a rodeia. Fico preocupada, na realidade, mais por mim (que fico ansiosa e lhe ligo de vinte em vinte minutos) do que por ela. Porque a minha mãe vence a adversidade da língua com o poder da sua bondade e do seu amor. Deviam vê-la este fim-de-semana, enquanto lá estive, a apresentar-me as suas novas amigas, enfermeiras, auxiliares, mulheres que viram no seu rosto o amor incondicional a um companheiro, a dureza de uma vida com muito sofrimento e um coração imenso capaz de, mesmo triste, dar um carinho a quem mais precisa.

Chegámos a meio da operação. As últimas notícias que temos são das 20h. A operação estava a decorrer com normalidade. Normalidade... palavra estranha no vocabulário do meu pai, um homem a quem falta quase tudo... palavra estranha para descrever uma cirurgia tão arriscada.
Faltam, pelo menos, mais quatro horas. Esta fase inicial de angústia só terminará no momento, madrugada dentro, em que a minha mãe telefeonar a dizer que tudo correu bem. E eu acredito que tudo vai correr bem, que ele vai superar esta etapa... ele a quem deram como morto há mais de um ano. Se nessa altura ele acordou também o irá fazer agora.

E deito-me com a certeza que o telefone vai tocar, madrugada dentro, para nos dizer que o nosso amor, a nossa corrente de energia, o trouxe de volta mais completo.

corrente

São seis da tarde. O meu pai está a ser operado. Eu, que há muito perdi a fé numa força Divina, não perdi a que tenho nos meus amigos. Peço-vos, por isso, que esta noite, antes de irem dormir, pensem no meu pai e lhe dediquem 3 segundos de esperança e alegria.
Obrigada

O que eu sinto...

O que eu sinto é um fogo que me consome as entranhas... uma dor e uma ansiedade sem igual.
De meia em meia hora dou por mim a ligar à minha mãe para saber novidades. que novidades? Ainda nem sequer foi levado para a sala de operações. ..
A minha primeira angústia é essa, a de ter a certeza que ele sempre é operado hoje; de que não vai voltar a haver um adiamento...seria insuportável para ele.
a minha outra angústia, a maior, é saber se isto é o início de algo melhor ou o fim de tudo. Por mais que não queira considerar essa hipótese, por mais voltas que dê à cabeça, a verdade é que o meu pai pode morrer nesta operação, lá longe num país estranho, onde está sem os seus dois filhos.
Sinto-me como se tivesse tapado o nariz para suspender a respiração antes de um grande mergulho.

sábado, junho 14, 2008

espera

Afinal ainda não é hoje.
Escrevo de Madrid. Estou sentada ao lado do meu pai. Estamos os dois ansiosos. Ele diz que sente o coração num bolo, tudo misturado. Eu, por um lado, sinto-me feliz com a oportunidade de o rever antes de ser operado mas, por outro, gostaria que tudo se despachasse mais rapidamente. Houve um contratempo com uma das outras operações de ontem, o que obrigou a adiar a nossa. Estamos em espera... como o equilibrista. Parados no meio do fio... tudo vai correr bem. Mas temos de esperar até terça.

sexta-feira, junho 13, 2008

Fé?

Dou por mim com fé... não por mim, pelo meu pai.
Dentro de horas vai ser operado. Não sei bem se ainda durante esta noite ou amanhã de manhã.
Depois de tantos azares esperamos que esta operação, tão arriscada, lhe traga uma nova vida.

domingo, junho 08, 2008

Ansiedade

O meu pai vai amanhã para Madrid a mais uma consulta.
E vai sem regresso marcado. Talvez fique para fazer exames e, quem sabe, ser operado. Tudo depende do que o médico lhe disser amanhã ao fim da tarde... estamos todos numa grande ansiedade... hoje, quando se despediu do meu filho vi, nos seus olhos molhados de emoção, o temor de não voltar a ver o neto... amanhã, por esta hora, espero ter novidades.

terça-feira, junho 03, 2008

O Preço certo

Porque não é segredo.
A minha casa está à venda por 190 mil euros.
Mais informações neste blogue (há que procurar as fotos) ou em http://casanaestefania.blogspot.com

Até já

sexta-feira, maio 30, 2008

Resposta à cristinar

Deixaram-me um destes dias um comentário num post que remetia para um texto muito interessante sobre doentes com cancro e a forma como muitos sobrevivem à doença, mas depois são obrigados a sobreviver a uma série de consequências dos tratamentos e da doença praticamente sem qualquer tipo de apoio. Deixo aqui o link para o artigo em questão, da BBC.





http://news.bbc.co.uk/2/hi/health/7423517.stm





Este é um assnto sobre o qual, infelizmente, tenho muito a dizer. Pela minha experiência mas, sobretudo, pela do meu pai.


Como o artigo refere, grande parte dos doentes que sobreviem ao cancro vivem depois numa espécie de limbo, de terra de ninguém: já não são assistidos pelo oncologista (porque já tiveram alta da oncologia), mas continuam a precisar de uma série de cuidados que, ou não chegam, ou chegam de onde menos deveriam chegar.


Este artigo reporta-se à realidade britânica que, ainda assim, me parece consideravelmente melhor que a portuguesa. Fala o jornalista de uma falta de articulação entre os serviços de oncologia e os serviços de cuidados paliativos, aqui encarados de forma mais abrangente que o tradicional "cuidar para morrer".





Acontece, logo à partida, que em Portugal não existem unidades de cuidados paliativos. Pelo menos à séria. Pelo menos integradas nos hospitais públicos e nas consultas de oncologia. Existe uma associaçãod e cuidados paliativos, ao que sei, com actividades e iniciativas de lhes tirar o chapéu. Mas é privada e rema contra a maré num país que teima em considerar a saúde como um parente pobre.





E não me vou alongar muito em explicações teóricas. Vou apenas dar dois exemplos, em tudo muito distintos: o meu e o do meu pai.





eu tive cancro no estômago. tinha acabado de fazer 29 anos. Fiquei sem estômago, sem baço, perdi 12 kg (parte dos quais já recuperei), fiz cinco ciclos de quimioterapia e 25 sessões de radioterapia. Fui internada por duas vezes durante os tratamentos devido aos efeitos dos mesmos.

Mal acabei os tratamentos e como não tinha metástases, tive alta da consulta de oncologia. Todos os exames de controlo que faço são supervisionados pelo cirurgião que me operou. Ele, um ser humano fantástico e um excelente profissional, não deveria estar a perder tempo comigo. Porque ele, por amor de deus, é um cirurgião, e dos bons. Devia estar a operar, que é o que faz de melhor. Em vez disso perde grande parte do seu tempo em consultas com doentes como eu e em reuniões dos famosos centros hospitalares.

Eu, no meio do panorama do nosso país, considero-me uma privilegiada. Porque tenho um bom médico e porque, apesar dos pesares, me esforço por ter e tenho uma vida relativamente normal.

Mas, só a título de exemplo, nunca tive uma consulta de nutrição (algo fundamental numa pessoa que teve de mudar os seus hábitos alimentares, que perdeu tanto peso e que tem uma deficiente absorção dos alimentos), nunca me encaminharam para uma consulta de psicologia. Resumindo, nunca tive um apoio concertado e multidisciplinar. Muito do que consegui recuperar foi porque tenho vários amigos e familiares profissionais de saúde.
Fala-se muito da consulta de nutrição do Hospital de Santa Maria. E os outros doentes, o que é feito deles?

O caso do meu pai, então, parece saído de um filme de terror. Seguido por vários médicos do IPO cada um deles tinha uma opinião diferente e aconselhava tratamentos diferentes. Aqueles que deviam ser uma equipa multidisciplinar não deviam falar uns com os outros. Depois de muito penar, e ainda numa fase inicial do seu actual estado, lá foi enviado para a consulta da Dor, a única onde estavam realmente preocupados com o seu bem-estar. Das muitas vezes que apareceu nas urgências cheio de dores e a sangrar sempre lhe disseram que era normal. Até ao dia em que a carótida rebentou e se seguiu um processo indiscritível que acabou com ele fechado num quarto, todos à espera que ele morresse.
Para que o meu pai tivesse algum conforto tivemos de o tirar dali e levá-lo para uma clínica privada. Nunca ninguém acreditou que ele sobrevivesse. Acho mesmo que só ele acreditou. E agora que estamos a tentar dar-lhe um bocadinho de qualidade de vida temos de o levar a Madrid para ser operado. Tudo pago por nós, claro. Que o Estado manda doentes operarem as cataratas a Cuba, mas não se compadece com um homem que não fala, não come e tem um buraco de 20cm na garganta. um homem que não pode engolir nada nem sequer a sua própria saliva. Tudo o que precisávamos era de uma carta do IPO dizendo que não faz (em tempo útil) aquela operação. Mas para eles tempo útil é outra coisa. O meu pai, segundo os seus cálculos, tem cerca de 40 pacientes à sua frente. "Operado? Nunca antes de Setembro" que é o mesmo que dizer temos medo de o operar mas não podemos reconhecê-lo...
O meu pai foi completamente abandonado pelo Sistema Nacional de Saúde.

E o apoio aos familiares? Esse então nem se fala. A minha mãe lidou com dois pacientes com cancro. Está nas lonas... debilitada, cansada, exausta. Apoio? só se for o nosso, lá em casa.

Basicamente isto resume a minha posição face aos cuidados continuados/integrados dos doentes que sobrevivem ao cancro... temos de nos agarrar às nossas forças e à nossa família porque do Estado vem muito pouco.

domingo, maio 25, 2008

Agora é que vão ser elas

A partir de hoje eu e o Henrique estamos por nossa conta durante um mês.
Vai ser um teste e um desafio.
Agora é que vão ser elas.

sexta-feira, maio 23, 2008

Tombar como uma velha árvore

É assim que vejo a morte do Torcato, como a queda brutal, assustadora, ruidosa, de uma grande árvore sobre o solo seco. De uma só pancada, dura, mas de pé. O torcato foi vencido pela doença mas, mesmo assim, trocou-lhe as voltas, a esta doença estúpida e ignóbil. Não deixou que ela o corroesse de dentro para fora, que lhe tirasse as forças e o deixasse irreconhecível.

quarta-feira, maio 07, 2008

É linda e está à venda

Pois é, a nossa linda casa está à venda.

Tem 95m2, divididos por sala de estar, sala de jantar, dois quartos, cozinha, casa de banho, escritório e duas despensas.
Fica na Estefânia (para os que não sabem), na Rua José Estevão.
Fica num prédio de traça antiga, bem conservado, e é um terceiro andar sem elevador.
O pé direito é de 3m.
A casa teve obras há seis anos (incluindo canalização e electricidade).
Vidros duplos e aquecimento central a gás natural.
Quem estiver interessado pode deixar um comentário com o seu mail.





















































segunda-feira, abril 21, 2008

Evidência do tempo que passa

Conversa com a baby-sitter do meu filho na sexta-feira passada.

Eu -Vamos ver um concerto. Devemos estar em casa antes da uma.
Ela - que concerto?
Eu - os GNR!
Ela (com um ar desinteressado) - Ah, já ouvi falar....

sexta-feira, março 07, 2008

Isto está bonito

A polícia andou a recolher informações sobre os professores que amanhã se vêm manifestar a Lisboa. Apenas para garantir uma boa circulação na capital a um sábado...
Isto depois de ter andado a pedir a identificação a professores que se manifestavam legalmente a semana passada... é impressão minha ou estamos perigosamente perto do tempo da outra senhora?

segunda-feira, fevereiro 25, 2008

o que se passa com o mundo?

Apetece-me içar uma bandeira de pernas para o ar. Porque me parece, claramente, que este mundo precisa de ajuda. Há cerca de duas semanas vi um filme, a meu ver, espectacular: O vale de Elah. Desencantado? desesperançado? Talvez, mas acima de tudo, de uma realidade crua, despida de fantasias... porque a vida às vezes é mesmo assim, uma incngruência pegada. No final do filme o actor principal pede a uma pessoa que ice a bandeira dos Estados Unidos de pernas para o ar (o que significa que o mundo está de pernas para o ar e que é preciso ajuda). Pois eu sinto-me assim. À luz dos últimos acontecimentos apetece-me mesmo fazê-lo. Porque não consigo encontrar explicação para o que está a acontecer com os que amo. Porque me sinto impotente perante o sofrimento dos que me são queridos.

quinta-feira, fevereiro 21, 2008

novidades

A Madalena não só já está em sua casa, com os seus pais, como está linda e maravilhosa.
Que bebé linda, ela é.
Parabéns!
Aguardo fotografias novas para postar aqui.

domingo, fevereiro 10, 2008

uma janela aberta chamada esperança

Há dias que aqui não escrevo e, acreditem, não é por falta de novidades.
A pequena Madalena continua a lutar. Primeiro pela sua vida, agora luta contra o ventilador... calma, Madalena, tens muito tempo para conheceres a tua noa casa. Para já o importante é continuares no hospital até uma recuperação completa. é curioso como me sinto ligada a esta petiz que ainda nem tive oportunidade de pegar a colo ou mesmo de ver sem ser através de fotografia. Mas tenho uma certeza no meu coração: ela vai ficar bem:)
Por estes dias fui a Madrid com os meus pais. O meu pai está doente há mais de dois anos. Há cerca de um ano disseram-me que nunca mais acordaria, mas ele, teimoso, decidiu contrariar todos os prognósticos e lutou. Primeiro para se manter vivo, e agora por uma vida um pouco melhor.
Esta visita a Madrid traduziu-se num momento decisivo para as nossas vidas. Porque as respostas em Portugal não eram suficientes nem satisfatórias, tivemos de procurar noutro país uma opinião alternativa. E o que ouvimos foi, sem sombra de dúvida, a melhor notícia que tivemos em anos. Se não houver sinal de cancro no corpo do meu pai ele poderá ser operado. Não voltará a falar, mas poderá voltar a comer. E essa possibilidade é de tal forma motivadora que todos os outros problemas que nos rodeiam parecem insignificantes.
Só é estranho que tenhamos de ir a outro país procurar o que aqui não nos podem oferecer. Fico a pensar como as coisas poderiam ter sido diferentes se ele tivesse sido tratado fora de Portugal desde o início.
Estar ali, naquele consultório, frente aquele médico, fez-me ver tudo de uma outra forma. Pela primera vez sentei-me frente a uma pessoa que não achou que o meu pai tinha vindo directamente de Marte. E as respostas foram imediatas. A cirurgia é possível. Assim, de repente. Até fiquei atordoada. Se tivessesmos as nossas vidas organizadas de outra forma ele poderia ter ficado já em Madrid para fazer exames...
A nossa grande batalha agora será custear uma operação como aquela que o meu pai terá de fazer. Porque terá de ser operado numa clínica privada.
Mas é uma batalha que será ganha, assim ele possa ser operado.
Esta foi a minha melhor prenda de aniversário:)

sexta-feira, fevereiro 01, 2008

susto

Como é perene a vida.
ainda ontem veio ao mundo e a pquena Madalena já nos está a dar preocupações. ar na pleura, dizem os médicos. A nossa pequena princesa já está a sofrer as agruras da vida... mas dentro em breve estará aqui, de colo em colo.

quinta-feira, janeiro 31, 2008

Nova vida





É uma princesa e já nasceu.

A Madalena chegou hoje a este mundo doido

segunda-feira, janeiro 28, 2008

partilha




Aqui fica o primeiro texto (e respectiva foto) que escrevi para a Pais & Filhos.






Sou mãe de um super-herói

Ser mãe é ser muitas coisas. A grande maioria, quando passada para o papel, raramente escapa aos lugares comuns, mas não menos raramente escapa à verdade.
Quando os nossos filhos nascem há algo em nós que muda para sempre. Não sei explicar muito bem: é um misto de “as pequenas coisas fazem agora outro sentido” com “o sorriso dele é mesmo o mais lindo do mundo" com talvez uma pitada de “mas onde é que vivi este tempo todo antes dele nascer?”.
Ser mãe é ser muitas coisas, quase todas maravilhosas, mas algumas delas muito intensas e assustadoras. Ser mãe é sinónimo (mais cedo ou mais tarde) de noites mal dormidas, de ataques de nervos, hipersensibilidade a bolas, colares ou pulseirinhas.
Nestes parcos três anos de maternidade várias foram as vezes em que desejei ser amiga do Super-Homem ou do Homem-Aranha. Nem que por breves instantes. Só para que me ajudassem um pouco, para que usassem os seus super-poderes para me guiar neste caminho, por vezes sinuoso, que é o da maternidade.
Pois é, confidência absoluta: ser mãe nem sempre é fácil. Às vezes é até muito difícil. Muitas gestões a fazer, inúmeras birras a contornar, muitas cedências, algumas desistências e uma grande dose de gestão… de feitios, de conflitos, de sensibilidades, de personalidades.
Mas eu, enquanto mãe de um pequeno e maravilhoso ser de três anos, tenho uma confissão a fazer: sou mãe de um super-herói. O meu filho tem super-poderes e, nestes seus três anos, já fez mais por mim do que alguma vez algum medicamento ou médico poderão fazer e já contornou mais crises que muitos psicanalistas famosos.
Há cerca de dois anos e meio, tinha o meu filho acabado de fazer oito meses, foi-me diagnosticado um cancro. Pouco houve a dizer: a cirurgia era obrigatória, incontornável mesmo, e o futuro uma incógnita. Por defeito profissional, ou talvez por feitio, exigi saber a verdade e confesso que não foi fácil lidar com o que ouvi. Tanta incerteza, tantas caras baixas, tantos “nem imagina como isto é raro na sua idade”… foi um choque horrível, senti que o mundo tinha aberto a sua grande boca e estava pronto para me engolir. Por breves momentos, logo ali, naquela sala de espera de hospital onde ouvi da boca do meu irmão o que sentia que existia mas teimava em não acreditar, senti-me sugada por uma fenda imensa que se abriu debaixo dos meus pés. Só que, depois do horror momentâneo, cresceu em mim uma vontade maior: a de me fazer lembrar ao meu filho. Se eu morresse ali, aos seus oito meses, ele nunca se iria lembrar de quem tinha sido a sua mãe, das brincadeiras que já partilhávamos, dos beijos, dos abraços, do meu toque, do meu cheiro. E essa foi uma das maiores armas com que lutei nos longos meses que se seguiram. A convicção de que era obrigatória a criação , a cimentação de uma memória de quem eu era, de quem era a MÃE. Não podia abandonar ali a luta, entregar-me à doença, aos diagnósticos, ao prognóstico…
E por isso sei que sou mãe de um super-herói, porque o meu filho, do alto da inocência dos seus três anos, já me permitiu muito, já me ajudou a superar muitos obstáculos, muitos enjoos, muitas dores, muitas dúvidas. Sim, porque quando falamos de verdadeiras dificuldades, as noites mal dormidas devido a uma febre que teima em não baixar ou a uma otite, são um pequeno pormenor. Por isso deixo aqui uma pequena sugestão: da próxima vez que o limite se estiver a aproximar perigosamente e que o filho que está à nossa frente se tenha transformado, vá-se lá saber como, numa força demoníaca que temos vontade de exterminar, pare, pense três segundos na última grande frase que ele lhe disse, no última doçura, no último beijo, no último abraço e de como se sentiu feliz e especial com isso. E agora diga-me lá se não partilha casa com um, dois ou mais super-heróis.

quarta-feira, janeiro 23, 2008

Sol

É curioso o que um belo dia de sol pode fazer pela nossa alma.

sexta-feira, janeiro 18, 2008

começo e fim

Muitas vezes o começo e o fim andam mais próximos do que pensamos. A vida e a morte tocam-se das formas mais estranhas e constrangedoras, até. Ou, sem pensar numa experiência tão limite, a doença e uma nova vida. Podem acompanhar-nos quase de mãos dadas uma com a outra causando em nós sentimentos contraditórios. Por um lado a felicidade de presenciarmos uma vida que começa (de fazermos parte dela), por outro a tristeza de vermos alguém que amamos sofrer.
Como se a vinda de uma nova vida, justificasse a dor provocada por a perda ou a ameaça a outra.
Por estes dias tenho pensado muito em dois amigos e no que eles devem estar a passar.
Deixo aqui ficar um beijo para os dois.

quinta-feira, janeiro 17, 2008

De costas voltadas

O conflito emocional é tão grande que nem sei por onde começar. De cada vez que damos um passo em frente somos obrigados a recuar dois...
Depois da porta aberta à esperança, na passada segunda-feira, quando conseguimos finalmente a consulta em Madrid, eis que voltamos à estaca zero. Estás novamente no hospital, voltamos a passar por um grande susto... ainda vai ser o coração que me vai trair, tantas são as preocupações que lhe dou.
Sinto-me de costas voltadas para o mundo, para a sorte. Que raio de vida esta! Sempre a lutar, sempre a esbracejar para tentar manter a cabeça fora de água. Que cansaço... às vezes apetecia-me desistir. Deixar de nadar...

segunda-feira, janeiro 14, 2008

Gerir expectativas

Quando somos adolescentes oscilamos entre a verdade absoluta que ninguém nos entende e a esperança secreta que o príncipe encantado irá surgir. Ouvimos as discussões dos nossos pais, vemos os erros que cometem e pensamos que connosco vai ser dieferente. O ideal de felicidade absoluta parece-nos real. Eu, no meu caso concreto, chegava a pensar que mais valia estar só do que viver sem essa felicidade completa e absoluta.
A entrada na vida adulta e, sobretudo, na vida a dois, ensina-nos muitas coisas, a primeira delas é que a felicidade absoluta não existe. Podemos viver felizes, podemos ter momentos de felicidade absoluta, mas a vida adulta também é preenchida de grandes desilusões, de pequenos e grandes fracassos, de momentos infelizes.
O problema é quando não sabemos gerir expectativas, quando não conseguimos perceber que a vida é mesmo assim: boa e má, feliz e infeliz. Não nos conseguirmos adaptar às mudanças e Às dificuldades é uma merda, porque ficamos paralisados no meio da nossa frustração. E não conseguimos avançar, não conseguimos ver o lado bom da coisa. Ficamos ali, eternamente no lamento e no mau humor do que podia ter sido e não foi.
A isto chamo crescer e é por isso que a vida de adulto é tão difícil. E é por isso que cada vez mais vejo as pessoas sozinhas, sem paciência apra relações. Porque uma relação é, muitas vezes, sinónimo de ralação. E há quem já não esteja para isso.

sexta-feira, janeiro 04, 2008

Catarina Tolentino

Agora que aqui estava sentada a percorrer os contactos do meu telemóvel, dei com o número da Catarina Tolentino. E tive de o apagar. A Catarina morreu. Em Agosto. Creio que no dia 5. eu estava em Paris, a sair de Versailles quando recebi um telefonema da Susaninha "A Catarina faleceu." A notícia não me apanhou desprevenida, aliás, o sofrimento da Catarina era tal que creio que todos os que dele gostavam ficaram um bocadinho aliviados com a sua morte; com o fim do seu calvário.
A Catarina era uma mulher doce, a quem a vida pregou muitas partidas. Amiga de há muitos anos do meu marido e da minha amiga Susana, era pessoa que eu só encontrava quando ia à Madeira, nas férias. A Catarina e a sua Laura.
Quando fiquei doente a Catarina fez questão de se fazer presente.
Em Dezembro de 2006, quando cheguei à Madeira fui bombardeada com a notícia de que a Catarina estava com cancro. Do estômago, tal como eu. E que nem sequer nos tinha telefonado para não me fazer reviver o meu processo...
Fiquei espanatada quando a encontrei na Fnac, para assistir à apresentação do livro do filipe, 15 dias após a sua operação. Eu mal me mexia quinze dias depois de ter sido operada, confidenciei-lhe.
A partir desse encontro ficámos mais próximas. Ela tinha muitas dúvidas. Eu também as tinha e ainda tenho, mas já tinha quase dois anos de avanço em relação a ela. E assim fomos, nos meses que se seguiram, trocando mensagens, telefonemas. Ela sempre com medo de incomodar. Eu com receio de forçar a minha presença.
Sobre ela escrevi aqui em Junho http://princesaestrelas.blogspot.com/2007_06_01_archive.html
Na altura não escrevi tudo o que queria porque sabia que ela me lia e tinha receio que ela percebesse que eu já tinha a certeza que o fim estava a bater-lhe à porta.
Mas hoje, meses depois, esse risco já não existe.
Hoje, Catarina, apaguei-te do meu telemóvel.
A tua morte doeu-me. Por muitas razões. E também porque nela vejo um anúncio da minha.

Olímpio Ferreira (1967-2007)

Não era íntima dele, mas conheci-o o suficiente para dele gostar.
Trabalhámos juntos em alguns projectos. Concebeu a paginação do livro do meu marido.
O seu Miguel e o meu Henrique nasceram no mesmo dia (12 de Junho de 2004).
Voltei a encontrá-lo, profissionalmente, na Oficina do Livro.
O seu sorriso, a sua boa disposição, o seu amor pela vida ficarão para sempre gravados na minha memória.
Não consegui ir ao seu funeral. Por várias razões, mas muito por falta de coragem.
É-me cada vez mais difícil lidar com a morte.
Mas não podia deixar de o lembrar.
Ficas aqui, Olímpio.

quinta-feira, dezembro 20, 2007

Natal silencioso

Este ano o Natal vai ser diferente.
Vamos ser muitos lá em casa.
Barulho, gritos, a anmação típica do Natal. Mas da tua parte pai vai ser diferente. Vai ser o teu primeiro Natal silencioso. e vai doer.

quarta-feira, dezembro 05, 2007

Constatação do dia 2

Apesar das contantes desilusões eu tenho tendência para acreditar nas pessoas e na sua boa fé.
Às vezes lixo-me, como hoje

Constatação do dia

O mundo do futebol não é, definitivamente, a minha praia.

sexta-feira, novembro 30, 2007

quarta-feira, novembro 21, 2007

O fim da UCI

Para ele foi, felizmente, o fim da Unidade de Cuidados Intensivos.
O Sobral já está na enfermaria, embora não possa ter visitas.
A malta é fonte de contágio...
Mas ele vai-se aguentar, mesmo nesteisolamento forçado.

sábado, novembro 17, 2007

Inveja Boa???

Nunca pensei ter apenas um filho. Quando o Henrique nasceu sempre pensei que seria o primeiro de, pelo menos, dois. Mas, aos seus oito meses, quando fiquei doente, soube que muito dificilmente poderia voltar a ter filhos e que o risco de engravidar poderia ser voltar a ficar doente. É uma das piores marcas que o cancro me deixou. Amo o meu filho, estou muito grata por o ter tido antes de adoecer, mas adoraria poder voltar a experimentar a maternidade. E saber que não voltarei a ser deixa-me, às vezes, triste e angustiada.
Esta semana soube que uma das minhas grandes amigas está grávida pela segunda vez. Depois de tantas dificuldades, depois de tantos obstáculos, ela lá conseguiu. E fiquei tão feliz. A juntar a esta acompanho de perto pelo menos mais três gravidezes e desconfio de uma outra. E fico feliz, começo a bordar fraldas e a remexer na muita roupa de recém-nascido que comprei para o Henrique e a pensar em quem a irá vestir.
Sinto uma ponta de inveja. Claro que sinto. É uma situação que adoraria reviver e que sei que não o farei. Mas sinto-a como uma inveja boa, porque não desperta em mim outro sentimento que não o da alegria. Já que não posso ser mãe, serei pelo menos tia!

sexta-feira, novembro 16, 2007

Novas de um lutador

O Sobral foi operado.
Depois de tanta angústia pela espera de um fígado, começou na segunda-feira uma nova fase.
O tão esperado fígado chegou. Agora ele vai ter de nos mostrar de que fibra é feito e aguentar as muitas limitações e provações que estão para chegar.
Para já está tudo bem encaminhado.
Estamos à tua espera.

terça-feira, outubro 16, 2007

Carta aberta ao meu pai

Pai, acho que estás a atravessar uma fase em que estar vivo já não é suficiente.
Tentas sorrir-me, mas vejo-te triste, ausente, sem vontade de lutar contra as muitas barreiras que tens diante de ti.
Gostava que me conseguisses olhar nos olhos e contar as tuas tristezas, as tuas frustrações, os teus medos, as tuas revoltas. Gostava que te sentisses mais próximo de mim, a ponto de teres vontade, naturalmente, de me dizer essas coisas. Bem sei da tua limitação do dizer. Tu não falas, ou melhor, não emites sons. Mas eu, pai, quero ler-te os lábios, quero, eu própria, aprender a saltar essa cerca das dificuldades.
Gostava que te irritasses mais, que te revoltasses, que te zangasses, que te indignasses de cada vez que, na clínica onde diariamente fazes o penso, ouves da boca dos enfermeiros frases menos apropriadas em relação a ti. Gostava que interiorizasses que tens direitos, que não és menos pessoas que os demais, que tens de resmungar.
Eu imagino que a vida que evas é triste, incompleta. E imagino que cada vez que olhas para trás, para um passado não muito distante, vês e sentes o quanto te foi tirado.
Mas tu pai, não te deixaste morrer. Não permitiste que a morte falasse mais alto quando ela apareceu tão sorrateira. Por isso peço-te que agora tenhas a força para enfrentar a vida!
Da tua filha

frustração

contra esta nada posso.
Hoje queria muito poder ter estado com uma amiga muito querida que precisa, de certeza, de uma palavra minha. Perdeu o seu pai. E eu, talvez por ter esse fantasma tão perto de mim, sinto-me ainda mais solidária com a sua dor.
Mas não consegui. Tenho tanto trabalho que não consegui sair para a missa. E o que fazer quando esta frustração, este vazio horrível nos invade?
Descula Jó.

segunda-feira, outubro 08, 2007

Saudade

Hoje acordei com o som da voz do meu pai nos meus ouvidos... ele estava a cantar.
Depois percebi que tinha sido um sonho, que ele nunca mais vai falar. Que essa grande mutilação não tem retorno. E eu nunca pensei que tê-lo ali pudesse, por instantes, não ser suficiente. Queria tanto que este silêncio que nos atravessa fosse interrompido por uma gargalhada... ou mesmo um ralhete. Ralha-me, pai. Eu juro que não te levo a mal

terça-feira, setembro 25, 2007

Nem tempo tenho para me coçar...

quanto mais para blogar....
Mas estou no suporte de papel. Agora sim, sou uma cronista.
Pais & Filhos de Outubro.
Aguardo comentários.

terça-feira, setembro 18, 2007

O regresso

Foi bom mas acabou.
As férias já são passado e no trabalho já tudo funciona em velocidade cruzeiro... até ao Natal.
Estou de volta e não queria

sexta-feira, setembro 07, 2007

domingo, setembro 02, 2007

Às voltas com o mundo

Este foi um fim-de-semana muito particular. Fizemos 600 km para que o meu pai pudesse assistir ao casamento de um dos seus sobrinhos preferidos. A viagem foi dura, muito calor. Eu também, confesso, que já dei para o peditório casamento de aldeia, mas fui. Não por mim, mas por ele. E ele teve de escolher entre dois casamentos porque, afinal, ontem casaram-se dois sobrinhos e não apenas um. E embora eu soubesse que ele estava onde queria estar, também percebi que a outra festa era muito desejada. Era lá que estava a sua família (e não a da sua mulher), era lá que estava a sua mãe, minha avó.
E, com muito jogo de cintura mas, acima de tudo, muito boa vontade, lá voámos de um casamento para o outro. E, apesar de haver um minuto em que me questionei se tanto desgaste serviria para algo, senti, pouco depois, que para o que vi faria mais 1200 km, sem parar.
Foi a primeira vez em muitos meses que vi um sorriso na cara do meu pai. E a primeira vez, desde o meu próprio casamento, que o vi dançar. E com alegria.

sexta-feira, agosto 24, 2007

Vem aí






O clube do Napron.


Agora é que vão ser elas.


As noites de quinta-feira nunca mais serão as mesmas.

quinta-feira, agosto 23, 2007

Arranjem-lhe um emprego na Maxmen




Tentou fazer do CDS um partido sexy.

Como não lhe passaram cartão, é vê-lo agora com estas pequenas preciosidades de gosto duvidoso um pouco por toda a cidade.

Algué arranje um emprego numa revista masculina ao Dr. Pires de Lima.

Uma ajudinha, please





Há cerca de um mês que qualquer conversa do meu filho termina, invariavelmente, no assunto Megaman. A princípio era o desconhecimento total. Ele olhava para mim e dizia "eu sou o Megaman e tu és o amigo do Megaman, está bem?" e eu sentia-me uma perfeita idiota, sem a mínima noção do que ele quereria dizer com aquilo. Há umas duas semanas percebi de quem se trata... o Megaman é um desenho animado japonês, um personagem de um vídeojogo. Hoje, apõs uma consulta na wikipédia descobri (e eu cito a fonte ao contrário de uns e outros...) que os desenhos animados foram criados por uma empresa de jogos electrónicos, a Capcom. Também descobri que no Japão se chama Rockman.

Hoje, enquanto estava de boca escancarada no dentista, soube, pela assistente, que o Megaman existe, ou melhor, o boneco existe e ela, assim como eu, estava ansiosa por encontrar um. Senti-me mais acompanhada, neste mundo de crianças e brinquedos. E lanço aqui o apelo, se souberem de uma loja de brinquedos que tenha o dito herói que se veste de roupa coleante, botas e capacete ridículo, avisem-me.

Obrigadinha

quinta-feira, agosto 16, 2007

Cuba

Ontem vi parte da reportagem da Sandra Felgueiras sobre Cuba e muitas questões se levantaram dentro de mim.
Houve tempos em que achei que aquele país, apesar dos pesares, era um exemplo de solidariedade e justiça. Mas já não penso assim. E gostaria de acrescentar que não foi a referida reportagem que me fez mudar de ideias.
Cuba parece-me um país muito triste. E as vozes dessa tristeza, embora estejam muito abafadas, parecem-me cada vez mais.
É claro que eu gostaria de acreditar que um país com educação e saúde para todos seria o suficiente para uma sociedade mais justa. Que um país onde todos têm acesso a um mesmo cabaz básico é um país mais justo que divide da mesma forma os bens que tem... mas isto é tão pouco comparado com todo o resto...
Que tipo de país não permite que os seus cidadãos circulem livremente? Que tipo de país prende por 26 anos quem pensa de forma diferente? Que tipo de país não permite mais dos que os jornais do regime? Que tipo de país não permite mais do que os 4 canais de televisão estatais? Que tipo de país pune com 15 anos de prisão quem coma, ou venda carne de vaca? Que tipo de país não permite a entrada da Cruz Vermelha ou da Amnistia Internacional nas suas cadeias?
Por favor, não me venham com a conversa dos Estados Unidos e do que eles fazem, que eu já dei para esse peditório. O embargo não explica tudo e os Estados Unidos não são exemplo para ninguém.
Mas um país onde se diz "Eu não lhe posso dizer tudo o que penso", é um país triste e que precisa de mudar.

terça-feira, agosto 14, 2007

Raios partam a Gioconda





Foi para isto que esta malta foi ao Louvre?
Para ver aquele niquinho de tela lá ao fundo???
Será que sabem que aquela mesma sala está repleta de obras primas para as quais nem sequer olham?
Raios partam a Gioconda!

quarta-feira, agosto 01, 2007

Primeira metáfora

Foi na segunda-feira e nós, pais, ficámos embasbacados.
"O Fredy faz muito barulho."
"muito barulho, filho?"
"Sim, pai, o Fredy faz muito barulho como a chuva a cair nos carros."

A ver se me faço entender... ou será que sou mesmo uma porca fascista

Só porque acho que se uma pessoa for dispensada durante o período experimental isso não é, por si, uma sacanice sem desculpa?
Até me acho uma pessoa que defende os direitos dos trabalhadores, fico horrorizada com o número de recibos verdes neste país e com outras pérolas do género. Mas acho, muito sinceramente, que o período experimental existe por isso mesmo, para que a pessoa esteja à experiência e durante esse período acho perfeitamente normal que o trabalhador seja dispensado. E as razões podem ser todas ou nenhuma. Do mesmo modo que o trabalhador, durante esse tempo, também pode desistir do trabalho por qualquer motivo, até o de não gostar da cadeira onde se senta.
Se é agradável? Claro que não. Se há formas mais ou menos decentes de proceder? Claro que sim. Agora, fazer disso uma sacanice pegada? Não concordo.

terça-feira, julho 31, 2007

sexta-feira, julho 27, 2007

Porque nenhuma mulher é só doçura...

Hoje podiam chover uns sapos.
Estou num dia Aimee Mann.

quinta-feira, julho 19, 2007

Dois anos



Estes são o meu pai e o meu filho. A separar estas fotos estão dois anos.
Olhando para elas, assim à primeira, não posso deixar de sentir uma tristeza muito grande. Pela evolução negativa do meu pai, pela forma como ele passou a ser uma sombra de si mesmo, pelo sofrimento que viveu, pela degradação do seu corpo e do seu espírito.
Mas o motivo pelo qual partilho estas fotos é, também, outro. Há menos de seis meses não me passaria pela cabeça que o meu pai pudesse presenciar o terceiro aniversário do meu filho. Mas ele não desistiu, apesar de todos os pesares, apesar de todos os azares e injustiças, apesar de alguns terem desistido dele. Ele não. Manteve-se agarrado à vida de uma forma ímpar. E se ele não desistiu eu também não o irei fazer.

segunda-feira, julho 16, 2007

Partilha

Há muito que uma música não me emocionava tanto. Não consigo perceber se este é um momento de partilha ou de despedida. Mas é tão bonito que não consigo evitar as lágrimas de cada vez que o oiço.

quarta-feira, julho 11, 2007

Porque é grave e sintomático do estado da nação

Hoje deparei-me com um texto certeiro no blogue "Jornalismo de sarjeta", do Expresso, intitulado Morte e Impostos. A propósito do que nele se critica, a arrogância, injustiça e afins do nosso governo face a situações como a das juntas médicas dos dois professores com cancro, vejo-me forçada a escrever sobre uma outra medida deste governo que, apesar de criticada por todos, continua a ser aplicada. Falo das taxas moderadoras na saúde agora alargadas aos internamentos e cirurgias ambulatórias. Como muito bem dizia um dos membros da comissão que elaborou um estudo sobre esta questão, as taxas moderadoras, como o nome indica, foram criadas para moderar o acesso dos cidadão a serviços de saúde. Percebe-se, por exemplo, o seu uso nas urgências hospitalares. Para que as pessoas não inundem estes serviços com gripes, ou dores nas cruzes (se bem que, mesmo aqui, e dado o estado caótico em que funciona grande parte dos centros de saúde, por vezes recorrer a uma urgência com uma gripe é mesmo o fim da linha, a única forma de garantir que se é observado por um médico).
Mas digamos que aceito o princípo teórico segundo o qual as pessoas devem ser minimamente penalizadas por recorrerem às urgências de hospitais centrai com gripes. Agora o que não posso aceitar, como cidadã que paga os seus impostos e como doente crónica, é que me seja taxada uma diária por ser internada num hospital estatal. Então agora passo a ser penalizada por estar doente? Quando se aplica uma taxa deste tipo que acesso está a ser moderado??? Comos e as pessoas decidissem se querem/devem ou não ser internadas. "Ora bem, senhor doutor, eu até podia ir para casa, mas como estou zangada com o meu marido acho melhor ser internada dois ou três dias para descansar"....
Salvem-me deste país

segunda-feira, julho 09, 2007

Por favor

Alguém consegue exterminar a Fátima Campos Ferreira?
"O senhor já falou imenso..."
"Sim ou não"
"O que o senhor pensa já eu sei"
Foram algumas das preciosidades com que nos presenteou esta noite.
Este é um dos casos em que nada está bem, nem intelectualmente, nem na imagem. Esta senhora devia ser proibida, por ordem do tribunal, de se aproximar de uma câmara.

O coiso

O coiso. Foi desta forma que Gonçalo da Câmara Pereira se referiu ao plano de reabilitação da Baixa Chiado... E quando todos falam na necessidade de trazer moradores para a cidade, ele, mente iluminada, defendeu que o importante é ter serviços, tipo correios e dependências dos ministérios. Será que o coiso não percebe que onde não mora gente não fazem falta serviços?

terça-feira, julho 03, 2007

Pequena vitória

Porque a vida não são apenas más notícias, desilusões e tristezas partilho aqui uma pequena vitória. O meu pai está em casa. Debilitado, é verdade, mas está em sua casa, no seu espaço.
Uma pequeníssima vitória, no meio de tantas perdas. Uma réstia de esperança.

sexta-feira, junho 22, 2007

A dignidade

O cancro assusta-me, não o posso negar. Pensar que posso voltar a ficar doente a qualquer momento, assusta-me. Como já o disse várias vezes, tento (e acho que consigo) não viver presa nesse medo, não o deixo paralisar-me. Mas ele ronda-me, umas vezes com mais intensidade, outras com menos, mas ronda-me.
Ter cancro é horrível para além do que se possa imaginar. Porque estar doente nunca é fácil. Nem mesmo quando se tem uma gripe. E o cancro, apesar da evolução da medicina, ainda é uma doença muito mortal. Quando alguém nos diz que temos cancro conseguimos cheirar o odor da morte. Eu senti-o claramente. E o cancro é ainda mais horrível porque as armas que existem para o combater nos definham ao ponto de, por vezes, serem, elas próprias, causadoras de morte. Eu não posso falar da morte com conhecimento de causa, porque continuo aqui. Mas sei bem o que a quimioterapia e a radioterapia nos fazem. Sei bem até onde desci, na minha dignidade, sei que dores passei, o desespero que vivi durante os tratamentos e nos meses que se seguiram.
Mas fiz tudo o que me mandaram e voltaria a fazê-lo de novo, se o tempo voltasse atrás. Porque a mim nunca me mentiram, nunca me deram falsas esperanças, nunca me pintaram cenários cor-de-rosa, nunca me deram hipóteses para além das viáveis.
Os médics não são deuses, não são donos da poção da vida, não nos podem devolver o que perdemos com a doença. Mas os médicos, e muitos parecem esquecer isso, são pessoas e, como tal, têm o direito e a obrigação de nos tratar com dignidade, de nos permitir essa dignidade e, sobretudo, de deixarem que caia sobre nós o poder de decidir o que fazer quando não há nada mais a fazer.
Eu sujeitei-me a seis ciclos de quimioterapia e a 25 tratamentos de radioterapia porque adoro a minha família. porque tinha um bebé de oito meses à minha espera, porque tinha um companheiro fantástico do meu lado. Mas também porque sempre tive a noção exacta da minha doença, da sua extensão, das suas implicações, dos passos que podia tomar, dos riscos que estava a correr. E isto fez toda a diferença. Os meus médicos nunca me mentiram. Um houve, até, que foi excessivamente sincero o que, na altura, me deixou de rastos e me fez odiá-lo por várias semanas. Mas, apesar de saber que o cenário poderia complicar-se a qualquer momento e muito rapidamente, os meus médicos sempre me disseram que o objectivo de tudo era a cura.
Essa honestidade deu-me a força para enfrentar as dificuldades com dignidade.
Se na altura me tivessem dito que o tumor já estava muito metastisado e que dificilmente haveria cura, talvez eu tivesse tomado decisões diferentes das que tomei. Talvez não. Mas sei que seria eu a decidir, a colocar tudo na balança e a decidir o que fazer com o tempo que me restasse. É assim que quero fazer se um dia a doença voltar: decidir o que fazer.
Não consigo perceber como há médicos que mentem, omitem grosseiramente informação aos seus pacientes, os deixam acreditar numa coisa que não é verdade e, sobretudo, os submetem a tratamentos, a sofrimentos desumanos sem qualquer tipo de valor acrescentado, fazendo apenas com que o pouco tempo que lhes resta seja passado em sofrimento e em degradação. Morrer aos poucos não deve ser agradável, viver com essa faca sobre a cabeça, de que o fim está muito muito próximo não é pêra doce, mas viver tudo isso assistindo a uma degradação progressiva do nosso corpo causada pelos tratamentos que nada fazem para além de nos deixar mais moribudos, parece-me um crime.
Porque a nós, doentes oncológicos, a dignidade é, por vezes, a única coisa que no resta.

quarta-feira, junho 20, 2007

Porra

Que puta de vida! Não há mais ninguém que me é querido para ficar gravemente doente?

segunda-feira, junho 11, 2007

Datas

Amanhã o meu filho faz três anos.
Amanhã faz um ano que me casei.
Hoje telefonei à minha mãe para voltar a insistir nesta coisa de nos vermos, de tentarmos passar juntas algum tempo de qualidade.
Ela estava triste, de voz rouca. "Hoje estou em baixo", disse-me. "Faz quatro meses que o pai está internado". Quatro meses, pensei. Quatro meses, penso agora. Se é verdade que houve um momento em que pensei que tudo ia acabar, não é menos verdade que há quatro meses atrás eu pensei que o meu pai iria fazer uma operação muito complicada e mutiladora, mas que quando passasse o pós-operatório, iria para casa, para junto dos seus, sem mais complicações do que aquelas que já sabíamos. O meu pai ia tirar a faringe, iria deixar de falar para sempre mas, com um bocadinho de sorte, continuaria a comer pela sua boca.
Hoje, quatro meses depois, o meu pai está vivo, o que, logo à partida, contraria todas as perspectivas e finta todas as contabilidades, mas perdeu muito mais do que a voz.
Enquanto falava com a minha mãe pensava nas datas e de como simplesmente deveríamos apagar algumas da nossa vida. ´
Há datas que não se deviam lembrar, deveriam permanecer no esquecimento.
O 11 de Fevereiro é uma delas. e todos os 11 que se seguem no calendário também.

segunda-feira, maio 28, 2007

Felicidade


Foi um dia memorável!
A festa correu bem, a noiva estava bonita, o noivo emocionou-se. Mas do que eu mais gostei foi disto. De perceber que já não temos 20 anos mas que continua tão bom como nessa altura.
Há partes da nossa vida que simplesmente não podemos perder. Devemos preservar como se de tesouros se tratassem.

terça-feira, maio 22, 2007

amor fraterno

Tenho pensado no amor.
No amor fraterno que nos liga aos nossos amigos, que nos faz sorrir quando recordamos momentos partilhados, que nos faz ter vintade de partilhar mais.
No sábado casou o Rui. O Rui, para quem não sabe, era o mais improvável de se casar do nosso pequeno grupo de faculdade. Muitas conversas tivemos na FSCH sobre gajas, namoros, amor, impossibilidade do próprio. O Rui, muito optimista em muitas coisas, no que ao amor dizia respeito era um pessimista convicto.
E o sábado passado lá esteve, para lhe provar que não há certezas absolutas~, não há verdades universais... mas a vida com amor tem outro sentido. E percebeu-se, naquele belo momento de partilha, que a vida dele está muito mais preenchida.

segunda-feira, maio 14, 2007

Agora já posso arrumar a adolescência na prateleira




Depois da Madonna, faltava-me este concerto para arrumar no seu devido lugar a minha adolescência, as paixões impossíveis do secundário, as matinés do Crazy Nights.

E que bela despedida.

Obrigada Lena!