sexta-feira, maio 30, 2008

Resposta à cristinar

Deixaram-me um destes dias um comentário num post que remetia para um texto muito interessante sobre doentes com cancro e a forma como muitos sobrevivem à doença, mas depois são obrigados a sobreviver a uma série de consequências dos tratamentos e da doença praticamente sem qualquer tipo de apoio. Deixo aqui o link para o artigo em questão, da BBC.





http://news.bbc.co.uk/2/hi/health/7423517.stm





Este é um assnto sobre o qual, infelizmente, tenho muito a dizer. Pela minha experiência mas, sobretudo, pela do meu pai.


Como o artigo refere, grande parte dos doentes que sobreviem ao cancro vivem depois numa espécie de limbo, de terra de ninguém: já não são assistidos pelo oncologista (porque já tiveram alta da oncologia), mas continuam a precisar de uma série de cuidados que, ou não chegam, ou chegam de onde menos deveriam chegar.


Este artigo reporta-se à realidade britânica que, ainda assim, me parece consideravelmente melhor que a portuguesa. Fala o jornalista de uma falta de articulação entre os serviços de oncologia e os serviços de cuidados paliativos, aqui encarados de forma mais abrangente que o tradicional "cuidar para morrer".





Acontece, logo à partida, que em Portugal não existem unidades de cuidados paliativos. Pelo menos à séria. Pelo menos integradas nos hospitais públicos e nas consultas de oncologia. Existe uma associaçãod e cuidados paliativos, ao que sei, com actividades e iniciativas de lhes tirar o chapéu. Mas é privada e rema contra a maré num país que teima em considerar a saúde como um parente pobre.





E não me vou alongar muito em explicações teóricas. Vou apenas dar dois exemplos, em tudo muito distintos: o meu e o do meu pai.





eu tive cancro no estômago. tinha acabado de fazer 29 anos. Fiquei sem estômago, sem baço, perdi 12 kg (parte dos quais já recuperei), fiz cinco ciclos de quimioterapia e 25 sessões de radioterapia. Fui internada por duas vezes durante os tratamentos devido aos efeitos dos mesmos.

Mal acabei os tratamentos e como não tinha metástases, tive alta da consulta de oncologia. Todos os exames de controlo que faço são supervisionados pelo cirurgião que me operou. Ele, um ser humano fantástico e um excelente profissional, não deveria estar a perder tempo comigo. Porque ele, por amor de deus, é um cirurgião, e dos bons. Devia estar a operar, que é o que faz de melhor. Em vez disso perde grande parte do seu tempo em consultas com doentes como eu e em reuniões dos famosos centros hospitalares.

Eu, no meio do panorama do nosso país, considero-me uma privilegiada. Porque tenho um bom médico e porque, apesar dos pesares, me esforço por ter e tenho uma vida relativamente normal.

Mas, só a título de exemplo, nunca tive uma consulta de nutrição (algo fundamental numa pessoa que teve de mudar os seus hábitos alimentares, que perdeu tanto peso e que tem uma deficiente absorção dos alimentos), nunca me encaminharam para uma consulta de psicologia. Resumindo, nunca tive um apoio concertado e multidisciplinar. Muito do que consegui recuperar foi porque tenho vários amigos e familiares profissionais de saúde.
Fala-se muito da consulta de nutrição do Hospital de Santa Maria. E os outros doentes, o que é feito deles?

O caso do meu pai, então, parece saído de um filme de terror. Seguido por vários médicos do IPO cada um deles tinha uma opinião diferente e aconselhava tratamentos diferentes. Aqueles que deviam ser uma equipa multidisciplinar não deviam falar uns com os outros. Depois de muito penar, e ainda numa fase inicial do seu actual estado, lá foi enviado para a consulta da Dor, a única onde estavam realmente preocupados com o seu bem-estar. Das muitas vezes que apareceu nas urgências cheio de dores e a sangrar sempre lhe disseram que era normal. Até ao dia em que a carótida rebentou e se seguiu um processo indiscritível que acabou com ele fechado num quarto, todos à espera que ele morresse.
Para que o meu pai tivesse algum conforto tivemos de o tirar dali e levá-lo para uma clínica privada. Nunca ninguém acreditou que ele sobrevivesse. Acho mesmo que só ele acreditou. E agora que estamos a tentar dar-lhe um bocadinho de qualidade de vida temos de o levar a Madrid para ser operado. Tudo pago por nós, claro. Que o Estado manda doentes operarem as cataratas a Cuba, mas não se compadece com um homem que não fala, não come e tem um buraco de 20cm na garganta. um homem que não pode engolir nada nem sequer a sua própria saliva. Tudo o que precisávamos era de uma carta do IPO dizendo que não faz (em tempo útil) aquela operação. Mas para eles tempo útil é outra coisa. O meu pai, segundo os seus cálculos, tem cerca de 40 pacientes à sua frente. "Operado? Nunca antes de Setembro" que é o mesmo que dizer temos medo de o operar mas não podemos reconhecê-lo...
O meu pai foi completamente abandonado pelo Sistema Nacional de Saúde.

E o apoio aos familiares? Esse então nem se fala. A minha mãe lidou com dois pacientes com cancro. Está nas lonas... debilitada, cansada, exausta. Apoio? só se for o nosso, lá em casa.

Basicamente isto resume a minha posição face aos cuidados continuados/integrados dos doentes que sobrevivem ao cancro... temos de nos agarrar às nossas forças e à nossa família porque do Estado vem muito pouco.

domingo, maio 25, 2008

Agora é que vão ser elas

A partir de hoje eu e o Henrique estamos por nossa conta durante um mês.
Vai ser um teste e um desafio.
Agora é que vão ser elas.

sexta-feira, maio 23, 2008

Tombar como uma velha árvore

É assim que vejo a morte do Torcato, como a queda brutal, assustadora, ruidosa, de uma grande árvore sobre o solo seco. De uma só pancada, dura, mas de pé. O torcato foi vencido pela doença mas, mesmo assim, trocou-lhe as voltas, a esta doença estúpida e ignóbil. Não deixou que ela o corroesse de dentro para fora, que lhe tirasse as forças e o deixasse irreconhecível.

quarta-feira, maio 07, 2008

É linda e está à venda

Pois é, a nossa linda casa está à venda.

Tem 95m2, divididos por sala de estar, sala de jantar, dois quartos, cozinha, casa de banho, escritório e duas despensas.
Fica na Estefânia (para os que não sabem), na Rua José Estevão.
Fica num prédio de traça antiga, bem conservado, e é um terceiro andar sem elevador.
O pé direito é de 3m.
A casa teve obras há seis anos (incluindo canalização e electricidade).
Vidros duplos e aquecimento central a gás natural.
Quem estiver interessado pode deixar um comentário com o seu mail.





















































segunda-feira, abril 21, 2008

Evidência do tempo que passa

Conversa com a baby-sitter do meu filho na sexta-feira passada.

Eu -Vamos ver um concerto. Devemos estar em casa antes da uma.
Ela - que concerto?
Eu - os GNR!
Ela (com um ar desinteressado) - Ah, já ouvi falar....

sexta-feira, março 07, 2008

Isto está bonito

A polícia andou a recolher informações sobre os professores que amanhã se vêm manifestar a Lisboa. Apenas para garantir uma boa circulação na capital a um sábado...
Isto depois de ter andado a pedir a identificação a professores que se manifestavam legalmente a semana passada... é impressão minha ou estamos perigosamente perto do tempo da outra senhora?

segunda-feira, fevereiro 25, 2008

o que se passa com o mundo?

Apetece-me içar uma bandeira de pernas para o ar. Porque me parece, claramente, que este mundo precisa de ajuda. Há cerca de duas semanas vi um filme, a meu ver, espectacular: O vale de Elah. Desencantado? desesperançado? Talvez, mas acima de tudo, de uma realidade crua, despida de fantasias... porque a vida às vezes é mesmo assim, uma incngruência pegada. No final do filme o actor principal pede a uma pessoa que ice a bandeira dos Estados Unidos de pernas para o ar (o que significa que o mundo está de pernas para o ar e que é preciso ajuda). Pois eu sinto-me assim. À luz dos últimos acontecimentos apetece-me mesmo fazê-lo. Porque não consigo encontrar explicação para o que está a acontecer com os que amo. Porque me sinto impotente perante o sofrimento dos que me são queridos.

quinta-feira, fevereiro 21, 2008

novidades

A Madalena não só já está em sua casa, com os seus pais, como está linda e maravilhosa.
Que bebé linda, ela é.
Parabéns!
Aguardo fotografias novas para postar aqui.

domingo, fevereiro 10, 2008

uma janela aberta chamada esperança

Há dias que aqui não escrevo e, acreditem, não é por falta de novidades.
A pequena Madalena continua a lutar. Primeiro pela sua vida, agora luta contra o ventilador... calma, Madalena, tens muito tempo para conheceres a tua noa casa. Para já o importante é continuares no hospital até uma recuperação completa. é curioso como me sinto ligada a esta petiz que ainda nem tive oportunidade de pegar a colo ou mesmo de ver sem ser através de fotografia. Mas tenho uma certeza no meu coração: ela vai ficar bem:)
Por estes dias fui a Madrid com os meus pais. O meu pai está doente há mais de dois anos. Há cerca de um ano disseram-me que nunca mais acordaria, mas ele, teimoso, decidiu contrariar todos os prognósticos e lutou. Primeiro para se manter vivo, e agora por uma vida um pouco melhor.
Esta visita a Madrid traduziu-se num momento decisivo para as nossas vidas. Porque as respostas em Portugal não eram suficientes nem satisfatórias, tivemos de procurar noutro país uma opinião alternativa. E o que ouvimos foi, sem sombra de dúvida, a melhor notícia que tivemos em anos. Se não houver sinal de cancro no corpo do meu pai ele poderá ser operado. Não voltará a falar, mas poderá voltar a comer. E essa possibilidade é de tal forma motivadora que todos os outros problemas que nos rodeiam parecem insignificantes.
Só é estranho que tenhamos de ir a outro país procurar o que aqui não nos podem oferecer. Fico a pensar como as coisas poderiam ter sido diferentes se ele tivesse sido tratado fora de Portugal desde o início.
Estar ali, naquele consultório, frente aquele médico, fez-me ver tudo de uma outra forma. Pela primera vez sentei-me frente a uma pessoa que não achou que o meu pai tinha vindo directamente de Marte. E as respostas foram imediatas. A cirurgia é possível. Assim, de repente. Até fiquei atordoada. Se tivessesmos as nossas vidas organizadas de outra forma ele poderia ter ficado já em Madrid para fazer exames...
A nossa grande batalha agora será custear uma operação como aquela que o meu pai terá de fazer. Porque terá de ser operado numa clínica privada.
Mas é uma batalha que será ganha, assim ele possa ser operado.
Esta foi a minha melhor prenda de aniversário:)

sexta-feira, fevereiro 01, 2008

susto

Como é perene a vida.
ainda ontem veio ao mundo e a pquena Madalena já nos está a dar preocupações. ar na pleura, dizem os médicos. A nossa pequena princesa já está a sofrer as agruras da vida... mas dentro em breve estará aqui, de colo em colo.

quinta-feira, janeiro 31, 2008

Nova vida





É uma princesa e já nasceu.

A Madalena chegou hoje a este mundo doido

segunda-feira, janeiro 28, 2008

partilha




Aqui fica o primeiro texto (e respectiva foto) que escrevi para a Pais & Filhos.






Sou mãe de um super-herói

Ser mãe é ser muitas coisas. A grande maioria, quando passada para o papel, raramente escapa aos lugares comuns, mas não menos raramente escapa à verdade.
Quando os nossos filhos nascem há algo em nós que muda para sempre. Não sei explicar muito bem: é um misto de “as pequenas coisas fazem agora outro sentido” com “o sorriso dele é mesmo o mais lindo do mundo" com talvez uma pitada de “mas onde é que vivi este tempo todo antes dele nascer?”.
Ser mãe é ser muitas coisas, quase todas maravilhosas, mas algumas delas muito intensas e assustadoras. Ser mãe é sinónimo (mais cedo ou mais tarde) de noites mal dormidas, de ataques de nervos, hipersensibilidade a bolas, colares ou pulseirinhas.
Nestes parcos três anos de maternidade várias foram as vezes em que desejei ser amiga do Super-Homem ou do Homem-Aranha. Nem que por breves instantes. Só para que me ajudassem um pouco, para que usassem os seus super-poderes para me guiar neste caminho, por vezes sinuoso, que é o da maternidade.
Pois é, confidência absoluta: ser mãe nem sempre é fácil. Às vezes é até muito difícil. Muitas gestões a fazer, inúmeras birras a contornar, muitas cedências, algumas desistências e uma grande dose de gestão… de feitios, de conflitos, de sensibilidades, de personalidades.
Mas eu, enquanto mãe de um pequeno e maravilhoso ser de três anos, tenho uma confissão a fazer: sou mãe de um super-herói. O meu filho tem super-poderes e, nestes seus três anos, já fez mais por mim do que alguma vez algum medicamento ou médico poderão fazer e já contornou mais crises que muitos psicanalistas famosos.
Há cerca de dois anos e meio, tinha o meu filho acabado de fazer oito meses, foi-me diagnosticado um cancro. Pouco houve a dizer: a cirurgia era obrigatória, incontornável mesmo, e o futuro uma incógnita. Por defeito profissional, ou talvez por feitio, exigi saber a verdade e confesso que não foi fácil lidar com o que ouvi. Tanta incerteza, tantas caras baixas, tantos “nem imagina como isto é raro na sua idade”… foi um choque horrível, senti que o mundo tinha aberto a sua grande boca e estava pronto para me engolir. Por breves momentos, logo ali, naquela sala de espera de hospital onde ouvi da boca do meu irmão o que sentia que existia mas teimava em não acreditar, senti-me sugada por uma fenda imensa que se abriu debaixo dos meus pés. Só que, depois do horror momentâneo, cresceu em mim uma vontade maior: a de me fazer lembrar ao meu filho. Se eu morresse ali, aos seus oito meses, ele nunca se iria lembrar de quem tinha sido a sua mãe, das brincadeiras que já partilhávamos, dos beijos, dos abraços, do meu toque, do meu cheiro. E essa foi uma das maiores armas com que lutei nos longos meses que se seguiram. A convicção de que era obrigatória a criação , a cimentação de uma memória de quem eu era, de quem era a MÃE. Não podia abandonar ali a luta, entregar-me à doença, aos diagnósticos, ao prognóstico…
E por isso sei que sou mãe de um super-herói, porque o meu filho, do alto da inocência dos seus três anos, já me permitiu muito, já me ajudou a superar muitos obstáculos, muitos enjoos, muitas dores, muitas dúvidas. Sim, porque quando falamos de verdadeiras dificuldades, as noites mal dormidas devido a uma febre que teima em não baixar ou a uma otite, são um pequeno pormenor. Por isso deixo aqui uma pequena sugestão: da próxima vez que o limite se estiver a aproximar perigosamente e que o filho que está à nossa frente se tenha transformado, vá-se lá saber como, numa força demoníaca que temos vontade de exterminar, pare, pense três segundos na última grande frase que ele lhe disse, no última doçura, no último beijo, no último abraço e de como se sentiu feliz e especial com isso. E agora diga-me lá se não partilha casa com um, dois ou mais super-heróis.

quarta-feira, janeiro 23, 2008

Sol

É curioso o que um belo dia de sol pode fazer pela nossa alma.

sexta-feira, janeiro 18, 2008

começo e fim

Muitas vezes o começo e o fim andam mais próximos do que pensamos. A vida e a morte tocam-se das formas mais estranhas e constrangedoras, até. Ou, sem pensar numa experiência tão limite, a doença e uma nova vida. Podem acompanhar-nos quase de mãos dadas uma com a outra causando em nós sentimentos contraditórios. Por um lado a felicidade de presenciarmos uma vida que começa (de fazermos parte dela), por outro a tristeza de vermos alguém que amamos sofrer.
Como se a vinda de uma nova vida, justificasse a dor provocada por a perda ou a ameaça a outra.
Por estes dias tenho pensado muito em dois amigos e no que eles devem estar a passar.
Deixo aqui ficar um beijo para os dois.

quinta-feira, janeiro 17, 2008

De costas voltadas

O conflito emocional é tão grande que nem sei por onde começar. De cada vez que damos um passo em frente somos obrigados a recuar dois...
Depois da porta aberta à esperança, na passada segunda-feira, quando conseguimos finalmente a consulta em Madrid, eis que voltamos à estaca zero. Estás novamente no hospital, voltamos a passar por um grande susto... ainda vai ser o coração que me vai trair, tantas são as preocupações que lhe dou.
Sinto-me de costas voltadas para o mundo, para a sorte. Que raio de vida esta! Sempre a lutar, sempre a esbracejar para tentar manter a cabeça fora de água. Que cansaço... às vezes apetecia-me desistir. Deixar de nadar...

segunda-feira, janeiro 14, 2008

Gerir expectativas

Quando somos adolescentes oscilamos entre a verdade absoluta que ninguém nos entende e a esperança secreta que o príncipe encantado irá surgir. Ouvimos as discussões dos nossos pais, vemos os erros que cometem e pensamos que connosco vai ser dieferente. O ideal de felicidade absoluta parece-nos real. Eu, no meu caso concreto, chegava a pensar que mais valia estar só do que viver sem essa felicidade completa e absoluta.
A entrada na vida adulta e, sobretudo, na vida a dois, ensina-nos muitas coisas, a primeira delas é que a felicidade absoluta não existe. Podemos viver felizes, podemos ter momentos de felicidade absoluta, mas a vida adulta também é preenchida de grandes desilusões, de pequenos e grandes fracassos, de momentos infelizes.
O problema é quando não sabemos gerir expectativas, quando não conseguimos perceber que a vida é mesmo assim: boa e má, feliz e infeliz. Não nos conseguirmos adaptar às mudanças e Às dificuldades é uma merda, porque ficamos paralisados no meio da nossa frustração. E não conseguimos avançar, não conseguimos ver o lado bom da coisa. Ficamos ali, eternamente no lamento e no mau humor do que podia ter sido e não foi.
A isto chamo crescer e é por isso que a vida de adulto é tão difícil. E é por isso que cada vez mais vejo as pessoas sozinhas, sem paciência apra relações. Porque uma relação é, muitas vezes, sinónimo de ralação. E há quem já não esteja para isso.

sexta-feira, janeiro 04, 2008

Catarina Tolentino

Agora que aqui estava sentada a percorrer os contactos do meu telemóvel, dei com o número da Catarina Tolentino. E tive de o apagar. A Catarina morreu. Em Agosto. Creio que no dia 5. eu estava em Paris, a sair de Versailles quando recebi um telefonema da Susaninha "A Catarina faleceu." A notícia não me apanhou desprevenida, aliás, o sofrimento da Catarina era tal que creio que todos os que dele gostavam ficaram um bocadinho aliviados com a sua morte; com o fim do seu calvário.
A Catarina era uma mulher doce, a quem a vida pregou muitas partidas. Amiga de há muitos anos do meu marido e da minha amiga Susana, era pessoa que eu só encontrava quando ia à Madeira, nas férias. A Catarina e a sua Laura.
Quando fiquei doente a Catarina fez questão de se fazer presente.
Em Dezembro de 2006, quando cheguei à Madeira fui bombardeada com a notícia de que a Catarina estava com cancro. Do estômago, tal como eu. E que nem sequer nos tinha telefonado para não me fazer reviver o meu processo...
Fiquei espanatada quando a encontrei na Fnac, para assistir à apresentação do livro do filipe, 15 dias após a sua operação. Eu mal me mexia quinze dias depois de ter sido operada, confidenciei-lhe.
A partir desse encontro ficámos mais próximas. Ela tinha muitas dúvidas. Eu também as tinha e ainda tenho, mas já tinha quase dois anos de avanço em relação a ela. E assim fomos, nos meses que se seguiram, trocando mensagens, telefonemas. Ela sempre com medo de incomodar. Eu com receio de forçar a minha presença.
Sobre ela escrevi aqui em Junho http://princesaestrelas.blogspot.com/2007_06_01_archive.html
Na altura não escrevi tudo o que queria porque sabia que ela me lia e tinha receio que ela percebesse que eu já tinha a certeza que o fim estava a bater-lhe à porta.
Mas hoje, meses depois, esse risco já não existe.
Hoje, Catarina, apaguei-te do meu telemóvel.
A tua morte doeu-me. Por muitas razões. E também porque nela vejo um anúncio da minha.

Olímpio Ferreira (1967-2007)

Não era íntima dele, mas conheci-o o suficiente para dele gostar.
Trabalhámos juntos em alguns projectos. Concebeu a paginação do livro do meu marido.
O seu Miguel e o meu Henrique nasceram no mesmo dia (12 de Junho de 2004).
Voltei a encontrá-lo, profissionalmente, na Oficina do Livro.
O seu sorriso, a sua boa disposição, o seu amor pela vida ficarão para sempre gravados na minha memória.
Não consegui ir ao seu funeral. Por várias razões, mas muito por falta de coragem.
É-me cada vez mais difícil lidar com a morte.
Mas não podia deixar de o lembrar.
Ficas aqui, Olímpio.

quinta-feira, dezembro 20, 2007

Natal silencioso

Este ano o Natal vai ser diferente.
Vamos ser muitos lá em casa.
Barulho, gritos, a anmação típica do Natal. Mas da tua parte pai vai ser diferente. Vai ser o teu primeiro Natal silencioso. e vai doer.

quarta-feira, dezembro 05, 2007

Constatação do dia 2

Apesar das contantes desilusões eu tenho tendência para acreditar nas pessoas e na sua boa fé.
Às vezes lixo-me, como hoje

Constatação do dia

O mundo do futebol não é, definitivamente, a minha praia.

sexta-feira, novembro 30, 2007

quarta-feira, novembro 21, 2007

O fim da UCI

Para ele foi, felizmente, o fim da Unidade de Cuidados Intensivos.
O Sobral já está na enfermaria, embora não possa ter visitas.
A malta é fonte de contágio...
Mas ele vai-se aguentar, mesmo nesteisolamento forçado.

sábado, novembro 17, 2007

Inveja Boa???

Nunca pensei ter apenas um filho. Quando o Henrique nasceu sempre pensei que seria o primeiro de, pelo menos, dois. Mas, aos seus oito meses, quando fiquei doente, soube que muito dificilmente poderia voltar a ter filhos e que o risco de engravidar poderia ser voltar a ficar doente. É uma das piores marcas que o cancro me deixou. Amo o meu filho, estou muito grata por o ter tido antes de adoecer, mas adoraria poder voltar a experimentar a maternidade. E saber que não voltarei a ser deixa-me, às vezes, triste e angustiada.
Esta semana soube que uma das minhas grandes amigas está grávida pela segunda vez. Depois de tantas dificuldades, depois de tantos obstáculos, ela lá conseguiu. E fiquei tão feliz. A juntar a esta acompanho de perto pelo menos mais três gravidezes e desconfio de uma outra. E fico feliz, começo a bordar fraldas e a remexer na muita roupa de recém-nascido que comprei para o Henrique e a pensar em quem a irá vestir.
Sinto uma ponta de inveja. Claro que sinto. É uma situação que adoraria reviver e que sei que não o farei. Mas sinto-a como uma inveja boa, porque não desperta em mim outro sentimento que não o da alegria. Já que não posso ser mãe, serei pelo menos tia!

sexta-feira, novembro 16, 2007

Novas de um lutador

O Sobral foi operado.
Depois de tanta angústia pela espera de um fígado, começou na segunda-feira uma nova fase.
O tão esperado fígado chegou. Agora ele vai ter de nos mostrar de que fibra é feito e aguentar as muitas limitações e provações que estão para chegar.
Para já está tudo bem encaminhado.
Estamos à tua espera.

terça-feira, outubro 16, 2007

Carta aberta ao meu pai

Pai, acho que estás a atravessar uma fase em que estar vivo já não é suficiente.
Tentas sorrir-me, mas vejo-te triste, ausente, sem vontade de lutar contra as muitas barreiras que tens diante de ti.
Gostava que me conseguisses olhar nos olhos e contar as tuas tristezas, as tuas frustrações, os teus medos, as tuas revoltas. Gostava que te sentisses mais próximo de mim, a ponto de teres vontade, naturalmente, de me dizer essas coisas. Bem sei da tua limitação do dizer. Tu não falas, ou melhor, não emites sons. Mas eu, pai, quero ler-te os lábios, quero, eu própria, aprender a saltar essa cerca das dificuldades.
Gostava que te irritasses mais, que te revoltasses, que te zangasses, que te indignasses de cada vez que, na clínica onde diariamente fazes o penso, ouves da boca dos enfermeiros frases menos apropriadas em relação a ti. Gostava que interiorizasses que tens direitos, que não és menos pessoas que os demais, que tens de resmungar.
Eu imagino que a vida que evas é triste, incompleta. E imagino que cada vez que olhas para trás, para um passado não muito distante, vês e sentes o quanto te foi tirado.
Mas tu pai, não te deixaste morrer. Não permitiste que a morte falasse mais alto quando ela apareceu tão sorrateira. Por isso peço-te que agora tenhas a força para enfrentar a vida!
Da tua filha

frustração

contra esta nada posso.
Hoje queria muito poder ter estado com uma amiga muito querida que precisa, de certeza, de uma palavra minha. Perdeu o seu pai. E eu, talvez por ter esse fantasma tão perto de mim, sinto-me ainda mais solidária com a sua dor.
Mas não consegui. Tenho tanto trabalho que não consegui sair para a missa. E o que fazer quando esta frustração, este vazio horrível nos invade?
Descula Jó.

segunda-feira, outubro 08, 2007

Saudade

Hoje acordei com o som da voz do meu pai nos meus ouvidos... ele estava a cantar.
Depois percebi que tinha sido um sonho, que ele nunca mais vai falar. Que essa grande mutilação não tem retorno. E eu nunca pensei que tê-lo ali pudesse, por instantes, não ser suficiente. Queria tanto que este silêncio que nos atravessa fosse interrompido por uma gargalhada... ou mesmo um ralhete. Ralha-me, pai. Eu juro que não te levo a mal

terça-feira, setembro 25, 2007

Nem tempo tenho para me coçar...

quanto mais para blogar....
Mas estou no suporte de papel. Agora sim, sou uma cronista.
Pais & Filhos de Outubro.
Aguardo comentários.

terça-feira, setembro 18, 2007

O regresso

Foi bom mas acabou.
As férias já são passado e no trabalho já tudo funciona em velocidade cruzeiro... até ao Natal.
Estou de volta e não queria

sexta-feira, setembro 07, 2007

domingo, setembro 02, 2007

Às voltas com o mundo

Este foi um fim-de-semana muito particular. Fizemos 600 km para que o meu pai pudesse assistir ao casamento de um dos seus sobrinhos preferidos. A viagem foi dura, muito calor. Eu também, confesso, que já dei para o peditório casamento de aldeia, mas fui. Não por mim, mas por ele. E ele teve de escolher entre dois casamentos porque, afinal, ontem casaram-se dois sobrinhos e não apenas um. E embora eu soubesse que ele estava onde queria estar, também percebi que a outra festa era muito desejada. Era lá que estava a sua família (e não a da sua mulher), era lá que estava a sua mãe, minha avó.
E, com muito jogo de cintura mas, acima de tudo, muito boa vontade, lá voámos de um casamento para o outro. E, apesar de haver um minuto em que me questionei se tanto desgaste serviria para algo, senti, pouco depois, que para o que vi faria mais 1200 km, sem parar.
Foi a primeira vez em muitos meses que vi um sorriso na cara do meu pai. E a primeira vez, desde o meu próprio casamento, que o vi dançar. E com alegria.

sexta-feira, agosto 24, 2007

Vem aí






O clube do Napron.


Agora é que vão ser elas.


As noites de quinta-feira nunca mais serão as mesmas.

quinta-feira, agosto 23, 2007

Arranjem-lhe um emprego na Maxmen




Tentou fazer do CDS um partido sexy.

Como não lhe passaram cartão, é vê-lo agora com estas pequenas preciosidades de gosto duvidoso um pouco por toda a cidade.

Algué arranje um emprego numa revista masculina ao Dr. Pires de Lima.

Uma ajudinha, please





Há cerca de um mês que qualquer conversa do meu filho termina, invariavelmente, no assunto Megaman. A princípio era o desconhecimento total. Ele olhava para mim e dizia "eu sou o Megaman e tu és o amigo do Megaman, está bem?" e eu sentia-me uma perfeita idiota, sem a mínima noção do que ele quereria dizer com aquilo. Há umas duas semanas percebi de quem se trata... o Megaman é um desenho animado japonês, um personagem de um vídeojogo. Hoje, apõs uma consulta na wikipédia descobri (e eu cito a fonte ao contrário de uns e outros...) que os desenhos animados foram criados por uma empresa de jogos electrónicos, a Capcom. Também descobri que no Japão se chama Rockman.

Hoje, enquanto estava de boca escancarada no dentista, soube, pela assistente, que o Megaman existe, ou melhor, o boneco existe e ela, assim como eu, estava ansiosa por encontrar um. Senti-me mais acompanhada, neste mundo de crianças e brinquedos. E lanço aqui o apelo, se souberem de uma loja de brinquedos que tenha o dito herói que se veste de roupa coleante, botas e capacete ridículo, avisem-me.

Obrigadinha

quinta-feira, agosto 16, 2007

Cuba

Ontem vi parte da reportagem da Sandra Felgueiras sobre Cuba e muitas questões se levantaram dentro de mim.
Houve tempos em que achei que aquele país, apesar dos pesares, era um exemplo de solidariedade e justiça. Mas já não penso assim. E gostaria de acrescentar que não foi a referida reportagem que me fez mudar de ideias.
Cuba parece-me um país muito triste. E as vozes dessa tristeza, embora estejam muito abafadas, parecem-me cada vez mais.
É claro que eu gostaria de acreditar que um país com educação e saúde para todos seria o suficiente para uma sociedade mais justa. Que um país onde todos têm acesso a um mesmo cabaz básico é um país mais justo que divide da mesma forma os bens que tem... mas isto é tão pouco comparado com todo o resto...
Que tipo de país não permite que os seus cidadãos circulem livremente? Que tipo de país prende por 26 anos quem pensa de forma diferente? Que tipo de país não permite mais dos que os jornais do regime? Que tipo de país não permite mais do que os 4 canais de televisão estatais? Que tipo de país pune com 15 anos de prisão quem coma, ou venda carne de vaca? Que tipo de país não permite a entrada da Cruz Vermelha ou da Amnistia Internacional nas suas cadeias?
Por favor, não me venham com a conversa dos Estados Unidos e do que eles fazem, que eu já dei para esse peditório. O embargo não explica tudo e os Estados Unidos não são exemplo para ninguém.
Mas um país onde se diz "Eu não lhe posso dizer tudo o que penso", é um país triste e que precisa de mudar.

terça-feira, agosto 14, 2007

Raios partam a Gioconda





Foi para isto que esta malta foi ao Louvre?
Para ver aquele niquinho de tela lá ao fundo???
Será que sabem que aquela mesma sala está repleta de obras primas para as quais nem sequer olham?
Raios partam a Gioconda!

quarta-feira, agosto 01, 2007

Primeira metáfora

Foi na segunda-feira e nós, pais, ficámos embasbacados.
"O Fredy faz muito barulho."
"muito barulho, filho?"
"Sim, pai, o Fredy faz muito barulho como a chuva a cair nos carros."

A ver se me faço entender... ou será que sou mesmo uma porca fascista

Só porque acho que se uma pessoa for dispensada durante o período experimental isso não é, por si, uma sacanice sem desculpa?
Até me acho uma pessoa que defende os direitos dos trabalhadores, fico horrorizada com o número de recibos verdes neste país e com outras pérolas do género. Mas acho, muito sinceramente, que o período experimental existe por isso mesmo, para que a pessoa esteja à experiência e durante esse período acho perfeitamente normal que o trabalhador seja dispensado. E as razões podem ser todas ou nenhuma. Do mesmo modo que o trabalhador, durante esse tempo, também pode desistir do trabalho por qualquer motivo, até o de não gostar da cadeira onde se senta.
Se é agradável? Claro que não. Se há formas mais ou menos decentes de proceder? Claro que sim. Agora, fazer disso uma sacanice pegada? Não concordo.

terça-feira, julho 31, 2007

sexta-feira, julho 27, 2007

Porque nenhuma mulher é só doçura...

Hoje podiam chover uns sapos.
Estou num dia Aimee Mann.

quinta-feira, julho 19, 2007

Dois anos



Estes são o meu pai e o meu filho. A separar estas fotos estão dois anos.
Olhando para elas, assim à primeira, não posso deixar de sentir uma tristeza muito grande. Pela evolução negativa do meu pai, pela forma como ele passou a ser uma sombra de si mesmo, pelo sofrimento que viveu, pela degradação do seu corpo e do seu espírito.
Mas o motivo pelo qual partilho estas fotos é, também, outro. Há menos de seis meses não me passaria pela cabeça que o meu pai pudesse presenciar o terceiro aniversário do meu filho. Mas ele não desistiu, apesar de todos os pesares, apesar de todos os azares e injustiças, apesar de alguns terem desistido dele. Ele não. Manteve-se agarrado à vida de uma forma ímpar. E se ele não desistiu eu também não o irei fazer.

segunda-feira, julho 16, 2007

Partilha

Há muito que uma música não me emocionava tanto. Não consigo perceber se este é um momento de partilha ou de despedida. Mas é tão bonito que não consigo evitar as lágrimas de cada vez que o oiço.

quarta-feira, julho 11, 2007

Porque é grave e sintomático do estado da nação

Hoje deparei-me com um texto certeiro no blogue "Jornalismo de sarjeta", do Expresso, intitulado Morte e Impostos. A propósito do que nele se critica, a arrogância, injustiça e afins do nosso governo face a situações como a das juntas médicas dos dois professores com cancro, vejo-me forçada a escrever sobre uma outra medida deste governo que, apesar de criticada por todos, continua a ser aplicada. Falo das taxas moderadoras na saúde agora alargadas aos internamentos e cirurgias ambulatórias. Como muito bem dizia um dos membros da comissão que elaborou um estudo sobre esta questão, as taxas moderadoras, como o nome indica, foram criadas para moderar o acesso dos cidadão a serviços de saúde. Percebe-se, por exemplo, o seu uso nas urgências hospitalares. Para que as pessoas não inundem estes serviços com gripes, ou dores nas cruzes (se bem que, mesmo aqui, e dado o estado caótico em que funciona grande parte dos centros de saúde, por vezes recorrer a uma urgência com uma gripe é mesmo o fim da linha, a única forma de garantir que se é observado por um médico).
Mas digamos que aceito o princípo teórico segundo o qual as pessoas devem ser minimamente penalizadas por recorrerem às urgências de hospitais centrai com gripes. Agora o que não posso aceitar, como cidadã que paga os seus impostos e como doente crónica, é que me seja taxada uma diária por ser internada num hospital estatal. Então agora passo a ser penalizada por estar doente? Quando se aplica uma taxa deste tipo que acesso está a ser moderado??? Comos e as pessoas decidissem se querem/devem ou não ser internadas. "Ora bem, senhor doutor, eu até podia ir para casa, mas como estou zangada com o meu marido acho melhor ser internada dois ou três dias para descansar"....
Salvem-me deste país

segunda-feira, julho 09, 2007

Por favor

Alguém consegue exterminar a Fátima Campos Ferreira?
"O senhor já falou imenso..."
"Sim ou não"
"O que o senhor pensa já eu sei"
Foram algumas das preciosidades com que nos presenteou esta noite.
Este é um dos casos em que nada está bem, nem intelectualmente, nem na imagem. Esta senhora devia ser proibida, por ordem do tribunal, de se aproximar de uma câmara.

O coiso

O coiso. Foi desta forma que Gonçalo da Câmara Pereira se referiu ao plano de reabilitação da Baixa Chiado... E quando todos falam na necessidade de trazer moradores para a cidade, ele, mente iluminada, defendeu que o importante é ter serviços, tipo correios e dependências dos ministérios. Será que o coiso não percebe que onde não mora gente não fazem falta serviços?

terça-feira, julho 03, 2007

Pequena vitória

Porque a vida não são apenas más notícias, desilusões e tristezas partilho aqui uma pequena vitória. O meu pai está em casa. Debilitado, é verdade, mas está em sua casa, no seu espaço.
Uma pequeníssima vitória, no meio de tantas perdas. Uma réstia de esperança.

sexta-feira, junho 22, 2007

A dignidade

O cancro assusta-me, não o posso negar. Pensar que posso voltar a ficar doente a qualquer momento, assusta-me. Como já o disse várias vezes, tento (e acho que consigo) não viver presa nesse medo, não o deixo paralisar-me. Mas ele ronda-me, umas vezes com mais intensidade, outras com menos, mas ronda-me.
Ter cancro é horrível para além do que se possa imaginar. Porque estar doente nunca é fácil. Nem mesmo quando se tem uma gripe. E o cancro, apesar da evolução da medicina, ainda é uma doença muito mortal. Quando alguém nos diz que temos cancro conseguimos cheirar o odor da morte. Eu senti-o claramente. E o cancro é ainda mais horrível porque as armas que existem para o combater nos definham ao ponto de, por vezes, serem, elas próprias, causadoras de morte. Eu não posso falar da morte com conhecimento de causa, porque continuo aqui. Mas sei bem o que a quimioterapia e a radioterapia nos fazem. Sei bem até onde desci, na minha dignidade, sei que dores passei, o desespero que vivi durante os tratamentos e nos meses que se seguiram.
Mas fiz tudo o que me mandaram e voltaria a fazê-lo de novo, se o tempo voltasse atrás. Porque a mim nunca me mentiram, nunca me deram falsas esperanças, nunca me pintaram cenários cor-de-rosa, nunca me deram hipóteses para além das viáveis.
Os médics não são deuses, não são donos da poção da vida, não nos podem devolver o que perdemos com a doença. Mas os médicos, e muitos parecem esquecer isso, são pessoas e, como tal, têm o direito e a obrigação de nos tratar com dignidade, de nos permitir essa dignidade e, sobretudo, de deixarem que caia sobre nós o poder de decidir o que fazer quando não há nada mais a fazer.
Eu sujeitei-me a seis ciclos de quimioterapia e a 25 tratamentos de radioterapia porque adoro a minha família. porque tinha um bebé de oito meses à minha espera, porque tinha um companheiro fantástico do meu lado. Mas também porque sempre tive a noção exacta da minha doença, da sua extensão, das suas implicações, dos passos que podia tomar, dos riscos que estava a correr. E isto fez toda a diferença. Os meus médicos nunca me mentiram. Um houve, até, que foi excessivamente sincero o que, na altura, me deixou de rastos e me fez odiá-lo por várias semanas. Mas, apesar de saber que o cenário poderia complicar-se a qualquer momento e muito rapidamente, os meus médicos sempre me disseram que o objectivo de tudo era a cura.
Essa honestidade deu-me a força para enfrentar as dificuldades com dignidade.
Se na altura me tivessem dito que o tumor já estava muito metastisado e que dificilmente haveria cura, talvez eu tivesse tomado decisões diferentes das que tomei. Talvez não. Mas sei que seria eu a decidir, a colocar tudo na balança e a decidir o que fazer com o tempo que me restasse. É assim que quero fazer se um dia a doença voltar: decidir o que fazer.
Não consigo perceber como há médicos que mentem, omitem grosseiramente informação aos seus pacientes, os deixam acreditar numa coisa que não é verdade e, sobretudo, os submetem a tratamentos, a sofrimentos desumanos sem qualquer tipo de valor acrescentado, fazendo apenas com que o pouco tempo que lhes resta seja passado em sofrimento e em degradação. Morrer aos poucos não deve ser agradável, viver com essa faca sobre a cabeça, de que o fim está muito muito próximo não é pêra doce, mas viver tudo isso assistindo a uma degradação progressiva do nosso corpo causada pelos tratamentos que nada fazem para além de nos deixar mais moribudos, parece-me um crime.
Porque a nós, doentes oncológicos, a dignidade é, por vezes, a única coisa que no resta.

quarta-feira, junho 20, 2007

Porra

Que puta de vida! Não há mais ninguém que me é querido para ficar gravemente doente?

segunda-feira, junho 11, 2007

Datas

Amanhã o meu filho faz três anos.
Amanhã faz um ano que me casei.
Hoje telefonei à minha mãe para voltar a insistir nesta coisa de nos vermos, de tentarmos passar juntas algum tempo de qualidade.
Ela estava triste, de voz rouca. "Hoje estou em baixo", disse-me. "Faz quatro meses que o pai está internado". Quatro meses, pensei. Quatro meses, penso agora. Se é verdade que houve um momento em que pensei que tudo ia acabar, não é menos verdade que há quatro meses atrás eu pensei que o meu pai iria fazer uma operação muito complicada e mutiladora, mas que quando passasse o pós-operatório, iria para casa, para junto dos seus, sem mais complicações do que aquelas que já sabíamos. O meu pai ia tirar a faringe, iria deixar de falar para sempre mas, com um bocadinho de sorte, continuaria a comer pela sua boca.
Hoje, quatro meses depois, o meu pai está vivo, o que, logo à partida, contraria todas as perspectivas e finta todas as contabilidades, mas perdeu muito mais do que a voz.
Enquanto falava com a minha mãe pensava nas datas e de como simplesmente deveríamos apagar algumas da nossa vida. ´
Há datas que não se deviam lembrar, deveriam permanecer no esquecimento.
O 11 de Fevereiro é uma delas. e todos os 11 que se seguem no calendário também.

segunda-feira, maio 28, 2007

Felicidade


Foi um dia memorável!
A festa correu bem, a noiva estava bonita, o noivo emocionou-se. Mas do que eu mais gostei foi disto. De perceber que já não temos 20 anos mas que continua tão bom como nessa altura.
Há partes da nossa vida que simplesmente não podemos perder. Devemos preservar como se de tesouros se tratassem.

terça-feira, maio 22, 2007

amor fraterno

Tenho pensado no amor.
No amor fraterno que nos liga aos nossos amigos, que nos faz sorrir quando recordamos momentos partilhados, que nos faz ter vintade de partilhar mais.
No sábado casou o Rui. O Rui, para quem não sabe, era o mais improvável de se casar do nosso pequeno grupo de faculdade. Muitas conversas tivemos na FSCH sobre gajas, namoros, amor, impossibilidade do próprio. O Rui, muito optimista em muitas coisas, no que ao amor dizia respeito era um pessimista convicto.
E o sábado passado lá esteve, para lhe provar que não há certezas absolutas~, não há verdades universais... mas a vida com amor tem outro sentido. E percebeu-se, naquele belo momento de partilha, que a vida dele está muito mais preenchida.

segunda-feira, maio 14, 2007

Agora já posso arrumar a adolescência na prateleira




Depois da Madonna, faltava-me este concerto para arrumar no seu devido lugar a minha adolescência, as paixões impossíveis do secundário, as matinés do Crazy Nights.

E que bela despedida.

Obrigada Lena!

sexta-feira, maio 11, 2007

O MEU PRIMEIRO CONTRIBUTO PARA A VOTAÇÃO!

Esta é a versão não censurada!!!!!

Não resisti, desculpem

Nestas minhas ananças nocturnas pelo YouTube não resisti a este Malandro deste soquete! Delicioso

George Michael Sexual Healing

Este senhor é mesmo grande!!!!

MEU DEUS

Abrimos aqui a secção duetos pirosos que eu adoro!

quinta-feira, maio 10, 2007

QUANDO A ESMOLA É GRANDE O CEGO TEM MESMO DE DESCONFIAR

É sempre assim. Invariavelmente. Quando as coisas correm muito bem, quando o dia nos mostra uma nesguita de felicidade, tem de haver sempre uma pedra no sapato, uma merdice qualquer que obrigue a que o dia acabe mal.
Hoje foi um bom dia. A sério que foi. Entrei oficialmente em estágio para o concerto de sábado. No iPod que ofereci ao meu marido e que me acompanha quase todos os dias, já só passa música desse grande ícone da música pop dos loucos anos 80, George Michael. Cheguei bem-disposta ao trabalho, consegui fazer tudo o que tinha para fazer (e não era pouco), fui ao ginásio à hora do almoço, fui visitar o meu pai e adorei vê-lo. Jogámos às cartas, ele estava alegre. Pela primeira vez em muitos meses vi um sorriso sincero no seu olhar. Saí do hospital com o coração cheio de alegria e esperança. A mim já não me importa muito se estes momentos de esperança e de alegria não passam disso, de momentos. Efémeros... contenta-me a sua autenticidade. Telefonei à minha mãe a contar-lhe a minha felicidade. Telefonei à minha sogra a dizer exactamente o mesmo: que há dias felizes e que devemos vivê-los com toda a intensidade que nos for possível. E estava eu nisto, nesta alegria partilhada, já à porta de casa a estacionar o carro quando levo uma daquelas panadas que me deixou a porta metida para dentro...
E o gajo ainda teve a coragem de dizer que eu estava a sair e não a estacionar. Aquela hora? Só ao estalo. O senhor Mané (assim se chama o senhor que me deu uma panada) estava tão convencido que eu estava a sair de um estacionamento que não me deixou outra via que não fosse chamar a polícia. E se pode parecer que a coisa acaba por aqui, desenganem-se.
A minha rua fica a cerca de 200m de uma esquadra. Mesmo assim tive de esperar 40 minutos para que a polícia aparecesse. 40 minutos de trânsito cortado numa rua de sentido único, com apenas uma faixa de rodagem e onde passam autocarros... Não foi bonito.
No meio de toda aquela confusão não conseguia encontrar a minha carta de condução. Fui a casa (mesmo ali do outro lado da rua) à sua procura. Regressada à companhia dos senhores agentes da autoridade lá lhes expliquei que não encontrava a bendita da carta. "Teremos de passar uma notificação para se apresentar na esuqdra, num prazo de oito dias, com a carta." "Muito bem", respondi. Trinta euros custa a notificação. Decidi voltar a olhar para a minha carteira e.... lá estava ela, no seu lugar de sempre. A minha carta. "Senho agente, está aqui, no seu lugar de sempre", disse a sorrir". Mas o sorriso durou pouco. Como já tinha começado a escrever a notificação e esta é numerada fui obrigada a pagar os 30 euros...
Amanhã espera-me o de sempre quando temos de falar com seguradoras: CHATICE na certa.
E tudo isto aconteceu já depois das seis, depois do fecho da hora de expediente. No fim de um dia que tinha sido tão bom.

Os sinais estava lá


Só eu, recém-entrada na adolescência é que não vi que George wasn't a straight boy....

E fui feliz nessa mentira.

VOTAÇÃO

Hoje, enquanto vinha para o trabalho na minha latinha branca a ouvir George Michael, senti-me feliz. Naqueles minutos de Lisboa à Cruz Quebrada senti-me livre, despreocupada, sorridente, bem-disposta. Voltei a ser adolescente, mesmo que por apenas 20 minutos.
E, nesses momentos de puro gozo, fui assolada pela seguinte questão: QUAL É A MELHOR MÚSICA DO JORGE MIGUEL? DIGAM-ME LÁ!
Eu ainda estou em período de reflexão.

quarta-feira, maio 09, 2007

DEIXA-ME SER...

O ombro do teu cão....

Sei que vem tarde, mas tenho andado muito ocupada. Tão ocupada que não tive tempo para comentar esta tradução livre que o João Bonifácio fez da música do Brel.
Lindo. Melhor só mesmo a resposta do Camané. E tudo isto foi publicado num jornal de referência.

sexta-feira, maio 04, 2007

quarta-feira, maio 02, 2007

Dia 12



Vai ser grande a Romaria. Até Coimbra. Vou voltar a ter 12 anos e a cantarolar feita doida.


E não vou sozinha que isto da parolice é ainda melhor quando estamos bem acompanhados

A chuva



Ontem, depois de uma manhã de muito buliço, regada com várias birras, uma palmada, uma dor de cabeça e um nó no estômago por ter dado a palmada, lá fomos - mãe e filho - até à casa dos avós.

Tanta chuva, que dia tão triste. Que forma tão triste do tempo celebrar mais um passeio até casa. Ontem voltámos a estar juntos na nossa casa.

E houve uma sensação de normalidade, de estranha normalidade. Eu e a mãe numa pequena discussão, o Henrique nas suas brincadeiras, tu no teu sofá, de olhos postos em nós e na televisão.

Ontem também não fui ao 1º de Maio, se bem que esse para mim nunca foi motivo de grandes festejos... nunca me bateu como o 25 de Abril, tenho de confessá-lo. Mais uma vez tu foste a comemoração.

Só fiquei triste com o tempo... não merecíamos aquela chuva, pai. Pois não?

sexta-feira, abril 27, 2007

DESEJO


Gostava de chegar aos 45 anos e poder dizer o que diz esta mulher.
Nestes dias sito-me melhor comigo. Mais acompanhada, também.

25 de Abril

Esta quarta-feira, pela primeira vez em muitos anos, não desci a Avenida. eu, que nem era nascida no 25 de Abril, sempre gostei do ritual de descer a Avenida. De me encontrar com a Margarida, com o Bruno, com a Lena... às vezes o Ricardo. Não esquecer a data, mesmo que dela não tenhamos memória directa. Assim penso. Foi essa vontade de não esquecimento que me levou, por exemplo, a descer a Avenida há dois anos, depois da primeira semana de quimioterapia. A teimosia de celebrar. Quando olho para essas fotos até sinto um arrepio. Eu era uma sombra do que sou agora, sendo que o que sou agora também é, de certa forma, uma sombra do que já fui. Mas isto para dizer que nem a doença me afastou da Avenida.
Esta quarta-feira, no entanto, não a desci. e nem uma vez me ficou um sentimento de vazio ou de dever não cumprido. Esta quarta-feira voltaste a sair do hospital e contigo lá fomos nós, em romaria. A casa de um primo. Devias querer sentir o ar fresco na cara, ver os pinheiros a baloiçar. Foi um dia em cheio. Muito cansativo. Para ti e para todos nós, principalmente para o mano, que tem de te acompanhar todos os minutos: medicar, aspirar, alimentar.... se não é fácil para nós, imagino para ele...
Mas lá fomos, com as crianças atrás, com o farnel para o almoço, com um verdadeiro dispositivo para te acompanhar... e eu, pela primeira vez, não senti falta do meu passeio pela Avenida.
Tu estavas muito dividido, entre a alegria de estar fora do hospital e a insatisfação por essa saída ser tão breve. Querias ficar em casa até domingo. Tudo o que vias, tudo o que sentias vi nos teus olhos que te dava alegria. Mas também senti que te deixava triste, porque, no fundo, estavas a contactar com uma normalidade da qual não podes desfrutar. Como se te estivessemos a mostrar tudo o que a vida pode ter de bom e, de seguida, te dissessemos que, infelizmente, não o podes viver.
No final do dia achei-te particularmente cansado. Para te dizer a verdade, todos nós estávamos esgotados. Estamos felizes por te ver e por te ter, mas estamos sempre alerta, e isso cansa, consome.
Ao entrares na clínica lá estava a lágrima pronta a sair... o teu semblante voltou a fechar-se. Mas eu senti-te forte e queria dizer-te que tu foste o meu melhor 25 de Abril.

terça-feira, abril 24, 2007

O encontro do homem com o seu espaço e com a sua força

Foi a primeira vez, em mais de dois meses, que te vi sem pijama, com a tua roupa, meias, sapatos...; foi a primeira vez que saíste do hospital, viste o sol, sentiste a brisa na cara.
Estava em casa à tua espera, com a mãe. As duas numa grande ansiedade. Ela a olhar para o relógio a cada dois minutos, eu a olhar pela janela na esperança de ver o carro. Tudo a postos, o teu sofá, os chinelos, o telecomando....
O dia passou rápido, um pouco atribulado, até. Não tens a resistência de outros tempos; os gritos dos miúdos acabaram por te incomodar. Mas deu para ver e para sentir o quanto gostaste daquelas horas no teu espaço, na tua casa.
O mais espectacular da tua visita a casa, no entanto, presenciei ontem quando te fui visitar ao hospital. Pela primeira vez vi-te a fazer exercícios. Primeiro com a boca, depois com as pernas. E falaste-me sem que tivesse de ser eu a dizê-lo. Disseste-me claramente que querias fazer-te entender. É necessário um esforço de ambas as partes: teu para soletrares melhor as palavras e nosso para te podermos ler os lábios.
Ontem, quando cheguei a casaia leve, mais feliz, por ver que estavas animado.
Ontem pensei que não importa o tempo, nem se esta "recuperação" o é mesmo ou se é apenas uma ilusão. O importante é que este tempo te está a deixar mais feliz e mais próximo de nós e isso é que é o fundamental.
Mesmo que hoje as notícias sejam más, mesmo que voltemos a andar para trás. O dia de ontem ninguém nos tira. Muito menos o de domingo.

quinta-feira, abril 19, 2007

Momento de ternura linguística

Mae: Filho o pai está cansado por que foi à discoteca.
Filho: Coteca.

ansiedade em volta do tempo

Para quem não sente o tempo passar, porque está fechado num quarto onde todos os minutos são iguais, e porque vive uma vida da qual foram retirados quase todos os referenciais temporais, estavas muito ansioso com o tempo.
Primeiro o pedido do relógio. Chegou no dia do teu aniversário, com direito a papel de embrulho e tudo.
Agora, que já tens relógio, insistes em perguntar que dia é. Hoje enquanto te beijava percebi essa tua ansiedade. Queres tanto visitar a tua casa, estar sentado no teu sofá... nem que seja por uma mão cheia de horas, que não vês maneira do tempo passar. Falta pouco, pai. Deve ser já no domingo.

quarta-feira, abril 18, 2007

Vazio

Sento-me à frente do computador com vontade de escrever, de tentar passar para este espaço parte da confusão que ocupa a minha cabeça, mas acabo quase sempre por embater numa série de dúvidas. Como dizer o que sinto sem estar sempre a escrever a mesma coisa? Eu tenho vontade de escrever, é um acto libertador, deixa-me aliviada. Mas, quando começo a encadear pensamentos, fico sempre com a sensação de que, invariavelmente, estou sempre a escrever a mesma coisa.
E depois penso, mas se a minha vida tem, nos últimos tempos, sido sempre este misto de dor e angústia como posso passar ao lado dela? Sem a descrever, sem a escrever?
O meu pai está internado há mais de dois meses. Foi internado na véspera do meu aniversário. E, desde esse dia, nunca mais voltou a respirar o ar da rua. Este ar de Primavera que nos enche os pulmões e nos faz pensar na vida.
Ontem, depois de conversar com a minha mãe, percebi que ela está quase a atingir o limite das suas forças. Sente-se perdida, sem saber o que esperar da vida. Percebi com clareza que o que mais lhe custa é a mentira. É não poder olhá-lo nos olhos e responder com franqueza às suas questões. O meu pai acalenta a ilusão de sair do hospital, em definitivo. O meu pai ainda crê que pode ficar “bem”, dentro de uma série de limitações. E a minha mãe, sua companheira de mais de 30 anos, não lhe pode dizer a verdade. Sendo que nem ela própria tem uma noção rigorosa do que é a verdade dele. Estamos neste limbo, entre médicos, entre opiniões e entre aquilo em que queremos acreditar. É realmente difícil entender que ele está a morrer. Olhando para ele não tenho essa noção. Ele está fisicamente melhor, não tem, nem de longe nem de perto, o aspecto de um moribundo. Mas está a morrer. Essa é a verdade mais dura e crua de aceitar.
O meu pai tem um buraco de 20 cm no pescoço. Um buraco a céu aberto, que nunca fechará por si, que implica uma cirurgia muito grande só para o fechar. O problema é que fechar esse buraco de pouco adianta sem tentar reparar todo o mal que está lá dentro: uma série de órgãos queimados e destruídos pela radioterapia. Fechar aquela cratera (e isto se ele resistir à operação) poderá levá-lo para casa, mas por pouco tempo. Só que com tantas lesões internas e com um risco de hemorragia tão grande será um milagre encontrar um médico que o queira operar.
E perante isto o que nos resta?
Eu sei que é bom tê-lo e que não se deve desistir, e mais isto, e mais aquilo. Mas a minha cabeça não se rege por estas regras. No que penso na maior parte do tempo é nisto:
O meu pai nunca mais voltará a falar; o meu pai nunca mais voltará a cantar, como tanto gostava; o meu pai nunca mais sentirá o paladar do que quer que seja; o meu pai nunca mais poderá beber um café, sentir o sabor de um morango, beber um bom copo de vinho… o meu pai não sabe distinguir a hora do almoço da hora do jantar, porque esses rituais já não existem; o meu pai perdeu o sabor e com ele o olfacto.
Triste, não é?
E agora, que acabo de escrever, sinto-me numa circunferência. Não disse nada de novo, não sinto nada de novo. Nada mudou na minha vida. A não ser, talvez (e isto também é em si triste), uma certa normalidade nesta tristeza, neste acostumar de tristezas feitas rotinas.

terça-feira, abril 17, 2007

Preparativos

Este fim-de-semana deves ir a casa. Não para casa; vais apenas de visita. Que raio de vida esta que um homem vai de visita à sua casa, ao seu sofá... à sua vida.
A mãe manteve tudo como no dia 11 de Fevereiro, o último dia que estiveste em casa. Tudo imaculadamente limpo, como só ela é capaz. Mas nada do que é teu falta. Tudo no seu lugar.
Nós, por cá, estamos em preparativos. E que estranho que é preparar a tua visita. Alegria de te ver fora daquele espaço de cheiro a desinfectante onde entramos de máscara, bata e luvas. E uma estranheza muito grande de não saber o que te pode acontecer. Andamos contigo consciente de que és como uma bomba-relógio que a qualquer momento nos pode rebentar nas mãos. Mas vou tentar não pensar nisso. Vou tentar que essa visita se concretize mesmo, que vejas a luz do dia, que vejas como as árvores já estão cheias de folhas... que sintas o aroma da Primaver.
Vou tentar afastar de mim os pensamentos que tantas vezes me visitam e consomem. Vou tentar acreditar que ver-te, nem que seja por um dia, em casa, vale a pena todo este sofrimento e angústia.
Por ti pai, vou pôr-me bonita, como quando era criança e tinha de ir à missa com roupa domingueira. Nada de modernices. Vou tentar ser o mais possível a tua menina.
Por ti. Por mim.

Gostos

Gosto particularmente do calor. Dos corpos destapados, dos pés quase descalços, do cheiro do mar, do peixe grelhado, das tarde com caracóis, dos risos abertos de quem se sente em paz.
Gosto de me sentir bem com a vida.
Gosto de ver os meus amigos, de os abraçar. Gosto de sentir uma necessidade maior de os ver, de lhes tocar.
Gosto de gostar de estar viva, mesmo que às vezes a tristeza me visite.

segunda-feira, abril 16, 2007

nós

Ontem jogámos às cartas, uma rotina que se começou a instalar nas minhas visitas. Vi que me esperavas e vi claramente que, apesar de tudo, estavas à espera que te desafiasse para um jogo de cartas... doi-me ver-te assim, uma sombra do que foste e sem ter certezas que toda esta dor e luta te conduza para fora do hospital...
Mas reconforta-me sentir que te posso falar do meu dia, que te posso escrever um bilhetinho, que me esperas para te fazer a barba.
Mas não deixo de me sentir revoltada com a forma como vives, com o sofrimento ao qual estás sujeito. or vezes penso se terás a verdadeira noção do estado em que te encontras, dos prognósticos que te traçam... é uma grande frustração.
Eu estou feliz por estares vivo, por respirarmos o mesmo ar, por te sentir, por fechar os olhos e te saber no meu mundo. Mas, em certos momentos, não consigo livrar-me desta dualidade, de te querer mas de achar esse mesmo querer uma injustiça.

Descobertas

O que eu gostei daquele pedaço de domingo à tarde.
As afinidades são mesmo fantásticas. Gostei muito de ver a pessoa que leio com tanta atenção e de quem me sinto tão próxima nestes altos e baixos da vida.
E o que mais me tocou foi aquele pedaço de papel, aquela fotografia de dois sorrisos tão cúmplices.
Obrigada:)

quarta-feira, abril 11, 2007

O dia em que Sócrates mostra o diploma

Ontem vi o debate da SIC Notícias sobre o silêncio de José Socrates em relação à embrulhada que é/foi a sua licenciatura.
Houve várias coisas que me deixaram pasmada. A mais grave delas foi que, a meu ver, nenhum dos presentes tocou no essencial desta questão. A mim, enquanto cidadã portuguesa, pouco me interessa se José Sócrates é ou não engenheiro, concluiu ou não a sua licenciatura, fez ou não uma pós-graduação. Isso para mim são pormenores (e aqui, e apenas aqui, concordo com João Marcelino).
O que a mim verdadeiramente me preocupa são as condições que proporcionaram a José Socrates concluir a sua licenciatura. O grave para mim é que ele (poderia ser qualquer outro membro do governo) tenha concluido a sua licenciatura de forma facilitada por ser membro do governo. E, nesse sentido, é também grave perceber quais as contrapartidas para tal favorecimento. O que é que o governo de António Guterres deu em troca à Universidade Independente para que esta atribuísse o grau de licenciatura a José Sócrates.
Eu não tenho certezas absolutas em relação a esta questão. Mas tenho cada vez mais dúvidas e algumas suspeitas que não me parecem infundadas.
A pressão que o gabinete do PM fez nos mais variados meios de comunicação para calar esta notícia e para não permitir mais investigações é, no mínimo, preocupante.
A mim, neste momento, não me descansará ver da mão do PM o diploma que prova a sua licenciatura. Ele até pode apresentar dez diplomas de dez universidades diferentes, pintados de várias cores... o que quero saber é em que circunstâncias ele conseguiu esse diploma, a troco de quê... Convem não esquecer a embrullhada em que a Universidade Independente está mergulhada. São falcatruas atrás de falcatruas. Já deu para perceber que a malta da empresa que gere aquele estabelecimento de ensino, não é de confiança. E ontem mesmo, na carta aberta que escreveram a Mariano Gago, deixam no ar que alguém está a tentar calar a UNI, a tentar ocultar a verdade. Para mim isto cheira a chantagem. E aqui tudo se agrava, perceber até que ponto, por causa de uma porcaria de um diploma, o Primeiro Ministro de Portugal se colocou nas mãos de gente daquele nível.
Fiquei pasmada por nenhum dos presentes, directores de meios de comunicação, conseguiu ou teve a coragem de chegar aqui...
Fiquei ainda mais pasmada com a atitude de João Marcelino. A fazer de advogado do diabo numa clara manobra de estratégia. Agora que o DN anda pelas ruas da amargura e que João Marcelino se vê à frente de um jornal (mesmo assim) de referência, espera, com esta defesa do bom nome do PM aproximar-se do gabinete do mesmo para relações futuras. Ou ele pensa que enganou alguém com aquela atitude desplicente? Se tudo o que se tratou ontem à noite são pormenores, porque foi João MArcelino até aos estúdios da SIC? Porque permite que o jornal que dirige dê páginas inteiras de informação sobre o assunto? Ontem mesmo o DN trazia uma lista de perguntas às quais Sócrates não respondeu e que deveriam ter resposta...

terça-feira, abril 10, 2007

Remar

Por mais que tente, não consigo.
Andamos algum tempo a bater com a cabeça na parede, a pensar que já nada vale a pena, a desejar que te vás com a dignidade que ainda te é possível. Mas depois, quase sempre arrastadas pela força do mano, lá vamos nós as duas, eu e a mãe, atrás dele e de ti. Só mais uma tentativa. Não se pode desistir, diz o mano. Mais uma carta, um hospital, uma consulta, uma opinião. E o que nos resta senão tentar tudo? Se te fores, pelo menos fica-nos a certeza de que tudo foi tentado. E mais vale que te vás numa mesa de operações, a tentar tudo por tudo, do que te ires no meio de uma estúpida hemorragia, preso a uma sala de hospital, onde nada do que é normal te é ou será alguma vez permitido.

A dança em mim


Nos últimos anos tenho-me afastado da dança. Por circunstâncias várias. Não interessa agora quais. A constatação é esta: tenho-me afastado dela. Não significa isto que a dança tenha deixado de ter importância para mim. Ela continua a preencher um lugar único no meu ser. Preenche-me como nenhuma outra forma artística. e daí talvez venha a minha exigência em relação a ela. Não que eu ache que, de cada vez que vejo um espectáculo, ele tenha de ser revolucionário ou trazer algo absolutamente novo. As fórmulas, muitas delas, já foram inventadas, exploradas, reapresentadas...
Mas não consigo deixar de ficar decepcionada quando um espectáculo me parece preguiçoso, presunçoso, óbvio. Principalmente quando se trata de alguém como a Pina Bausch.
Na sexta-feira fui ver o espectáculo "for the children...". Percebi o conceito, achei graça a um ou dois quadros; é indiscutível a qualidade dos bailarinos.... mas, no geral, fiquei maçada, zangada mesmo, com o que vi. Muito lugar comum, uma peça muito grande, demasiado grande, colagens musicais por vezes despropositadas.... saí do Teatro Camões sem qualquer tipo de preenchimento, sem sentir o gesto, sem ver a coerência.
Da próxima vez que tiver contade de comprar um bilhete para ver a Pina Bausch, espero dar com a cabeça na parede, à espera que me passe a vontade

segunda-feira, abril 09, 2007

Páscoa sem sabor

A minha Páscoa sempre teve cheiro de cabrito assado no forno. A minha Páscoa sempre teve o som do compasso a tilintar de casa em casa. A minha Páscoa, embora há já muito tempo tenha perdido os hábitos da igreja, sempre foi de terreiros lavados, casa aprumada, missa cantada e família reunida à mesa. A minha Páscoa, mesmo quando era passada em Lisboa e não na aldeia dos meus pais, sempre foi sinónimo de algazarra , vinho tinto, conversas acaloradas e mesa posta até à noite.
A minha Páscoa foi, desde sempre, liderada pela figura do meu pai, sentado à cabeceira da mesa, de olhar preenchido e realizado por nos ver juntos.
Este ano a minha Páscoa foi diferente, muito mais triste. A reunião familiar foi trocada por um singelo almoço só com a minha mãe num restaurante chinês. E no momento em que me sentei e vi todas aquelas famílias reunidas naquele espaço, dei ainda mais valor à minha Páscoa perdida, lá longe na aldeia. Que tristeza que senti. E que saudades do som das nossas vozes umas sobrepostas às outras.

quinta-feira, abril 05, 2007

A morte do tempo

"Hoje o meu relógio morreu. Parti-o eu. Para que quero saber as horas aqui? Juntamente com o relógio também o tempo morreu para mim. Matei o relógio porque o meu cativeiro estava a ficar cansado desta pequena máquina de fabricar minutos inúteis. Desintegrado o átomo, era preciso desintegrar o instante. Penso que consegui fazê-lo ao partir o relógio."
Jesús Zárate
A Prisão

terça-feira, abril 03, 2007

Dúvidas

Vivo uma dualidade que me consome. Por um lado tento recuperar alguma da normalidade dos meus dias. A vida assim o exige. Tenho uma casa, uma família, um quotidiano para levar em frente. Mas, por outro lado, não me consigo separar de ti. Da tua existência cada vez mais perene nessa cama de hospital. Da tua força cada vez maior, a contrariar o que todos sabemos que vai acontecer.
Não dá para imaginar como consegues acreditar na vida apesar de tanto sofrimento, de tanta angústia. E eu já não tenho conforto possível. Para todos os lados que me viro só vejo tristeza e pesar. E depois, depois há o que secretamente desejo. Eu já tenho saudades, pai, mas muitas vezes, em surdina, a meio da noite, penso que já não estás aqui e, não sei porquê, ou talvez saiba e não o queira admitir, esse pensamento apazigua-me de alguma forma.
Será que tenho esse direito?

quinta-feira, março 29, 2007

56

Ontem comemorámos o ano 56. Fizeste 56 anos. Nunca os tinhas passado numa cama de hospital. E eu pensei que tu nem sequer passarias por eles. Não sei se o termo comemorar é o mais indicado no teu caso.
Claro que estou feliz por estares vivo. Mas este ano não devia ser comemorado. Devia antes ser ignorado. O ano em que tanto sofreste, em que foste tão mutilado... é bom que ainda cá estejas, entende-me. Eu não te desejo a morte. Pelo menos, não agora. Já ta desejei. E não há muito tempo, acredita-me.
Agora conforta-me saber que lutas, que queres viver, mesmo que não seja por muito tempo.
De qualquer forma, continuo a achar que a entrada nos teus 56 não merece comemorações.

segunda-feira, março 26, 2007

Percepções

Fui ver-te. Estavas igual aos últimos dias. Foi uma visita em tudo similar às anteriores. O que mudou foi a minha percepção da realidade. O que antes era um cenário mais idílico, em que sonhava com possíveis recuperações e uma vida a médio prazo, passou a ser muito mais limitado. O tempo passou a ter outro valor. Cada segundo que passo contigo é mais precioso que o anterior. Foi isso que mudou. A importância que lhe atribuo. Ao tempo, as horas, aos minutos, aos dias. Tu estás igual, sem grandes receios, sem grandes ansiedades ou medos (para além dos muitos que já tinhas, é verdade).
Mas essa visão de que só em nós tudo mudou apazigua-me.

sexta-feira, março 23, 2007

Normalidade

Tento viver com alguma normalidade. Digo alto e pausadamente NOR MA LI DA DE.
Levanto-me pela manhã, bem cedo. Trato de mim, trato do filho, tomo o pequeno-almoço. Vou para o trabalho. Procuro nas caras dos desconhecidos algumas pistas das suas vidas. Procuro na luz do Tejo algum contentamento. Sento-me aqui, todos os dias, até ao bater das 18h.
E faço o caminho de regresso: comboio, metro, casa, brincadeiras , banho, caderneta do Bob o Construtor, jantar, uma história, um pouco de televisão e a cama. Onde procuro o sono. Uns dias a procura é mais demorada que em outros.
Tento viver com alguma normalidade.
Mas já nem sei bem o que isso é. Voltei a dormir de telemóvel ligado. Voltei a ter sobressaltos a meio da noite. Voltei a pensar se tenho ou não coragem de te ir visitar, de te olhar nos olhos e dizer que vai ficar tudo bem, mesmo sabendo que te estou a mentir.
Afinal, o que é a normalidade? O que é que para mim seria normal numa altura destas? O que eu quero e o que acho melhor nem sempre são pensamentos coincidentes.
O que queria viver e o que vivo também nem sempre coincidem. Ultimamente então...

quinta-feira, março 22, 2007

Voltas

Ando às voltas. Sinto-me perdida. Ontem entrei no comboio com a esperança de que a visão do mar me serenasse o espírito. Mas depressa o azul do mar foi substituído por deprimentes blocos de apartamentos, marquises de alumínio, roupa estendida sem critério, ruas sujas e tristes. E o que deveria ter sido um passeio higiénico acabou por ser uma triste constatação de que um subúrbio é sempre um subúrbio. Mesmo quando o mar está por perto.
Ando às voltas. Tento sair de mim e voltar a entrar, como um corpo estranho, para me poder ver com outros olhos, mas não consigo. Os olhos com que me vejo são os mesmos de sempre. Aqueles que vêem a angústia nos teus; aqueles que vêem a tristeza nos do mano, o desespero nos da mãe. Os meus olhos estão como eu, cansados. Precisavam de se fechar.

quarta-feira, março 21, 2007

Coincidências e incidências da vida

Fez ontem um mês que ditaram o fim. Eu acreditei. Fiz o meu luto, preparei-me da forma que me foi possível preparar.
Depois fui surpreendida por uma força maior: a tua.
Só que as nossas forças não são ilimitadas. E quando parecia que a esperança era algo concreto e palpável, volta tudo para trás. Por uma coincidência foi ontem, um mês depois.
E agora?

Retrocesso

Quando tudo parecia encaminhado voltámos a dar alguns passos atrás.
O medo paira novamente sobre as nossas cabeças. Mais sobre a tua...

terça-feira, março 20, 2007

Estado da Informação

Hoje, ao abrir o clipping da empresa na qual trabalho, dei de caras com a notícia da morte de Ray-Gude Mertin. Mas como, pensei eu, se ela morreu a 13 de Janeiro?
Vi qual era a fonte de notícia, um portal do Minho, um tal mais actual e apressei-me a ligar para desfazer o engano. Resposta do outro lado: "Onde é que está mesmo a notícia? Na música? Vou já tirar, obrigadinha."
Não, sua ignorante, não está na música. a Ray-Güde era uma agente literária.
Mas mais do que ficar chocada com a ignorância da senhora em questão (a quem me recuso chamar jornalista), foi a facilidade com que me disse que retirava a notícia. Estava ali aquela como poderia estar qualquer outra, sem qualquer critério de rigor.

domingo, março 18, 2007

Contabilidade

Começo a perder a conta aos dias, o que me parece um bom princípio. Já faz quase um mês que ditaram a tua morte. E tu, casmurro como só tu sabes ser, decidiste que ainda não tinha chegado a tua hora e que, dependendo de ti, ainda havias de dar luta.
e sei que é assim que estás, a dar luta. Por mais que mantenhas os olhos fechados quando te visito, por mais cansado e cabisbaixo que te veja sei que, no teu íntimo, não baixaste os braços. Tu lutas, eu sinto-o, mas é difícil, penosamente difícil, manter o espírito 24 horas por dia.
Não é pai? Porque para ti os dias são todos iguais, as horas correrm a um ritmo muito próprio, muito lentamente... demasiado lentamente, posso adivinhar. Dias e noites devem-se confundir na tua memória... o teu calendário deve ser muito peculiar. Imagino o que marcará a evolção do teu tempo... como é que ele corre, como o contabilizas?
Até as visitassão sempre as mesmas...
Nunca foste de grandes conversa mas, agora que não mais voltarás a falar, imagino que tudo seja mais doloroso... ninguém com quem desabafares o que te via na alma... Estás privado de grande parte da tua vida, da tua rotina. Não comes, não falas, não vês os teus amigos, não estás em tua casa... não sabes se isto vai passar ou não....
Eu acredito que ainda tens muito para contar. Eu cá vou estar, a ler-te nos lábios, como gosto de fazer.
Um beijo do tamanho do mundo, e doces sonhos, pai.

segunda-feira, março 12, 2007

Relato de uma certa normalidade

Agora quase que posso respirar...
O meu pai melhora, pouco, mas melhora.
Eu voltei ao trabalho e começo a decifrar as novas rotinas e hábitos das novas gentes com quem me cruzo.
O meu filho voltou a ficar doente...

Sinto-me novamente na gestão da minha conta corrente que é a minha vida.
Sem queixumes.
Às vezes é bom voltar a uma certa normalidade tranquilizadora.
Fazia-me falta.

sexta-feira, março 09, 2007

PENSAMENTO PÓS 8 DE MARÇO

Por que raio não aproveitei a gastrectomia de há dois anos para fazer uma mudança de sexo?

quinta-feira, março 08, 2007

SOBREviver

Há dias que não consigo escrever aqui.
Não por falta de assunto ou de vontade. Tem sido mesmo por falta de tempo.
Novo emprego, novas solicitações. O filho que, depois de dois meses de mãe a tempo inteiro, está decidido a reclamar. O pai doente que não tem a devida atenção ou, pelo menos, não tem a visita diária a que já estava acostumado...
Mas hoje é um dia especial. Um dia em que me sinto uma sobrevivente.
Faz hoje dois anos que entrei num bloco operatório sem saber muito bem se iria sair de lá ou em que estado sairia. Tudo era uma incógnita. Depois desta operação, que me mutilou de forma definitiva, passei a ver contabilizada a minha existência.
Os médicos falam em sobrevida. Como se o calendário tivesse parado naquele dia e àquela hora. Como se todos os dias que se seguiram fossem um bónus.
Por tudo o que já vivi nestes dois anos e pelo que ainda espero viver (sobretudo em qualidade), sinto-me feliz e em paz.

domingo, março 04, 2007

Teoria da evolução

Cada dia que passa é um dia para evoluir. Assim gosto de pensar, que a cada dia que te vou ver há uma coisa nova para registar. Agora já te vejo sentado à minha espera. é claro que ainda não te sentas sozinho, nem decides quando te queres levantar ou deitar, mas já o podes pedir a alguém. Já tens essa vontade.
Encontro-te bem e isso deixa-me reconfortada. Mas sei que ainda há um longo caminh a percorrer. O perigo já não paira tão sobre a nossa cabeça, mas ainda não estamos a safo.
Tentamos evoluir, cada um da sua maneira.
Hoj li-te mais uma das minhas cartas.
Aguardo que sintas vontade de me contares os teus dias ou os teus pensamentos.
Hoje é o dia 12

quinta-feira, março 01, 2007

ESSE DEDO ERGUIDO


...
Obrigada, pai.

Escrita em dia

Ontem retomei um hábito há muito perdido, o de escrever cartas. Em papel, à antiga.
Quando em 1997 fui viver um semestre para Salamanca escrevia cartas todos os dias. Aos meus pais, aos meus amigos, a um ou outro familiar mais próximo... algumas delas ainda estão guardadas numa caixa algures em casa dos meus pais. Eu adorava escrever. Ajudava-me a ameninzar a saudade, o isolamento.
Com a net, o messenger, o mail e o malfadado telemóvel, fui perdendo o velho hábito de pegar na caneta. Quando fiquei doente comprei um caderno cor-de-rosa que me acompanhou no hospital e onde escrevia alguns dos meus pesamentos mais tenebrosos, algumas das minhas dúvidas e angústias... mas o espírito era diferente do das cartas. Eu não escrevia para outro que não para mim própria, apenas com a finalidade de libertar algo preso em mim.
Ontem, enquanto conversava contigo, lembrei-me desse velho hábito perdido e de como ee poderia ser uma forma de te aproximar ao mundo. Agora que nunca mais falarás a escrita poderá ser o nosso elo secreto.
Todos os dias te vou escrever uma pequena (ou grande) carta a contar-te as miudezas do meu da-a-dia. A fila de trânsito, as traquinices do Henrique, as pessoas que telefonaram a saber de ti...
O primeiro passo é meu, escrever-te.
Depois, espero que te sintas bem para me começares a escrever a mim.

terça-feira, fevereiro 27, 2007

Brecha de luz

Hoje fez sol.
Um daqueles dias que enchem a alma. Luz fantástica, dia ameno.
O meu coração também está assim: em estado de aquecimento. Lento, sem pressas, sem sobressaltos e, sobretudo, sem grandes euforias.
Mas fez sol no meu coração.

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

Interrompemos para uma pausa humorística

Porque nem tudo é mau na vida, aqui fica um pequeno apontamento real.
Sentados numa bela esplanada de Lisboa tentávamos, pelo menos eu, alhear-me um pouco daquela que tem sido a minha rotina nos últimos dias. Nada como o Tejo e luz da cidade para descomprimir.
A meio do lanche a lembrança de enviar uma mensagem à Chica (a nossa empregada) para que fizesse jantar.
Minutos depois uma mensagem de um dos líderes partidários do nosso Portugal dos pequeninos.
"Enganou-se. Aqui não há nenhuma Chica".
Seria um jantar às direitas.

DIA ATRIBULADO

Hoje passou o sétimo dia. Já nos passaste a perna durante uma semana.
Faz hoje uma semana chorei a tua morte, pensei em tudo o que era preciso fazer, que providências tomar.
Hoje voltei a tomar providências. Por iniciativa do mano transferimos-te para uma clínica. Lá fui eu, para aquele hospital ao qual espero nunca mais ter de voltar, dizer que te queria levar.
Não sei o que vai acontecer. Se voltarás a ser alguém parecido com o que já foste, ou se nos morrerás. Mas sei, pelo menos, que a tua morte, se tiver de acontecer, será digna. Não morrerás fechado numa sala como um cão sem dono. Terás alguém que te segure na mão, que te tranquilize.
Acho que vai ser importante que vejas o Pedro todos os dias. E para ele é muito importante poder tratar de ti.
Eu, pela minha parte, vou tentar permitir-me uma pequena pausa. Estou exausta. Não te quero deixar, mas preciso retomar, de alguma forma, a minha rotina.

domingo, fevereiro 25, 2007

AO SEXTO DIA...

... fez-se alguma luz.
Gostei de te ver, de barba feita (obra da formiguinha mãe). Mas o teu olhar está triste... tanta gente à tua volta de bata, máscara e luvas... ficas a pensar que o fim já chegou. Talvez tenha chegado. Talvez não.
Na parte que te cabe, tens de lutar.
Nós, por cá, estamos a reunir as tropas para te tirar desse buraco e te restituir alguma dignidade.
Até amanhã.

sábado, fevereiro 24, 2007

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

DIA 4

Tu és danado, pai. Os médicos disseram que não passavas do dia 0 mas tu, teimoso como ninguém, lá decidiste que te caberia a ti, na medida do possível, ditar o dia da tua morte. Neste momento já não sei se a vês tão presente como há uns dias atrás. Mas isso agora também já não interessa. O que importa verdadeiramente é que ainda cá estás, por muito pouco tempo, é verdade. Mas ainda cá estás. A lutar com a teimosia que tantas vezes me fez discutir contigo.
Vejo-te agarrado à vida como nunca. Não depende de ti a tua morte, bem sei. Mas lutar depende e tu, para não variar, deste-me uma grande lição de vida ao demonstrares que é quase sempre possível lutar um bocadinho mais. Lutar pelo menos até que o corpo nos traia... e o teu pode trair-te a qualquer instante. Até lá prometo visitar-te, amar-te, segurar-te na mão e falar-te do meu dia.