segunda-feira, julho 09, 2007
O coiso
terça-feira, julho 03, 2007
Pequena vitória
Uma pequeníssima vitória, no meio de tantas perdas. Uma réstia de esperança.
sexta-feira, junho 22, 2007
A dignidade
Ter cancro é horrível para além do que se possa imaginar. Porque estar doente nunca é fácil. Nem mesmo quando se tem uma gripe. E o cancro, apesar da evolução da medicina, ainda é uma doença muito mortal. Quando alguém nos diz que temos cancro conseguimos cheirar o odor da morte. Eu senti-o claramente. E o cancro é ainda mais horrível porque as armas que existem para o combater nos definham ao ponto de, por vezes, serem, elas próprias, causadoras de morte. Eu não posso falar da morte com conhecimento de causa, porque continuo aqui. Mas sei bem o que a quimioterapia e a radioterapia nos fazem. Sei bem até onde desci, na minha dignidade, sei que dores passei, o desespero que vivi durante os tratamentos e nos meses que se seguiram.
Mas fiz tudo o que me mandaram e voltaria a fazê-lo de novo, se o tempo voltasse atrás. Porque a mim nunca me mentiram, nunca me deram falsas esperanças, nunca me pintaram cenários cor-de-rosa, nunca me deram hipóteses para além das viáveis.
Os médics não são deuses, não são donos da poção da vida, não nos podem devolver o que perdemos com a doença. Mas os médicos, e muitos parecem esquecer isso, são pessoas e, como tal, têm o direito e a obrigação de nos tratar com dignidade, de nos permitir essa dignidade e, sobretudo, de deixarem que caia sobre nós o poder de decidir o que fazer quando não há nada mais a fazer.
Eu sujeitei-me a seis ciclos de quimioterapia e a 25 tratamentos de radioterapia porque adoro a minha família. porque tinha um bebé de oito meses à minha espera, porque tinha um companheiro fantástico do meu lado. Mas também porque sempre tive a noção exacta da minha doença, da sua extensão, das suas implicações, dos passos que podia tomar, dos riscos que estava a correr. E isto fez toda a diferença. Os meus médicos nunca me mentiram. Um houve, até, que foi excessivamente sincero o que, na altura, me deixou de rastos e me fez odiá-lo por várias semanas. Mas, apesar de saber que o cenário poderia complicar-se a qualquer momento e muito rapidamente, os meus médicos sempre me disseram que o objectivo de tudo era a cura.
Essa honestidade deu-me a força para enfrentar as dificuldades com dignidade.
Se na altura me tivessem dito que o tumor já estava muito metastisado e que dificilmente haveria cura, talvez eu tivesse tomado decisões diferentes das que tomei. Talvez não. Mas sei que seria eu a decidir, a colocar tudo na balança e a decidir o que fazer com o tempo que me restasse. É assim que quero fazer se um dia a doença voltar: decidir o que fazer.
Não consigo perceber como há médicos que mentem, omitem grosseiramente informação aos seus pacientes, os deixam acreditar numa coisa que não é verdade e, sobretudo, os submetem a tratamentos, a sofrimentos desumanos sem qualquer tipo de valor acrescentado, fazendo apenas com que o pouco tempo que lhes resta seja passado em sofrimento e em degradação. Morrer aos poucos não deve ser agradável, viver com essa faca sobre a cabeça, de que o fim está muito muito próximo não é pêra doce, mas viver tudo isso assistindo a uma degradação progressiva do nosso corpo causada pelos tratamentos que nada fazem para além de nos deixar mais moribudos, parece-me um crime.
Porque a nós, doentes oncológicos, a dignidade é, por vezes, a única coisa que no resta.
quarta-feira, junho 20, 2007
segunda-feira, junho 11, 2007
Datas
Amanhã faz um ano que me casei.
Hoje telefonei à minha mãe para voltar a insistir nesta coisa de nos vermos, de tentarmos passar juntas algum tempo de qualidade.
Ela estava triste, de voz rouca. "Hoje estou em baixo", disse-me. "Faz quatro meses que o pai está internado". Quatro meses, pensei. Quatro meses, penso agora. Se é verdade que houve um momento em que pensei que tudo ia acabar, não é menos verdade que há quatro meses atrás eu pensei que o meu pai iria fazer uma operação muito complicada e mutiladora, mas que quando passasse o pós-operatório, iria para casa, para junto dos seus, sem mais complicações do que aquelas que já sabíamos. O meu pai ia tirar a faringe, iria deixar de falar para sempre mas, com um bocadinho de sorte, continuaria a comer pela sua boca.
Hoje, quatro meses depois, o meu pai está vivo, o que, logo à partida, contraria todas as perspectivas e finta todas as contabilidades, mas perdeu muito mais do que a voz.
Enquanto falava com a minha mãe pensava nas datas e de como simplesmente deveríamos apagar algumas da nossa vida. ´
Há datas que não se deviam lembrar, deveriam permanecer no esquecimento.
O 11 de Fevereiro é uma delas. e todos os 11 que se seguem no calendário também.
segunda-feira, maio 28, 2007
Felicidade
terça-feira, maio 22, 2007
amor fraterno
No amor fraterno que nos liga aos nossos amigos, que nos faz sorrir quando recordamos momentos partilhados, que nos faz ter vintade de partilhar mais.
No sábado casou o Rui. O Rui, para quem não sabe, era o mais improvável de se casar do nosso pequeno grupo de faculdade. Muitas conversas tivemos na FSCH sobre gajas, namoros, amor, impossibilidade do próprio. O Rui, muito optimista em muitas coisas, no que ao amor dizia respeito era um pessimista convicto.
E o sábado passado lá esteve, para lhe provar que não há certezas absolutas~, não há verdades universais... mas a vida com amor tem outro sentido. E percebeu-se, naquele belo momento de partilha, que a vida dele está muito mais preenchida.
segunda-feira, maio 14, 2007
Agora já posso arrumar a adolescência na prateleira
sexta-feira, maio 11, 2007
Não resisti, desculpem
Nestas minhas ananças nocturnas pelo YouTube não resisti a este Malandro deste soquete! Delicioso
quinta-feira, maio 10, 2007
QUANDO A ESMOLA É GRANDE O CEGO TEM MESMO DE DESCONFIAR
Hoje foi um bom dia. A sério que foi. Entrei oficialmente em estágio para o concerto de sábado. No iPod que ofereci ao meu marido e que me acompanha quase todos os dias, já só passa música desse grande ícone da música pop dos loucos anos 80, George Michael. Cheguei bem-disposta ao trabalho, consegui fazer tudo o que tinha para fazer (e não era pouco), fui ao ginásio à hora do almoço, fui visitar o meu pai e adorei vê-lo. Jogámos às cartas, ele estava alegre. Pela primeira vez em muitos meses vi um sorriso sincero no seu olhar. Saí do hospital com o coração cheio de alegria e esperança. A mim já não me importa muito se estes momentos de esperança e de alegria não passam disso, de momentos. Efémeros... contenta-me a sua autenticidade. Telefonei à minha mãe a contar-lhe a minha felicidade. Telefonei à minha sogra a dizer exactamente o mesmo: que há dias felizes e que devemos vivê-los com toda a intensidade que nos for possível. E estava eu nisto, nesta alegria partilhada, já à porta de casa a estacionar o carro quando levo uma daquelas panadas que me deixou a porta metida para dentro...
E o gajo ainda teve a coragem de dizer que eu estava a sair e não a estacionar. Aquela hora? Só ao estalo. O senhor Mané (assim se chama o senhor que me deu uma panada) estava tão convencido que eu estava a sair de um estacionamento que não me deixou outra via que não fosse chamar a polícia. E se pode parecer que a coisa acaba por aqui, desenganem-se.
A minha rua fica a cerca de 200m de uma esquadra. Mesmo assim tive de esperar 40 minutos para que a polícia aparecesse. 40 minutos de trânsito cortado numa rua de sentido único, com apenas uma faixa de rodagem e onde passam autocarros... Não foi bonito.
No meio de toda aquela confusão não conseguia encontrar a minha carta de condução. Fui a casa (mesmo ali do outro lado da rua) à sua procura. Regressada à companhia dos senhores agentes da autoridade lá lhes expliquei que não encontrava a bendita da carta. "Teremos de passar uma notificação para se apresentar na esuqdra, num prazo de oito dias, com a carta." "Muito bem", respondi. Trinta euros custa a notificação. Decidi voltar a olhar para a minha carteira e.... lá estava ela, no seu lugar de sempre. A minha carta. "Senho agente, está aqui, no seu lugar de sempre", disse a sorrir". Mas o sorriso durou pouco. Como já tinha começado a escrever a notificação e esta é numerada fui obrigada a pagar os 30 euros...
Amanhã espera-me o de sempre quando temos de falar com seguradoras: CHATICE na certa.
E tudo isto aconteceu já depois das seis, depois do fecho da hora de expediente. No fim de um dia que tinha sido tão bom.
Os sinais estava lá
VOTAÇÃO
quarta-feira, maio 09, 2007
DEIXA-ME SER...
Sei que vem tarde, mas tenho andado muito ocupada. Tão ocupada que não tive tempo para comentar esta tradução livre que o João Bonifácio fez da música do Brel.
Lindo. Melhor só mesmo a resposta do Camané. E tudo isto foi publicado num jornal de referência.
sexta-feira, maio 04, 2007
quarta-feira, maio 02, 2007
Dia 12
A chuva

Ontem, depois de uma manhã de muito buliço, regada com várias birras, uma palmada, uma dor de cabeça e um nó no estômago por ter dado a palmada, lá fomos - mãe e filho - até à casa dos avós.
Tanta chuva, que dia tão triste. Que forma tão triste do tempo celebrar mais um passeio até casa. Ontem voltámos a estar juntos na nossa casa.
E houve uma sensação de normalidade, de estranha normalidade. Eu e a mãe numa pequena discussão, o Henrique nas suas brincadeiras, tu no teu sofá, de olhos postos em nós e na televisão.
Ontem também não fui ao 1º de Maio, se bem que esse para mim nunca foi motivo de grandes festejos... nunca me bateu como o 25 de Abril, tenho de confessá-lo. Mais uma vez tu foste a comemoração.
Só fiquei triste com o tempo... não merecíamos aquela chuva, pai. Pois não?
sexta-feira, abril 27, 2007
DESEJO
25 de Abril
Esta quarta-feira, no entanto, não a desci. e nem uma vez me ficou um sentimento de vazio ou de dever não cumprido. Esta quarta-feira voltaste a sair do hospital e contigo lá fomos nós, em romaria. A casa de um primo. Devias querer sentir o ar fresco na cara, ver os pinheiros a baloiçar. Foi um dia em cheio. Muito cansativo. Para ti e para todos nós, principalmente para o mano, que tem de te acompanhar todos os minutos: medicar, aspirar, alimentar.... se não é fácil para nós, imagino para ele...
Mas lá fomos, com as crianças atrás, com o farnel para o almoço, com um verdadeiro dispositivo para te acompanhar... e eu, pela primeira vez, não senti falta do meu passeio pela Avenida.
Tu estavas muito dividido, entre a alegria de estar fora do hospital e a insatisfação por essa saída ser tão breve. Querias ficar em casa até domingo. Tudo o que vias, tudo o que sentias vi nos teus olhos que te dava alegria. Mas também senti que te deixava triste, porque, no fundo, estavas a contactar com uma normalidade da qual não podes desfrutar. Como se te estivessemos a mostrar tudo o que a vida pode ter de bom e, de seguida, te dissessemos que, infelizmente, não o podes viver.
No final do dia achei-te particularmente cansado. Para te dizer a verdade, todos nós estávamos esgotados. Estamos felizes por te ver e por te ter, mas estamos sempre alerta, e isso cansa, consome.
Ao entrares na clínica lá estava a lágrima pronta a sair... o teu semblante voltou a fechar-se. Mas eu senti-te forte e queria dizer-te que tu foste o meu melhor 25 de Abril.
terça-feira, abril 24, 2007
O encontro do homem com o seu espaço e com a sua força
quinta-feira, abril 19, 2007
ansiedade em volta do tempo
Primeiro o pedido do relógio. Chegou no dia do teu aniversário, com direito a papel de embrulho e tudo.
Agora, que já tens relógio, insistes em perguntar que dia é. Hoje enquanto te beijava percebi essa tua ansiedade. Queres tanto visitar a tua casa, estar sentado no teu sofá... nem que seja por uma mão cheia de horas, que não vês maneira do tempo passar. Falta pouco, pai. Deve ser já no domingo.
quarta-feira, abril 18, 2007
Vazio
E depois penso, mas se a minha vida tem, nos últimos tempos, sido sempre este misto de dor e angústia como posso passar ao lado dela? Sem a descrever, sem a escrever?
O meu pai está internado há mais de dois meses. Foi internado na véspera do meu aniversário. E, desde esse dia, nunca mais voltou a respirar o ar da rua. Este ar de Primavera que nos enche os pulmões e nos faz pensar na vida.
Ontem, depois de conversar com a minha mãe, percebi que ela está quase a atingir o limite das suas forças. Sente-se perdida, sem saber o que esperar da vida. Percebi com clareza que o que mais lhe custa é a mentira. É não poder olhá-lo nos olhos e responder com franqueza às suas questões. O meu pai acalenta a ilusão de sair do hospital, em definitivo. O meu pai ainda crê que pode ficar “bem”, dentro de uma série de limitações. E a minha mãe, sua companheira de mais de 30 anos, não lhe pode dizer a verdade. Sendo que nem ela própria tem uma noção rigorosa do que é a verdade dele. Estamos neste limbo, entre médicos, entre opiniões e entre aquilo em que queremos acreditar. É realmente difícil entender que ele está a morrer. Olhando para ele não tenho essa noção. Ele está fisicamente melhor, não tem, nem de longe nem de perto, o aspecto de um moribundo. Mas está a morrer. Essa é a verdade mais dura e crua de aceitar.
O meu pai tem um buraco de 20 cm no pescoço. Um buraco a céu aberto, que nunca fechará por si, que implica uma cirurgia muito grande só para o fechar. O problema é que fechar esse buraco de pouco adianta sem tentar reparar todo o mal que está lá dentro: uma série de órgãos queimados e destruídos pela radioterapia. Fechar aquela cratera (e isto se ele resistir à operação) poderá levá-lo para casa, mas por pouco tempo. Só que com tantas lesões internas e com um risco de hemorragia tão grande será um milagre encontrar um médico que o queira operar.
E perante isto o que nos resta?
Eu sei que é bom tê-lo e que não se deve desistir, e mais isto, e mais aquilo. Mas a minha cabeça não se rege por estas regras. No que penso na maior parte do tempo é nisto:
O meu pai nunca mais voltará a falar; o meu pai nunca mais voltará a cantar, como tanto gostava; o meu pai nunca mais sentirá o paladar do que quer que seja; o meu pai nunca mais poderá beber um café, sentir o sabor de um morango, beber um bom copo de vinho… o meu pai não sabe distinguir a hora do almoço da hora do jantar, porque esses rituais já não existem; o meu pai perdeu o sabor e com ele o olfacto.
Triste, não é?
terça-feira, abril 17, 2007
Preparativos
Gostos
segunda-feira, abril 16, 2007
nós
Mas reconforta-me sentir que te posso falar do meu dia, que te posso escrever um bilhetinho, que me esperas para te fazer a barba.
Mas não deixo de me sentir revoltada com a forma como vives, com o sofrimento ao qual estás sujeito. or vezes penso se terás a verdadeira noção do estado em que te encontras, dos prognósticos que te traçam... é uma grande frustração.
Eu estou feliz por estares vivo, por respirarmos o mesmo ar, por te sentir, por fechar os olhos e te saber no meu mundo. Mas, em certos momentos, não consigo livrar-me desta dualidade, de te querer mas de achar esse mesmo querer uma injustiça.
Descobertas
As afinidades são mesmo fantásticas. Gostei muito de ver a pessoa que leio com tanta atenção e de quem me sinto tão próxima nestes altos e baixos da vida.
E o que mais me tocou foi aquele pedaço de papel, aquela fotografia de dois sorrisos tão cúmplices.
Obrigada:)
quarta-feira, abril 11, 2007
O dia em que Sócrates mostra o diploma
terça-feira, abril 10, 2007
Remar
Andamos algum tempo a bater com a cabeça na parede, a pensar que já nada vale a pena, a desejar que te vás com a dignidade que ainda te é possível. Mas depois, quase sempre arrastadas pela força do mano, lá vamos nós as duas, eu e a mãe, atrás dele e de ti. Só mais uma tentativa. Não se pode desistir, diz o mano. Mais uma carta, um hospital, uma consulta, uma opinião. E o que nos resta senão tentar tudo? Se te fores, pelo menos fica-nos a certeza de que tudo foi tentado. E mais vale que te vás numa mesa de operações, a tentar tudo por tudo, do que te ires no meio de uma estúpida hemorragia, preso a uma sala de hospital, onde nada do que é normal te é ou será alguma vez permitido.
A dança em mim

segunda-feira, abril 09, 2007
Páscoa sem sabor
A minha Páscoa foi, desde sempre, liderada pela figura do meu pai, sentado à cabeceira da mesa, de olhar preenchido e realizado por nos ver juntos.
Este ano a minha Páscoa foi diferente, muito mais triste. A reunião familiar foi trocada por um singelo almoço só com a minha mãe num restaurante chinês. E no momento em que me sentei e vi todas aquelas famílias reunidas naquele espaço, dei ainda mais valor à minha Páscoa perdida, lá longe na aldeia. Que tristeza que senti. E que saudades do som das nossas vozes umas sobrepostas às outras.
quinta-feira, abril 05, 2007
A morte do tempo
terça-feira, abril 03, 2007
Dúvidas
Não dá para imaginar como consegues acreditar na vida apesar de tanto sofrimento, de tanta angústia. E eu já não tenho conforto possível. Para todos os lados que me viro só vejo tristeza e pesar. E depois, depois há o que secretamente desejo. Eu já tenho saudades, pai, mas muitas vezes, em surdina, a meio da noite, penso que já não estás aqui e, não sei porquê, ou talvez saiba e não o queira admitir, esse pensamento apazigua-me de alguma forma.
Será que tenho esse direito?
quinta-feira, março 29, 2007
56
Claro que estou feliz por estares vivo. Mas este ano não devia ser comemorado. Devia antes ser ignorado. O ano em que tanto sofreste, em que foste tão mutilado... é bom que ainda cá estejas, entende-me. Eu não te desejo a morte. Pelo menos, não agora. Já ta desejei. E não há muito tempo, acredita-me.
Agora conforta-me saber que lutas, que queres viver, mesmo que não seja por muito tempo.
De qualquer forma, continuo a achar que a entrada nos teus 56 não merece comemorações.
segunda-feira, março 26, 2007
Percepções
Mas essa visão de que só em nós tudo mudou apazigua-me.
sexta-feira, março 23, 2007
Normalidade
Levanto-me pela manhã, bem cedo. Trato de mim, trato do filho, tomo o pequeno-almoço. Vou para o trabalho. Procuro nas caras dos desconhecidos algumas pistas das suas vidas. Procuro na luz do Tejo algum contentamento. Sento-me aqui, todos os dias, até ao bater das 18h.
E faço o caminho de regresso: comboio, metro, casa, brincadeiras , banho, caderneta do Bob o Construtor, jantar, uma história, um pouco de televisão e a cama. Onde procuro o sono. Uns dias a procura é mais demorada que em outros.
Tento viver com alguma normalidade.
Mas já nem sei bem o que isso é. Voltei a dormir de telemóvel ligado. Voltei a ter sobressaltos a meio da noite. Voltei a pensar se tenho ou não coragem de te ir visitar, de te olhar nos olhos e dizer que vai ficar tudo bem, mesmo sabendo que te estou a mentir.
Afinal, o que é a normalidade? O que é que para mim seria normal numa altura destas? O que eu quero e o que acho melhor nem sempre são pensamentos coincidentes.
O que queria viver e o que vivo também nem sempre coincidem. Ultimamente então...
quinta-feira, março 22, 2007
Voltas
Ando às voltas. Tento sair de mim e voltar a entrar, como um corpo estranho, para me poder ver com outros olhos, mas não consigo. Os olhos com que me vejo são os mesmos de sempre. Aqueles que vêem a angústia nos teus; aqueles que vêem a tristeza nos do mano, o desespero nos da mãe. Os meus olhos estão como eu, cansados. Precisavam de se fechar.
quarta-feira, março 21, 2007
Coincidências e incidências da vida
Depois fui surpreendida por uma força maior: a tua.
Só que as nossas forças não são ilimitadas. E quando parecia que a esperança era algo concreto e palpável, volta tudo para trás. Por uma coincidência foi ontem, um mês depois.
E agora?
Retrocesso
O medo paira novamente sobre as nossas cabeças. Mais sobre a tua...
terça-feira, março 20, 2007
Estado da Informação
Vi qual era a fonte de notícia, um portal do Minho, um tal mais actual e apressei-me a ligar para desfazer o engano. Resposta do outro lado: "Onde é que está mesmo a notícia? Na música? Vou já tirar, obrigadinha."
Não, sua ignorante, não está na música. a Ray-Güde era uma agente literária.
Mas mais do que ficar chocada com a ignorância da senhora em questão (a quem me recuso chamar jornalista), foi a facilidade com que me disse que retirava a notícia. Estava ali aquela como poderia estar qualquer outra, sem qualquer critério de rigor.
domingo, março 18, 2007
Contabilidade
e sei que é assim que estás, a dar luta. Por mais que mantenhas os olhos fechados quando te visito, por mais cansado e cabisbaixo que te veja sei que, no teu íntimo, não baixaste os braços. Tu lutas, eu sinto-o, mas é difícil, penosamente difícil, manter o espírito 24 horas por dia.
Não é pai? Porque para ti os dias são todos iguais, as horas correrm a um ritmo muito próprio, muito lentamente... demasiado lentamente, posso adivinhar. Dias e noites devem-se confundir na tua memória... o teu calendário deve ser muito peculiar. Imagino o que marcará a evolção do teu tempo... como é que ele corre, como o contabilizas?
Até as visitassão sempre as mesmas...
Nunca foste de grandes conversa mas, agora que não mais voltarás a falar, imagino que tudo seja mais doloroso... ninguém com quem desabafares o que te via na alma... Estás privado de grande parte da tua vida, da tua rotina. Não comes, não falas, não vês os teus amigos, não estás em tua casa... não sabes se isto vai passar ou não....
Eu acredito que ainda tens muito para contar. Eu cá vou estar, a ler-te nos lábios, como gosto de fazer.
Um beijo do tamanho do mundo, e doces sonhos, pai.
segunda-feira, março 12, 2007
Relato de uma certa normalidade
O meu pai melhora, pouco, mas melhora.
Eu voltei ao trabalho e começo a decifrar as novas rotinas e hábitos das novas gentes com quem me cruzo.
O meu filho voltou a ficar doente...
Sinto-me novamente na gestão da minha conta corrente que é a minha vida.
Sem queixumes.
Às vezes é bom voltar a uma certa normalidade tranquilizadora.
Fazia-me falta.
sexta-feira, março 09, 2007
PENSAMENTO PÓS 8 DE MARÇO
quinta-feira, março 08, 2007
SOBREviver
Não por falta de assunto ou de vontade. Tem sido mesmo por falta de tempo.
Novo emprego, novas solicitações. O filho que, depois de dois meses de mãe a tempo inteiro, está decidido a reclamar. O pai doente que não tem a devida atenção ou, pelo menos, não tem a visita diária a que já estava acostumado...
Mas hoje é um dia especial. Um dia em que me sinto uma sobrevivente.
Faz hoje dois anos que entrei num bloco operatório sem saber muito bem se iria sair de lá ou em que estado sairia. Tudo era uma incógnita. Depois desta operação, que me mutilou de forma definitiva, passei a ver contabilizada a minha existência.
Os médicos falam em sobrevida. Como se o calendário tivesse parado naquele dia e àquela hora. Como se todos os dias que se seguiram fossem um bónus.
Por tudo o que já vivi nestes dois anos e pelo que ainda espero viver (sobretudo em qualidade), sinto-me feliz e em paz.
domingo, março 04, 2007
Teoria da evolução
Encontro-te bem e isso deixa-me reconfortada. Mas sei que ainda há um longo caminh a percorrer. O perigo já não paira tão sobre a nossa cabeça, mas ainda não estamos a safo.
Tentamos evoluir, cada um da sua maneira.
Hoj li-te mais uma das minhas cartas.
Aguardo que sintas vontade de me contares os teus dias ou os teus pensamentos.
Hoje é o dia 12
quinta-feira, março 01, 2007
Escrita em dia
Quando em 1997 fui viver um semestre para Salamanca escrevia cartas todos os dias. Aos meus pais, aos meus amigos, a um ou outro familiar mais próximo... algumas delas ainda estão guardadas numa caixa algures em casa dos meus pais. Eu adorava escrever. Ajudava-me a ameninzar a saudade, o isolamento.
Com a net, o messenger, o mail e o malfadado telemóvel, fui perdendo o velho hábito de pegar na caneta. Quando fiquei doente comprei um caderno cor-de-rosa que me acompanhou no hospital e onde escrevia alguns dos meus pesamentos mais tenebrosos, algumas das minhas dúvidas e angústias... mas o espírito era diferente do das cartas. Eu não escrevia para outro que não para mim própria, apenas com a finalidade de libertar algo preso em mim.
Ontem, enquanto conversava contigo, lembrei-me desse velho hábito perdido e de como ee poderia ser uma forma de te aproximar ao mundo. Agora que nunca mais falarás a escrita poderá ser o nosso elo secreto.
Todos os dias te vou escrever uma pequena (ou grande) carta a contar-te as miudezas do meu da-a-dia. A fila de trânsito, as traquinices do Henrique, as pessoas que telefonaram a saber de ti...
O primeiro passo é meu, escrever-te.
Depois, espero que te sintas bem para me começares a escrever a mim.
terça-feira, fevereiro 27, 2007
Brecha de luz
Um daqueles dias que enchem a alma. Luz fantástica, dia ameno.
O meu coração também está assim: em estado de aquecimento. Lento, sem pressas, sem sobressaltos e, sobretudo, sem grandes euforias.
Mas fez sol no meu coração.
segunda-feira, fevereiro 26, 2007
Interrompemos para uma pausa humorística
Sentados numa bela esplanada de Lisboa tentávamos, pelo menos eu, alhear-me um pouco daquela que tem sido a minha rotina nos últimos dias. Nada como o Tejo e luz da cidade para descomprimir.
A meio do lanche a lembrança de enviar uma mensagem à Chica (a nossa empregada) para que fizesse jantar.
Minutos depois uma mensagem de um dos líderes partidários do nosso Portugal dos pequeninos.
"Enganou-se. Aqui não há nenhuma Chica".
Seria um jantar às direitas.
DIA ATRIBULADO
Faz hoje uma semana chorei a tua morte, pensei em tudo o que era preciso fazer, que providências tomar.
Hoje voltei a tomar providências. Por iniciativa do mano transferimos-te para uma clínica. Lá fui eu, para aquele hospital ao qual espero nunca mais ter de voltar, dizer que te queria levar.
Não sei o que vai acontecer. Se voltarás a ser alguém parecido com o que já foste, ou se nos morrerás. Mas sei, pelo menos, que a tua morte, se tiver de acontecer, será digna. Não morrerás fechado numa sala como um cão sem dono. Terás alguém que te segure na mão, que te tranquilize.
Acho que vai ser importante que vejas o Pedro todos os dias. E para ele é muito importante poder tratar de ti.
Eu, pela minha parte, vou tentar permitir-me uma pequena pausa. Estou exausta. Não te quero deixar, mas preciso retomar, de alguma forma, a minha rotina.
domingo, fevereiro 25, 2007
AO SEXTO DIA...
Gostei de te ver, de barba feita (obra da formiguinha mãe). Mas o teu olhar está triste... tanta gente à tua volta de bata, máscara e luvas... ficas a pensar que o fim já chegou. Talvez tenha chegado. Talvez não.
Na parte que te cabe, tens de lutar.
Nós, por cá, estamos a reunir as tropas para te tirar desse buraco e te restituir alguma dignidade.
Até amanhã.
sábado, fevereiro 24, 2007
sexta-feira, fevereiro 23, 2007
DIA 4
Vejo-te agarrado à vida como nunca. Não depende de ti a tua morte, bem sei. Mas lutar depende e tu, para não variar, deste-me uma grande lição de vida ao demonstrares que é quase sempre possível lutar um bocadinho mais. Lutar pelo menos até que o corpo nos traia... e o teu pode trair-te a qualquer instante. Até lá prometo visitar-te, amar-te, segurar-te na mão e falar-te do meu dia.
quinta-feira, fevereiro 22, 2007
Pretérito Imperfeito
DIA 3
Será que se vai completar ou será interrompido a meio?
Estou ao telefone a tentar saber como foi a noite, mas não me atendem.
Estamos em suspenso.
quarta-feira, fevereiro 21, 2007
Dia 2
Ela continua a ser mais do que real, o risco de morrer é o mesmo: tudo acabará se houver outra hemorragia. E as probabilidades de tal acontecer são muitas, imensas... quase uma certeza nas próximas horas. Mas a morte também o era há dois dias.
E agora?
terça-feira, fevereiro 20, 2007
É permitido sonhar?
Ontem tinha a hemoglobina a 2,7, muito abaixo do limiar de sobrevivência. Todos lhe ditámos o fim.
Hoje acordou. Abriu os olhos, escreveu num papel. Pediu-me um beijo.
Não consigo perceber se acordou para se despedir da vida ou para se agarrar a ela.
domingo, fevereiro 18, 2007
A primeira vez que o meu pai me começou a morrer...
quinta-feira, fevereiro 15, 2007
A vida é um lugar muito estranho
Deveria ter começado bem, com o meu aniversário. Sim, eu sou daquelas pessoas que gosta de comemorar o aniversário, que gosta de ficar uma tarde inteira a cozinhar para os seus amigos, que gosta da confusão de vinte pessoas às cotoveladas num terceiro andar de Lisboa. Gosto dos gritos dos miúdos, das conversas supostamente sérias de alguns dos adultos, dos encontros anuais proporcionados, das prendas, dos beijos, dos carinhos. De há dois anos a esta parte costumo dizer que cada ano que faço é um bónus. Não era suposto eu comemorar mais que os meus 29 anos. Mas, sem saber muito bem como, fintei a morte. E por isso, a vontade de comemorar é cada vez maior.
No entanto, este ano o meu aniversário teve um sabor estranho. O meu pai voltou a adoecer. E enquanto eu tentava pensar na alegria de estar viva, sabia-o a agonizar numa cama de hospital, pronto para enfrentar mais uma mutilação definitiva.
Na terça-feira o meu pai foi operado. Depois de uma hemorragia gravíssima que poderia ter ditado a sua morte, o meu pai teve de se render à evidência. Laringectomia total... nunca mais vai falar. Se tudo correr bem (mas no caso dele correr bem tem sido sempre uma miragem) ficará a comer pela sua própria boca, mas não está descartada a hipótese de ser alimentado por uma sonda... 55 anos...
Enquanto o meu pai se submetia a mais uma mutilação no seu corpo, eu enfrentava, à minha própria maneira, um outro desafio. Uma segunda entrevista para emprego. Que consegui, diga-se de passagem. Numa situação normal, este emprego seria o suficiente para eu andar aos pinotes por Lisboa e para telefonar a todos os meus amigos, feliz da vida. Mas naquele momento em que tudo ficou acertado, tive vontade de voar até ao hospital para ver o meu pai e dizer-lhe que havia uma boa notícia para nós.
Tive de esperar até às 10 da noite para o ver e lhe contar.
A nossa vida não tem sido particularmente fácil nos últimos dois anos. Não somos os únicos, bem sei. O mundo está repleto de pessoas que lutam diariamente por um pouco de dignidade. Mas não tem sido fácil.
E tenho dado por mim a pensar nesta coisa das compensações... será? O teu pai não melhora mas, em compensação, arranjas emprego...
Não sei o sentido que tudo isto faz, mas a vida é mesmo um lugar muito estranho
segunda-feira, fevereiro 12, 2007
Não respire... pode respirar
Hoje faço 31 anos. Ontem à noite comemorei a entrada neste dia com o meu marido, duas amigas do coração e uma bela garrafa de murganheira que tinha sobrado do casório. Os 31 e o sim! Finalmente o sim!
Hoje de manhã acordei com o meu filhote e as suas "supesas" para a mãe.
O dia prometia ser bom, muito bom. Ou, pelo menos, eu ia tentar que assim fosse.
Mas há sempre um mas. Às vezes sinto-me como naquela canção do Godinho "Não respire, pode respirar, não respire, pode respirar"...
O telefone tocou, o meu irmão... mais parabéns e coisa e tal. "O pai foi outra vez para o hospital"
domingo, fevereiro 11, 2007
sim, por favor
Bem sei que não deve ser vinculativo mas, se em 98 se respeitou a vontade dos que votaram não, espero que desta vez o nosso governo os tenha no sítio e legisle de acordo com a opinião dos que se deram ao trabalho de enfrentar a chuva e votar.
sábado, fevereiro 10, 2007
quarta-feira, fevereiro 07, 2007
Está quase
terça-feira, fevereiro 06, 2007
Confronto
Só para que uma delas me viesse impingir o raio do panfleto.
E só para lhe responder apontando para a minha barriga "Não obrigada, aqui mando eu".
terça-feira, janeiro 30, 2007
Ele há dias que parecem noites
Não me bastavam as incertezas face à saúde a à felicidade dos que me são muito queridos. Não me bastava não ter estômago e por isso ter de levar hoje (logo hoje) a injecção de vitamina B12.
Ainda tinha de terminar o dia a ver o filme do Mel Gibson!
Mas que raio de tendência a minha para procurar o que não devo. Depois do Braveheart juro que ste foi o primeiro o último filme do gajo que vi. Eu não quero violência, não quero ver corações a saltar em mãos, cabeças a rolar, mulheres a ser violadas... por mais verdadeiro que tudo aquilo seja, basta. Eu mereço alguma paz de espírito. E que ela me venha da ficção, dessa mesma ficção que se pode consumir a pedido: pago o bilhete e, durante duas horas, vou alhear-me do meu mundo. Não quero um mundo seja ainda pior que o meu.
segunda-feira, janeiro 29, 2007
Odeio
Por que raio não me consigo ver livre deles?
sexta-feira, janeiro 26, 2007
quinta-feira, janeiro 25, 2007
Por mais voltas que dê...
Pensamentos dispersos
- A vida é mesmo uma porra. Há sempre uma areia na engrenagem para nos atrapalhar. O problema é quando a areia se transforma em deserto e, antes de termos tempo para nos levantarmos de uma das quedas que a vida nos proporciona, já estamos outra vez de queixos na areia a ver tudo de uma perspectiva baixa, muito baixa.
- Por que motivo sofrem aqueles que amamos? A cada dia sou surpreendida com um novo drama ou o avivar de um velho... e como não vivo sem os que me são queridos, não consigo deixar de pensar neles e na tremenda injustiça de tanto sofrimento.
quarta-feira, janeiro 24, 2007
morrer em vida
O meu irmão, que é enfermeiro e lida constantemente com esta evidência, dizia-me há uns anos atrás e em tom algo jocoso, que a morte era a primeira doença sexualmente transmissível...
Nos últimos dois anos tenho convivido muito com esta evidência da vida. Talvez até em doses excessivas para alguém que tem 30 anos. O cheiro da morte, a sua ameça, e, em outros casos, a sua evidência, têm-se feito sentir com grande evidência aqui para as minhas bandas.
Na segunda-feira, em conversa com uma amiga, ela dizia-me, referindo-se à doença do seu pai, que a coisa que mais impressão lhe fez, durante uma fase mais aguda, foi a sensação de que ele estava a desaparecer em vida. E o que ela me disse faz todo o sentido porque é exactamente o que sinto em relação ao meu pai. Ele está vivo, sim... mas pouco vivo. A sua vida é tão pequenina, é tão pouca vida. Sinto-o a desaparecer como areia fina por entre os meus dedos e tenho a ilusão de que está vivo porque o vejo todos os dias. Só que quando penso a sério no assunto percebo que ele já não é um vivo completo, não se sente verdadeiramente neste mundo. É como se ele estivesse em transição entre dois mundos, o dos vivos e o dos mortos, e eu, que não sei de que lado ele vai ficar, tento puxá-lo, com todas as minhas forças, para o lado de cá.
terça-feira, janeiro 23, 2007
Será que é desta?
Vida interrompida
Aqui estou eu em casa, supostamente sem nada que me ocupe mas, nas verdade, atafulhada de afazeres: o pai para levar ao hospital, a mudança do quarto do filho, a arrumação do escritório, mais o filho doente que é preciso levar ao médico e que é preciso cuidar em casa. E a casa, não podemos esquecer a casa, a ementa do almoço e a do jantar também. O telefonema aquela amiga, a visita à outra.
E, tudo muito espremidinho, continua a falatar o tempo para mim. Ainda não li (O Ruben Fonseca vai a meio), o tricot anda a meio gás, e a escrita, bem essa nem se fala.
Falta-me tempo, penso. Mas como se tenho todo o tempo do mundo?
quinta-feira, janeiro 11, 2007
Porque ainda não te escrevi

Primeiro eu. Lembro-me claramente do teu olhar enquanto me dizias que já tinhas mais de cinquenta anos e que era uma injustiça ser eu, com 28, a ficar doente. "Como é que Deus nos fez isto?", perguntaste. Eu nã tinha resposta para te dar. Porque já tinha virado as costas à religião há alguns anos e porque estava ainda, eu própria, à procura de uma orientação, algo que me fizesse ir na direcção certa; procurar resolver o problema, pensava, sem revoltas e, sobretudo, sem entrega.
Tu lá ficaste com o teu coração de mãe dilacerado a pensar o que fazer para me ajudares...
Depois os acontecimentos foram-se sucedendo muito rapidamente, sem tempo para grandes conversas ou grandes reflexões: exames, mais exames, consultas médicas, diagnósticos, prognósticos, operação, quimioterapia, radioterapia, mais internamentos. E tu sempre ali, firme como uma rocha. Todos os dias me ias visitar. Tu e o pai, claro. tomavas conta do meu filho, tomavas conta do meu marido... tomavas conta de mim.
No teu olhar a tristeza e a revolta. Mas para mim tinhas sempre uma palavra de conforto e de luta, "não podes desistir". E eu lutei, porque me estava na alma mas, sobretudo, porque assim me tinhas educado, a não baixar os braços perante a adversidade. E esta nossa luta foi bem dolorosa. Digo nossa porque às minhas dores físicas junto as da tua alma. Tu sofrias por mim.
Depois melhorei e pensei que poderíamos ter alguma paz, que o nosso pequeno clã poderia respirar de alívio.
Mas tu já estavas a empreender uma outra luta: a do pai. Poucos meses depois foi a vez dele. Cancro assim tão logo a seguir ao meu? aí sim, sentiste-te injustiçada. O teu Deus ainda não te tinha dado tempo de te recuperares de uma dor e já estavas tu a ser arrastada, novamente, para os corredores dos hospitais, para aquele ambiente mórbido de batas brancas, meias conversas...
Mas tu, não sei com que forças, lá te mantiveste novamente firme, a amparar o pai nos teu braços, com tanta ternura mãe, tanto amor. Que dedicação.
E o caso dele, que aparentemente era bem mais fácl que o meu, foi-se complicando e complicando até chegarmos aqui a este beco. E estamos assustados. Tu, tu estás exausta, esgotada. Nem sequer tens tempo para as tuas muitas dores. Suspendeste a fisioterapia... "Mas como é que eu posso deixar o teu pai sozinho em casa. Logo agora?".
És maravilhosa mãe. és uma guerreira, uma mulher inteira, completa, defensora da sua família.
Um dia quero ser como tu.
Obrigada
segunda-feira, janeiro 08, 2007
Vazio
quinta-feira, janeiro 04, 2007
...
quarta-feira, janeiro 03, 2007
Ano Novo...
Foram dez dias de intensa vida social passados entre canjas, sandes de galinha, carne em vinho e alhos, bolo mel, broas de mel, carne em vinho e alhos e mais uma canjinha para a viagem.
Eu bem sei que é só uma vez de dois em dois anos mas, acreditem, é o suficiente.
Não fosse o caso de não ter estômago e acho que estaria entupida até à garganta.
Agora que o ano velho se foi, e com ele as iguarias acima descritas, estou de volta ao mundo real, não o mundo que deixei antes de partir mas, mesmo assim, um mundo real. Um mundo com patrões sacanas e de memória curta....
Parece que vou entrar neste ano à procura de emprego.
E que descansem os senhores o Governo porque, mesmo sem estar a par das novas alterações à lei do subsídio de desemprego, eu vou estar activamente à procura de trabalho
quinta-feira, dezembro 21, 2006
quarta-feira, dezembro 20, 2006
A minha alma está parva
terça-feira, dezembro 19, 2006
Vamos lá a rir um bocadinho

A vida vai correndo.
Há coisas que não se podem mudar, independentemente do nosso estado de espírito. O trabalho é uma delas.
Para aliviar as dores (do corpo e do espírito) meti-me a adaptar este livro. Precisava de algo divertido, leve, para me ausentar das tristezas.
E que livro!
Divertido, muito divertido.
Começo aqui a publicar algumas das preciosidades nele contidas.
Obrigada, Claudia Tajes
segunda-feira, dezembro 18, 2006
Isto sim, deixa-me de bem com a vida

For once in my life. Bennett e Stevie Wonder.
For once in my life I have someone who needs me
Someone
I've needed so long
For once unafraid
I can go where life leads me
And somehow I know I'll be strong
For once I can touch
What my heart used to dream of
Long before I knew
Someone warm like you Could make my dreams come true
For once in my life
I won't let sorrow hurt me
Not like it's hurt me before,
oh For once I've got someone I know won't desert me
'Cause I'm not alone anymore
For once I can say
This is mine, you can't take it
As long as I've got love I know I can make it
For once in my life I've got someone who needs me
Bela prenda de Natal. Ainda não tenho.
E ainda falta uma semana para o Natal...
Só que este fim-de-semana foi, no mínimo, intenso e se assim continuar garanto que há fortes probabilidades de passar a ser uma daquelas mulheres a que a palavra Natal provoca uma urticária generalizada.
Sexta-feira:
-sair do trabalho a correr para ir para casa tratar do filho e do jantar para dois familiares convidados
Sábado
- almoço em casa de amigos que terminou por volta das 17h
-corrida até casa para apanhar as prendas das amigas com quem ia estar num lanche de Natal. Lá trocámos prendas e demos o gato à tininha.
- corrida para casa para o jantar com mais dois amigos. Antes disso, rápida passagem pelo supermercado para comprar iguarias em falta.
Domingo:
- levar o filho ao parque porque o fim-de-semana não pode ser só para os adultos
- almoço com amigos da faculdade. Entre o frango assado e as batatas fritas, lá tivemos tempo para pôr alguma da conversa em dia (Su gostei de te ver embora tivesse um diabo de dois anos e meio entre nós), trocar umas prenditas e dar uns abraços.
- lar, doce lar, para meter o miúdo na cama. Isto sem sesta fica ainda pior.
- fim da tarde, voltamos para o carro. "Henrique, vamos ver o presépio da mãe da tia Catarina".
- Ás oito da noite lá fizemos a tão prometida visita à Avó Emília. Visita curtinha, e que deveria ter sido a maior porque, no fundo, são eles os que mais precisam de mimo e atenção.
Mas o Natal tem destas coisas, põe-nos loucos com a nossa própria agenda social.
E, por vezes, trocamos as prioridades.
sexta-feira, dezembro 15, 2006
Olá Carolina
Parabéns Carolina! Parabéns papás.
quinta-feira, dezembro 14, 2006
Excursionar
terça-feira, dezembro 12, 2006
Chegou o Natal

Ontem fui à Baixa mostrar as iluminações de Natal ao meu filho. Ele, que é louco pelo Natal, pelas luzes, pelas cores, pelo pinheiro e pelo Pai Natal (desde que mantido a uma distância mínima de segurança, claro está).
Ontem fui à Baixa, subi e desci a rua do Carmo, circundei o sino gigante do Rossio, desci a rua Augusta, tirei a fotografia da praxe em frente à "maior árvore de Natal da Europa", subi a rua Nova do Almada e regressei a casa.
Ontem estive de mãos dadas com os meus dois amores (por imposição do mais pequeno dele, claro) e com uma amiga muito querida. Comemos castanhas, demos as mãos e rodopiámos, os quatro, qual de nós a criança mais pequena.
Ontem, inundados pela inocência de um miúdo de dois anos, estivémos ali, próximos, livres, nem que por breves segundos, alheados das nossas dores. E, pela primeira vez este ano, fez-se Natal no meu coração.
segunda-feira, dezembro 11, 2006
Conversa alheia
Hoje fui ao Chiado, e como eu gosto do Chiado.
De passear pelos alfarrabistas, de ver as pessoas nas esplanadas, de sentir a luz da cidade.
Hoje fui ao Chiado almoçar e enfrentar a loucura das prendas de Natal em falta.
Sentada numa pequena mesa a tentar mastigar um hamburguer sou surpreendida pelas verdades insondáveis da mesa ao lado.
Há pessoas que ainda se preocupam com a vida alheia, que vivem a vida dos famosos como se da sua se tratasse... ri-me, ri-me muito, mas depois fui invadida por uma certa tristeza... viver desta forma a vida dos outros faz-nos pequenos, sem mundo...
Será?
quinta-feira, dezembro 07, 2006
Back to Basics

quarta-feira, dezembro 06, 2006
esta é difícil...
- De quem, Henrique?
- Da Floibela?
- Quem é essa?
- É aquela menina bonita que canta.
terça-feira, dezembro 05, 2006
Hoje queria estar aqui
segunda-feira, dezembro 04, 2006
E no meio de tantas dores surgem as minhas
Mãe: Desculpa estar a ligar a esta hora mas preciso de ajuda. Tu e o teu irmão têm de ajudar o pai a sair desta apatia...
Filha: ... Queres que fale com ele?
Mãe: Quero tê-lo de volta. Não aguento tanta tristeza
Não sei
Por não saber a que distância está a minha? Por ser obrigada a pensar nisso todos os dias?
Por querer receber nos meus braços as que me são especialmente queridas e muito sofrem?
Por que não consigo seguir em frente, eu que nem era íntima de nenhuma delas, que nem os conhecia a eles?
Porquê?
Por que motivos os meus olhos se enchem de água de cada vez que penso nelas, no que já não vão viver...
sábado, dezembro 02, 2006
carta Aberta à "jornalista" Catarina Cristao
Vidas de infortúnio
Assim se chama o texto assinado por Catarina Cristão na última ediçao do semanário Sol. A notícia promete ser importante, já que tem chamada à primeira página e anuncia contar a história dos quatro portugueses mortos no Chile.
A mim, que sou uma pessoa crente na capacidade dos jornalistas, pareceu-me que iria ver no interior do jornal um perfil dos quatro amigos (coisa que me parece ainda não ter acontecido, pelo menos não na mesma publicação).
Mas não, nada disso, o que Catarina Cristão nos traz é, longe de ser uma bela peça de prosa, ou mesmo um belo texto jornalístico, um pedaço de lixo. Uma vergonha.
Nao é um texto ofensivo para as famílias, nao tenta apontar pormenores sórdidos das vidas destes quatro amigos. Mas, a meu ver, é ainda pior, do ponto de vista jornlístico. E vejamos se me consigo explicar, porque a minha indignação é tao grande que tenho receio que me tolha o raciocínio.
Para começar, cara Catarina, gostava de saber qual é o seu ponto de vista nesta notícia. Onde está o seu lead? qual é o seu objectivo? Dar-nos informações concretas sobre a morte deles não é, porque não nos dá novidades: pode ter sido o mau tempo. Sim, pode. Mas também pode não ter sido. Não é dizer-nos quando serão os funerais ou quando os corpos poderão chegar a Portugal (pode ser hoje ou amanha, diz você referindo-se a sexta ou sábado). Ora eu, assim como grande parte dos amigos da Zé, da Cláudia, do César e do André sabemos que é mentira e sabemos quando é que eles chegam. (Informou-se mal...)
Então o que a move, se não o sentido de informar o leitor?
Só encontro uma resposta: o sensacionalismo usando o seu mais vil disfarce: o de um suposto trabalho sério e algo poético sobre a morte de "colegas" de profissão.
O que lhe importa não é a morte destes quatro amigos, pessoas que valem o mesmo, em termos de vidas humanas. Por mais que gostasse da Cláudia, sei que a morte dele é tao estúpida como a da Zé, a do César ou a do André. É igualmente brutal, é igualmente inexplicável.
Isto para mim, porque para si a coisa é diferente. Para a sua brilhante mente (de resto tão brilhante quanto a do editor que permitiu a publicação do texto em questão), o quer importa é o grau de desgraça que cada uma destas pesoas coleccionava antes de morrer.
Vejamos: a Zé tem honras de abertura e destaque não por ser a pessoa extraordinária que decerto era, mas porque já não tinha pai nem irmão, deixando a sua mãe sozinha neste mundo.
Não se atrapalhem no entanto, diz-nos a Catarina Cristão, porque, e passo a citar, "a mãe é uma pessoa muito espiritual e terá recebido a notícia com alguma serenidade." A sério? Acha mesmo normal que isso tenha acontecido Catarina? ainda bem que nos deu esta informação.
A segunda pessoa em destaque é o César. e porquê? Porque na contabilidade das mortes estava à frente dos outros. Já tinha perdido o pai e a mãe.
O César é, para si, mais importante que a Cláudia que, nesta contabilidade mórbida, só podia reclamar a morte do pai. Ah, isto se "uma irma gravemente doente" não for suficiente...
O André, o mais novo dos quatro, tem direito a três linhas nesta pela peça. Já adivinharam, por certo. Tem pais e irmaos vivos. Que desperdício...
É triste, revoltante, este tipo de jornalismo.
Eu já não tenho carteira profissional e, confesso, fiquei especialmente aliviada por não a ter. Porque, no momento em que li esta notícia, senti uma enorme vergonha pelas pessoas que me são muito queridas e que são jornalistas. Jornalistas à séria, não como você, Catarina.
P.S- No destaque do seu texto aparece "Maria estava com medo..". quem é Maria? Se não sabe, para os amigos ela era Zé. Quer ser poeta, escreva um livro. Quer fazer bonito a escrever? Então leia o texto da Fernanda Câncio na edição de 26 de Novembro do Diário de Notícias e aprenda como se pode fazer bonito, escrevendo bem.
quarta-feira, novembro 29, 2006
corpo em movimento

Ontem fui ao teatro.
Que saudades.
Faz agora dois anos que saí da Capital, que me deixei de jornaladas, de teatros e de espectáculos de dança.
Não tenho saudades de redacções cheias de fumo, de pessoas que começam a trabalhar às 4 da tarde, de notícias de agenda, de jornalismo de rabo sentado na cadeira.
Sinto falta... sinto falta de falar com pessoas interessantes, de encenadores que expliquem o seu ponto de vista, de coreógrafos capazes de me iluminar, de intérpretes cheios de singularidades.
Ontem vi o Miguel Borges, e já não o via há algum tempo. E que saudades!
Ali, no escuro de um barracão na Casa dos Dias d'Água, vasculhei a mala, como nos velhos tempos, à procura de papel e caneta. E lá estavam.
Escrevi o seguinte:
Expressividade máxima.
Fisicalidade quase animal.
O Miguel Borges é assim. Um corpo em movimento. Há muito que não o via no palco. quando terá sido a última vez? Um Beckett? Um Spiro Scimone? Não me recordo ao certo. Mas é muito reconfortante vê-lo para além dos anúncios da cerveja.
Gostei de o ver. O seu corpo em movimento; a sua totalidade enquanto actor que passa, em grande parte, pela fisicalidade que imprime aos seus personagens.
Esta noite, enquanto o via, pensei na vida, na sua celebração, na alegria de estar e de poder partilhar.
Acordei
Abri os olhos
A luz era forte
tão forte que me cegava
Voltei a fechá-los
Esperei que tudo fizesse mais sentido
E quando abri novamente os olhos vi com clareza
Lá estavas
a rir
a rir muito
a rir de nós
o teu riso não permitia tristezas
não permitia choro
nem infelicidade
Porque choras tu?
Por mim?
Não o faças.
Eu aqui estarei sempre aí
A minha ausência só se fará sentir se o esquecimento o permitir
Lembrem-me como sempre fui
Recordem-me na memória de cada um de vocês e eu serei ainda mais do que fui
porque serei o somatório de todas as memórias
Acordei
O dia não era tão azul como desejava
A vida não era tão plena como eu queria
Mas, estranhamente, a tua ausência não doía tanto
Porque em todas as bocas
em todas as palavras dos que te conheceram e amaram
te conheci melhor
mais completa
Acredito que sejas assim
(P.S. Para a Cláudia Magalhães, para a Susana C P)








