sexta-feira, junho 22, 2007

A dignidade

O cancro assusta-me, não o posso negar. Pensar que posso voltar a ficar doente a qualquer momento, assusta-me. Como já o disse várias vezes, tento (e acho que consigo) não viver presa nesse medo, não o deixo paralisar-me. Mas ele ronda-me, umas vezes com mais intensidade, outras com menos, mas ronda-me.
Ter cancro é horrível para além do que se possa imaginar. Porque estar doente nunca é fácil. Nem mesmo quando se tem uma gripe. E o cancro, apesar da evolução da medicina, ainda é uma doença muito mortal. Quando alguém nos diz que temos cancro conseguimos cheirar o odor da morte. Eu senti-o claramente. E o cancro é ainda mais horrível porque as armas que existem para o combater nos definham ao ponto de, por vezes, serem, elas próprias, causadoras de morte. Eu não posso falar da morte com conhecimento de causa, porque continuo aqui. Mas sei bem o que a quimioterapia e a radioterapia nos fazem. Sei bem até onde desci, na minha dignidade, sei que dores passei, o desespero que vivi durante os tratamentos e nos meses que se seguiram.
Mas fiz tudo o que me mandaram e voltaria a fazê-lo de novo, se o tempo voltasse atrás. Porque a mim nunca me mentiram, nunca me deram falsas esperanças, nunca me pintaram cenários cor-de-rosa, nunca me deram hipóteses para além das viáveis.
Os médics não são deuses, não são donos da poção da vida, não nos podem devolver o que perdemos com a doença. Mas os médicos, e muitos parecem esquecer isso, são pessoas e, como tal, têm o direito e a obrigação de nos tratar com dignidade, de nos permitir essa dignidade e, sobretudo, de deixarem que caia sobre nós o poder de decidir o que fazer quando não há nada mais a fazer.
Eu sujeitei-me a seis ciclos de quimioterapia e a 25 tratamentos de radioterapia porque adoro a minha família. porque tinha um bebé de oito meses à minha espera, porque tinha um companheiro fantástico do meu lado. Mas também porque sempre tive a noção exacta da minha doença, da sua extensão, das suas implicações, dos passos que podia tomar, dos riscos que estava a correr. E isto fez toda a diferença. Os meus médicos nunca me mentiram. Um houve, até, que foi excessivamente sincero o que, na altura, me deixou de rastos e me fez odiá-lo por várias semanas. Mas, apesar de saber que o cenário poderia complicar-se a qualquer momento e muito rapidamente, os meus médicos sempre me disseram que o objectivo de tudo era a cura.
Essa honestidade deu-me a força para enfrentar as dificuldades com dignidade.
Se na altura me tivessem dito que o tumor já estava muito metastisado e que dificilmente haveria cura, talvez eu tivesse tomado decisões diferentes das que tomei. Talvez não. Mas sei que seria eu a decidir, a colocar tudo na balança e a decidir o que fazer com o tempo que me restasse. É assim que quero fazer se um dia a doença voltar: decidir o que fazer.
Não consigo perceber como há médicos que mentem, omitem grosseiramente informação aos seus pacientes, os deixam acreditar numa coisa que não é verdade e, sobretudo, os submetem a tratamentos, a sofrimentos desumanos sem qualquer tipo de valor acrescentado, fazendo apenas com que o pouco tempo que lhes resta seja passado em sofrimento e em degradação. Morrer aos poucos não deve ser agradável, viver com essa faca sobre a cabeça, de que o fim está muito muito próximo não é pêra doce, mas viver tudo isso assistindo a uma degradação progressiva do nosso corpo causada pelos tratamentos que nada fazem para além de nos deixar mais moribudos, parece-me um crime.
Porque a nós, doentes oncológicos, a dignidade é, por vezes, a única coisa que no resta.

quarta-feira, junho 20, 2007

Porra

Que puta de vida! Não há mais ninguém que me é querido para ficar gravemente doente?

segunda-feira, junho 11, 2007

Datas

Amanhã o meu filho faz três anos.
Amanhã faz um ano que me casei.
Hoje telefonei à minha mãe para voltar a insistir nesta coisa de nos vermos, de tentarmos passar juntas algum tempo de qualidade.
Ela estava triste, de voz rouca. "Hoje estou em baixo", disse-me. "Faz quatro meses que o pai está internado". Quatro meses, pensei. Quatro meses, penso agora. Se é verdade que houve um momento em que pensei que tudo ia acabar, não é menos verdade que há quatro meses atrás eu pensei que o meu pai iria fazer uma operação muito complicada e mutiladora, mas que quando passasse o pós-operatório, iria para casa, para junto dos seus, sem mais complicações do que aquelas que já sabíamos. O meu pai ia tirar a faringe, iria deixar de falar para sempre mas, com um bocadinho de sorte, continuaria a comer pela sua boca.
Hoje, quatro meses depois, o meu pai está vivo, o que, logo à partida, contraria todas as perspectivas e finta todas as contabilidades, mas perdeu muito mais do que a voz.
Enquanto falava com a minha mãe pensava nas datas e de como simplesmente deveríamos apagar algumas da nossa vida. ´
Há datas que não se deviam lembrar, deveriam permanecer no esquecimento.
O 11 de Fevereiro é uma delas. e todos os 11 que se seguem no calendário também.

segunda-feira, maio 28, 2007

Felicidade


Foi um dia memorável!
A festa correu bem, a noiva estava bonita, o noivo emocionou-se. Mas do que eu mais gostei foi disto. De perceber que já não temos 20 anos mas que continua tão bom como nessa altura.
Há partes da nossa vida que simplesmente não podemos perder. Devemos preservar como se de tesouros se tratassem.

terça-feira, maio 22, 2007

amor fraterno

Tenho pensado no amor.
No amor fraterno que nos liga aos nossos amigos, que nos faz sorrir quando recordamos momentos partilhados, que nos faz ter vintade de partilhar mais.
No sábado casou o Rui. O Rui, para quem não sabe, era o mais improvável de se casar do nosso pequeno grupo de faculdade. Muitas conversas tivemos na FSCH sobre gajas, namoros, amor, impossibilidade do próprio. O Rui, muito optimista em muitas coisas, no que ao amor dizia respeito era um pessimista convicto.
E o sábado passado lá esteve, para lhe provar que não há certezas absolutas~, não há verdades universais... mas a vida com amor tem outro sentido. E percebeu-se, naquele belo momento de partilha, que a vida dele está muito mais preenchida.

segunda-feira, maio 14, 2007

Agora já posso arrumar a adolescência na prateleira




Depois da Madonna, faltava-me este concerto para arrumar no seu devido lugar a minha adolescência, as paixões impossíveis do secundário, as matinés do Crazy Nights.

E que bela despedida.

Obrigada Lena!

sexta-feira, maio 11, 2007

O MEU PRIMEIRO CONTRIBUTO PARA A VOTAÇÃO!

Esta é a versão não censurada!!!!!

Não resisti, desculpem

Nestas minhas ananças nocturnas pelo YouTube não resisti a este Malandro deste soquete! Delicioso

George Michael Sexual Healing

Este senhor é mesmo grande!!!!

MEU DEUS

Abrimos aqui a secção duetos pirosos que eu adoro!

quinta-feira, maio 10, 2007

QUANDO A ESMOLA É GRANDE O CEGO TEM MESMO DE DESCONFIAR

É sempre assim. Invariavelmente. Quando as coisas correm muito bem, quando o dia nos mostra uma nesguita de felicidade, tem de haver sempre uma pedra no sapato, uma merdice qualquer que obrigue a que o dia acabe mal.
Hoje foi um bom dia. A sério que foi. Entrei oficialmente em estágio para o concerto de sábado. No iPod que ofereci ao meu marido e que me acompanha quase todos os dias, já só passa música desse grande ícone da música pop dos loucos anos 80, George Michael. Cheguei bem-disposta ao trabalho, consegui fazer tudo o que tinha para fazer (e não era pouco), fui ao ginásio à hora do almoço, fui visitar o meu pai e adorei vê-lo. Jogámos às cartas, ele estava alegre. Pela primeira vez em muitos meses vi um sorriso sincero no seu olhar. Saí do hospital com o coração cheio de alegria e esperança. A mim já não me importa muito se estes momentos de esperança e de alegria não passam disso, de momentos. Efémeros... contenta-me a sua autenticidade. Telefonei à minha mãe a contar-lhe a minha felicidade. Telefonei à minha sogra a dizer exactamente o mesmo: que há dias felizes e que devemos vivê-los com toda a intensidade que nos for possível. E estava eu nisto, nesta alegria partilhada, já à porta de casa a estacionar o carro quando levo uma daquelas panadas que me deixou a porta metida para dentro...
E o gajo ainda teve a coragem de dizer que eu estava a sair e não a estacionar. Aquela hora? Só ao estalo. O senhor Mané (assim se chama o senhor que me deu uma panada) estava tão convencido que eu estava a sair de um estacionamento que não me deixou outra via que não fosse chamar a polícia. E se pode parecer que a coisa acaba por aqui, desenganem-se.
A minha rua fica a cerca de 200m de uma esquadra. Mesmo assim tive de esperar 40 minutos para que a polícia aparecesse. 40 minutos de trânsito cortado numa rua de sentido único, com apenas uma faixa de rodagem e onde passam autocarros... Não foi bonito.
No meio de toda aquela confusão não conseguia encontrar a minha carta de condução. Fui a casa (mesmo ali do outro lado da rua) à sua procura. Regressada à companhia dos senhores agentes da autoridade lá lhes expliquei que não encontrava a bendita da carta. "Teremos de passar uma notificação para se apresentar na esuqdra, num prazo de oito dias, com a carta." "Muito bem", respondi. Trinta euros custa a notificação. Decidi voltar a olhar para a minha carteira e.... lá estava ela, no seu lugar de sempre. A minha carta. "Senho agente, está aqui, no seu lugar de sempre", disse a sorrir". Mas o sorriso durou pouco. Como já tinha começado a escrever a notificação e esta é numerada fui obrigada a pagar os 30 euros...
Amanhã espera-me o de sempre quando temos de falar com seguradoras: CHATICE na certa.
E tudo isto aconteceu já depois das seis, depois do fecho da hora de expediente. No fim de um dia que tinha sido tão bom.

Os sinais estava lá


Só eu, recém-entrada na adolescência é que não vi que George wasn't a straight boy....

E fui feliz nessa mentira.

VOTAÇÃO

Hoje, enquanto vinha para o trabalho na minha latinha branca a ouvir George Michael, senti-me feliz. Naqueles minutos de Lisboa à Cruz Quebrada senti-me livre, despreocupada, sorridente, bem-disposta. Voltei a ser adolescente, mesmo que por apenas 20 minutos.
E, nesses momentos de puro gozo, fui assolada pela seguinte questão: QUAL É A MELHOR MÚSICA DO JORGE MIGUEL? DIGAM-ME LÁ!
Eu ainda estou em período de reflexão.

quarta-feira, maio 09, 2007

DEIXA-ME SER...

O ombro do teu cão....

Sei que vem tarde, mas tenho andado muito ocupada. Tão ocupada que não tive tempo para comentar esta tradução livre que o João Bonifácio fez da música do Brel.
Lindo. Melhor só mesmo a resposta do Camané. E tudo isto foi publicado num jornal de referência.

sexta-feira, maio 04, 2007

quarta-feira, maio 02, 2007

Dia 12



Vai ser grande a Romaria. Até Coimbra. Vou voltar a ter 12 anos e a cantarolar feita doida.


E não vou sozinha que isto da parolice é ainda melhor quando estamos bem acompanhados

A chuva



Ontem, depois de uma manhã de muito buliço, regada com várias birras, uma palmada, uma dor de cabeça e um nó no estômago por ter dado a palmada, lá fomos - mãe e filho - até à casa dos avós.

Tanta chuva, que dia tão triste. Que forma tão triste do tempo celebrar mais um passeio até casa. Ontem voltámos a estar juntos na nossa casa.

E houve uma sensação de normalidade, de estranha normalidade. Eu e a mãe numa pequena discussão, o Henrique nas suas brincadeiras, tu no teu sofá, de olhos postos em nós e na televisão.

Ontem também não fui ao 1º de Maio, se bem que esse para mim nunca foi motivo de grandes festejos... nunca me bateu como o 25 de Abril, tenho de confessá-lo. Mais uma vez tu foste a comemoração.

Só fiquei triste com o tempo... não merecíamos aquela chuva, pai. Pois não?

sexta-feira, abril 27, 2007

DESEJO


Gostava de chegar aos 45 anos e poder dizer o que diz esta mulher.
Nestes dias sito-me melhor comigo. Mais acompanhada, também.

25 de Abril

Esta quarta-feira, pela primeira vez em muitos anos, não desci a Avenida. eu, que nem era nascida no 25 de Abril, sempre gostei do ritual de descer a Avenida. De me encontrar com a Margarida, com o Bruno, com a Lena... às vezes o Ricardo. Não esquecer a data, mesmo que dela não tenhamos memória directa. Assim penso. Foi essa vontade de não esquecimento que me levou, por exemplo, a descer a Avenida há dois anos, depois da primeira semana de quimioterapia. A teimosia de celebrar. Quando olho para essas fotos até sinto um arrepio. Eu era uma sombra do que sou agora, sendo que o que sou agora também é, de certa forma, uma sombra do que já fui. Mas isto para dizer que nem a doença me afastou da Avenida.
Esta quarta-feira, no entanto, não a desci. e nem uma vez me ficou um sentimento de vazio ou de dever não cumprido. Esta quarta-feira voltaste a sair do hospital e contigo lá fomos nós, em romaria. A casa de um primo. Devias querer sentir o ar fresco na cara, ver os pinheiros a baloiçar. Foi um dia em cheio. Muito cansativo. Para ti e para todos nós, principalmente para o mano, que tem de te acompanhar todos os minutos: medicar, aspirar, alimentar.... se não é fácil para nós, imagino para ele...
Mas lá fomos, com as crianças atrás, com o farnel para o almoço, com um verdadeiro dispositivo para te acompanhar... e eu, pela primeira vez, não senti falta do meu passeio pela Avenida.
Tu estavas muito dividido, entre a alegria de estar fora do hospital e a insatisfação por essa saída ser tão breve. Querias ficar em casa até domingo. Tudo o que vias, tudo o que sentias vi nos teus olhos que te dava alegria. Mas também senti que te deixava triste, porque, no fundo, estavas a contactar com uma normalidade da qual não podes desfrutar. Como se te estivessemos a mostrar tudo o que a vida pode ter de bom e, de seguida, te dissessemos que, infelizmente, não o podes viver.
No final do dia achei-te particularmente cansado. Para te dizer a verdade, todos nós estávamos esgotados. Estamos felizes por te ver e por te ter, mas estamos sempre alerta, e isso cansa, consome.
Ao entrares na clínica lá estava a lágrima pronta a sair... o teu semblante voltou a fechar-se. Mas eu senti-te forte e queria dizer-te que tu foste o meu melhor 25 de Abril.

terça-feira, abril 24, 2007

O encontro do homem com o seu espaço e com a sua força

Foi a primeira vez, em mais de dois meses, que te vi sem pijama, com a tua roupa, meias, sapatos...; foi a primeira vez que saíste do hospital, viste o sol, sentiste a brisa na cara.
Estava em casa à tua espera, com a mãe. As duas numa grande ansiedade. Ela a olhar para o relógio a cada dois minutos, eu a olhar pela janela na esperança de ver o carro. Tudo a postos, o teu sofá, os chinelos, o telecomando....
O dia passou rápido, um pouco atribulado, até. Não tens a resistência de outros tempos; os gritos dos miúdos acabaram por te incomodar. Mas deu para ver e para sentir o quanto gostaste daquelas horas no teu espaço, na tua casa.
O mais espectacular da tua visita a casa, no entanto, presenciei ontem quando te fui visitar ao hospital. Pela primeira vez vi-te a fazer exercícios. Primeiro com a boca, depois com as pernas. E falaste-me sem que tivesse de ser eu a dizê-lo. Disseste-me claramente que querias fazer-te entender. É necessário um esforço de ambas as partes: teu para soletrares melhor as palavras e nosso para te podermos ler os lábios.
Ontem, quando cheguei a casaia leve, mais feliz, por ver que estavas animado.
Ontem pensei que não importa o tempo, nem se esta "recuperação" o é mesmo ou se é apenas uma ilusão. O importante é que este tempo te está a deixar mais feliz e mais próximo de nós e isso é que é o fundamental.
Mesmo que hoje as notícias sejam más, mesmo que voltemos a andar para trás. O dia de ontem ninguém nos tira. Muito menos o de domingo.

quinta-feira, abril 19, 2007

Momento de ternura linguística

Mae: Filho o pai está cansado por que foi à discoteca.
Filho: Coteca.

ansiedade em volta do tempo

Para quem não sente o tempo passar, porque está fechado num quarto onde todos os minutos são iguais, e porque vive uma vida da qual foram retirados quase todos os referenciais temporais, estavas muito ansioso com o tempo.
Primeiro o pedido do relógio. Chegou no dia do teu aniversário, com direito a papel de embrulho e tudo.
Agora, que já tens relógio, insistes em perguntar que dia é. Hoje enquanto te beijava percebi essa tua ansiedade. Queres tanto visitar a tua casa, estar sentado no teu sofá... nem que seja por uma mão cheia de horas, que não vês maneira do tempo passar. Falta pouco, pai. Deve ser já no domingo.

quarta-feira, abril 18, 2007

Vazio

Sento-me à frente do computador com vontade de escrever, de tentar passar para este espaço parte da confusão que ocupa a minha cabeça, mas acabo quase sempre por embater numa série de dúvidas. Como dizer o que sinto sem estar sempre a escrever a mesma coisa? Eu tenho vontade de escrever, é um acto libertador, deixa-me aliviada. Mas, quando começo a encadear pensamentos, fico sempre com a sensação de que, invariavelmente, estou sempre a escrever a mesma coisa.
E depois penso, mas se a minha vida tem, nos últimos tempos, sido sempre este misto de dor e angústia como posso passar ao lado dela? Sem a descrever, sem a escrever?
O meu pai está internado há mais de dois meses. Foi internado na véspera do meu aniversário. E, desde esse dia, nunca mais voltou a respirar o ar da rua. Este ar de Primavera que nos enche os pulmões e nos faz pensar na vida.
Ontem, depois de conversar com a minha mãe, percebi que ela está quase a atingir o limite das suas forças. Sente-se perdida, sem saber o que esperar da vida. Percebi com clareza que o que mais lhe custa é a mentira. É não poder olhá-lo nos olhos e responder com franqueza às suas questões. O meu pai acalenta a ilusão de sair do hospital, em definitivo. O meu pai ainda crê que pode ficar “bem”, dentro de uma série de limitações. E a minha mãe, sua companheira de mais de 30 anos, não lhe pode dizer a verdade. Sendo que nem ela própria tem uma noção rigorosa do que é a verdade dele. Estamos neste limbo, entre médicos, entre opiniões e entre aquilo em que queremos acreditar. É realmente difícil entender que ele está a morrer. Olhando para ele não tenho essa noção. Ele está fisicamente melhor, não tem, nem de longe nem de perto, o aspecto de um moribundo. Mas está a morrer. Essa é a verdade mais dura e crua de aceitar.
O meu pai tem um buraco de 20 cm no pescoço. Um buraco a céu aberto, que nunca fechará por si, que implica uma cirurgia muito grande só para o fechar. O problema é que fechar esse buraco de pouco adianta sem tentar reparar todo o mal que está lá dentro: uma série de órgãos queimados e destruídos pela radioterapia. Fechar aquela cratera (e isto se ele resistir à operação) poderá levá-lo para casa, mas por pouco tempo. Só que com tantas lesões internas e com um risco de hemorragia tão grande será um milagre encontrar um médico que o queira operar.
E perante isto o que nos resta?
Eu sei que é bom tê-lo e que não se deve desistir, e mais isto, e mais aquilo. Mas a minha cabeça não se rege por estas regras. No que penso na maior parte do tempo é nisto:
O meu pai nunca mais voltará a falar; o meu pai nunca mais voltará a cantar, como tanto gostava; o meu pai nunca mais sentirá o paladar do que quer que seja; o meu pai nunca mais poderá beber um café, sentir o sabor de um morango, beber um bom copo de vinho… o meu pai não sabe distinguir a hora do almoço da hora do jantar, porque esses rituais já não existem; o meu pai perdeu o sabor e com ele o olfacto.
Triste, não é?
E agora, que acabo de escrever, sinto-me numa circunferência. Não disse nada de novo, não sinto nada de novo. Nada mudou na minha vida. A não ser, talvez (e isto também é em si triste), uma certa normalidade nesta tristeza, neste acostumar de tristezas feitas rotinas.

terça-feira, abril 17, 2007

Preparativos

Este fim-de-semana deves ir a casa. Não para casa; vais apenas de visita. Que raio de vida esta que um homem vai de visita à sua casa, ao seu sofá... à sua vida.
A mãe manteve tudo como no dia 11 de Fevereiro, o último dia que estiveste em casa. Tudo imaculadamente limpo, como só ela é capaz. Mas nada do que é teu falta. Tudo no seu lugar.
Nós, por cá, estamos em preparativos. E que estranho que é preparar a tua visita. Alegria de te ver fora daquele espaço de cheiro a desinfectante onde entramos de máscara, bata e luvas. E uma estranheza muito grande de não saber o que te pode acontecer. Andamos contigo consciente de que és como uma bomba-relógio que a qualquer momento nos pode rebentar nas mãos. Mas vou tentar não pensar nisso. Vou tentar que essa visita se concretize mesmo, que vejas a luz do dia, que vejas como as árvores já estão cheias de folhas... que sintas o aroma da Primaver.
Vou tentar afastar de mim os pensamentos que tantas vezes me visitam e consomem. Vou tentar acreditar que ver-te, nem que seja por um dia, em casa, vale a pena todo este sofrimento e angústia.
Por ti pai, vou pôr-me bonita, como quando era criança e tinha de ir à missa com roupa domingueira. Nada de modernices. Vou tentar ser o mais possível a tua menina.
Por ti. Por mim.

Gostos

Gosto particularmente do calor. Dos corpos destapados, dos pés quase descalços, do cheiro do mar, do peixe grelhado, das tarde com caracóis, dos risos abertos de quem se sente em paz.
Gosto de me sentir bem com a vida.
Gosto de ver os meus amigos, de os abraçar. Gosto de sentir uma necessidade maior de os ver, de lhes tocar.
Gosto de gostar de estar viva, mesmo que às vezes a tristeza me visite.

segunda-feira, abril 16, 2007

nós

Ontem jogámos às cartas, uma rotina que se começou a instalar nas minhas visitas. Vi que me esperavas e vi claramente que, apesar de tudo, estavas à espera que te desafiasse para um jogo de cartas... doi-me ver-te assim, uma sombra do que foste e sem ter certezas que toda esta dor e luta te conduza para fora do hospital...
Mas reconforta-me sentir que te posso falar do meu dia, que te posso escrever um bilhetinho, que me esperas para te fazer a barba.
Mas não deixo de me sentir revoltada com a forma como vives, com o sofrimento ao qual estás sujeito. or vezes penso se terás a verdadeira noção do estado em que te encontras, dos prognósticos que te traçam... é uma grande frustração.
Eu estou feliz por estares vivo, por respirarmos o mesmo ar, por te sentir, por fechar os olhos e te saber no meu mundo. Mas, em certos momentos, não consigo livrar-me desta dualidade, de te querer mas de achar esse mesmo querer uma injustiça.

Descobertas

O que eu gostei daquele pedaço de domingo à tarde.
As afinidades são mesmo fantásticas. Gostei muito de ver a pessoa que leio com tanta atenção e de quem me sinto tão próxima nestes altos e baixos da vida.
E o que mais me tocou foi aquele pedaço de papel, aquela fotografia de dois sorrisos tão cúmplices.
Obrigada:)

quarta-feira, abril 11, 2007

O dia em que Sócrates mostra o diploma

Ontem vi o debate da SIC Notícias sobre o silêncio de José Socrates em relação à embrulhada que é/foi a sua licenciatura.
Houve várias coisas que me deixaram pasmada. A mais grave delas foi que, a meu ver, nenhum dos presentes tocou no essencial desta questão. A mim, enquanto cidadã portuguesa, pouco me interessa se José Sócrates é ou não engenheiro, concluiu ou não a sua licenciatura, fez ou não uma pós-graduação. Isso para mim são pormenores (e aqui, e apenas aqui, concordo com João Marcelino).
O que a mim verdadeiramente me preocupa são as condições que proporcionaram a José Socrates concluir a sua licenciatura. O grave para mim é que ele (poderia ser qualquer outro membro do governo) tenha concluido a sua licenciatura de forma facilitada por ser membro do governo. E, nesse sentido, é também grave perceber quais as contrapartidas para tal favorecimento. O que é que o governo de António Guterres deu em troca à Universidade Independente para que esta atribuísse o grau de licenciatura a José Sócrates.
Eu não tenho certezas absolutas em relação a esta questão. Mas tenho cada vez mais dúvidas e algumas suspeitas que não me parecem infundadas.
A pressão que o gabinete do PM fez nos mais variados meios de comunicação para calar esta notícia e para não permitir mais investigações é, no mínimo, preocupante.
A mim, neste momento, não me descansará ver da mão do PM o diploma que prova a sua licenciatura. Ele até pode apresentar dez diplomas de dez universidades diferentes, pintados de várias cores... o que quero saber é em que circunstâncias ele conseguiu esse diploma, a troco de quê... Convem não esquecer a embrullhada em que a Universidade Independente está mergulhada. São falcatruas atrás de falcatruas. Já deu para perceber que a malta da empresa que gere aquele estabelecimento de ensino, não é de confiança. E ontem mesmo, na carta aberta que escreveram a Mariano Gago, deixam no ar que alguém está a tentar calar a UNI, a tentar ocultar a verdade. Para mim isto cheira a chantagem. E aqui tudo se agrava, perceber até que ponto, por causa de uma porcaria de um diploma, o Primeiro Ministro de Portugal se colocou nas mãos de gente daquele nível.
Fiquei pasmada por nenhum dos presentes, directores de meios de comunicação, conseguiu ou teve a coragem de chegar aqui...
Fiquei ainda mais pasmada com a atitude de João Marcelino. A fazer de advogado do diabo numa clara manobra de estratégia. Agora que o DN anda pelas ruas da amargura e que João Marcelino se vê à frente de um jornal (mesmo assim) de referência, espera, com esta defesa do bom nome do PM aproximar-se do gabinete do mesmo para relações futuras. Ou ele pensa que enganou alguém com aquela atitude desplicente? Se tudo o que se tratou ontem à noite são pormenores, porque foi João MArcelino até aos estúdios da SIC? Porque permite que o jornal que dirige dê páginas inteiras de informação sobre o assunto? Ontem mesmo o DN trazia uma lista de perguntas às quais Sócrates não respondeu e que deveriam ter resposta...

terça-feira, abril 10, 2007

Remar

Por mais que tente, não consigo.
Andamos algum tempo a bater com a cabeça na parede, a pensar que já nada vale a pena, a desejar que te vás com a dignidade que ainda te é possível. Mas depois, quase sempre arrastadas pela força do mano, lá vamos nós as duas, eu e a mãe, atrás dele e de ti. Só mais uma tentativa. Não se pode desistir, diz o mano. Mais uma carta, um hospital, uma consulta, uma opinião. E o que nos resta senão tentar tudo? Se te fores, pelo menos fica-nos a certeza de que tudo foi tentado. E mais vale que te vás numa mesa de operações, a tentar tudo por tudo, do que te ires no meio de uma estúpida hemorragia, preso a uma sala de hospital, onde nada do que é normal te é ou será alguma vez permitido.

A dança em mim


Nos últimos anos tenho-me afastado da dança. Por circunstâncias várias. Não interessa agora quais. A constatação é esta: tenho-me afastado dela. Não significa isto que a dança tenha deixado de ter importância para mim. Ela continua a preencher um lugar único no meu ser. Preenche-me como nenhuma outra forma artística. e daí talvez venha a minha exigência em relação a ela. Não que eu ache que, de cada vez que vejo um espectáculo, ele tenha de ser revolucionário ou trazer algo absolutamente novo. As fórmulas, muitas delas, já foram inventadas, exploradas, reapresentadas...
Mas não consigo deixar de ficar decepcionada quando um espectáculo me parece preguiçoso, presunçoso, óbvio. Principalmente quando se trata de alguém como a Pina Bausch.
Na sexta-feira fui ver o espectáculo "for the children...". Percebi o conceito, achei graça a um ou dois quadros; é indiscutível a qualidade dos bailarinos.... mas, no geral, fiquei maçada, zangada mesmo, com o que vi. Muito lugar comum, uma peça muito grande, demasiado grande, colagens musicais por vezes despropositadas.... saí do Teatro Camões sem qualquer tipo de preenchimento, sem sentir o gesto, sem ver a coerência.
Da próxima vez que tiver contade de comprar um bilhete para ver a Pina Bausch, espero dar com a cabeça na parede, à espera que me passe a vontade

segunda-feira, abril 09, 2007

Páscoa sem sabor

A minha Páscoa sempre teve cheiro de cabrito assado no forno. A minha Páscoa sempre teve o som do compasso a tilintar de casa em casa. A minha Páscoa, embora há já muito tempo tenha perdido os hábitos da igreja, sempre foi de terreiros lavados, casa aprumada, missa cantada e família reunida à mesa. A minha Páscoa, mesmo quando era passada em Lisboa e não na aldeia dos meus pais, sempre foi sinónimo de algazarra , vinho tinto, conversas acaloradas e mesa posta até à noite.
A minha Páscoa foi, desde sempre, liderada pela figura do meu pai, sentado à cabeceira da mesa, de olhar preenchido e realizado por nos ver juntos.
Este ano a minha Páscoa foi diferente, muito mais triste. A reunião familiar foi trocada por um singelo almoço só com a minha mãe num restaurante chinês. E no momento em que me sentei e vi todas aquelas famílias reunidas naquele espaço, dei ainda mais valor à minha Páscoa perdida, lá longe na aldeia. Que tristeza que senti. E que saudades do som das nossas vozes umas sobrepostas às outras.

quinta-feira, abril 05, 2007

A morte do tempo

"Hoje o meu relógio morreu. Parti-o eu. Para que quero saber as horas aqui? Juntamente com o relógio também o tempo morreu para mim. Matei o relógio porque o meu cativeiro estava a ficar cansado desta pequena máquina de fabricar minutos inúteis. Desintegrado o átomo, era preciso desintegrar o instante. Penso que consegui fazê-lo ao partir o relógio."
Jesús Zárate
A Prisão

terça-feira, abril 03, 2007

Dúvidas

Vivo uma dualidade que me consome. Por um lado tento recuperar alguma da normalidade dos meus dias. A vida assim o exige. Tenho uma casa, uma família, um quotidiano para levar em frente. Mas, por outro lado, não me consigo separar de ti. Da tua existência cada vez mais perene nessa cama de hospital. Da tua força cada vez maior, a contrariar o que todos sabemos que vai acontecer.
Não dá para imaginar como consegues acreditar na vida apesar de tanto sofrimento, de tanta angústia. E eu já não tenho conforto possível. Para todos os lados que me viro só vejo tristeza e pesar. E depois, depois há o que secretamente desejo. Eu já tenho saudades, pai, mas muitas vezes, em surdina, a meio da noite, penso que já não estás aqui e, não sei porquê, ou talvez saiba e não o queira admitir, esse pensamento apazigua-me de alguma forma.
Será que tenho esse direito?

quinta-feira, março 29, 2007

56

Ontem comemorámos o ano 56. Fizeste 56 anos. Nunca os tinhas passado numa cama de hospital. E eu pensei que tu nem sequer passarias por eles. Não sei se o termo comemorar é o mais indicado no teu caso.
Claro que estou feliz por estares vivo. Mas este ano não devia ser comemorado. Devia antes ser ignorado. O ano em que tanto sofreste, em que foste tão mutilado... é bom que ainda cá estejas, entende-me. Eu não te desejo a morte. Pelo menos, não agora. Já ta desejei. E não há muito tempo, acredita-me.
Agora conforta-me saber que lutas, que queres viver, mesmo que não seja por muito tempo.
De qualquer forma, continuo a achar que a entrada nos teus 56 não merece comemorações.

segunda-feira, março 26, 2007

Percepções

Fui ver-te. Estavas igual aos últimos dias. Foi uma visita em tudo similar às anteriores. O que mudou foi a minha percepção da realidade. O que antes era um cenário mais idílico, em que sonhava com possíveis recuperações e uma vida a médio prazo, passou a ser muito mais limitado. O tempo passou a ter outro valor. Cada segundo que passo contigo é mais precioso que o anterior. Foi isso que mudou. A importância que lhe atribuo. Ao tempo, as horas, aos minutos, aos dias. Tu estás igual, sem grandes receios, sem grandes ansiedades ou medos (para além dos muitos que já tinhas, é verdade).
Mas essa visão de que só em nós tudo mudou apazigua-me.

sexta-feira, março 23, 2007

Normalidade

Tento viver com alguma normalidade. Digo alto e pausadamente NOR MA LI DA DE.
Levanto-me pela manhã, bem cedo. Trato de mim, trato do filho, tomo o pequeno-almoço. Vou para o trabalho. Procuro nas caras dos desconhecidos algumas pistas das suas vidas. Procuro na luz do Tejo algum contentamento. Sento-me aqui, todos os dias, até ao bater das 18h.
E faço o caminho de regresso: comboio, metro, casa, brincadeiras , banho, caderneta do Bob o Construtor, jantar, uma história, um pouco de televisão e a cama. Onde procuro o sono. Uns dias a procura é mais demorada que em outros.
Tento viver com alguma normalidade.
Mas já nem sei bem o que isso é. Voltei a dormir de telemóvel ligado. Voltei a ter sobressaltos a meio da noite. Voltei a pensar se tenho ou não coragem de te ir visitar, de te olhar nos olhos e dizer que vai ficar tudo bem, mesmo sabendo que te estou a mentir.
Afinal, o que é a normalidade? O que é que para mim seria normal numa altura destas? O que eu quero e o que acho melhor nem sempre são pensamentos coincidentes.
O que queria viver e o que vivo também nem sempre coincidem. Ultimamente então...

quinta-feira, março 22, 2007

Voltas

Ando às voltas. Sinto-me perdida. Ontem entrei no comboio com a esperança de que a visão do mar me serenasse o espírito. Mas depressa o azul do mar foi substituído por deprimentes blocos de apartamentos, marquises de alumínio, roupa estendida sem critério, ruas sujas e tristes. E o que deveria ter sido um passeio higiénico acabou por ser uma triste constatação de que um subúrbio é sempre um subúrbio. Mesmo quando o mar está por perto.
Ando às voltas. Tento sair de mim e voltar a entrar, como um corpo estranho, para me poder ver com outros olhos, mas não consigo. Os olhos com que me vejo são os mesmos de sempre. Aqueles que vêem a angústia nos teus; aqueles que vêem a tristeza nos do mano, o desespero nos da mãe. Os meus olhos estão como eu, cansados. Precisavam de se fechar.

quarta-feira, março 21, 2007

Coincidências e incidências da vida

Fez ontem um mês que ditaram o fim. Eu acreditei. Fiz o meu luto, preparei-me da forma que me foi possível preparar.
Depois fui surpreendida por uma força maior: a tua.
Só que as nossas forças não são ilimitadas. E quando parecia que a esperança era algo concreto e palpável, volta tudo para trás. Por uma coincidência foi ontem, um mês depois.
E agora?

Retrocesso

Quando tudo parecia encaminhado voltámos a dar alguns passos atrás.
O medo paira novamente sobre as nossas cabeças. Mais sobre a tua...

terça-feira, março 20, 2007

Estado da Informação

Hoje, ao abrir o clipping da empresa na qual trabalho, dei de caras com a notícia da morte de Ray-Gude Mertin. Mas como, pensei eu, se ela morreu a 13 de Janeiro?
Vi qual era a fonte de notícia, um portal do Minho, um tal mais actual e apressei-me a ligar para desfazer o engano. Resposta do outro lado: "Onde é que está mesmo a notícia? Na música? Vou já tirar, obrigadinha."
Não, sua ignorante, não está na música. a Ray-Güde era uma agente literária.
Mas mais do que ficar chocada com a ignorância da senhora em questão (a quem me recuso chamar jornalista), foi a facilidade com que me disse que retirava a notícia. Estava ali aquela como poderia estar qualquer outra, sem qualquer critério de rigor.

domingo, março 18, 2007

Contabilidade

Começo a perder a conta aos dias, o que me parece um bom princípio. Já faz quase um mês que ditaram a tua morte. E tu, casmurro como só tu sabes ser, decidiste que ainda não tinha chegado a tua hora e que, dependendo de ti, ainda havias de dar luta.
e sei que é assim que estás, a dar luta. Por mais que mantenhas os olhos fechados quando te visito, por mais cansado e cabisbaixo que te veja sei que, no teu íntimo, não baixaste os braços. Tu lutas, eu sinto-o, mas é difícil, penosamente difícil, manter o espírito 24 horas por dia.
Não é pai? Porque para ti os dias são todos iguais, as horas correrm a um ritmo muito próprio, muito lentamente... demasiado lentamente, posso adivinhar. Dias e noites devem-se confundir na tua memória... o teu calendário deve ser muito peculiar. Imagino o que marcará a evolção do teu tempo... como é que ele corre, como o contabilizas?
Até as visitassão sempre as mesmas...
Nunca foste de grandes conversa mas, agora que não mais voltarás a falar, imagino que tudo seja mais doloroso... ninguém com quem desabafares o que te via na alma... Estás privado de grande parte da tua vida, da tua rotina. Não comes, não falas, não vês os teus amigos, não estás em tua casa... não sabes se isto vai passar ou não....
Eu acredito que ainda tens muito para contar. Eu cá vou estar, a ler-te nos lábios, como gosto de fazer.
Um beijo do tamanho do mundo, e doces sonhos, pai.

segunda-feira, março 12, 2007

Relato de uma certa normalidade

Agora quase que posso respirar...
O meu pai melhora, pouco, mas melhora.
Eu voltei ao trabalho e começo a decifrar as novas rotinas e hábitos das novas gentes com quem me cruzo.
O meu filho voltou a ficar doente...

Sinto-me novamente na gestão da minha conta corrente que é a minha vida.
Sem queixumes.
Às vezes é bom voltar a uma certa normalidade tranquilizadora.
Fazia-me falta.

sexta-feira, março 09, 2007

PENSAMENTO PÓS 8 DE MARÇO

Por que raio não aproveitei a gastrectomia de há dois anos para fazer uma mudança de sexo?

quinta-feira, março 08, 2007

SOBREviver

Há dias que não consigo escrever aqui.
Não por falta de assunto ou de vontade. Tem sido mesmo por falta de tempo.
Novo emprego, novas solicitações. O filho que, depois de dois meses de mãe a tempo inteiro, está decidido a reclamar. O pai doente que não tem a devida atenção ou, pelo menos, não tem a visita diária a que já estava acostumado...
Mas hoje é um dia especial. Um dia em que me sinto uma sobrevivente.
Faz hoje dois anos que entrei num bloco operatório sem saber muito bem se iria sair de lá ou em que estado sairia. Tudo era uma incógnita. Depois desta operação, que me mutilou de forma definitiva, passei a ver contabilizada a minha existência.
Os médicos falam em sobrevida. Como se o calendário tivesse parado naquele dia e àquela hora. Como se todos os dias que se seguiram fossem um bónus.
Por tudo o que já vivi nestes dois anos e pelo que ainda espero viver (sobretudo em qualidade), sinto-me feliz e em paz.

domingo, março 04, 2007

Teoria da evolução

Cada dia que passa é um dia para evoluir. Assim gosto de pensar, que a cada dia que te vou ver há uma coisa nova para registar. Agora já te vejo sentado à minha espera. é claro que ainda não te sentas sozinho, nem decides quando te queres levantar ou deitar, mas já o podes pedir a alguém. Já tens essa vontade.
Encontro-te bem e isso deixa-me reconfortada. Mas sei que ainda há um longo caminh a percorrer. O perigo já não paira tão sobre a nossa cabeça, mas ainda não estamos a safo.
Tentamos evoluir, cada um da sua maneira.
Hoj li-te mais uma das minhas cartas.
Aguardo que sintas vontade de me contares os teus dias ou os teus pensamentos.
Hoje é o dia 12

quinta-feira, março 01, 2007

ESSE DEDO ERGUIDO


...
Obrigada, pai.

Escrita em dia

Ontem retomei um hábito há muito perdido, o de escrever cartas. Em papel, à antiga.
Quando em 1997 fui viver um semestre para Salamanca escrevia cartas todos os dias. Aos meus pais, aos meus amigos, a um ou outro familiar mais próximo... algumas delas ainda estão guardadas numa caixa algures em casa dos meus pais. Eu adorava escrever. Ajudava-me a ameninzar a saudade, o isolamento.
Com a net, o messenger, o mail e o malfadado telemóvel, fui perdendo o velho hábito de pegar na caneta. Quando fiquei doente comprei um caderno cor-de-rosa que me acompanhou no hospital e onde escrevia alguns dos meus pesamentos mais tenebrosos, algumas das minhas dúvidas e angústias... mas o espírito era diferente do das cartas. Eu não escrevia para outro que não para mim própria, apenas com a finalidade de libertar algo preso em mim.
Ontem, enquanto conversava contigo, lembrei-me desse velho hábito perdido e de como ee poderia ser uma forma de te aproximar ao mundo. Agora que nunca mais falarás a escrita poderá ser o nosso elo secreto.
Todos os dias te vou escrever uma pequena (ou grande) carta a contar-te as miudezas do meu da-a-dia. A fila de trânsito, as traquinices do Henrique, as pessoas que telefonaram a saber de ti...
O primeiro passo é meu, escrever-te.
Depois, espero que te sintas bem para me começares a escrever a mim.

terça-feira, fevereiro 27, 2007

Brecha de luz

Hoje fez sol.
Um daqueles dias que enchem a alma. Luz fantástica, dia ameno.
O meu coração também está assim: em estado de aquecimento. Lento, sem pressas, sem sobressaltos e, sobretudo, sem grandes euforias.
Mas fez sol no meu coração.

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

Interrompemos para uma pausa humorística

Porque nem tudo é mau na vida, aqui fica um pequeno apontamento real.
Sentados numa bela esplanada de Lisboa tentávamos, pelo menos eu, alhear-me um pouco daquela que tem sido a minha rotina nos últimos dias. Nada como o Tejo e luz da cidade para descomprimir.
A meio do lanche a lembrança de enviar uma mensagem à Chica (a nossa empregada) para que fizesse jantar.
Minutos depois uma mensagem de um dos líderes partidários do nosso Portugal dos pequeninos.
"Enganou-se. Aqui não há nenhuma Chica".
Seria um jantar às direitas.

DIA ATRIBULADO

Hoje passou o sétimo dia. Já nos passaste a perna durante uma semana.
Faz hoje uma semana chorei a tua morte, pensei em tudo o que era preciso fazer, que providências tomar.
Hoje voltei a tomar providências. Por iniciativa do mano transferimos-te para uma clínica. Lá fui eu, para aquele hospital ao qual espero nunca mais ter de voltar, dizer que te queria levar.
Não sei o que vai acontecer. Se voltarás a ser alguém parecido com o que já foste, ou se nos morrerás. Mas sei, pelo menos, que a tua morte, se tiver de acontecer, será digna. Não morrerás fechado numa sala como um cão sem dono. Terás alguém que te segure na mão, que te tranquilize.
Acho que vai ser importante que vejas o Pedro todos os dias. E para ele é muito importante poder tratar de ti.
Eu, pela minha parte, vou tentar permitir-me uma pequena pausa. Estou exausta. Não te quero deixar, mas preciso retomar, de alguma forma, a minha rotina.

domingo, fevereiro 25, 2007

AO SEXTO DIA...

... fez-se alguma luz.
Gostei de te ver, de barba feita (obra da formiguinha mãe). Mas o teu olhar está triste... tanta gente à tua volta de bata, máscara e luvas... ficas a pensar que o fim já chegou. Talvez tenha chegado. Talvez não.
Na parte que te cabe, tens de lutar.
Nós, por cá, estamos a reunir as tropas para te tirar desse buraco e te restituir alguma dignidade.
Até amanhã.

sábado, fevereiro 24, 2007

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

DIA 4

Tu és danado, pai. Os médicos disseram que não passavas do dia 0 mas tu, teimoso como ninguém, lá decidiste que te caberia a ti, na medida do possível, ditar o dia da tua morte. Neste momento já não sei se a vês tão presente como há uns dias atrás. Mas isso agora também já não interessa. O que importa verdadeiramente é que ainda cá estás, por muito pouco tempo, é verdade. Mas ainda cá estás. A lutar com a teimosia que tantas vezes me fez discutir contigo.
Vejo-te agarrado à vida como nunca. Não depende de ti a tua morte, bem sei. Mas lutar depende e tu, para não variar, deste-me uma grande lição de vida ao demonstrares que é quase sempre possível lutar um bocadinho mais. Lutar pelo menos até que o corpo nos traia... e o teu pode trair-te a qualquer instante. Até lá prometo visitar-te, amar-te, segurar-te na mão e falar-te do meu dia.

quinta-feira, fevereiro 22, 2007

Pretérito Imperfeito

É um passado. Na minha cabeça, nesta quase realidade que me envolve, isto é um passado. Mas imperfeito. Um passado que ainda não o é definitivamente mas que já não tem outra solução senão sê-lo. Tu estás a partir, no meio de tanto sofrimento, de tanta dor. E deixas um vazio imenso à tua volta. Mas o que verdadeiramente me dói, é que tudo isto não faz sentido. Para começar a tua morte é estúpida. Estás a morrer da cura, dos efeitos das terapeuticas. Bela maneira de dizer que te deviam ter operado logo no início em vez de te queimarem até ao âmago. Depois, devias ter partido na segunda-feira, no dia zero. Sem tanta dor, não a minha, a tua, pai.

DIA 3

Começou exactamente às 00h00.
Será que se vai completar ou será interrompido a meio?
Estou ao telefone a tentar saber como foi a noite, mas não me atendem.
Estamos em suspenso.

quarta-feira, fevereiro 21, 2007

Dia 2

Hoje é o segundo dia. Não sei se para a vida ou para a morte. Mas é o segundo dia. Não era suposto existir este dia. A contagem devia ter terminado na passada segunda-feira. Mas não. A vida, o destino ou o raio que o parta, decidiram que ainda não era hora. Marcou-se, no meu calendário, uma nova era. A era depois do zero, depois da não-existência. Depois da morte mais que anunciada.
Ela continua a ser mais do que real, o risco de morrer é o mesmo: tudo acabará se houver outra hemorragia. E as probabilidades de tal acontecer são muitas, imensas... quase uma certeza nas próximas horas. Mas a morte também o era há dois dias.
E agora?

terça-feira, fevereiro 20, 2007

É permitido sonhar?

Hoje o meu pai não devia ter acordado.
Ontem tinha a hemoglobina a 2,7, muito abaixo do limiar de sobrevivência. Todos lhe ditámos o fim.
Hoje acordou. Abriu os olhos, escreveu num papel. Pediu-me um beijo.
Não consigo perceber se acordou para se despedir da vida ou para se agarrar a ela.

domingo, fevereiro 18, 2007

A primeira vez que o meu pai me começou a morrer...

... foi em Fevereio de 2005 com a notícia da minha doença. Nunca falámos seriamente sobre esta sua morte. Mas eu sei que ele emagreceu quase 10kg em um mês e que se fechou num quarto durnate dias, tamanha era a sua revolta. Nessa altura começaste a morrer-me pela primeira vez. À data não me consegui aperceber do teu desaparecimento, porque estava, eu própria, a tentar não morrer, a ter forças para lutar pela minha vida, por ti na minha vida, pela mãe, pelo Filipe, pelo Henrique... por todos nós. Pela nossa família.
Como podia ser possível que a tua filha pudesse não mais sair do hospital? Como é que conseguirias sobreviver-me pai? Eu sei que foi isto que pensaste e que disseste. Não a mim. A mim ias-me visitar todos os dias. A mim nunca mostraste uma única lágrima, a mim acompanhaste-me a todas as sessões de radioterapia. E tu começaste a morrer porque me sentiste ir... porque tiveste medo que, mais ano menos ano, eu te voltasse a fugir.
Não sei porque nunca falámos seriamente sobre isto. Talvez porque nem sempre é preciso falar para saber e para sentir. E nisso, pai, nós somos peritos. Uma troca de olhares entre nós vale mais que mil palavras.
Por isso hoje, que me começaste a morrer pela segunda vez, não consegui olhar-te nos olhos. Apenas te vi de longe, da porta da sala e não te consigo dizer o que senti. Não penses que te falto, porque estou sempre ao teu lado, porque tomarei conta da mãe, na medida que me for possível. Mas entre nós e as palavras ficará sempre a nossa troca de olhares, e eu não posso substituir isso por um último olhar de desespero. Desculpa mas não sou capaz.
Para mim ficará sempre aquele sorriso que me lançaste ontem antes de eu sair da tua sala.

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

A vida é um lugar muito estranho

Esta semana não tem sido particularmente fácil.
Deveria ter começado bem, com o meu aniversário. Sim, eu sou daquelas pessoas que gosta de comemorar o aniversário, que gosta de ficar uma tarde inteira a cozinhar para os seus amigos, que gosta da confusão de vinte pessoas às cotoveladas num terceiro andar de Lisboa. Gosto dos gritos dos miúdos, das conversas supostamente sérias de alguns dos adultos, dos encontros anuais proporcionados, das prendas, dos beijos, dos carinhos. De há dois anos a esta parte costumo dizer que cada ano que faço é um bónus. Não era suposto eu comemorar mais que os meus 29 anos. Mas, sem saber muito bem como, fintei a morte. E por isso, a vontade de comemorar é cada vez maior.
No entanto, este ano o meu aniversário teve um sabor estranho. O meu pai voltou a adoecer. E enquanto eu tentava pensar na alegria de estar viva, sabia-o a agonizar numa cama de hospital, pronto para enfrentar mais uma mutilação definitiva.
Na terça-feira o meu pai foi operado. Depois de uma hemorragia gravíssima que poderia ter ditado a sua morte, o meu pai teve de se render à evidência. Laringectomia total... nunca mais vai falar. Se tudo correr bem (mas no caso dele correr bem tem sido sempre uma miragem) ficará a comer pela sua própria boca, mas não está descartada a hipótese de ser alimentado por uma sonda... 55 anos...
Enquanto o meu pai se submetia a mais uma mutilação no seu corpo, eu enfrentava, à minha própria maneira, um outro desafio. Uma segunda entrevista para emprego. Que consegui, diga-se de passagem. Numa situação normal, este emprego seria o suficiente para eu andar aos pinotes por Lisboa e para telefonar a todos os meus amigos, feliz da vida. Mas naquele momento em que tudo ficou acertado, tive vontade de voar até ao hospital para ver o meu pai e dizer-lhe que havia uma boa notícia para nós.
Tive de esperar até às 10 da noite para o ver e lhe contar.
A nossa vida não tem sido particularmente fácil nos últimos dois anos. Não somos os únicos, bem sei. O mundo está repleto de pessoas que lutam diariamente por um pouco de dignidade. Mas não tem sido fácil.
E tenho dado por mim a pensar nesta coisa das compensações... será? O teu pai não melhora mas, em compensação, arranjas emprego...
Não sei o sentido que tudo isto faz, mas a vida é mesmo um lugar muito estranho

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

até já temo

o toque do telefone. As notícias não são boas. Nem no dia de aniversário

Não respire... pode respirar

Que início de dia.
Hoje faço 31 anos. Ontem à noite comemorei a entrada neste dia com o meu marido, duas amigas do coração e uma bela garrafa de murganheira que tinha sobrado do casório. Os 31 e o sim! Finalmente o sim!
Hoje de manhã acordei com o meu filhote e as suas "supesas" para a mãe.
O dia prometia ser bom, muito bom. Ou, pelo menos, eu ia tentar que assim fosse.
Mas há sempre um mas. Às vezes sinto-me como naquela canção do Godinho "Não respire, pode respirar, não respire, pode respirar"...
O telefone tocou, o meu irmão... mais parabéns e coisa e tal. "O pai foi outra vez para o hospital"

domingo, fevereiro 11, 2007

sim, por favor

O sim ganhou e parece que com vantagem.
Bem sei que não deve ser vinculativo mas, se em 98 se respeitou a vontade dos que votaram não, espero que desta vez o nosso governo os tenha no sítio e legisle de acordo com a opinião dos que se deram ao trabalho de enfrentar a chuva e votar.

sábado, fevereiro 10, 2007

Ou isto

Está frio, eu gosto de chá e o meu filho deu cabo do bule que tínhamos.

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

Está quase



Começou oficialmente a contagem decrescente para os meus 31.
E, durante cinco dias, vou aqui deixar uma lista meramente indicativa, das muitas prendas que gostaria de ter. Sim, este vai ser um blogue fútil. Desculpem-me os mais intelctuais.

Corrector de olheiras forget it, da Biotherm, nº10

terça-feira, fevereiro 06, 2007

Confronto

Hoje fiz questão de atravessar a rua para passar frente à sede de um dos movimentos do não que tinha umas meninas, ainda muito longe de saberem o que é a maternidade, à porta.
Só para que uma delas me viesse impingir o raio do panfleto.
E só para lhe responder apontando para a minha barriga "Não obrigada, aqui mando eu".

terça-feira, janeiro 30, 2007

Ele há dias que parecem noites

Não me bastava estar desempregada. Não me bastava o raio da chuva que não me larga. Não me bastava o meu humor de cão, o meu pai internado...
Não me bastavam as incertezas face à saúde a à felicidade dos que me são muito queridos. Não me bastava não ter estômago e por isso ter de levar hoje (logo hoje) a injecção de vitamina B12.
Ainda tinha de terminar o dia a ver o filme do Mel Gibson!
Mas que raio de tendência a minha para procurar o que não devo. Depois do Braveheart juro que ste foi o primeiro o último filme do gajo que vi. Eu não quero violência, não quero ver corações a saltar em mãos, cabeças a rolar, mulheres a ser violadas... por mais verdadeiro que tudo aquilo seja, basta. Eu mereço alguma paz de espírito. E que ela me venha da ficção, dessa mesma ficção que se pode consumir a pedido: pago o bilhete e, durante duas horas, vou alhear-me do meu mundo. Não quero um mundo seja ainda pior que o meu.

segunda-feira, janeiro 29, 2007

Odeio

hospitais. Aquele cheiro a desinfectante que se agarra a nós. As camas velhas, as janelas de madeira por onde o vento assobia.
Por que raio não me consigo ver livre deles?

sexta-feira, janeiro 26, 2007

quinta-feira, janeiro 25, 2007

E assim...

se cria mais uma ilusão de mudança.

Por mais voltas que dê...

Não consigo fintar eternamente a realidade. e ela chegou hoje, na forma de carta. É verdade. Remetida pelo Hospital de Santa Cruz e a lembrar-me que está a chegar a hora h... A seis de Março as análises, a ecografia e o rx. E a 23 de Abril a consulta.
Começou oficialmente a contagem decrescente para mais uma confirmação da minha sobrevida.

Pensamentos dispersos

- Os dias passam a uma velocidade assustadora. Um a seguir ao outro mas, por vezes, parece que durante o sono me enganaram e passaram quatro ou cinco de uma vez.
- A vida é mesmo uma porra. Há sempre uma areia na engrenagem para nos atrapalhar. O problema é quando a areia se transforma em deserto e, antes de termos tempo para nos levantarmos de uma das quedas que a vida nos proporciona, já estamos outra vez de queixos na areia a ver tudo de uma perspectiva baixa, muito baixa.
- Por que motivo sofrem aqueles que amamos? A cada dia sou surpreendida com um novo drama ou o avivar de um velho... e como não vivo sem os que me são queridos, não consigo deixar de pensar neles e na tremenda injustiça de tanto sofrimento.

Espera...

Porque não toca o telefone?

quarta-feira, janeiro 24, 2007

morrer em vida

A morte é uma evidência da vida, todos sabemos.
O meu irmão, que é enfermeiro e lida constantemente com esta evidência, dizia-me há uns anos atrás e em tom algo jocoso, que a morte era a primeira doença sexualmente transmissível...
Nos últimos dois anos tenho convivido muito com esta evidência da vida. Talvez até em doses excessivas para alguém que tem 30 anos. O cheiro da morte, a sua ameça, e, em outros casos, a sua evidência, têm-se feito sentir com grande evidência aqui para as minhas bandas.
Na segunda-feira, em conversa com uma amiga, ela dizia-me, referindo-se à doença do seu pai, que a coisa que mais impressão lhe fez, durante uma fase mais aguda, foi a sensação de que ele estava a desaparecer em vida. E o que ela me disse faz todo o sentido porque é exactamente o que sinto em relação ao meu pai. Ele está vivo, sim... mas pouco vivo. A sua vida é tão pequenina, é tão pouca vida. Sinto-o a desaparecer como areia fina por entre os meus dedos e tenho a ilusão de que está vivo porque o vejo todos os dias. Só que quando penso a sério no assunto percebo que ele já não é um vivo completo, não se sente verdadeiramente neste mundo. É como se ele estivesse em transição entre dois mundos, o dos vivos e o dos mortos, e eu, que não sei de que lado ele vai ficar, tento puxá-lo, com todas as minhas forças, para o lado de cá.

terça-feira, janeiro 23, 2007

Será que é desta?




Dois anos e meio depois.
Esta é uma das muitas tarefas que me proponho concluir durante este período de nojo.

Vida interrompida

Aqui estou eu. ainda não bem desempregada, mas já não empregada.
Aqui estou eu em casa, supostamente sem nada que me ocupe mas, nas verdade, atafulhada de afazeres: o pai para levar ao hospital, a mudança do quarto do filho, a arrumação do escritório, mais o filho doente que é preciso levar ao médico e que é preciso cuidar em casa. E a casa, não podemos esquecer a casa, a ementa do almoço e a do jantar também. O telefonema aquela amiga, a visita à outra.
E, tudo muito espremidinho, continua a falatar o tempo para mim. Ainda não li (O Ruben Fonseca vai a meio), o tricot anda a meio gás, e a escrita, bem essa nem se fala.
Falta-me tempo, penso. Mas como se tenho todo o tempo do mundo?

quinta-feira, janeiro 11, 2007

Porque ainda não te escrevi


Primeiro eu. Lembro-me claramente do teu olhar enquanto me dizias que já tinhas mais de cinquenta anos e que era uma injustiça ser eu, com 28, a ficar doente. "Como é que Deus nos fez isto?", perguntaste. Eu nã tinha resposta para te dar. Porque já tinha virado as costas à religião há alguns anos e porque estava ainda, eu própria, à procura de uma orientação, algo que me fizesse ir na direcção certa; procurar resolver o problema, pensava, sem revoltas e, sobretudo, sem entrega.
Tu lá ficaste com o teu coração de mãe dilacerado a pensar o que fazer para me ajudares...
Depois os acontecimentos foram-se sucedendo muito rapidamente, sem tempo para grandes conversas ou grandes reflexões: exames, mais exames, consultas médicas, diagnósticos, prognósticos, operação, quimioterapia, radioterapia, mais internamentos. E tu sempre ali, firme como uma rocha. Todos os dias me ias visitar. Tu e o pai, claro. tomavas conta do meu filho, tomavas conta do meu marido... tomavas conta de mim.
No teu olhar a tristeza e a revolta. Mas para mim tinhas sempre uma palavra de conforto e de luta, "não podes desistir". E eu lutei, porque me estava na alma mas, sobretudo, porque assim me tinhas educado, a não baixar os braços perante a adversidade. E esta nossa luta foi bem dolorosa. Digo nossa porque às minhas dores físicas junto as da tua alma. Tu sofrias por mim.
Depois melhorei e pensei que poderíamos ter alguma paz, que o nosso pequeno clã poderia respirar de alívio.
Mas tu já estavas a empreender uma outra luta: a do pai. Poucos meses depois foi a vez dele. Cancro assim tão logo a seguir ao meu? aí sim, sentiste-te injustiçada. O teu Deus ainda não te tinha dado tempo de te recuperares de uma dor e já estavas tu a ser arrastada, novamente, para os corredores dos hospitais, para aquele ambiente mórbido de batas brancas, meias conversas...
Mas tu, não sei com que forças, lá te mantiveste novamente firme, a amparar o pai nos teu braços, com tanta ternura mãe, tanto amor. Que dedicação.
E o caso dele, que aparentemente era bem mais fácl que o meu, foi-se complicando e complicando até chegarmos aqui a este beco. E estamos assustados. Tu, tu estás exausta, esgotada. Nem sequer tens tempo para as tuas muitas dores. Suspendeste a fisioterapia... "Mas como é que eu posso deixar o teu pai sozinho em casa. Logo agora?".
És maravilhosa mãe. és uma guerreira, uma mulher inteira, completa, defensora da sua família.
Um dia quero ser como tu.
Obrigada

segunda-feira, janeiro 08, 2007

Vazio

Estou sentada no meu posto de trabalho mas é como se não estivesse.
Os meus pertences foram empacotados, o meu lugar estava ocupado por outra pessoa e o meu patrão estava a dormir.
Passei a manhã a rever mentalmente os meus últimos dois anos de actividade profissional e a apagar e-mails.
Triste não é?

quinta-feira, janeiro 04, 2007

...

Apetecia-me escrever qualquer coisa bonita e poética, repleta de esperança, sobre o ano que agora começou. Mas não tenho motivos para outra expressão que não seja "FODA-SE. ASSIM NÃO DÁ.

quarta-feira, janeiro 03, 2007

Ano Novo...

Depois de quase duas semanas de ausência, eis-me de volta ao conforto do meu teclado e da minha casa.
Foram dez dias de intensa vida social passados entre canjas, sandes de galinha, carne em vinho e alhos, bolo mel, broas de mel, carne em vinho e alhos e mais uma canjinha para a viagem.
Eu bem sei que é só uma vez de dois em dois anos mas, acreditem, é o suficiente.
Não fosse o caso de não ter estômago e acho que estaria entupida até à garganta.
Agora que o ano velho se foi, e com ele as iguarias acima descritas, estou de volta ao mundo real, não o mundo que deixei antes de partir mas, mesmo assim, um mundo real. Um mundo com patrões sacanas e de memória curta....
Parece que vou entrar neste ano à procura de emprego.
E que descansem os senhores o Governo porque, mesmo sem estar a par das novas alterações à lei do subsídio de desemprego, eu vou estar activamente à procura de trabalho

quinta-feira, dezembro 21, 2006

Hoje estou musical, deve ser do Natal

A música é grande! enche-me a alma, principalmente nos momentos mais tristes.
É Natal, é Natal

Um miminho.
O tempo que perdi a tentar decifrar a história deste vídeo. Sim, porque eu ainda não sabia inglês....
Feliz Natal

quarta-feira, dezembro 20, 2006

A minha alma está parva

O La Féria é o nome escolhido pela Câmara Municipal do Porto, na pessoas do seu mui nobre presidente (desculpem mas sou alérgica a escrever o nome desse fascista) para gerir o Rivoli. Palavras para quê?

terça-feira, dezembro 19, 2006

Vamos lá a rir um bocadinho



A vida vai correndo.
Há coisas que não se podem mudar, independentemente do nosso estado de espírito. O trabalho é uma delas.
Para aliviar as dores (do corpo e do espírito) meti-me a adaptar este livro. Precisava de algo divertido, leve, para me ausentar das tristezas.
E que livro!
Divertido, muito divertido.
Começo aqui a publicar algumas das preciosidades nele contidas.
Obrigada, Claudia Tajes

segunda-feira, dezembro 18, 2006

Isto sim, deixa-me de bem com a vida



For once in my life. Bennett e Stevie Wonder.

For once in my life I have someone who needs me

Someone

I've needed so long

For once unafraid

I can go where life leads me

And somehow I know I'll be strong
For once I can touch

What my heart used to dream of

Long before I knew

Someone warm like you Could make my dreams come true

For once in my life

I won't let sorrow hurt me

Not like it's hurt me before,

oh For once I've got someone I know won't desert me

'Cause I'm not alone anymore
For once I can say

This is mine, you can't take it

As long as I've got love I know I can make it

For once in my life I've got someone who needs me

Bela prenda de Natal. Ainda não tenho.

E ainda falta uma semana para o Natal...

Ponto prévio: eu gosto do Natal. é verdade que este ano as coisas não estão a correr como nos anos anteriores... mas, mesmo assim, eu gosto desta época. dos doces, de escolher prendas, de ver as luzes nas ruas, de estar em família, de receber amigos...
Só que este fim-de-semana foi, no mínimo, intenso e se assim continuar garanto que há fortes probabilidades de passar a ser uma daquelas mulheres a que a palavra Natal provoca uma urticária generalizada.
Sexta-feira:
-sair do trabalho a correr para ir para casa tratar do filho e do jantar para dois familiares convidados
Sábado
- almoço em casa de amigos que terminou por volta das 17h
-corrida até casa para apanhar as prendas das amigas com quem ia estar num lanche de Natal. Lá trocámos prendas e demos o gato à tininha.
- corrida para casa para o jantar com mais dois amigos. Antes disso, rápida passagem pelo supermercado para comprar iguarias em falta.
Domingo:
- levar o filho ao parque porque o fim-de-semana não pode ser só para os adultos
- almoço com amigos da faculdade. Entre o frango assado e as batatas fritas, lá tivemos tempo para pôr alguma da conversa em dia (Su gostei de te ver embora tivesse um diabo de dois anos e meio entre nós), trocar umas prenditas e dar uns abraços.
- lar, doce lar, para meter o miúdo na cama. Isto sem sesta fica ainda pior.
- fim da tarde, voltamos para o carro. "Henrique, vamos ver o presépio da mãe da tia Catarina".
- Ás oito da noite lá fizemos a tão prometida visita à Avó Emília. Visita curtinha, e que deveria ter sido a maior porque, no fundo, são eles os que mais precisam de mimo e atenção.
Mas o Natal tem destas coisas, põe-nos loucos com a nossa própria agenda social.
E, por vezes, trocamos as prioridades.

sexta-feira, dezembro 15, 2006

Olá Carolina

A Carolina nasceu. O Natal chegou mais cedo com a vinda desta princesa que veio alegrar a vida de muitos.
Parabéns Carolina! Parabéns papás.

quinta-feira, dezembro 14, 2006

Excursionar

Ontem, quando cheguei a casa, tinha na caixa do correio um panfleto a anunciar umas fantásticas excursões a várias partes do nosso país. Do passeio natalício, com paragem em Fátima para pequeno-almoço de Natal, ao fim-de-semana na Serra da Estrela, eram várias as sugestões apresentadas, capazes de agradar muito boa gente.
Ao olhar para aquele panfleto não pude deixar de sorrir. Ao contrário deste tipo de excursões - que se destinam apenas a tentar vender produtos de uma tal empresa de seriedade duvidosa sob a desculpa esfarrapada de oferta de 2l de azeite (sim, é verdade) - lembrei-me das minhas excursões. Daquelas que fiz durante a minha infância com a minha família. Numa altura em que o dinheiro não era muito e as viagens de carro se resumiam à grande romaria anual à terra dos meus pais, o país foi-me dado a conhecer através dessas excursões, viagens organizadas por grupos de amigos e vizinhos que queriam passar algum tempo juntos e longe das suas vidas quotidianas, de muito trabalho e pouco lazer.
A minha mãe costuma dizer que fiz a minha primeira excursão com poucos meses de vida - O Bom Jesus, em Braga, foi o destino.
Depois das excursões familiares vieram as escolares... e que excitação. Lembro-me perfeitamente de não conseguir dormir com a excitação do dia seguinte, com o terror ante a possibilidade de não conseguir acordar a horas.
Hoje deixo-me seduzir pelo conforto do carro para viajar peloa país, faço-o com a minha família: somos três. É bom, muito bom. Mas ontem, senti-me nostálgica ao ver aquele panfleto. Tive saudades da camioneta cheia, do farnel para o almoço, do espírito de camaradagem entre vizinhos, da escolha do melhor lugar para a viagem.
Ontem apateceu-me ser pequenina outra vez.

terça-feira, dezembro 12, 2006

Chegou o Natal


Ontem fui à Baixa mostrar as iluminações de Natal ao meu filho. Ele, que é louco pelo Natal, pelas luzes, pelas cores, pelo pinheiro e pelo Pai Natal (desde que mantido a uma distância mínima de segurança, claro está).
Ontem fui à Baixa, subi e desci a rua do Carmo, circundei o sino gigante do Rossio, desci a rua Augusta, tirei a fotografia da praxe em frente à "maior árvore de Natal da Europa", subi a rua Nova do Almada e regressei a casa.
Ontem estive de mãos dadas com os meus dois amores (por imposição do mais pequeno dele, claro) e com uma amiga muito querida. Comemos castanhas, demos as mãos e rodopiámos, os quatro, qual de nós a criança mais pequena.
Ontem, inundados pela inocência de um miúdo de dois anos, estivémos ali, próximos, livres, nem que por breves segundos, alheados das nossas dores. E, pela primeira vez este ano, fez-se Natal no meu coração.

Afinal nem tudo corre mal na vida..

Morreu o Pinochet...
porra, uma boa notícia em semanas.

segunda-feira, dezembro 11, 2006

Conversa alheia

Se há coisa que gosto de fazer quando estou sozinha é deixar-me levar pelas conversas alheias. Estar sentada numa qualque esplanada e, sem querer, sem pedir, ser informada de alguma verdade cabeluda, é, no mínimo, irresistível.
Hoje fui ao Chiado, e como eu gosto do Chiado.
De passear pelos alfarrabistas, de ver as pessoas nas esplanadas, de sentir a luz da cidade.
Hoje fui ao Chiado almoçar e enfrentar a loucura das prendas de Natal em falta.
Sentada numa pequena mesa a tentar mastigar um hamburguer sou surpreendida pelas verdades insondáveis da mesa ao lado.
Há pessoas que ainda se preocupam com a vida alheia, que vivem a vida dos famosos como se da sua se tratasse... ri-me, ri-me muito, mas depois fui invadida por uma certa tristeza... viver desta forma a vida dos outros faz-nos pequenos, sem mundo...
Será?

quinta-feira, dezembro 07, 2006

Back to Basics


Hoje regressei aos básicos... e que bons que são. Radiohead no seu melhor
Let Down
Transport, motorways and tramlines,
starting and then stopping,
taking off and landing,
the emptiest of feelings,
disappointed people, clinging on to bottles,
and when it comes it's so, so, disappointing.
Let down and hanging around,
crushed like a bug in the ground.
Let down and hanging around.
Shell smashed, juices flowing
wings twitch, legs are going,
don't get sentimental,
it always ends up drivel.
One day, I am gonna grow wings,
a chemical reaction,
hysterical and useless
hysterical and
let down and hanging around,
crushed like a bug in the ground.
Let down and hanging around.
Let down,
Let down,
Let down.
You know, you know where you are with,
you know where you are with,
floor collapsing, falling, bouncing back
and one day, I am gonna grow wings,
a chemical reaction, [You know where you are,]
hysterical and useless [you know where you are,]
hysterical and [you know where you are,]
let down and hanging around,
crushed like a bug in the ground.
Let down and hanging around.

quarta-feira, dezembro 06, 2006

esta é difícil...

- Mãe, gostas da Floibela?
- De quem, Henrique?
- Da Floibela?
- Quem é essa?
- É aquela menina bonita que canta.

terça-feira, dezembro 05, 2006

Hoje queria estar aqui



No verde e amarelo dos campos de girassóis da Toscana... longe da chuva que se abateu sobre a minha cidade; longe do cinzento que se abateu sobre mim.

segunda-feira, dezembro 04, 2006

E no meio de tantas dores surgem as minhas

22h10
Mãe: Desculpa estar a ligar a esta hora mas preciso de ajuda. Tu e o teu irmão têm de ajudar o pai a sair desta apatia...
Filha: ... Queres que fale com ele?
Mãe: Quero tê-lo de volta. Não aguento tanta tristeza

Não sei

Porque me doem tanto estas mortes?
Por não saber a que distância está a minha? Por ser obrigada a pensar nisso todos os dias?
Por querer receber nos meus braços as que me são especialmente queridas e muito sofrem?
Por que não consigo seguir em frente, eu que nem era íntima de nenhuma delas, que nem os conhecia a eles?
Porquê?
Por que motivos os meus olhos se enchem de água de cada vez que penso nelas, no que já não vão viver...

sábado, dezembro 02, 2006

carta Aberta à "jornalista" Catarina Cristao


Vidas de infortúnio
Assim se chama o texto assinado por Catarina Cristão na última ediçao do semanário Sol. A notícia promete ser importante, já que tem chamada à primeira página e anuncia contar a história dos quatro portugueses mortos no Chile.
A mim, que sou uma pessoa crente na capacidade dos jornalistas, pareceu-me que iria ver no interior do jornal um perfil dos quatro amigos (coisa que me parece ainda não ter acontecido, pelo menos não na mesma publicação).
Mas não, nada disso, o que Catarina Cristão nos traz é, longe de ser uma bela peça de prosa, ou mesmo um belo texto jornalístico, um pedaço de lixo. Uma vergonha.
Nao é um texto ofensivo para as famílias, nao tenta apontar pormenores sórdidos das vidas destes quatro amigos. Mas, a meu ver, é ainda pior, do ponto de vista jornlístico. E vejamos se me consigo explicar, porque a minha indignação é tao grande que tenho receio que me tolha o raciocínio.
Para começar, cara Catarina, gostava de saber qual é o seu ponto de vista nesta notícia. Onde está o seu lead? qual é o seu objectivo? Dar-nos informações concretas sobre a morte deles não é, porque não nos dá novidades: pode ter sido o mau tempo. Sim, pode. Mas também pode não ter sido. Não é dizer-nos quando serão os funerais ou quando os corpos poderão chegar a Portugal (pode ser hoje ou amanha, diz você referindo-se a sexta ou sábado). Ora eu, assim como grande parte dos amigos da Zé, da Cláudia, do César e do André sabemos que é mentira e sabemos quando é que eles chegam. (Informou-se mal...)
Então o que a move, se não o sentido de informar o leitor?
Só encontro uma resposta: o sensacionalismo usando o seu mais vil disfarce: o de um suposto trabalho sério e algo poético sobre a morte de "colegas" de profissão.
O que lhe importa não é a morte destes quatro amigos, pessoas que valem o mesmo, em termos de vidas humanas. Por mais que gostasse da Cláudia, sei que a morte dele é tao estúpida como a da Zé, a do César ou a do André. É igualmente brutal, é igualmente inexplicável.
Isto para mim, porque para si a coisa é diferente. Para a sua brilhante mente (de resto tão brilhante quanto a do editor que permitiu a publicação do texto em questão), o quer importa é o grau de desgraça que cada uma destas pesoas coleccionava antes de morrer.
Vejamos: a Zé tem honras de abertura e destaque não por ser a pessoa extraordinária que decerto era, mas porque já não tinha pai nem irmão, deixando a sua mãe sozinha neste mundo.
Não se atrapalhem no entanto, diz-nos a Catarina Cristão, porque, e passo a citar, "a mãe é uma pessoa muito espiritual e terá recebido a notícia com alguma serenidade." A sério? Acha mesmo normal que isso tenha acontecido Catarina? ainda bem que nos deu esta informação.
A segunda pessoa em destaque é o César. e porquê? Porque na contabilidade das mortes estava à frente dos outros. Já tinha perdido o pai e a mãe.
O César é, para si, mais importante que a Cláudia que, nesta contabilidade mórbida, só podia reclamar a morte do pai. Ah, isto se "uma irma gravemente doente" não for suficiente...
O André, o mais novo dos quatro, tem direito a três linhas nesta pela peça. Já adivinharam, por certo. Tem pais e irmaos vivos. Que desperdício...
É triste, revoltante, este tipo de jornalismo.
Eu já não tenho carteira profissional e, confesso, fiquei especialmente aliviada por não a ter. Porque, no momento em que li esta notícia, senti uma enorme vergonha pelas pessoas que me são muito queridas e que são jornalistas. Jornalistas à séria, não como você, Catarina.

P.S- No destaque do seu texto aparece "Maria estava com medo..". quem é Maria? Se não sabe, para os amigos ela era Zé. Quer ser poeta, escreva um livro. Quer fazer bonito a escrever? Então leia o texto da Fernanda Câncio na edição de 26 de Novembro do Diário de Notícias e aprenda como se pode fazer bonito, escrevendo bem.
ACTUALIZAÇÃO:
- Como se não bastasse o facto da notíca por si já ser grave eis que sou informada que os pais do César não morreram. Inacreditável. Inacreditvável. O que se pode dizer deste tipo de jornalismo?

quarta-feira, novembro 29, 2006

corpo em movimento


Ontem fui ao teatro.
Que saudades.
Faz agora dois anos que saí da Capital, que me deixei de jornaladas, de teatros e de espectáculos de dança.
Não tenho saudades de redacções cheias de fumo, de pessoas que começam a trabalhar às 4 da tarde, de notícias de agenda, de jornalismo de rabo sentado na cadeira.
Sinto falta... sinto falta de falar com pessoas interessantes, de encenadores que expliquem o seu ponto de vista, de coreógrafos capazes de me iluminar, de intérpretes cheios de singularidades.
Ontem vi o Miguel Borges, e já não o via há algum tempo. E que saudades!
Ali, no escuro de um barracão na Casa dos Dias d'Água, vasculhei a mala, como nos velhos tempos, à procura de papel e caneta. E lá estavam.
Escrevi o seguinte:
Expressividade máxima.
Fisicalidade quase animal.
O Miguel Borges é assim. Um corpo em movimento. Há muito que não o via no palco. quando terá sido a última vez? Um Beckett? Um Spiro Scimone? Não me recordo ao certo. Mas é muito reconfortante vê-lo para além dos anúncios da cerveja.
Gostei de o ver. O seu corpo em movimento; a sua totalidade enquanto actor que passa, em grande parte, pela fisicalidade que imprime aos seus personagens.
Esta noite, enquanto o via, pensei na vida, na sua celebração, na alegria de estar e de poder partilhar.

Acordei

Acordei
Abri os olhos
A luz era forte
tão forte que me cegava
Voltei a fechá-los
Esperei que tudo fizesse mais sentido
E quando abri novamente os olhos vi com clareza
Lá estavas
a rir
a rir muito
a rir de nós
o teu riso não permitia tristezas
não permitia choro
nem infelicidade
Porque choras tu?
Por mim?
Não o faças.
Eu aqui estarei sempre aí
A minha ausência só se fará sentir se o esquecimento o permitir
Lembrem-me como sempre fui
Recordem-me na memória de cada um de vocês e eu serei ainda mais do que fui
porque serei o somatório de todas as memórias
Acordei
O dia não era tão azul como desejava
A vida não era tão plena como eu queria
Mas, estranhamente, a tua ausência não doía tanto
Porque em todas as bocas
em todas as palavras dos que te conheceram e amaram
te conheci melhor
mais completa
Acredito que sejas assim

(P.S. Para a Cláudia Magalhães, para a Susana C P)

terça-feira, novembro 28, 2006

A vida também é isto




Seis meses. Foi há seis meses. Ele e ela estavam sentados numa pequena esplanada de um não muito grande restaurante (em tamanho, porque a qualidade da comida era suberba), numa vila ainda mais minúscula perdida num alto lá para os lados da Toscânia.

Entre uma bela garrafa de vinho, uma piza de cogumelos frescos e um atum braseado, eles perceberam que a vida também pode ser isto: puro prazer, pura degustação. De comidas, de bebidas, de cheiros, de sentimentos. Ela sentiu-se plena e não sabe se lhe disse isso. Obrigada, amor.

segunda-feira, novembro 27, 2006

incertezas existenciais

Há momentos em que me sentiria uma pessoa muito mais feliz se acreditasse que Deus existe. Gostava de ter a certeza que existe um lugar melhor, onde a relva é mais verde, as pessoas mais felizes e o sofrimento menos usual.