terça-feira, novembro 14, 2006

Dia nã, nã, nã

Hoje sinto-me como se tivesse sido cilindrada por um camião... estou cansada, tenho dormido pouco e estou com muito trabalho...

sexta-feira, novembro 10, 2006

És feia, és má!!!

Disse-me hoje o meu filho à hora do jantar, com os olhos rasos de lágrimas, depois de eu lhe ter dado a primeira bofetada da sua vida. Doeu-me tanto esta frase.
Li, há uns tempos, que uma bofetada na cara é o expoente máximo da humilhação para uma criança. Não concordo. Mas hoje, quando olhei para aquela carinha triste e verdadeiramente zangada comigo, senti-me a pior mãe do mundo. A mais cruel.
O pior foi quando, três minutos depois, ele me deu um beijo e disse que me desculpava... aí sim, a humilhada fui eu.
O meu filho tem dois anos e são muitas as vezes em que me tra do sério. Costumo dizer que 1 mês de creche estragou o que demore dois anos a construir. Faz birras por tudo e por nada, grita, desafia-nos...
Às vezes deixa-me no limite entre a sanidade e a loucura total. Mas hoje fui feia e fui mesmo muito má

terça-feira, novembro 07, 2006

Este carrossel não pára

Sempre a rodar, sempre a girar.
Agora estou casada com uma quase celebridade. O meu gajo escreveu um livro, eu editei-o e agora esperamos que se vendam muitos exemplares.
A todos os amigos fica a nota: 8% do preço de capa (sem IVA) revertem a favor deste casal de amigos... comprem, ofereçam no Natal que a gente não leva a mal.

segunda-feira, novembro 06, 2006

O mundo é um lugar estranho...

Disse-me há pouco tempo uma amiga. E que sábias palavras

domingo, novembro 05, 2006

Agrhhhhh

Há dias maus.
Vá-se lá saber porquê, ando nesta azáfama e nesta confusão de sentimentos a tentar manter o mínimo de equilíbrio possível. Hoje tive de levar com a fúria de uma amiga porque não tinha sido avisada das últimas e graves notícias.
Desculpem se me esqueço de contar a alguém, mas eu própria não sei muito bem como lidar com isto. Não está fácil e eu não tenho um manual de instruções.

sexta-feira, novembro 03, 2006

Gosto de ti

O meu pequeno mundo é povoado por uma meia dúzia de seres fantásticos. Descontando os pais, gajo e filho (que esses fazem parte da mobília),´restam as minhas gajas. E, eu até tenho amigos homens,mas as minhas gajas são insubstituíveis, são lindas, maravilhosas, ajudam-me a levar a vida com mais tranquilidade e, sobretudo, com mais alegria.
Neste momento, uma das minhas favoritas, aquela que tem o cartão de acesso mais directo ao meu coração, está triste, muito triste. Está a passar por algo que só posso imaginar. Está a passar, creio, pelo mesmo que passou o meu marido há um ano e meio quando lhe disseram que eu podia morrer a qualquer momento.
Eu, que não sei o que é estar desse lado, amiga, que só sei o que é estar do outro, queria muito dividir contigo essa dor e essa angústia que estás a sentir. Mas não consigo. Tudo o que possa fazer ou dizer vale de muito pouco e em nada pode alterar o que estás a sentir. Mas quero que saibas que o meu pensamento nem um momento está longe de ti e que és uma pessoa muito bonita. E que a vida tem de te reservar coisas boas.
Gosto de ti.

Mas que porra!

Quando crescemos a vida altera-se significativamente: primeiro com as responsabilidades da nossa própria relação, depois a casa, os filhos, o trabalho... dou por mim, em algns das, a desejar ser pequenina, muito pequenina, assim como o meu filho, cuja preocupação maior é ver dois ou três episódios do Ruca de seguida.
Quando entramos na mítica barreira dos trinta, os problemas inerentes à nossa vida alargam-se aos nossos pais e à saúde deles. No meu caso, à minha própria.
Este tem sido um ano terrível. Comigo em recuperação sempre pensei que as coisas fossem mais fáceis, mas olho para o lado e só vejo desgraça e tristeza. Os meus pais, os pais dos meus amigos, os maridos dos meus amigos... A vida deixou de ser aquela coisa bonita e despreocupada para estar sempre envolta num papel muito grosso, que não deixa ver o que está lá dentro, sempre cheia de surpresas e muitas delas já não são agradáveis.
Quando pensamos que vamos, finalmente, ter alguma paz, que vamos começar a viver a vida com alguma plenitude, longe do buliço da adolescência, aí vem mais uma catanada e entramos na fase da suspensão, tudo em suspenso.

quarta-feira, outubro 25, 2006

Ser crescida é complicado

Somos todas mulheres emancipadas, com o seu trabalho, casa, no meu caso, marido e filho. Lidamos com prolmeas diários de incompetência, estamos sempre a dizer "mas como é possível trabalhar com esse anormal?, porque não o despedem?", e coisas do género. Mas depois, na hora da verdade, quando depende de nós despedir alguém começamos a ficar com aquele frio na barriga e a desejar não ter de tomar essa decisão.
Passo a explicar: depois de muito penar decici contratar uma empresa para me angariar uma empregada. Explicados os requisitos à tal agência, mandaram-me uma empregada, a Marina. Pois bem, no primeiro dia a Marina deu a volta à casa, cheia de brios. Pensei que a coisa ia correr bem.
Mas, passada a euforia inicial, (ou, na gíria masculina, o tesão do mijo) a verdade é que a Marina deixa muito a desejar, especialmente tendo em conta que me foi apresentada como uma profissional. Demora 25 minutos para passar uma camisa, neste mês e meio de trabalho fez o jantar duas vezes (deveria fazer sempre), deixa coisas fora do sítio e não consegue pensar sozinha. Todos os dias tenho de lhe deixar um bilhete com todas as tarefas muito explicadinhas...
E agora sinto-me culpada porque lhe vou ter de dizer que não posso continuar com ela lá em casa. Acham isto normal? Logo eu que ando sempre a reivindicar.

terça-feira, outubro 24, 2006

Paragem rápida

Até tenho muito para escrever.
O tempo está uma merda, o trabalho aperta, eu sinto-me cansada e apetece-me escrever. Mas não posso, está é apenas uma parage rápida. O Henrique está aqui ao colo e exige uma paragem obrigatória e demorada na página do Noody. "Queio bincai com o Noody, mamã". Lá vamos nós. Pode ser que dê para voltar mais tarde.

quinta-feira, outubro 19, 2006

Isto não está fácil - Parte II

Pois é... a verdade é que o tempo passa mas as coisas continuam muito parecidas com o que estavam há uma semana.
O Henrique continua a adaptar-se à creche (já não bate em tudo o que mexe mas fica a chorar quando me venho embora); agora está até em casa da avó doente com uma infecção respiratória.
O trabalho continua em doses industriais.
E eu estou tão cansada que me sinto a colapsar.
Mas adivinham-se momentos melhores. Amanhã espero poder finalmente jantar coma s minhas gajas... é verdade que uma delas não pode mas, como já disse, desta vez vais ahaver jantar, nem que seja numa roulotte no Campo Pequeno a comer uma sandes de courato, carago!

quinta-feira, outubro 12, 2006

Isto não está fácil

Há muito tempo que não passo os meus dedinhos por estas bandas...
Isto não está fácil. Entre o muito trabalho (estou às Aranhas com uma revisão do livro da Carmen Miranda), a viagem do marido à Venezuela, a operação à pila do filhote, a recuperação da operação, as consultas do meu pai e a entrada do filhote na escola, cá estou não a pedido de muitas famílias mas da minha sanidade mental.
Esta tem sido a semana do horror. O Henrique entrou para a escola. Depois de dois anos de doce ninho, de mimo exclusivo da avó, de atenções e salamaleques, ele lá aterrou, às 10h da passada segunda-feira, numa sala cheia de meninos e meninas mais ou menos adaptados, mais ou menos chorosos.
E, se ele ficou bem e sem chorar, a verdade é que o comportamento dele aqui em casa nada tem a ver com o que já foi. De repente ficou malcriado, gria, chora por tudo e por nada, não come...
Isto não está fácil.

Mas o mais frustrante é a forma como, por vezes, olha para mim. Com uns olhinhos cheios de raiva, como que a perguntar-me "porque me deixas ali, porque não posso ir para a casa da minha avó".

amanhã é sexta. Depois vem o fim de semana. Tudo há-de melhorar

segunda-feira, setembro 18, 2006

Estado de espírito

Hoje de manhã, a caminho do trabalho, cruzei-me com uma grávida. Uma dquelas mulheres para quem a gravidez deve ser das fases mais fantásticas da vida. Isto porque, apesar do tamanho descomunal da barriga, ela lá ia a descer a rua do Sol ao Rato com um sorriso de orelha a orelha e com uma atitude do género "estou gira, não estou?".
Gostei de a ver. Pensei para comigo "Que mulher bonita." Mas, simultaneamente, fiquei com uma pontinha de inveja. A minha gravidez não foi muito complicada, mas também não foi um mar de rosas. Passei um mês de cama com hemorragias e a partir do sétimo mês parecia o boneco da Michelin, de tão inchada que estava. No entanto, a minha gravidez foi fantástica. Porque eu adorei estar grávida, adorei passear-me de roupa justa e grandes decotes, de andar na praia de biquini até à vespera do Henrique nascer, de me exibir, de me achar bonita mesmo quando estava horrorosa de tão inchada.
Senti uma pontinha de inveja porque não vou voltar a engravidar. Logo eu que queria, pelo menos, mais um filhote. Mas foi uma inveja sem tristeza, apenas a constatação de um facto.
E enquanto continuava a subir o resto da rua veio-me à memória o que pensei quando soube que estava doente. É muito curioso ver como as pessoas são "inocentes", como não têm grande noção da realidade. Pelo menos eu fui assim. Quando soube que estava doente, uma das primeiras pessoas a quem liguei foi à minha ginecologista porque queria saber como fazer para garantir que poderia voltar a ter filhos (uma vez que a quimioterapia pode provocar infertilidade e menopausa precoce). Naquele momento (e nos dias que se seguiram) a minha preocupação não foi saber se iria sobreviver, mas garantir que poderia voltar a ser mãe. E mesmo depois de perceber a gravidade da situação, de entender quais eram as hipóteses de tudo correr bem, eu perguntei ao meu oncologista na promeira consulta (quase dois meses depois da operação), se os tratamentos que ia fazer me impediriam de ser mãe.
Na altura fiquei indignada com a resposta que ele me deu: " Eu não sei o que você pensa mas, se fosse a si deixava-me estar quietinha...". Mas quem era aquele gajo para estar a dar sugestões sobre a forma como eu queria conduzir a minha vida? Com que direito me mandava estar quietinha? Ainda por cima com aquele ar de superioridade...
Hoje consigo perceber de outra forma as suas palavras. O que ele quis foi alertar-me para o risco de uma gravidez. Eu, em muitos apspectos físicos, já não sou quem fui. Para além dos riscos óbvios de uma gravidez numa pessoa que teve cancro (crescimento avassalador das células, o que pode potenciar o aparecimento de células malignas), eu não tenho estômago; sou uma pessoa de baixo peso. Iria passar por muitos dissabores se voltasse a engravidar.
De certeza que não iria descer a rua de túnica beringela, com um sorriso de orelha a orelha.

quarta-feira, setembro 13, 2006

Um prémio para esta senhora


Um dia desta semana, acho que na segunda-feira, dei comigo a ver um episódio do "Sexo e a Cidade", uma das minhas séries do coração. Soa a cliché, coisa e tal, mas é mesmo assim. Gosto daquelas gajas e, por mais que a vida delas seja fabricada num estúdio e restrita aos 45 minutos de lazer que nos proporciona, a verdade é que há sempre um ponto de cOntacto com a vidinha real que a malta vive aqui em Lisboa, Portugal dos pequenitos.
E eu, que não sou diferente do resto das mulheres que em todo o mundo vêem a série, acabo sempre por me identificar com uma cena ou dou comigo a discutir em voz alta a decisão que uma destas quatro malucas tomou, como se elas me ouvissem, como fazia a minha avó com as personagens das novelas.
Mas esta semana foi diferente.
A Samantha tem cancro e é ali, no meio de um broche (sim porque a senhora não está doente da boca) que tem o primeiro contacto com um dos efeitos da sua doença... a queda de cabelo! Contado parece hilariante. O namorado fica com uma mecha enorme de cabelos dela na mão. E como devem calcular, não há tesão que resista... não percebemos, à primeira, o que mais a incomodou: se a queda de cabelo ou a falta de tesão do namorado. Mas é só à primeira vista.
No fundo este é apenas mais um dos motivos pelos quais eu gosto tanto desta série: porque não camuflua a realidade: ela continua a ser a mesma mulher de sempre, com as mesmas aspirações, desejos e comportamentos. Só que agora está doente. E, embora tente levar a vida da forma mais natural e normal possível, a verdade é que a sua vida está interrompida, povoada de medos e angústias.
"Deixa que te fale dos meus medos", diz a páginas tantas à sua amiga Carrie. E é aqui que desato a chorar. Porque, por mais que lutemos, por mais vontade que tenhamos de levar a vida para a frente, há algo em nós que muda. O MEDO passa a fazer parte da nossa vida. A MORTE passa e povoar os nossos pensamentos.
Foi reconfortante perceber que há quem consiga passar para uma série de ficção um pedaço de realidade tão duro, sem melodramismos, sem sentimentalismos baratos, sem lágrimas desnecessárias....
Esta senhora é uma grande senhora! merece o prémio que tem nas mãos.

terça-feira, setembro 12, 2006

Barulhinho Bom

No domingo fui ao concerto da Marisa Monte.
Como acontece sempre que a oiço, emocionei-me. Gosto da forma como ela se move em palco, gosto do modo como pensa os espectáculos, como um todo em que cada detalhe não é deixado ao acaso; gosto do modo como canta (aquela voz é fantástica); e adoro as letras das suas músicas. Já ri e chorei muito a ouvir Marisa Monte. Foi a banda sonora de muitos momentos felizes, de algumas desilusões e desencontros de amor...
Aquei fica um pedaço de uma letra que me é particularmente querida


Eis o melhor e o pior de mim
O meu termômetro, o meu quilateVem, cara, me retrate
Não é impossívelEu não sou difícil de ler
Faça sua parte
Eu sou daqui, eu não sou de MarteVem, cara, me repara
Não vê, tá na cara, sou porta bandeira de mim
Só não se perca ao entrarNo meu infinito particular

segunda-feira, setembro 11, 2006

Acabou

Nem foram particularmente boas, as minhas férias mas, mesmo assim, acabaram. E a sensação não é boa...
Estou de volta ao trabalho.

sexta-feira, setembro 01, 2006

Estou à beira de um ataque de nervos

Estou de férias mas não parece. A minha casa está em obras e, por mais que eu veja o senhor Lourival e o senhor Diego aqui a labutar até às seis da tarde, a verdade é que tudo me parece andar muito devagar, demasiado devagar... Nunca imaginei que mudar umas madeiras de umas ombreiras pudesse transformar-se neste pesadelo.
Como se não fosse confusão bastante para a minha vida, despedi a minha empregada.... isto está lindo, está!
Bem, este blogue vai fechar para férias, porque eu vou deixar a casa entregue aos meus amigos Vitor e Carla e vou para a Costa Aletejana. Pode ser que quando chegar acorde do pesadelo de férias!!!1

sábado, agosto 26, 2006

AJUDA

Alguém conhece um bom otorrino com experiência em traqueostomias?
Preciso de um com urgência.
Vá, perguntem aos vossos amigos.
Obrigada

Férias atípicas

Estou de férias. E bem que preciso delas. Mas estas são umas férias bastante atípicas. Não estou a planear uma viagem, nem sequer umas idas à praia. Estou tão esgotada que só me apetecia fazer uma terapia do sono. Dormir, dormir... assim não teria contacto com a realidade.
Sinto-me estranha, sem grande utilidade, não me parece que esteja a ser de grande ajuda para o meu pai.
Talvez descansando o possa ajudar mais.

quarta-feira, agosto 23, 2006

Amigos

E, de repente, quando tudo parece cinzento e triste, os amigos aparecem, em todo o seu esplendor e ajudam a apaziguar a nossa dor. Dão-nos alegrias, amaciam-nos a alma.
Obrigada

Dúvida existencial

É impressão minha ou a maioria dos cirurgiões deste país não passa de um bando de anormais?
Ontem, um médico teve a coragem de dizer ao meu pai que eles (médicos) não estavam ali (hospital oncológico) para falar com os doentes.
I beg your pardon????????????????????

terça-feira, agosto 22, 2006

Obrigada L

Ontem o dia não foi particularmente bom. De corrida em corrida consegui ir ao escritório, passar por casa à hora do almoço para ir buscar o almoço do meu pai, passar no hospital, vê-lo comer, conversar um bocadinho com ele, levar-lhe o jornal, fazer-lhe um desenho, voltar para casa, almoçar, dar um pouco de atenção à minha mãe e ao meu filho, dar-lhe banho e, já no fim do dia, consegui sair para jantar com uma amiga.
E que bem que fiz.
Não que tenha deixado de estar triste, nada disso. Mas o meu estar triste é um sentimento prolongado no tempo e na minha existência; prende-se com a saúde do meu pai, prende-se com a sua tristeza. Mesmo quando sorrio, mesmo quando consigo fazer outras coisas que não pensar no seu olhar, ESTOU triste.
Mas ontem foi especial; um jantar bom, livre, solto, sem preocupações, sem máscaras. Nenhuma de nós precisou esconder-se da outra; nem foi preciso dizer porque estava triste ou porque estávamos ali. A minha amiga L é linda, no sentido mais pleno que a palavra possa ter: quando fiquei grávida costumava dizer que queria ser o tipo de mãe que ela é. E, apesar de saber que ela não se sente copnfortável nesse papel, espero que ela saiba que o que dizia era verdade, como o ainda é hoje. Ela não é obcecada com os certos e os errados da vida; vai fazendo, vai errando, vai aprendendo, vai crescendo...
Ontem foi muito compensador. Consegui sorrir com vontade.

segunda-feira, agosto 21, 2006

Fuga

Olho pela minha janela e não vejo o sol. Não consigo sentir-me contagiada pela onde de calor que dizem ter voltado à cidade. É novamente Verão, contaram-me, mas no meu coração está um frio gélido. Está tudo sombrio. Gosto do calor, gosto de estar contente... mas não consigo. Estou cansada de tantas lutas, de tanto tentar receber a vida com um sorriso nos lábios.
Apetece-me fugir para uma ilha deserta, sozinha, sem ruídos, sem problemas, sem dores.

sexta-feira, agosto 18, 2006

O meu pai



O meu pai sempre teve um ar grave e sério. Não é uma pessoa de muitos risos. Principalmente, não é uma pessoa de rir sem motivo. Mas quando o meu pai ri tudo se ilumina. Porque, quando o faz é muito genuíno.

Passei grande parte da minha infância apaixonada pelo meu pai. Acho que é o que acontece com a grande maioria das meninas. O meu pai era o centro do meu pequeno universo, onde também havia lugar para as bonecas e, já nuns degraus abaixo, para a minha mãe. Era mesmo assim. ele chegava a casa e eu ia esperá-lo; quando estava cansado fazia-lhe uma massagem; arranjava-lhe os pés quando estes estavamo doridos das botas... havia sempre um esmero extra no seu lugar da mesa.

Depois, o tempo passou; eu cresci, tornei-me uma adolescente e aí passei grande parte da minha adolescência zangada com o meu pai. Eu não conseguia perceber o seu autoritarismo;"não podes isto, não podes aquilo"... deixava-me triste que ele não confiasse em mim, não me desse o benefício da dúvida. Hoje acho que ele também estava confuso. De repente a sua menina tinha crescido, queria ser adulta, queria ter liberdades e privilégios que só os adultos têm... e isso não é coisa fácil para um pai aceitar.

Quando saí de casa destrocei o seu coração. Ele sonhava com um grande casamento. Igreja, música, véu, vestido branco, festança que deixasse toda a vizinhança roída de inveja. Mas eu, pouco dada a satisfazer desejos alheios, troquei-lhe as voltas. Saí quase sem aviso, no dia em que chegou o roupeiro... ele ficou destroçado

Mais tarde veio o hábito. Ele habituou-se aquilo a que chama "um novo filho" e a ter uma filha que não era casada. Estranhamente, voltámos a estar mais perto um do outro. Eu voltei a ver nele aquela figura pela qual era apaixonada em menina e ele pôde volltar a amparar-me. Sem o autoritarismo da adolescência, porque eu era já uma pessoa distinta, fora do seu domínio, mas com o amor de sempre.

Quando fiquei doente vi nos seus olhos a revolta. O sorriso sumiu-se de novo. Percebi que ele não entendia porque razão eu estava a sofrer daquela forma, porque motivo não podia ser ele a estar no meu lugar. Mimou-me, nunca me deixou só. Esteve sempre presente.

Depois ficou ele doente e eu não quis acreditar. Para mim era inconcebível tanta dor, tanto sofrimento em tão pouco tempo. Queria fazê-lo sorrir, mostrar-lhe que podemos superar os maiores obstáculos quando queremos... No início pareceu-me que ele ia conseguir. Estava forte, determinado. Mas fui-me apercebendo que ele não tinha mais forças nem sorrisos. Tinha-os gasto todos comigo, a tentar animar-me, a tentar animar-se da minha dor.

Do meu casamento guardo muitas memórias fantásticas. Mas a memória que guardo do meu pai é a desta foto. Triste, pensativo. De olhos baços. Sem sorriso.

E agora, em mais um momento difícl, não consigo olhá-lo nos olhos e dizer que vai correr tudo bem. São poucos os medos que lhe conheço mas sei, desde o início da sua doença, o que o mais atormenta: a ideia da mutilação.

Queria tanto voltar a vê-lo sorrir!

quinta-feira, agosto 17, 2006

Porquê?

E ele há dias em que estamos mesmo de costas voltadas para o mundo!
Se há coisa que me deixa furiosa é a sensação de frustração causada pela injustiça. Ver a mediocridade premiada, por exemplo. Ver a tristeza dos outros causada por acontecimentos inexplicáveis de tão absurdos que são...
Agosto não está a ser um bom mês, é verdade. Os astros não me acompanham. Mas, no final das contas, o que são pequenas frustrações, pequenas insatisfações, comparadas com um bem maior que é a vida. Ou, posto de outra forma, comparadas com um mal irreparável que é a morte?
Chiça, que isto não está fácil.

quarta-feira, agosto 09, 2006

Insatisfação crónica

Ando neura. Por tudo. Por nada.
A maior parte das vezes penso que tenho motivos para esta neura. O ser humano consegue ser realmente merdoso e eu, tenho tido a minha quota parte de experiências com merdosos.
Mas há momentos em que penso que o problema é meu e não dos merdosos. Afinal o que quero eu fazer? Onde quero trabalhar? De que forma posso sentir-me mais realizada? Será que não sou uma insatisfeita por natureza? Será que este nó vai mesmo passar?

Saudadinhas


Se ele está em casa queixo-me da rotina, da ida a casa da avó, do banho, da comidinha, da impossibilidade de sair de casa para apanhar ar. Se ele está fora é esta sensação de vazio horrível que me invade, de tal modo que até tenho saudades das birras monumentais como esta, devidamente documentada.
Volta filhote!

segunda-feira, agosto 07, 2006

A morte sem nome

"Me preparo para a morte como se preparam para a vida. Todos os dias. a dor nunca é insuportável quando você sabe que acaba.
Assim fui uma mulher maior. Maior do que a vida. Cicatrizes e experiências. Quebrando e reconstruindo. Rasgando e recosturando."
Santiago Nazarian in A Morte Sem Nome

quinta-feira, agosto 03, 2006

Citação

"No livro que eu tinha na mão, o único sobrevivente da minha biblioteca, Schianberg escreveu: o detalhe é a alma de toda a fantasia. Qualquer detalhe, por mais inusitado ou pervertido que seja. Daí os fetiches. A particularidade do desejo. E um detalhe pode tornar-se muitas vezes mais excitante que a própria fantasia."
Marçal Aquino Eu receberia as piores notícias de seus lindos lábios

segunda-feira, julho 31, 2006

Estou bem, obrigada

Há dias senti-me angustiada e assustada. Ao mínimo sinal de dor, de indisposição prolongada não consigo deixar de ficar assustada. Felizmente não é nada. Ou melhor, é qualquer coisa, mas nada de saúde. Pelo menos não de saúde física. Estou a dar em doida, é verdade, mas para isso há remédio... mais cedo ou mais tarde.

terça-feira, julho 11, 2006

A ressaca

Agora que se foi o Mundial, e com ele a estranha sensação de irrealidade em que mergulhámos durante três semanas em que pensámos que o céu era o limite, resta-nos voltar à realidade. Ou melhor, ressacar com a realidade. Já não temos assistências do Figo para discutir, nem passes do Cristiano Ronaldo para rever na televisão. Já nem sequer praguejamos contra a França, os seus jogadores e treinador, que os pobres lá tiveram o castigo merecido.
Agora, estamos de volta à vidinha do costume, com os problemas do costume... e com aquela dor de cabeça de quem está com uma bruta ressaca.

terça-feira, julho 04, 2006

A neura

Hoje estou de chuva. Sinto-me como o tempo. Há uma neblina acentuada sobre esta minha cabecinha ruiva. Odeio chuva, principalmente no Verão. Agrhhhhhhhhhhhhhh
Dêem-me dias quentes, fins de tarde amenos.

domingo, julho 02, 2006

Até os comemos!


Depois de uma longa ausência, aqui estou, não para grandes conversas filosóficas, mas apenas para dizer: Obrigadinha Ricardo!

terça-feira, junho 06, 2006

Amigos - Parte II

Há dias cansativos, daqueles que parecem correr mal desde o momento em que nos levantamos da cama e que teimam em não melhorar mesmo com o passar das horas. Hoje foi um desses dias. Mas, ao contrário do qe seria normal numa situação destas, o dia acabou mesmo por se salvar. Ou melhor, salvou-se a noite. O reencontro com os nossos amigos, com aquelas pessoas que estão sempre perto do nosso coração, é mesmo das maiores compensações.
Obrigada R
Gostei muito da tua companhia e ainda mais do teu texto

terça-feira, maio 30, 2006

Os melhores do mundo

Talvez seja a proximidade do casamento que está a fazer de mim uma sentimentalóide. Talvez seja apenas eu a aperceber-me da realidade. Mas o que tenho para dizer é que os meus amigos são mesmo os melhores do mundo. Estou aqui às voltas em casa no meio de memórias fotográficas e estas relatam boa parte do melhor da minha vida. Mesmo nos momentos em que sorrir para a máquina era um suplício, mesmo quando a dor era muita, eles ajudaram-me a esboçar um sorriso, a ver o lado positivo da vida.
Obrigada

quinta-feira, maio 25, 2006

Ah, escrevam-me a mim, não aqui.
Há coisas que quero guardar só para mim.

Aos meus amigos

Vá, lanço aqui um apelo aos amigos do coração. Escrevam-me um textinho, por favor. Quero que me digam o que sentiram, o que vos passou pela cabeça e pelo coração quando souberam que eu estava doente. Agora que esses tempos maus estão mais para trás na minha memória, dei comigo a pensar que os que me amam também sofreram. Não fui eu a única a cair do cavalo com a notícia. Muitos mais houve que ficaram tristes, revoltados, sem palavras... quero saber o que sentiram.
Pode ser?

quarta-feira, abril 26, 2006

sábado, abril 22, 2006

Não há festa como esta

Eu sei que o tempo está uma porcaria e que o ideal de felicidade para um fim-de-semana como este é mesmo um par de pantufas e um canal de televisão com programação bastante estúpida. Mas este também é o fim-de-semana da Festa da Música.
Vá, toca a deixar as pantufas em casa e rumar ao CCB!

quinta-feira, abril 20, 2006

Calor que provoca arrepio

Tal como o menino do rio, tenho saudades do calor, daquele que provoca um arrepio.
Volta!

Afinal, quem somos nós?

Às vezes indago-me se ainda sou jornalista. Se é verdade que não escrevo um artigo há coisa de um ano, não é menos verdade que o bichinho continua a rondar-me. São muitas as situações em que dou por mim a pensar e a agir como se ainda estivesse numa redacção. Gosto muito do que faço mas, talvez porque vivo rodeada de jornalistas, várias vezes me pergunto o que sou. Até quando tenho um formulário para preencher daqueles em que nos perguntam a profissão continuo a escrever jornalista.
Este fim-de-semana, no entanto, fiquei muito feliz por, na prática, não ser uma jornalista. Senti nojo, desprezo mesmo, por muitos profissionais da comunicação deste país. O modo como muitos dos orgãos de comunicação trataram a morte de um puto, não mais que isso, um puto de 22 anos fez-me ficar feliz por já não estar numa redacção.
Não conheci o Francisco Adam. Nunca o vi, nunca falei com ele, nem sequer era espectadora da série que protagonizava. Talvez por ser amiga de uma familiar dele me tenha sentido particularmente incomodada com a sua morte. Talvez seja o facto de eu própria ter estado tão perto da morte que me fez sentir um aperto no coração quando vi que aquele miúdo de 22 anos morreu de uma forma estúpida - porque todas as mortes na estrada o são -. Acho que já aqui escrevi a confusão que me faz não a morte, mas a falta de oportunidade de alguém que vai morrer se despedir dos que mais ama. Por isso, talvez me assustem mais as mortes inesperadas, por acidente, do que uma sentença do género da minha.
Adiante
Voltando ao Francisco, no próprio dia da sua morte, ainda ele não tinha saído da morgue do hospital, já algumas sanguessugas rondavam a casa dos pais na procura de um furo jornalístico. Expliquem-me uma coisa, por favor, o que pode justificar que um jornalista toque à campainha de uns pais que acabaram de perder o seu filho às DEZ da noite? Como é que tal é possível?
Ainda no domingo, o Jornal da Noite, da TVI, teve outro dos muitos momentos tristes que protagonizou em torno desta história ao azer um directo da morgue do hospital onde o Francisco se encontrava. Digam-me, do ponto de vista jornalístico, onde está o valor notícia deste directo? Por mais que me esforce não consigo encontrar uma resposta. O rapaz já tinha morrido, e nem sequer tinha sido no hospital, não havia rigorosamente nada a acrescentar com aquele directo a não ser, talvez, a triste figura que o jornalista em questão fez, provavelmente obrigado por uma direcção de informação ignóbil.
A capa do 24 Horas de ontem nem me merece comentários. O que sentiu o rapaz que viu o Francisco morrer???? Só mesmo com um pano encharcado nas trombas.
O directo da missa e do funeral? Não vou comentar porque nem sequer consegui ver.
Será que tinha bebido? Será que estava mesmo a trabalhar? Se era tão tarde porque não ficou a dormir lá pelas bandas de Coruche? São comentários que tenho ouvido nos últimos dias de pessoas, umas que conheço, outras que apenas passm por mim no café. Todos eles são pertinentes, mas pointless no sentido em que ele já morreu, e não há nada que se possa fazer para alterar essa realidade.
Na sua tentativa de escavar, de encontrar a verdade dos factos, a versão que realmente encha o olho e a curiosidade dos leitores, tenho visto e lido coisas inacreditáveis acerca de um puto de 22 anos que teve a puta da infelicidade de morrer na altura em que a vida lhe começava a sorrir, no nomento em que a sua vida adulta iria realmente começar.
Penso nos pais dele, na falta de respeito pela dor daquela família. Será que algum director de jornal, algum director de informação se dignou a pensar que poderia ser um dos seus filhos a morrer daquela forma? Será que a estúpida justificação de que os fãs tinham o direito a assisitir à missa de corpo presente e ao funeral seria suficiente para eles?
É em momentos como este que sinto asco de grande parte da classe jornalística deste país. a minha vontade era tratar o assunto à paulada.
Eu pensei naquela família, talvez pela minha amiga, é verdade, mas talvez por mim. E senti-me triste, revoltada a impotente.
Querida desculpa, não consegui corre-los à paulada, mas pensei em ti.
um beijo

sexta-feira, março 24, 2006

Quanto pode custar uma fotocópia?

Ele há coisas....que só escritas, porque contadas ninguém acredita.
Sabem quanto pode custar uma fotocópia? Pois eu digo: 15 euros!
Parece mentira mas não é.
Ontem fui numa das minhas sagas pela Administração Pública lusa. O que pretendia eu? Dar início ao meu processo de casamento. Processo esse que tinha sido aberto há um ano mas que, como todos sabem, não se concretizou. Lá fui, numa manhã cinzenta ao encontro da burocracia. Informaram-me que tinha de voltar a pedir toda a documentaçã que tinha pedido há um ano atrás. Essencialmente precisava de uma certidão de nascimento. E aqui começa o processo algo neurótico. Apesar de ter à sua frente uma cópia da dita certidão, a funcionária informou-me simpaticamente que tinha de me deslocar ao andar de baixo para pedir ma nova certidão. "Mas porquê, se ela está à sua frente?" perguntei. "Porque esta pertence a um processo que está arquivado" respndeu-me simpaticamente a senhora "Mas arquivado porquê se eu não casei?" contestei. "Isso diz a senhora, mas eu não tenho como provar que não casou em Odemira no ano passado" retorquiu com um sorriso malandro. "Mas se estou aqui novamente como é que casei?".
Fiquei baralhada, é verdade, mas lá fui ao andar de baixo pedir uma fotocópia da fotocópia. e quanto custou? É verdade, 15 euros! Eu paguei a uma entidade estatal 15 euros por uma fotocópia que voltei a entregar à mesma entidade estatal. Bonito não acham?

sábado, março 18, 2006

Olha a boca de leão

Se pensam que nunca vão fazer figuras ridículas, esperem até terem filhos.
Olhem para mim, por exemplo, aqui a exibir o puto.
Não está o máximo?

Desejos

Quero manhãs de sol, daquelas mornas, que ainda na cama nos deixam antever o dia quente que está lá fora.
Quero roupas leves e de cores quentes.
Quero peles morenas.
Quero o sabor das conchinhas e dos caracóis.
Quero que esta chuva pare.

quarta-feira, março 15, 2006

As minhas miúdas

São muitas, as minhas amigas. Bem, não muitas mas as suficientes. Mas as minhas miúdas são três. Todas muito diferentes entre si, todas muito singulares. Todas fundamentais para a minha sanidade mental. Mas, como todas as amigas, nós também nos zangamos, fazemos birras, amuamos, embirramos...
Houve uma fase que era quse sempre eu a chatear-me com a mais velha. Mais sábias, às vezes mais insuportável, com a mania que sabia tudo, que tinha vivido mais do que qualquer uma das restantes. A verdade é que ela é mesmo a mais velha e, por isso, mais vivida. Mas também é verdade que a antiguidade não é posto e que todas nós temos coisas para ensinar umas às outras.
Depois da doença fiquei, eu acho, mais calma. Deixou de me interessar tanto o confronto. Se ela acha que a parede é amarela, embora eu tenha a certeza que é verde, não há problema. Para ela é amarela e para mim verde. Vejo isso apenas como tonalidades de uma mesma cor.
Somos quatro miúdas muito diferentes, mas muito amigas e solidárias. Por isso, fico triste quando me parece que as coisas correm mal, quando vejo impaciências, quando parecemos menos amigas.
Que raio.
Gajas, por favor, tenham calma. Não se percam com pormenores, não ponham tudo em causa.
Tenho saudades dos nossos jantares de Verão. Das roupas coloridas, das sandálias, das conversas frescas e soltas.
Voltem.

segunda-feira, março 13, 2006

Porque é Primavera

a vida corre melhor,
os cheiros são mais agradáveis,
as pessoas mais simpáticas
e eu ando mais contente com a vida

sábado, março 11, 2006

365 DIAS

Para a maior parte das pessoas o 8 de Março é o Dia da Mulher, para outras é o Dia em que o Benfica cilindrou o Liverpool. Para mim, o 8 de Março é o dia que marca o resto da minha vida. Há, na minha cronologia pessoal, um Antes e um Depois de 8 de Março .
Na passada terça-feira, ao acordar, tentei olhar para a vida de uma forma positiva, com um espírito de comemoração. Um ano de nova vida. Com todas as tristezas, dores e condicionantes que ela me trouxe, mas uma nova vida, que me dá a oportunidade de celebrar o facto de continuar viva e feliz. Apesar de todos os precalços, estou aqui, carago!

sábado, fevereiro 18, 2006

Sweet 30!


Há momentos sublimes, em que nos sentimos especiais por estar a partilhar algo de único, singular. Foi assim que me senti na noite de 11 de Fevereiro, no Grande Auditório da Fundação Gulbenkian, durante o concerto de Cecília Bartoli.
Foi um momento único. Durou duas horas e meia, é certo, mas foi único, inegualável. Uma das experiências mais bonitas que vivi.
Não me lembro de forma melhor de entrar nos 30!

sábado, fevereiro 04, 2006

Pequena conquista

Depois de quase um mês a dormir numa cama sem grades, eis que o meu filhote aprendeu, finalmente, a sair da cama sozinho. Foi ontem. Depois de me ter chamado quatro vezes e não ter obtido resposta, deve ter achado que o melhor era agir. Oiço uns passitos apressados pelo corredor. "Oiá mamã". Era ele, meu gajito.
Deverei ficar contente com esta nova conquista? Tenho dúvidas

quinta-feira, fevereiro 02, 2006

Como odiar o Ikea

Eu não fui dormir para a porta da Ikea à espera de ser um dos primeiros clientes a pisar aquele chão sagrado e a receber um vale de 500 euros em compras. Mas confesso que fiz várias incursões aos arredores de Madrid para mobilar a minha casita com móveis com uma excelente relação qualidade/preço, e de design sueco. Sim, eu era uma fã daIkea e foi com júbilo que a recebi.
A organização sueca, o respeito pelo meio ambiente, o espaço pensado para as crianças, os móveis que pensam em todos os cantinhos de arrumação... sim, isso tudo.
Mas confesso que, na minha listinha pessoal, o Ikea passou rapidamente de bestial a besta. É que tanta organização, tanto pormenor, tantas regras, tanta intransigência, chega a meter nojo. Eu, que facilmente me passo com o desenrascanso e o facilitismo dos portugueses, ontem ia tendo um ataque cardíaco provocado pela chamado "síndrome da fila".
Passo a explicar
Fui à Ikea comprar material de escritório para a empresa onde trabalho.
Já tinha metade do trabalho avançado, pensava eu, porque tinha ido lá anteriormente e tinha anotado todos os corredores e secções onde se encontrava o bendito mobiliário.
Incidente 1: Estávamos nós no corredor 32 secção 14 à procura do tampo de secretária quando nos deparamos com um espaço em branco... Passa um funcionário. "Sabe se o tampo está esgotado? Não sei, vai ter que se dirigir ao balcão das informações e perguntar" Assim fiz. Cheguei lá e... fila. É que estava apenas um funcionário no dito balcão. Dez minutos depois sou informada que o tal tampo só chegaria dentro de três semanas. Comprámos o tampo de outra cor.
Incidente 2: Escolhemos quatro belas cadeiras giratórias mas, espanto nosso, não estão em nenhu dos fantásticos corredores. Era preciso voltar ao piso de cima, ir ter com o funcionário da área dos escritórios e fazer a reserva das 4 cadeiras. Assim fiz e, quando lá cheguei.... nova fila. Apenas uma empregada para registar todos os pedidos e responder a todas as dúvidas.
Incidente 3: Das seis cadeiras para a sala de reuniões só encontrámos 4. Passa novo empregado no corredor 30. "Por acaso não sabe se há mais cadeiras destas... Pois, vai ter que se dirigir ao balcão das informações". Aquele onde tinha demorado 15 minutos para uma yes or no answer? Desistimos e comprámos apenas 4 cadeiras
Incidente 4: Depois de mais de duas horas a carregar e procurar tralhas chegámos à caixa. "Muito boa tarde. Vamos precisar de factura. Ah, facturas são emitidas na caixa central". Como? Lá fui e, quando lá cheguei, esperava-me uma outra fila. Pequena, é verdade, o que me deixou com alguma esperança. Mas, só para me contrariar, houve uma avaria na impressora que cospia as facturas... ok, mais dez minutos de espera. Respiro fundo e pergunto pelo livro de reclamações. "Sim, temos, está no Apoio ao Cliente". Cheguei lá e, para além da fila, esperava-me um novo sistema: tirar uma senha. Desisti, faço o meu comentário aqui, neste blog, sentadinha e em minha casa.
Incidente 5: Transporte e montagem. É verdade, precisávamos destes serviços. Sim, fomos para a fila e tirámos a senha mas, lá chegados, fomos informados que teríamos que tirar a senha da "entrega de mercadoria" para podermos levantar as tais 4 cadeiras que não estavam disponíveis dentro da loja. "Mas porquê ir para aquela fila se as cadeiras são para vocês entregarem? Tem que ser assim. Política da empresa"
Chegada a nossa vez no transporte e montagem somos informados de algo surreal, o pagamento do transporte aumenta de acordo com o montante das compras. tudo bem, parece-me justo. Mas o montante da montagem também. "Desculpe? mas de todas as compras que vão transportar só têm que montar 4 secretárias e 4 cadeiras" Pois mas o montante total das compras é superior a 1200 euros, logo a montagem é de 120". Ok, então queremos só transporte. "Muito bem, é ali na fila ao lado" - Socorro!
Incidente 6: Chegados à fila ao lado e apesar de entregarmos a factura da compra, damos de caras com uma empregada que devia estar a concorrer ao Guiness de empregada mais lenta do universo e que volta aregistar um a um todos os itens comprados. No decorrer de tal operação verifica que há um suporte para panelas a menos. Dirigo-me à caixa e informo a menina que registou indevidamente 1 suporte. Resposta "Tem que ir ao andar de cima buscar um outro e passar aqui na caixa". "Mas não dá para pedir a alguém que vá lá buscar, uma vez que foi um erro seu?" Não, é a política da empresa". Mais 15 minutos e uma grande correria.
De volta à fila do transporte somos informado que, além do 89 euros do transporte temos que pagar mais 3,75 por uma caixa para guardar as peças soltas e mais 9 para as embalar e assim proteger de eventuais danos no transporte. "Ok, embale lá essa porcaria que eu já estou quase a ganhar raízes..."
Olhei para o relógi0. Quase 21h00. Tinhamos chegado às 18h00.
Fiquei a pensar que talvez a nossa desorganização não seja assim tão má e que a mania da organização levada ao extremo pode ser bem pior.
Moral da história: Tão cedo não me apnaham na IKEA, podem ter a certeza!

Quatro meses de descanso

Hoje foi dia de exames. entre análises, rx e ecografia, é difícil não ficar nervosa, não sentir a minha vida suspensa, à espera que alguém me olhe nos olhos e diga a frase mágica "está tudo bem".
Hoje fiquei descansada. Depois de alguns dias de ansiedade e angústia o tão esperado "está tudo bem" acabou mesmo por surgir.
Tudo tranquilo. Até daqui a 4 meses.

quarta-feira, janeiro 25, 2006

Obrigada Aníbal

As nossas vidas estão constantemente a ser marcadas por pequenos (ou grandes) incidentes da História. Eu, por exemplo, fui presenteada com um filho no dia 12 de Junho de 2004. Bonita data, claro está.Um belo dia para se ser mãe. Não fosse a mãe fanática de futebol e não fosse o dia o primeiro do Europeu de Futebol realizado em Portugal. Não bastasse isto para castigo divino, teve a pobre mãe como presente uma bela derrota da selecção das quinas frente aos palhaços da Grécia.
Pois bem, achava eu que a minha história recente já estava bem preenchida destes incidentes quando fui informada que, a haver segunda volta nas eleições presidenciais, ela seria no dia 12 de Fevereiro. Um dia como outro qualquer, dirão vocês. Mas, para mim, seria mais um daqueles incidentes, desta vez um dos grandes.
Que eu tenha que levar com o Aníbal e com a Maria nos próximos 10 anos.... ainda se admite. Mas o dia 12 de Fevereiro de 2006 é também o dia em que faço 30 anos e, convenhamos, já chega de coincidências. Quão mais manchada poderia ficar a minha história pessoal?
Por isso agradeço ao Aníbal por ter ganho à primeira.
E agradeço também a todos os palermas de memória curta que nele votaram e assim evitaram a minha vergonha suprema.

Carta de intenções dos 30

Quero ser uma pessoa mais optimista
mais bem disposta
mais contente com a vida
mas atenta à minha família e aos meus amigos
mais ponderada
mais realizada


quinta-feira, janeiro 12, 2006

Os saldos

Como qualquer gaja que se preze gosto de comprar o meu trapito, especialmente se tiver a ilusão de que fiz uma bela compra nos saldos.
Mas, ilusões à parte, os saldos podem ser um verdadeiro aborrecimento. Ou serei eu que estou a ficar velha? Confesso que começo a perder a paciência para senhoras que de finas só têm a aparência e quase se degladiam até à morte por uma peça de roupa (tal qual Samantha num dos episódios do Sexo e a Cidade) e por empregadas que, uma vez aberta a época em que os pobres vão às compras, (deve ser assim que pensam) acham que trabalham em Rodeo Drive e olham de cima para nós quando perguntamos se têm o tamanho mais pequeno da blusa preta.
Se isto nos livros não der resultado acho que me candidato a trabalhar na Mango...

segunda-feira, janeiro 09, 2006

Para a CG

Este texto é a resposta a um desafio.
Fui ver um espectáculo e desafiaram-me a escrever um texto sobre o que vi. Há muito que não o faço, amiga. Perdoa-me se te decepcionar. De qualquer forma, quero aqui deixar claro que vou escrever o que senti. Sem "responsabilidades" jornalísticas. Essas ficaram para trás. Não vou justificar excessivamente o que senti ou achei. Ficarei pelo plano pessoal e nesse tudo é permitido. Quem sabe este não será um exercício de libertação.
Seis corpos num espaço aparentemente normal. Um interior de uma casa. Qualquer coisa entre uma sala e uma cozinha. Um espaço do quotidiano facilmente identificável como tal. Seis corpos perdidos nele. Seis corpos que interagem com o espaço ao qual estão confinados de forma por vezes absurda, anormal. O que procuram? Num aparente caos (que o coreógrafo chama de desordem), estes seis interpretes vão desmontando o espaço onde habitam, vão desconstruindo a realidade com um conjunto de acções que, por vezes, roçam o paranóico.
Gostei das intenções que Giles Jobin enunciou no texto que acompanhava o programa deste "Steak House", mas não gostei assim tanto do resultado.
Se a arte é uma apropriação da vida, como gosto de pensar que é, houve momentos em que me revi, de alguma forma, naqueles gestos, naquela quase histeria de movimento, de desconstrução do meio ambiente. Gostei, sobretudo, do modo como todo o cenário é destruído e reconstruído e, posteriormente, objecto de apropriação.
Gostei também da forma como cada um dos intérpretes se esbatia no espaço, se tentava confundir com este.
Mas faltou-lhe qualquer coisa. Ou será muita coisa?
Não me emocionei. Não presenciei um momento sequer que me sentisse surpreendida e isso, para mim, é fundamental.
Algo que me acontece cada vez mais: ver coisas que já vi aqui e ali, por outros criadores e, por vezes, com mais consistência, mais fôlego.
Não sei o que achaste, amiga. Mas também não me pareceste particularmente entusiasmada.
Diz-me

Beijos

quarta-feira, janeiro 04, 2006

A inevitabilidade da morte

Hoje fui a um funeral.
Não se pode dizer que a pessoa em causa fosse um amigo. Foi apenas o meu primeiro director, o meu primeiro chefe enquanto jornalista. Já lá vão alguns anos. E foi-o durante pouco tempo, pouco mais de seis meses. No entanto, a sua morte marcou-me profundamente. Talvez porque sempre foi uma pessoa que me tratou com bastante dignidade. Perto dele nunca me senti menor pelo facto de ser uma estagiária. Talvez porque ele tenha morrido com cancro, essa doença que tem convivido comigo tão de perto. Hoje, enquanto estava naquela capela a assistir à missa, senti-me a tremer, como se o chão me estivesse a fugir debaixo dos pés. E dei comigo a pensar que daqui a pouco tempo poderia ser eu a estar no lugar dele. Bem sei que este tipo de pensamentos não ajudam nada, mas foi inevitável. Por mais que eu tente afastá-la de mim, a morte ronda-me, de forma mais ou menos intensa.

terça-feira, janeiro 03, 2006

Ano Novo

Com o fim de 2005 apetece-me fazer um pequeno balanço . Parafraseando essa grande figura da política portuguesa que é o Dr. Soares, "foi feio, não foi bonito". Mas deu para ver que estou mais acompanhada do que pensava. Para além do marido, do filho, dos pais, irmão e cunhada, descobri que os meus amigos são mesmo os melhores do mundo. A vocês, que estiveram tão perto de mim, OBRIGADA. De coração. Um abracinho especial para a menina que de azedo só tem o nome. És a maior

terça-feira, dezembro 20, 2005

Atrás do Natal

O Natal está à porta. Já anda tudo nas lojas numa correria histérica atrás das últimas prendas, daquele livro, do brinquedo que esgotou, das gambas, do queijo, do bacalhau. Enfim... o mundo anda louco atrás daquela coisinha que ainda falta.
Eu adoro o Natal e quem me conhece sabe disso. Mas gosto de o saborear lentamente. De começar as minhas compras com antecedência, de pensar no que vou comprar e para quem. Gosto do ritual de comprar a árvore de Natal, de enfeitar a casa, de receber os amigos, de cozinhar para eles, de estar com a minha família.
Este ano o meu Natal está a ser muito diferente dos anteriores. Também eu ando a correr como aqueles que vejo nos centros comerciais. Não ando atrás das prendas mas atrás da minha vida. Corro para estar onde devo, para ver o meu pai, para ir com o filhote ao médico... Natal atípico. Com muito poucos jantares e aqueles que faço acabo sempre por estar tão cansada que nem parece que estou a ter prazer em receber as pessoas.
O que me vale é a convicção de que este ano está quase a acabar e que o próximo só pode ser melhor.

sexta-feira, dezembro 16, 2005

Para o meu pai


Ontem fui ao cinema ver este filme. Elizabethtown.
Gosto de filmes assim: com histórias simples, mas bem feitos, bem interpretados, bem filmados. Sem grandes pretensões. Filmes que não querem mudar o mundo, que, certamente, não vão mudar a História do cinema mas, mesmo assim, filmes que me fazem rir e chorar, que me fazem pensar na vida e em como ela é perene.
Às vezes acho que fiquei mais lamechas para certo tipo de histórias e mais cabra insensível para outras, aquelas em que toda a gente chora. Gostei da capacidade de relativizar os dramas, de tentar encontrar qualquer coisa de bom em tudo o que acontece. Celebrar a vida, mesmo quando ela se mistura com a morte.
Ver este filme fez-me pensar que gostava de ter uma relação de "best friends" com o meu pai. De não ter esperar que ele morra para perceber isso. Por isso chorei. Porque o adoro, mas também porque sei que esse fosso geracional existe entre nós é impossível ultrapassar. Às tantas alguém no filme diz que não podemos ser o melhor amigo dos nossos filhos. Fiquei duplamente triste: percebi que isso é verdade na relação com o meu pai e fiquei com medo que isso venha a acontecer na relação com o meu filho. Agora que o meu pai está doente gostava que ele visse em mim mais do que uma filha. Uma companheira que percebe perfeitamente o que ele está a passar, uma confidente. Mas acho que isso é difícil. Embora perceba que ele se esforça para estar perto de mim, há barreiras que estão construídas há muito tempo. Na cabeça dele o pai não é o amigo, não é, sobretudo, aquele que precisa de conforto. É o que dá. Também fiquei a pensar que, mais que tente contrariar essa tendência, de certeza que vai haver uma altura na vida em que o meu filho vai sentir o mesmo. Que eu não sou a amiga, sou a que impõe regras, limites... barreiras. E daí? Talvez seja essa a natureza de ser pai.

quarta-feira, dezembro 14, 2005

Na sombra



Quando me tiraram esta foto estava no Brasil, de férias. Foram uns dias fantásticos, com muita cor, sol e boa disposição.
A primeira vez que vi esta foto, ela não fazia muito sentido: as férias tinham sido tão boas, a sombra estava a mais. Mas hoje sinto-me assim, uma sombra de mim mesma. quando acho que nada pode piorar que, de alguma forma, vou sair por cima e dar a volta a esta filha da putice pegada que tem sido 2005, acontece algo mais.

quinta-feira, novembro 17, 2005

A importância do prefixo sobre

Há poucos meses tive o privilégio de conhecer uma pessoa fabulosa. Um escritor e jornalista que veio a Portugal promover um livro. Com ele aprendi muitas coisas. O nosso encontro foi uma verdadeira troca de experiências, de confidências, de medos e esperanças. Tal como eu, também ele tinha tido cancro. Foi, aliás, através do seu livro que primeiro tive contacto com a sua doença e com a forma como tinha lidado com ela. Desde logo a minha admiração foi enorme e, na altura, como ainda hoje, revi-me em muitos dos seus comentários. Mais tarde, quando o conheci, tudo o que pensava a seu respeito confirmou-se e hoje olho para ele não como um escritor famoso, mas como um amigo, um companheiro.
Esta manhã voltei a lembrar-me do Zuenir (assim se chama) porque me veio à cabeça uma ideia que desenvolveu no seu livro e que se encaixa perfeitamente na minha vida.
A paginas tantas, no livro, ele fala que, depois de lhe ter sido diagnosticado o cancro, os médicos passaram a falar-lhe em sobrevida. "A taxa de sobrevida isto, a taxa de sobrevida aquilo". Trata-se de uma designação médica, mas a nós, que estamos doentes, o prefixo "sobre" soa, no mínimo, muito mal. Não só estamos doentes como passamos a ter uma sobrevida. Assim como se o nosso direito a viver tivesse acabado e tudo o que nos restasse devesse ser encarado como uma ajudinha, uma borla da medicina.

domingo, outubro 09, 2005

É o fim da picada

São quase quatro da tarde de domingo, 9 de Outubro dia de eleições. A coisa está tão NEGRA aqui para as bandas de Lisboa que nem o tempo ajudou. Tudo puxa para que fiquemos em casa frente ao sofá a borregar em vez de exercermos o nosso suposto dever de cidadãos eleitores e responsáveis.
Que não se fique a pensar que não fui votar. Já fui. Mas a escolha era entre o mau e o pior...
Talvez devesse ter ficado no conforto do lar a brincar com o meu filhote em vez de me forçar a decidir entre a arrogância cosmopolita do Carrilho e a estupidez natural do Carmona.
Se ao menos a Bárbara fosse candidata.... sempre podia votar nela por andar bem vestida e dar beijinhos a todas as feirantes desta cidade.

sábado, outubro 08, 2005

terça-feira, outubro 04, 2005

Medos

Ver estapado nos olhos dos outros o medo que pensamos que só existir nos nossos é ago de estranho, triste e reconfortante. Estranho porque parece que nos estamos a ver reflectidos no outro e ver, com maior rigor, certas atitudes e comportamentos. Triste porque quem sente este medo, esta angústia que tolhe e nos deixa sem capacidade de resposta, deseja, no seu íntimo, que mais ninguém passe pelo mesmo. Reconfortante porque, se uma parte da nossa existência quer que este medo não seja partilhado com mais ninguém, há uma outra que se sente reconfortada, amparada na dor ao saber que não estamos sós.
Hoje fui ao médico. Consulta de rotina, uma das muitas que me esperam nos próximos anos. Aquele é um ambiente que já me é familiar. Acho mesmo que seria capaz de lá chegar de olhos fechados, percorrer aqueles corredores sem precisar de os olhar. Os cheiros, os sons... já estão cravados em mim.
Sentei-me. Vislumbrei algumas caras familares. Companheiros da dor. Cada um com a sua história, cada um com o seu medo. Entre sorrisos e palavras de conforto ficou um sentimento estranho, um mal estar generalizado que me percorreu o corpo e que ainda agora sinto.
No fundo, acho que desejo não pertencer aquela realidade. Estou ali mas não estou. Não ouso pertencer aquele grupo de pessoas que aprendeu a viver com uma doença tão grave. Não ouso ou não quero? Parte de mim recusa-se a pensar assim, daquela forma. Não quero que o cancro seja parte integrante de mim. Desejo apenas que seja uma passagem, um momento menos bom da minha vida. Estar ali sentada com aquelas pessoas faz-me duvidar desse estado transitório... tudo parece mais definitivo. O conformismo que vi estampado não o quero para mim.
Mas, ao mesmo tempo, não posso deixar de admirar pessoas que há vários anos lidam com a doença e, mesmo assim, prosseguem a sua vida com a maior normalidade possível.

domingo, outubro 02, 2005

Dávida

Há certos acontecimentos que nos fazem pensar na vida de uma nova perspectiva. De há uns meses a esta parte a morte tem-me acompanhado, pelo menos mais de perto do que seria suposto a uma pessoa da minha idade. Estar doente, lidar diariamente com uma realidade que nos aproxima do fim da vida não é agradável. Mesmo que essa aproximação não tenha necessariamente que se traduzir em realidade. No entanto, só o facto dela, da palavra, passar a fazer parte do nosso vocabulário de uma outra forma, faz com que a sintamos mais presente no nosso dia-a-dia. Volta e meia, mesmo nos momentos de melhor disposição ou de maior alegria, dou comigo a pensar como será se morrer daqui a um ou dois anos e na injustiça dessa ameaça que paira sobre a minha cabeça.
Estes pensamentos não são muito agradáveis mas eu tenho-os e, por vezes, é necessário algo de mais estraordinário acontecer para ter a noção de como tudo é relativo, de como estar doente não é uma sentença de morte e mais, como pessoas que, aparentemente, não tem nada que lhes limite a esperança de vida, se encontram com a morte. Foi o que aconteceu ontem. No regresso de uma festa deparei-me com um acidente de viação. Ali, bem à minha frente estava um corpo inanimado. Provavelmente morto. Um homem de capacete estava deitado no chão ao lado de uma enorme poça de sangue. Parecia morto. Parecia jovem. Pensei imediatamente em quem seria, quais seriam os seus sonhos, quem seria a sua família. E aí percebi o choque, o horror. O encontro com a morte não estava marcado mas, mesmo assim, aconteceu. Aquele rapaz ali deitado à minha frente, provavelmente não teve tempo para se despedir da vida. Não pôde fazer nada para contrariar a sua "sentença". Ela chegou e isso bastou. O ditado diz que a infelicidade dos outros não faz a minha felicidade mas, a verdade, é que nesse momento percebi a minha sorte. A mim foi-me dada a oportunidade de lutar pela vida, de me agarrar a ela com unhas e dentes. De mostrar o quanto estou empenhada em viver. E ali, naquele momento que não durou mais que três ou quatro segundos, senti-me feliz por essa oportunidade e dei-me conta da fragilidade que envolve a nossa existência. Tudo pode depender de uma fracção de segundo, de um instante.
Esta tarde, quando tive nas minhas mãos uma pequenita vida, voltei a pensar sobre o rapaz de ontem. Ter um bebé nos braços, ver toda aquela fragilidade mas, em simultâneo, toda aquela vitalidade e alegria ajuda a perceber como a vida é realmente uma dávida, algo a preservar.

quinta-feira, setembro 29, 2005

O cutelo

Ao criar este espaço assumi perante mim mesma o compromisso de ser honesta, de escrever sobre o que sinto, de, pelo menos, tentar dizer o que me vai na alma. E acreditem que é muita coisa. Por vezes parece que estou fora do meu corpo, como uma mera espectadora, a ver a velocidade a que as coisas acontecem e se passam comigo.
Acho que é raro fazer-se um balanço de vida antes dos 50. No entanto, aos 29 já muitas vezes olhei para trás. Talvez pelo terror de perder o que tenho: os meus amores, a minha família, os meus amigos...
Sou uma pessoa feliz. Tenho do meu lado o homem que escolhi (e melhor não podia ser); tenho o filho mais maravilhoso do mundo; os pais e irmão que qualquer um poderia desejar e os amigos mais extraordinários e generosos que alguém pode sonhar ter.
E no entanto, há momentos em que nada disto me vale, em que sinto um buraco imenso e escuro abrir-se bem à frente dos meus pés e onde posso cair a qualquer momento. A luta que travo é injusta e não tem um final conhecido. Por mais que lute, por mais que me empenhe, não sei se vou sair vencedora.
Quando fecho os olhos e tento passar em resumo os últimos seis meses da minha vida tenho alguma dificuldade em acreditar em tudo o que aconteceu.
Antes de ser operada o cirurgião que me seguiu disse-me que o pior ainda estava para vir. Que só depois da operação e dos tratamentos é que iria sentir "o cutelo sobre a cabeça". Há dias em que esqueço que estou doente. Aqueles dias em que o sorriso do Henrique basta para me iluminar. Mas há outros dias em que sinto o cutelo a roçar-me os cabelos, pronto a cair sem dó nem piedade. É contra esses dias cinzentos, que me tolhem o corpo e a alma, que luto quase tanto como luto contra a doença.

É verdade: rendi-me!

Sempre pensei que seria daquelas pessoas que nunca se rendem ao blog. E estava a ser bem sucedida. Foram muito raras as vezes que entrei em blogues de amigos, nunca pesquisei informação em blogues de desconhecidos... e até me irritava ligeiramente com a febre em torno deles e com a tese da sua eficiência democrática.
Tudo parecia estar bem encaminhado até hoje, dia 29 de Setembro quando, seguindo a sugestão de uma amiga, resolvi ler o texto que um amigo comum tinha escrito a propósito do nascimento do seu filhote. Pois é Vitor, tu és o verdadeiro responsável por esta mudança de comportamento.
Ler o texto que o Vitor escreveu sobre o Miguel mexeu comigo. De tal como que não consegui conter as lágrimas. Estava ali grande parte do que eu própria tinha sentido quando o meu filhote nasceu. Ainda por cima escrito por alguém que não eu. Então pensei que, se calhar, estava na altura de passar para a escrita algumas das emoções que me têm acompanhado nestes últimos meses.
A ti, Vitor, obrigada.
Obrigada também à melhor amiga do mundo que me ajudou a criar este espaço.